			TTULO: A Casa da Floresta
 AUTOR: BRADLEY, Marion Zimmer
 GNERO: Romance
CLASSIFICAO: Literatura Norte-americana  Sculo XX - Fico
EDITORA:DIFEL Difuso Editorial, S. A
6 Edio
Algs, 1999 
COLECO: Autores Estrangeiros
DIGITALIZADO E CORRIGIDO POR:
 Aventino de Jesus Teixeira Gonalves
Junho a Setembro de 2001
Tanto quanto consigo saber esta  a primeira parte de uma srie assim constituda:
1. A Casa da Floresta
2. A Senhora de Avalon
3.  As Brumas de Avalon
3.1. A Senhora da Magia
3.2. A Rainha Suprema
3.3. O Rei Veado
3.4. O Prisioneiro da rvore


 






MARION ZIMMER BRADLEY

A CASA DA FLORESTA

Traduo de

ANTNIO DE S AMARAL

6. a Edio

 DIFEL
Difuso Editorial, S. A.

Ttulo  original: The Forest House (? 1993, Marion Zimmer Bradley

Publicado por acordo com BAROR INTERNATIONAL, INC, Bedord Hili, New York, U.S.A., em associao com covil Cliickak Liteiaiy Agency

Todos os direitos de publicao desta obra em lngua portuguesa, excepto Brasil, reservados por:
 DIFEL Difuso iditorial,SA



Denominao Social Sede Social

Capital social Contribuinte n.  Matrcula n.. 8680

DIFEL, 82 - Difuso Editorial, S. A. Avenida das Tlipas, n40-C Miraflores

1495-195 Algs - Portugal Telefs.: 4120848 - 4120849 Fax: 4120850

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6O 00O 000$00O (sessenta milhes de escudos)
501 378 537

Conservatria do Registo Comercial de Oeiras

Capa: Clementina Cabral
Seleco de cores: Regrafi Reviso tipogrfica: Pedro Durado Fotocomposio: Grafitexio, Lisboa

Impresso e acabamento: Tipografia Guerra     Viseu, 1999 Depsito Legal n.134 949/99

ISBN 972-29-0297-O / Maro 1999

Proibida a reproduo total ou parcial sem] a prvia autorizao do Editor

Para a minha me, Evelyn Conklin Zimmer, que tem suportado o meu trabalho no livro 
durante a maior parte da minha vida de adulta.

Para Diana Paxton, minha irm e amiga, que firmemente ancorou este livro no tempo e no espao e juntou Tacitus ao elenco dos personagens.

NOTA DO AUTOR

Aqueles que esto familiarizados com a pera de Bellini Norma reconhecero as 
origens desta histria. Em homenagem a Bellini, os hinos nos captulos Cinco e Vinte e 
Dois so adaptados do libreto do Acto 1, Cena 1, e os do Captulo Trinta, do Acto 11, 
Cena 11. Os hinos a Lua nos captulos Dezassete e Vinte e Quatro so retirados da 
Carmina Gadelica, uma recolha de oraes tradicionais dos Highlands; (regio 
montanhosa da Esccia) efectuada nos finais do sculo XIX pelo reverendo Alexander 
Carmichael.

PERSONAGENS

personagem histrica

morto antes de histria comear ROMANOS

Gaius Macellius Severus Siluricus (chamado Gaius, de nome nativo Gawen), um jovem 
oficial, nascido de me inglesa,

Gaius Macellius Severus, snior (chamado Macellius), pai de Gaius, Prefectus 
Castrorum da 11 Legio Adiutrix em Deva, diviso equestre.

(Moruadh, Mulher Real dos Slures, me de Gaius). Manlius, mdico em Deva,

Capellus, ordenana de Macellius. Philo, escravo grego de Gaius. Valerius, secretrio de 
Macellius.

Valeria (mais tarde chamada Senara), sobrinha de Valerius, meia bret.

Martius Julius Licinius, Procurador (funcionrio financeiro) da Bretanha,

Julia Licinia, sua filha. Charis, a sua criada grega. Lydia, ama dos seus filhos.

Licinius Corax, primo do Procurador, em Roma, Marcellus Clodius Malleus, senador, 
protector de Gaius.

Lucius Domtius Brutus, comandante da XX Legio Valeria Victrix, depois da sua 
mudana para Deva.

Padre Petros, um eremita cristo.

Flavius Macro Longus - dois legionrios que tentaram assaltar a Casa da Floresta.

(Gaius Julius Caesar, o deificado Jlio, que iniciou a conquista da Bretanha).

(Suetonius Paulinus, governador da Bretanha durante a rebelio de Boudicca).

(Vespasiano, Imperador, 69-79 AD).

(Quintus Petililus Cerealis, Governador da Bretanha, 71-4 AD.). (Sextus Julius Prontinus, 
Governador da Bretanha, 74-7 AD.).

PERSONAGENS,

* Gnaeus Julius Agricola, Governador da Bretanha, 78-84 AD.
* Gaius Cornelius Tacitus, genro e ajudante do anterior, um historiador.

*   Sallustus Lucullus, governador da Bretanha depois de Agricola,
*   Titus Flavius Vespasanus, Imperador Tito, 79-81 AD.

*   Titus Flavius Domitianus, Imperador Domiciano, 81-96 AD.
*   Herennius Senecio, um senador.

*   Flavius Clemens, um primo de Domiciano, BRETOS

Bendeigid, um druida que vivia perto de Vernemeton. Rheis, filha de Ardanos e mulher 
de Bendeigid.

Mairi, a sua filha mais velha, mulher de Rhodr. Vran, o seu jovem filho.

Eilan, a sua filha do meio, Senara, a sua filha mais nova. Gawen, filho de Eilan e de 
Gaius. Cynric, filho adoptivo de Bendeigid. Ardanos, Arquidruida da Bretanha. Dieda, 
sua jovem filha,

Clotinus Albus (Caradac), um breto romanizado, Gwena, a sua filha.

Red Rian, um bandido irlands.

Hadron, um dos Ravens, pai de Valeria (mais tarde chamada Senara).
*   (Boudicca, A Rainha Assassina, rainha dos Iceni, lder da revolta em 61 AD).

*   (Caractacus, um lder da rebelio).

*   (Cartimandua, rainha dos Brigantes, que traiu Caractacus aos Romanos).

*   Calgacus, chefe caledno que chefiou as tribos em Mons Graupius,

PESSOAS NA CASA DA FLORESTA

Lhiannon, Sacerdotisa do Orculo, Gr Sacerdotisa de Vernemeton (a Casa da Floresta).

Huw, o seu guarda-costas.

(Helve, Gr Sacerdotisa antes de Lhiannon).

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PERSONAGENS

Caillean, uma antiga sacerdotisa que auxiliava Lhiannon. Latis, a senhora das ervas.

Celimon, instrutor de rituais. Eilidh.

Miellyn, Tanais    amigas de Eilan. 

Rhian - entraram em Vernemeton depois de Eilan se tornar Gr Sacerdotisa.

Annis, uma velha mulher surda que serve Eilan durante a sua gravidez.

Lia, ama do filho de Eilan, Gawen.

DIVINDADES

Tanarus, deus do Raio, britnico, equiparado a jpiter. O-Dos-Chifres (ou Chifrudo), 
deus arqutipo dos animais e flores-

tas, com muitas variaes locais.

Don, mtica me dos deuses e, por extenso, do povo britnico. Cathubodva, Senhora 
dos Ravens, deusa da Guerra similar a Morrigan.

Arianhrod, Senhora da Roda de Prata, deusa virgem associada  magia, ao mar e  Lua.

Ceres, deusa romana do Gro, agricultura. Vnus, deusa romana do Amor.

Marte, deus romano da Guerra. Bona Dea, a Boa Deusa.

Vesta, deusa do lar domstico sagrada de Roma, servido por virgens. Mithras, um deus-
heri persa, adorado pelos soldados.

Jpiter, rei dos deuses.

Juno, rainha dos deuses, sua mulher, patrona do casamento. sis, uma deusa egpcia 
adorada em Roma como protectora            do comrcio no mar.

LOCAIS

Britannia Superior - Inglaterra do Sul Mona - a ilha de Anglesey.

Segontium - um forte perto de Caernarvon.

Vernemeton (o bosque mais sagrado) - a Casa da Floresta. Colina das Donzelas - 
Maiden Castle, em Bickerton.

PERSONAGENS.                           13

Deva - Chester.

Glevum - Gloucester.

Viroconium Cornoviiarum - Wroxeter. Venta Silurum - Caerwent.

Isca Silurum - Caerleon. Acquae Sulis - Bath. Tor - Glastonbury.

O Pas do Vero - Somerset. Isca Dumnoniorum - Exeter. Lindum - LincoIn. 
Londinium - Londres.

Brittania Inferior - Norte de Inglaterra
 Eburacum - York.

Luguvalium - Carlisle.

Calednia - Esccia

Bodotria estuary - Firth of Forth. 

Firth do Tava - rio Tay.

Sabrina Firth  SoIway .

 Trimontium - Newstead. 

Pinnata Castra - Inchtuthil.

Mons Graupius - localizao incerta, talvez cerca de Inverness.

Hibernia - Esccia

Temair - Tara.

Drium Cliadh - Kildare.

Germania Inferior - zona superior do Oeste da Alemanha
 Colonia Agrippensis - Colnia.

Rhenus - o rio Reno.

PRLOGO

Um vento frio aoitava as chamas dos archotes, transformando-as em chamejantes 
caudas de cometas. Uma luz ameaadora brilhava nas escuras guas do estreito e nos 
escudos dos legionrios que aguardavam na outra margem. A sacerdotisa tossiu com o 
cheiro desagradvel de fumo e nevoeiro maritimo e escutou o clangor de latim militar 
que ecoava atravs das guas enquanto o comandante romano arengava aos seus 
homens. Os druidas cantaram em resposta, invocando a fria dos cus e o barulho fez 
estremecer o ar.

Vozes de mulheres levantaram-se em guinchos de lamentao que a arrepiaram, ou 
talvez fosse do medo. Ela ondulou com as outras sacerdotisas, os braos levantados 
numa maldio; as suas roupas escuras abriam-se, esvoaando como as asas de um 
corvo.

Mas os romanos tambm gritavam e a primeira fileira estava agora a lanar-se para a 
gua. A harpa de guerra do druida vibrou com uma msica terrvel e a sua garganta 
ficou em carne viva com os gritos, mas, mesmo assim, o inimigo continuou a avanar.

O primeiro soldado de capote vermelho pisou na praia da Ilha Sagrada e os Deuses no 
o fulminaram. Nesse instante, o canto vacilou. Um sacerdote puxou a sacerdotisa para 
trs de si quando o ao romano brilhou  luz do archote; a espada caiu e sangue borrifou 
o seu manto escuro.

O ritmo do canto tinha-se perdido. Nesta altura apenas se ouviam gritos, e ela fugiu para 
as rvores. Atrs dela, os romanos ceifavam os druidas como tordos. Acabaram, rpido 
de mais, e a mar vermelha invadiu a ilha.

A sacerdotisa cambaleou pelo meio das rvores,  procura dos crculos sagrados. Um 
brilho alaranjado enchia o cu por cima da

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MARION ZIMMER BRADLEY

Casa das Mulheres. As pedras assomavam  sua frente, mas atrs dela ouviam-se gritos. 
Vendo-se sem possibilidade de escapar, abraou-se  pedra central do altar. Agora, era 
certo que a matariam... Evocou a Deusa, e endireitou-se,  espera do golpe.

Mas no eram armas de ao que eles faziam teno de usar contra ela. Lutou quando 
rudes mos lhe agarraram o corpo, rasgando as suas roupas. Foraram-na a deitar-se na 
pedra e o primeiro homem abateu-se sobre ela. No havia fuga possvel; apenas podia 
usar as disciplinas sagradas para fazer com que a sua mente se retirasse deste corpo at 
que tivessem acabado. Mas, enquanto a sua conscincia se evolava, gritou: Senhora 
dos Ravens, vingai-me! Vingana!

- Vingana... - O meu prprio grito acordou-me e sentei-me, de olhos arregalados. 
Como sempre, levei alguns minutos a compreender que era apenas um sonho, e nem 
mesmo sobre mim, visto eu ser apenas uma criana quando as legies assassinaram os 
sacerdotes e violaram as mulheres da Ilha Sagrada; uma indesejada criana-mulher 
chamada Caillean, a salvo em Hibernia, do outro lado do mar. Mas, desde que ouvi a 
histria pela primeira vez, pouco depois de a Sacerdotisa do Orculo me ter trazido para 
esta terra, os espritos dessas mulheres tm-me perseguido.

A cortina na minha porta agitou-se e uma das donzelas que me servia olhou para dentro.

- Estais bem, minha senhora? Posso ajudar-vos a vestir? j so quase horas de saudar o 
nascer do Sol.

Acenei com a cabea em concordncia, sentindo o suor frio a secar-me na fronte, e 
deixei que ela me ajudasse a vestir um vestido lavado e a colocar os ornamentos de uma 
Gr Sacerdotisa no peito e na testa. Depois, segui-a para fora, at ao cume de outra ilha, 
uma verde Tor, que se erguia da mistura de pntano e campina a que os homens 
chamam o Mar do Vero. De baixo vinha o som do canto das virgens que guardavam o 
poo sagrado, e do vale mais distante, o do sino que chama os eremitas  orao, na 
pequena igreja em forma de colmeia situada ao lado do espinheiro branco,

Eles no eram as primeiras pessoas a buscar santurio nesta ilha no fim do mundo, para 
l dos estreitos mares, nem, suponho,

A CASA DA FLORESTA

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sero os ltimos. Tantos anos j se passaram desde a morte da Ilha Sagrada e, embora 
vozes antigas ainda se ergam nos meus sonhos clamando por vingana, uma sabedoria 
duramente obtida diz-me que, desde que o conhecimento antigo no se perca, a mistura 
dos sangues fortalece uma raa.

Mas at hoje ainda no encontrei nada de bom, nem nos Romanos nem nos seus 
costumes.  por isto que, mesmo por Eilan, que me era mais querida que uma filha, 
nunca pude confiar em nenhum romano, nem mesmo em Gaius, que ela amava.

Mas, aqui, nenhum rudo de sandlias ferradas de legionrio em estradas pavimentadas 
de pedra nos perturba, j que lancei um vu de nevoeiro e mistrio para manter afastado 
o rectilneo mundo romano.

Hoje, talvez eu conte s donzelas a histria de como aqui chegmos, j que entre a 
destruio da Casa das Mulheres, na ilha de Mona, e o regresso das sacerdotisas  ilha 
das Mas, as mulheres dos druidas viveram em Vernemeton, a Casa da Floresta, e esta 
histria no deve ser esquecida.

Foi a que aprendi os Mistrios da Deusa e, por minha vez, os ensinei a Eilan, filha de 
Rheis, que se tornou na maior Gr Sacerdotisa e, di-lo-o alguns, na maior traidora de 
todas ao seu povo. Mas, atravs de Eilan, o sangue do drago e o da guia misturaram-
se com o sangue dos sbios, e, na hora de maior necessidade, essa linhagem vir sempre 
em ajuda da Bretanha.

No mercado, os homens dizem que Eilan foi vtima dos romanos, mas eu no sou 
estpida a esse ponto. No seu tempo, a Casa da Floresta preservou os Mistrios, e os 
Deuses no exigem que todos sejamos conquistadores, ou mesmo que todos sejamos 
sbios, mas apenas que sirvamos a verdade que nos  dada at que por nossa vez a 
possamos transmitir.

As minhas sacerdotisas esto a juntar-se  minha volta, cantando. Levanto as mos, e, 
quando os raios do Sol comeam a trespassar a neblina, abenoo a terra.

Um momento de silncio e Caillean continuou: - No me lembro nem da minha me!

um

Raios de luz dourada brilhavam atravs dos ramos das rvores  medida que o Sol 
poente descia abaixo das nuvens, delineando em ouro cada uma das folhas recm-
lavadas. O cabelo das duas raparigas que seguiam pelo caminho da floresta brilhava 
com o mesmo plido fogo. Estivera a chover, durante esse dia. A espessa, escura 
floresta, que ainda cobria muito do Sul da Bretanha, estava ligeiramente hmida e 
adormecida, e alguns ramos baixos ainda deixavam cair algumas gotas dispersas, tal 
como numa bno, sobre o caminho.

Eilan respirou profundamente o ar hmido, pesado, com todos os vivos aromas dos 
bosques e doce como incenso depois da fumarenta atmosfera da casa do seu pai. Na 
Casa da Floresta, tinham-lhe dito, usavam ervas sagradas para purificar o ar. 
Instintivamente, endireitou-se, tentando andar como uma das sacerdotisas que a viviam, 
levantando o cesto das oferendas na sua melhor imitao da graa harmoniosa delas. Por 
um instante, ento, o seu corpo moveu-se com um ritmo ao mesmo tempo pouco 
familiar e completamente natural, como se tivesse sido treinada para o fazer nalgum 
passado distante.

S quando o perodo lhe apareceu pela primeira vez  que foi autorizada a trazer as 
oferendas  Primavera. Tal como o seu ciclo mensal fez dela uma mulher, disse-lhe a 
me, assim tambm as guas da nascente sagrada eram a fertilidade da terra. Mas os 
rituais da Casa da Floresta serviam o seu esprito, fazendo com que a prpria Deusa 
descesse quando da lua cheia. A Lua tinha estado cheia na noite anterior e, antes que a 
me a mandasse entrar em casa, Eilan tinha-se deixado ficar a olh-la durante muito 
tempo, cheia de uma expectativa que no conseguia definir.

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MARION ZIMMER BRADLEY

Talvez a Sacerdotisa do Orculo me reclame para a Deusa durante o festival de 
Beltane. Fechando os olhos, Eilan tentou imaginar os hbitos azuis de uma sacerdotisa a 
arrastar-se atrs de si e o vu sombreando-lhe de mistrio as feies.

- Eilan, o que ests a fazer? - o choque da voz de Dieda assustou-a, fazendo-a voltar  
realidade e tropear na raiz de uma rvore, quase deixando cair o cesto. - Ests a 
arrastar-te como uma vaca coxa! Se no acabarmos cedo j estar escuro antes de 
voltarmos para casa.

Recuperando, Eilan correu atrs da outra rapariga, corando furiosamente. Mas j 
conseguia ouvir o suave murmrio da nascente. Pouco depois, o caminho comeou a 
descer bruscamente, e ela seguiu Dieda at  fenda de onde as guas pingavam 
vagarosamente, do meio de duas rochas, at carem no lago. Numa era muito distante, 
homens tinham colocado algumas pedras  sua volta; ao longo dos anos a gua tinha 
polido os seus espiralados entalhes. Mas a aveleira, a descendente de muitas rvores que 
a tinham nascido, a cujos ramos as pessoas atavam os suas fitas de desejos, era recente.

Colocaram-se perto do lago e estenderam uma toalha para as oferendas; bolos 
primorosamente confeccionados, um frasco de hidromel e algumas moedas de prata. 
No era mais que uma pequena lagoa, onde a deusa menor desta floresta tinha habitado, 
no um dos lagos sagrados onde exrcitos inteiros sacrificaram os tesouros que tinham 
ganho; mas, ao longo de muitos anos, as mulheres da sua linhagem tinham-lhe trazido 
as suas oferendas, todos os meses depois da altura do seu perodo, de modo a que o lao 
com a Deusa pudesse ser renovado.

Tremendo um pouco no ar frio, despiram os vestidos e inclinaram-se para o lago.

- Lago sagrado, sois o tero da Deusa. Tal como as vossas guas so a origem de toda a 
vida, assim eu possa trazer nova vida para este mundo... - Eilan tirou um pouco de gua 
com as mos em concha e deixou-a escorrer lentamente pelo ventre e entre as coxas.

- Lago sagrado, as vossas guas so o leite da Deusa. Tal como vs alimentais o mundo, 
permiti que eu alimente aqueles que amo... - os seus mamilos formigaram quando a 
gua fria os tocou.

A CASA DA FLORESTA

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- Lago sagrado, sois o esprito da Deusa. Tal como as vossas guas jorram das 
profundezas para todo o sempre, dai-me o poder de renovar o mundo... - tremeu quando 
a gua lhe molhou a testa.

Eilan olhou fixamente para a superficie sombreada, vendo o plido brilho do seu reflexo 
tomando forma  medida que as guas voltavam a acalmar-se. Mas, enquanto olhava 
para a gua, o rosto que olhava de volta para ela mudou, Viu uma mulher mais velha, 
com uma pele ainda mais plida e sombrio cabelo encaracolado, no qual luminosos 
pontos avermelhados cintilavam quais clares de fogo, embora os olhos fossem os 
mesmos.

- Eilan!

Quando Dieda falou Eilan pestanejou e o rosto que da gua olhava para ela tomou-se 
outra vez no seu. A sua parenta tiritava e, repentinamente, Eilan tambm sentiu frio. 
Apressadamente, vestiram as suas roupas. Depois, Dieda estendeu o brao para apanhar  
o  cesto dos bolos e a sua voz elevou-se, rica e exacta, na cano.

Senhora da Nascente Sagrada, Para vs trago estas oferendas;

Pela vida, pela sorte e pelo amor eu oro, Deusa, aceitai estas oferendas hoje.

Na Casa da Floresta, pensou Eilan, teria havido um coro de sacerdotisas para cantar a 
cano. A sua prpria voz, fina e um pouco vacilante, combinava-se com a de Dieda 
numa harmonia singularmente agradvel.

Abenoai agora a floresta e os campos, Que a sua generosidade a ns se submeta; 
Possam parente e parenta ser robustos e sadios, Protegei o corpo e a alma!

Eilan deitou hidromel do frasco para a gua enquanto Dieda desfazia os bolos e os 
atirava para dentro do lago. A corrente arrastou-os num torvelinho e, por um momento, 
pareceu a Eilan que o seu som se tinha tornado mais alto. As duas raparigas inclinaram-
se para a gua, deixando cair as moedas que tinham trazido,

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MARION ZIMMER BRADLEY

 medida que a ondulao se ia acalmando, Eilan viu os rostos das duas, to parecidos, 
espelhados juntos. Endireitou-se, receosa de ver aparecer novamente a estranha mas,  
medida que a sua viso escurecia, desta vez havia apenas um rosto, com olhos que 
brilhavam na gua como estrelas no escuro mar do cu.

- Senhora, sois o esprito do lago? O que quereis de mim? - perguntou o seu corao. E 
pareceu-lhe que palavras vieram em resposta:

- A minha vida flui atravs de todas as guas, tal como flui atravs das tuas veias. Eu 
sou o Rio do Tempo e o Mar do Espao. Pertenceste-me ao longo de muitas vidas. 
AdsarTha, minha filha, quando consumars tu os teus votos para Comigo?

Parecia-lhe, agora, que nos olhos da Senhora cintilava um brilho que lhe iluminava a 
alma, ou talvez fosse da luz do Sol, pois quando voltou a si estava a pestanejar na 
direco do resplendor que rutilava atravs das rvores.

- Eilan! - chamou Dieda, no tom de quem repete uma chamada pela segunda vez. - O 
que se passa contigo hoje?
- Dieda! - exclamou Eilan. - No A viste? No viste a Senhora no lago?

Dieda abanou a cabea.

- Pareces uma dessas      cadelas sagradas de Vernemeton, tagarelando sobre vises!

- Como podes dizer isso? s filha do Arquidruida; na Casa da Floresta poderias ter o 
treino dum bardo!

Dieda franziu as sobrancelhas.

- Uma mulher bardo? Ardanos nunca o        permitiria, nem eu quereria nunca passar a 
minha vida encarcerada no meio do grasnar de mulheres. Antes   preferia juntar-me aos 
Raven, com o teu irmo adoptivo Cynric, e lutar contra Roma!

- Chiu! - Eilan    olhou  sua volta como se as rvores tivessem ouvidos. - s estpida 
para estares a falar disso, mesmo aqui? Alm disso, o que queres fazer ao lado de 
Cynric no  bem lutar, mas deitar-te... tenho visto como olhas para ele! - e sorriu 
maliciosamente.

Desta vez foi Dieda que corou.

- No percebes nada disso! - exclamou. - Mas a tua vez h-de chegar e quando fores tu a 
cair que nem uma pateta por um

A CASA DA FLORESTA

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homem qualquer ser a minha vez de rir. - Comeou a arrumar a roupa.

- Nunca o farei - disse Eilan. - Eu quero servir a Deusa!
- E por um momento a sua viso escureceu e o murmrio da gua pareceu tornar-se 
mais alto, como se a Senhora tivesse ouvido. Nesta altura j Dieda tinha o cesto nas 
mos.

- Vamos para casa. - Levantou-se bruscamente para comear a caminhada. Eilan, no 
entanto, hesitou, porque lhe pareceu ter ouvido algo que no era o rudo da nascente.

- Espera! Ouves aquilo? Ao p do velho fosso para javalis... Dieda parou, voltando a 
cabea, e ouviram-no novamente, agora mais dbil, como um animal em sofrimento.

- Seria melhor ir l e ver - disse finalmente -, embora nos faa chegar tarde a casa. Mas 
se alguma coisa caiu l, os homens tero que ca vir e acabar-lhe com o sofrimento.

O rapaz jazia, abalado e sangrando, no fundo da armadilha para javalis, as suas 
esperanas de salvamento desvanecendo-se  medida que a luz ia desaparecendo.

O fosso onde jazia era hmido e ptrido, e cheirava aos excrementos dos animais que a 
tinham sido apanhados no passado. Aguadas estacas estavam cravadas no fundo e nas 
paredes do fosso; uma dessas estacas tinha-lhe trespassado o ombro - no uma ferida 
perigosa, calculou, nem mesmo particularmente dolorosa por agora, visto o brao ainda 
estar adormecido devido  fora da queda. Mas, ainda assim, por muito ligeira que 
fosse, parecia que seria o suficiente para o matar.

No que tivesse medo de morrer; Gaius Macellius Severus Siluricus tinha dezanove 
anos de idade, e tinha feito o seu juramento de lealdade ao Imperador Tito como oficial 
romano. Tivera a sua primeira batalha antes mesmo de lhe ter crescido a barba. Mas 
morrer porque tinha tropeado como uma lebre tonta numa armadilha enfurecia-o. A 
culpa era sua, pensou Gaius amargamente. Se tivesse dado ouvidos a Clotinus Albus 
estaria agora sentado em frente duma quente fogueira, bebendo a cerveja do Pas do Sul 
e namorando a filha do seu hospedeiro, Gwenna a qual tinha posto de lado os castos 
hbitos dos Bretos do interior e adoptado os modos e comportamentos das raparigas 
das

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MARION ZIMMER BRADLEY

cidades romanas, como Londinium, com a mesma facilidade com que o seu pai tinha 
adoptado a toga e a lngua latinas.

E, contudo, foi exactamente devido ao seu conhecimento dos dialectos britnicos que 
foi enviado nesta jornada, lembrou-se Gaffis, e a sua boca torceu-se. O Severus mais 
velho, seu pai, era Prefeito do acampamento da 11 Legio Adiutrix, em Deva, e tinha 
casado com a filha, de cabelo escuro, de um comandante dos Silures, nos primeiros 
tempos da conquista, quando Roma ainda tinha a esperana de conquistar as tribos por 
meio de alianas. Gaius j falava o seu dialecto mesmo antes de balbuciar uma palavra 
de latim de jardim infantil.

Tinha havido uma altura, claro, em que um oficial de uma legio imperial, estacionada 
no forte de  Deva, no se teria dado ao trabalho de expressar as suas exigncias na 
lngua de um pas conquistado. Mesmo agora, Flavius Rufus, tribuno da segunda corte, 
no ligava a tais subtilezas. Mas o mais velho dos Macellius Severus, Prefeito 
Castrorum, respondia apenas perante Agricola, governador da provncia da Bretanha, e 
era da responsabilidade de Macellius Severus manter a paz e a harmonia entre o povo da 
provncia e a legio que os ocupava, guardava e governava.

Lambendo ainda as suas feridas, uma gerao depois de a Rainha Assassina Boudicca 
ter tentado a sua infrutfera rebelio
- e ter sido ferozmente punida pelas legies - o povo da Bretanha estava pacificado o 
suficiente sob as pesadas imposies de taxas e impostos. Suportavam os recrutamentos 
forados de mo-de-obra cada vez com menos humildade, e aqui, nas franjas do 
Imprio, o ressentimento ainda estava latente, habilmente fomentado por alguns chefes 
de menor importncia e outros descontentes, Flavius Rufus ia enviar um destacamento 
de legionrios para o interior deste canteiro de agitao, a fim de supervisionar uma leva 
de homens mandados trabalhar nas minas imperiais de chumbo, nas montanhas.

A poltica imperial no autorizava que um jovem oficial estivesse colocado numa legio 
em que o pai tivesse um posto to importante como o era o de prefeito. Era assim que 
Gaius tinha, nesta altura, o posto de tribuno militar na Legio Valeria Vctrx, em 
Glevurn, e, apesar do seu meio sangue britnico, desde a infncia que tinha 
experimentado a severa disciplina de um filho dum soldado romano.

r-

A CASA DA FLORESTA

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At agora o Macellius mais velho ainda no tinha tentado obter quaisquer privilgios 
para o seu nico filho. Mas Gaius tinha sido ligeiramente ferido numa perna durante um 
incidente fronteirio; antes de ter recuperado totalmente, umas febres enviaram-no para 
casa, para Deva, com autorizao de a ficar a convalescer antes de voltar ao seu posto. 
j recuperado, sentia-se impaciente na casa do seu pai; a oportunidade de partir com a 
leva para as minas tinha-lhe parecido apenas umas agradveis frias.

A viagem fora extremamente montona; depois de os sombrios trabalhadores forados 
terem sido entregues, Gaius, com uma quinzena das suas frias ainda por gozar, tinha 
aceite o convite de Clotinus Albus, secundado pelos pouco modestos olhares da filha, 
para ficar durante alguns dias e divertir-se a caar. Clotinus tambm era um entusiasta e, 
alm disso - Gaius sabia-o - tinha ficado satisfeito com a ideia de oferecer hospitalidade 
ao filho de um oficial romano. Gaius tinha encolhido os ombros, gozado a caa, que era 
excelente, e contado  filha de Clotinus uma srie de mentiras inofensivas, o que 
tambm foi excelente. Ainda no dia anterior, matara um veado nestes mesmos bosques, 
provando ser to competente com a lana curta como estes bretes com as suas prprias 
armas; mas agora...

Deitado na imundcie do fosso, Gaius tinha despejado desesperadas pragas sobre o 
timorato escravo que se tinha oferecido para lhe indicar um atalho entre a casa de 
Clotinus e a estrada romana que levava directamente, ou assim ele o disse, at Deva; 
sobre a sua prpria loucura por deixar o simplrio guiar a biga; sobre a lebre, ou o que 
quer que tivesse sido, que tinha arremetido  sua frente e assustado os cavalos; sobre os 
prprios mal treinados animais e no louco que os tinha deixado sair; e sobre o momento 
de distraco em que tinha perdido o equilbrio e sido atirado, meio atordoado, para o 
cho.

Atordoado, sim, mas se no estivesse meio fora de si devido  queda, teria tido o senso 
suficiente para se deixar ficar no lugar em que tinha cado; mesmo um idiota to 
completo como o condutor teria, mais cedo ou mais tarde, recuperado o controlo dos 
cavalos e voltado atrs para o vir buscar. Ainda mais que tudo isto, amaldioou a sua 
prpria loucura em tentar encontrar o seu prprio caminho atravs da floresta e por ter 
abandonado a picada. Deve ter vagueado durante muito tempo.

26

MARION ZIMMER BRADLEY

Devia estar ainda tonto devido  queda recente, mas lembrava-se, com doentia clareza, 
do sbito escorregar, do resvalar das folhas e dos ramos quando a armadilha deu de si e, 
depois, da queda, impelindo a estaca atravs do seu brao com uma fora tal que o 
privou da conscincia durante alguns minutos. A tarde passou-se antes que tivesse 
recuperado o suficiente para fazer o inventrio dos seus ferimentos. Uma outra estaca 
tinha-lhe rasgado a barriga da perna, reabrindo a sua velha ferida; no um ferimento 
grave, mas tinha batido com o tornozelo com tanta fora que este tinha inchado at ficar 
da largura da sua coxa; estava partido - ou pelo menos parecia-o. Gaius, no seu estado 
normal, era gil como um gato e teria sado dali em segundos; mas agora estava 
demasiado fraco e entontecido para se mexer.

Sabia que se no sangrasse at morrer antes do cair da noite, o cheiro do sangue 
certamente iria atrair animais selvagens que acabariam com ele. Tentou evitar lembrar-
se das histrias da sua ama sobre as piores coisas que tal cheiro podia atrair.

O frio hmido atravessava-lhe todo o corpo; tinha gritado at ficar rouco. Agora, se 
tinha de morrer, f-lo-a com uma dignidade romana. Aconchegou uma dobra do seu 
capote empapado em sangue  volta da cara, depois, com o corao a bater loucamente, 
arrastou-se at ficar direito; porque tinha ouvido vozes.

Gaius ps toda a sua debilitada fora num grito - meio guincho meio uivo. 
Envergonhou-se do som inumano depois de este ter sado da sua garganta e lutou para 
lhe acrescentar um apelo mais humano, mas no lhe saiu nada. Agarrou-se a uma das 
estacas, mas no conseguiu seno pr-se de joelhos e encostar-se  suja parede.

Por um momento, um ltimo raio de sol cegou-o. Pestanejou, e viu uma cabea de 
rapariga enquadrada pela luz acima de si.
- Grande Me! - gritou ela numa voz clara. - Em nome

de que deus conseguiu voc cair a para dentro? No viu as marcas de aviso que pem 
nas rvores?

Gaius no conseguiu pronunciar uma palavra; a jovem mulher tinha-se-lhe dirigido num 
dialecto excepcionalmente puro, que no lhe era de todo familiar. Aqui, claro, deviam 
ser homens da tribo dos Ordovc. Teve de pensar por um momento para o traduzir para 
o calo silure da sua me.

A CASA DA FLORESTA

27

Antes que pudesse responder, uma segunda voz feminina, esta mais rica, e de algum 
modo mais forte, exclamou:

- Insensato, devamos deix-lo ali para servir de isca aos lobos! - Outro rosto apareceu 
ao lado do primeiro, de tal modo parecido que, por um momento, pensou se a sua viso 
no lhe estaria a pregar uma partida.

- V l, agarre a minha mo e penso que entre as duas conseguiremos tir-lo da - disse 
ela. - Eilan, ajuda-me! - Uma mo de mulher, esguia e branca, baixou na sua direco; 
Gaius estendeu a sua mo til; mas no conseguiu fech-la.

- Qual  o problema? Est ferido? - perguntou a rapariga mais suavemente.

Antes que Gaius pudesse responder, a outra - Gaius no conseguia ver nada sobre ela 
excepto que era nova - inclinou-se para ver por si prpria.

- Oh, estou a ver... Dieda, ele est a sangrar! Corre e trs Cynric para o tirar daqui para 
fora.

A sensao de alvio que percorreu Gaius foi to poderosa que a conscincia quase o 
abandonou e ele caiu para trs, gemendo quando o movimento o fez bater nas feridas.

- No pode desmaiar - chegou a voz clara por cima dele. - Deixe que as minhas palavras 
sejam o fio que o prende  vida, est a ouvir-me?

- Ouo-a - murmurou. - Continue a falar comigo. Talvez fosse porque a ajuda estava a 
chegar que ele se pudesse permitir o sentir, mas as feridas comeavam a doer-lhe muito. 
Gaius podia ouvir a voz da rapariga por cima de si, se bem que, para ele, as palavras j 
no fizessem qualquer sentido. O seu som era como o de um sussurro duma corrente de 
gua, transportando-lhe a mente para alm da dor. O mundo escureceu; Gaius s 
percebeu que era a luz do dia e no a sua viso que lhe tinha faltado, quando viu a luz 
bruxuleante de archotes nas rvores.

O rosto da rapariga desapareceu e ele ouviu-a chamar:
- Pai, est um homem preso no fosso dos javalis.

- Tir-lo-emos ento - replicou uma voz mais profunda.
- Hum... - Gaius sentiu movimento acima de si, - Isto parece um trabalho para uma 
padiola. Cynric,  melhor desceres e veres o que se passa.

28

MARION ZIMMER BRADLEY

No instante seguinte, um homem jovem tinha descido pelas paredes do fosso. Olhou para Gaius e perguntou 
prazenteiramente:

- No que  que estavas a pensar?  preciso ser-se mesmo um verdadeiro desmiolado para cair para a, quando toda a 
gente nas redondezas sabe que isto est aqui h mais de trinta anos!

Reunindo os ltimos restos do seu orgulho, Gaius comeou a dizer que se ele o tirasse para fora seria devidamente 
recompensado, depois ficou contente por no ter falado.  medida que os seus olhos se adaptavam gradualmente  
luz do archote, o jovem romano percebeu que o seu salvador era mais ou menos da sua idade, no muito acima dos 
dezoito anos, mas era um gigantesco pedao de homem. O seu encaracolado cabelo escuro caa solto at aos ombros e 
o seu rosto, ainda imberbe, parecia to feliz e calmo como se o ter de salvar estranhos meio mortos fizesse parte de 
um dia normal de trabalho. Vestia uma tnica de tecido axadrezado e calas de couro finamente tingido; o seu manto 
de pele de lobo, bordado, estava preso por um alfinete de ouro exibindo um estilizado corvo feito em esmalte 
vermelho. Estas roupas eram as de um homem de uma casa nobre, mas no de um que desse as boas-vindas aos seus 
conquistadores e macaqueasse os hbitos romanos.

Gaius disse simplesmente, na linguagem das tribos:

- Sou um estranho aqui; no conheo as vossas          marcas.
- Bem, no te preocupes com isso; vamos tirar-te da e depois conversamos sobre como fizeste para conseguir cair a.
- O rapaz enfiou o brao por baixo da cintura de Gaius, segurando no jovem romano to facilmente como se ele fosse 
uma criana.

- Cavmos aquele fosso para javalis, ursos e romanos notou calmamente. - Foi apenas azar que tivesses sido 
apanhado nele. - Olhou para cima, para o topo do fosso e disse: - Dieda, deixa cair a tua capa; ser mais fcil que 
encontrar alguma coisa para servir de padiola; o capote dele est completamente empapado em sangue.

Quando a capa foi deixada cair, o rapaz atou-a  volta da cintura de Gaius e, depois, atando a outra ponta  sua 
prpria, ps um p na estaca mais baixa e disse:

- Grita se eu te magoar; j puxei alguns ursos desta maneira, mas estavam mortos e no se podiam queixar.

A CASA DA FLORESTA

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Gaius cerrou os dentes e agarrou-se, quase desmaiando com a dor quando o seu tornozelo inchado bateu numa raiz 
saliente. Algum, no topo, inclinou-se e agarrou-lhe as mos e, finalmente, rastejou pela .borda fora, deixando-se 
ficar por um momento apenas a respirar, antes de ter foras para abrir os olhos.

Um homem mais velho estava inclinado sobre ele. Suavemente puxou para o lado o capote de Gaius, sujo e 
manchado de sangue, e assobiou.

-   Algum deus deve gostar de ti, estrangeiro; uns centmetros mais abaixo e aquela estaca tinha-te perfurado os 
pulmes. Cynric, raparigas, olhem para isto - continuou. - No stio onde o ombro ainda sangra o sangue  escuro e 
lento, o que significa que est a voltar para o corao; se estivesse a vir do corao, seria vermelho brilhante e em 
esguicho; e ele teria, provavelmente, sangrado at  morte antes que o tivssemos encontrado.

O rapaz louro e as raparigas inclinaram-se, um aps o outro, para olhar. Gaius jazia silencioso. j tinha desistido de 
qualquer ideia de se identificar e de lhes pedir que o levassem para a casa de Clotinus Albus em troca de uma 
recompensa substancial. Sabia agora que apenas a velha tnica britnica que tinha posto de manh para viajar o tinha 
salvo. A pouco cerimoniosa percia mdica deste discurso disse-lhe que estava em presena de um druida. Depois, 
algum levantou-o, e o mundo escureceu e desapareceu.

Gaius acordou  luz da lareira, o rosto duma rapariga observando-o. Por um momento, as suas feies pareceram 
flutuar numa aurola de fogo. Era nova e o seu rosto belo, mas os olhos eram duma tonalidade estranha, entre a cor-
de-avel e o cinzento; afastados, sob plidas pestanas. A boca fazia-lhe covinhas no rosto, mas estava to solene que 
parecia mais velha que o resto.
O seu cabelo era to claro como as suas pestanas, quase descolorido, excepto onde a luz da lareira o fazia brilhar em 
tons de vermelho. Uma das mos dela moveu-se sobre a sua cara e ele sentiu-a fria; ela tinha estado a banhar-lhe a 
cara com gua.

Olhou-a, pelo que pareceu um tempo imenso, at que as suas feies ficaram desenhadas na sua memria para 
sempre. Ento, algum disse:

- Chega Eilan, penso que ele est acordado - e a rapariga retirou-se.

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MARION ZIMMER BRADLEY

Eilan... Ele j tinha ouvido antes este nome. Teria sido nalgum sonho? Ela era 
encantadora.

Gaius lutou para poder ver, e deu-se conta de que estava deitado numa cama de 
bancada, encastrada na parede. Olhou  sua volta, tentando perceber onde se encontrava. 
Cynric, o jovem que o tinha arrastado para fora do fosso, e o velho druida cujo nome 
no sabia, encontravam-se de p a seu lado. Estava deitado numa casa de madeira, 
circular, construda no velho estilo cltico, com toros aplainados irradiando desde o 
ponto mais alto do telhado at  parede, mais abaixo. No tinha estado numa casa destas 
desde que era uma criancinha, quando a sua me o tinha levado a visitar os seus 
parentes.

O cho estava espessamente coberto com vergas; as paredes, de ramos de vime cor-de-
avel, tinha as fendas tapadas e remendadas com barro caiado, e os tabiques que 
separavam os cubculos das camas tambm eram feitos de vime. Uma grande cortina de 
couro resguardava a entrada fazendo as vezes duma porta, Encontrar-se neste lugar 
fazia-o sentir-se muito jovem, como se todos os anos de treino romano se tivessem 
evaporado.

O seu olhar moveu-se lentamente  roda da casa e de volta  rapariga. O seu vestido era 
de linho   vermelho acastanhado e segurava uma bacia de cobre na mo; era alta, mas 
mais nova do que ele tinha pensado, o seu corpo    ainda com as formas do de uma 
criana por baixo das dobras do vestido. A luz que vinha da lareira ao centro da casa, 
atrs dela, brilhava-lhe no seu cabelo louro.

A luz da lareira tambm lhe mostrou o homem mais velho, o druida. Gaius virou um 
pouco a cabea e observou-o atravs das pestanas. os druidas eram homens de sabedoria 
entre os Bretes, mas tinha-lhe sido dito durante toda a vida que eram uns fanticos. 
Ver-se a si prprio na casa de um druida era como acordar na toca dum lobo, e a Gaius 
no custava admitir que estava com medo.

Teve, pelo menos, quando ouviu o ancio a discursar calmamente sobre a circulao do 
sangue, uma coisa que tinha ouvido dizer ao mdico grego do seu pai ser um magistrio 
dos sacerdotes curandeiros do mais alto nvel, o bom senso de no revelar a sua 
identidade romana,

A CASA DA FLORESTA

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No que estas pessoas fizessem qualquer segredo sobre quem eles eram. Cavmos este 
fosso para javalis, ursos e romanos , tinha afirmado o jovem dum modo bastante 
casual. Isto devia ter-lhe significado que estava a uma boa distncia do pequeno crculo 
protegido de domnio romano. No entanto no estava a mais de um dia de viagem do 
posto da legio em Deva!

Mas, se estava nas mos do inimigo, pelo menos eles estavam a trat-lo bem. As roupas 
que a rapariga vestia eram bem feitas; a bacia de cobre que ela transportava era 
finamente trabalhada - tinha, sem qualquer dvida, vindo de um dos mercados do Sul.

Pequenas velas feitas com pavios de junco mergulhados em sebo ardiam em lamparinas 
suspensas; o leito em que jazia estava coberto com brancos lenis e a palha cheirava a 
ervas doces. Estava um calor pesado, depois do frio do fosso. O ancio que tinha 
dirigido o seu salvamento chegou e sentou-se a seu lado, e, pela primeira vez, Gaius 
pde observar bem o seu salvador.

Era um homem grande e poderoso, com ombros suficientemente fortes para derrubarem 
um touro. O seu rosto estava rudemente talhado no crnio, como se tivesse sido 
descuidadamente esculpido em pedra, e os olhos eram cinzentos claros e frios. Tinha o 
cabelo generosamente polvilhado de cinzento; Gaius pensou que ele devia ter mais ou 
menos a idade do seu prprio pai, cerca de cinquenta anos.

- Escapaste mesmo por muito pouco, jovem - disse o druida. Gaius teve a impresso de 
que a repreenso lhe surgia com naturalidade. - Da prxima vez mantm os olhos 
abertos. Daqui a pouco j vou ver esse ombro. Eilan ... - chamou a rapariga com um 
gesto e deu-lhe algumas instrues em voz baixa.

Ela foi-se embora e Gaius perguntou:

- A quem devo a minha vida, honrado senhor? - Nunca tinha pensado vir a mostrar 
respeito por um druida. Gaius, como toda a gente, tinha sido educado a ouvir as velhas 
histrias de Csar sobre os sacrifcios humanos e as lendas de guerras que tinham sido 
travadas para subjugar o culto druida na Bretanha e na Glia. Hoje em dia, aqueles que 
restavam estavam bastante bem controlados pelos ditos romanos, mas podiam provocar 
tanto transtorno como os cristos. A diferena era que, enquanto

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MARION ZIMMER BRADLEY

os cristos espalhavam a dissenso nas cidades e se recusavam a adorar o Imperador, os 
druidas podiam incitar, at mesmo os povos conquistados, a uma guerra sangrenta.

Havia, no entanto, qualquer coisa neste homem que infundia respeito.

- O meu nome  Bendeigid - disse o druida, mas no fez qualquer pergunta a Gaius e o 
jovem romano lembrou-se de ouvir a sua me dizer que, entre os Celtas, um convidado 
ainda era considerado sagrado, pelo menos fora das terras dos Romanos. O pior inimigo 
podia reivindicar comida e abrigo e partir, se assim o escolhesse, sem que qualquer 
pergunta lhe fosse feita. Gaius respirou de alvio por esta moratria; neste lugar talvez 
fosse mais seguro - e mais sensato - pedir hospitalidade como um convidado do que 
exigi-la como o direito de um conquistador.

A rapariga, Eilan, entrou de novo na alcova, transportando uma pequena arca de 
madeira de carvalho fechada com fecho de ferro, e um chifre com uma bebida. Disse 
timidamente:

- Espero que seja este o certo.

O pai acenou-lhe bruscamente com a cabea, agarrou na arca, e fez-lhe um gesto para 
que desse o chifre a Gaius. Este estendeu a mo para o agarrar e, para sua surpresa, viu 
que os dedos no tinham fora para se fecharem.

O druida disse:

- Bebe isso - com os indiscutveis modos de um homem que est habituado a dar ordens 
e a ser obedecido. Acrescentou, depois duns instantes: - Vais precisar disso quando 
tivermos terminado contigo. - Ele pareceu bastante amvel; mas Gaius tinha comeado 
a ficar assustado.

Bendeigid fez um gesto na direco da rapariga e esta voltou para a cabeceira de Gaius.

Ela sorriu, provou algumas gotas no tradicional gesto de hospitalidade, depois levou o 
chifre at aos seus lbios. Gaius tentou levantar-se um pouco mas os seus msculos no 
lhe queriam obedecer. Com um grito de compaixo, Eilan levantou-lhe a cabea com o 
brao para que pudesse beber.

O jovem romano beberricou na taa; era um hidromel muito forte, ao qual tinha sido 
juntada alguma especiaria amarga, obviamente medicinal.

A CASA DA FLORESTA

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- j quase tinhas passado todos os obstculos at  Terra da juventude, estranho, mas 
no morrers - murmurou ela. Vi-vos num sonho, mas reis mais velho... e com um 
rapazinho ao vosso lado.

Olhou para cima, para ela, j deliciosamente sonolento de mais para achar aquilo 
perturbador. Apesar de ela ser muito nova, estar encostado ao seu seio era como estar de 
volta aos braos da sua me. Agora, que sofria, quase conseguiu lembrar-se dela e os 
seus olhos encheram-se de lgrimas. Estava vagamente consciente quando o velho 
druida lhe cortou a tnica, e ele e o jovem Cynric lhe lavaram as feridas com qualquer 
coisa que ardia - mas no era pior que o remdio que o velho Marilius lhe tinha posto na 
perna quando a tinha ferido antes. Untaram-lha com alguma coisa pegajosa e ardente e 
ligaram-na firmemente com faixas de linho branco. Depois, mexeram-lhe no tornozelo 
deslocado e ele prestou ateno, sem muito interesse, quando algum disse:

- Aqui no h nada de muito errado, nem sequer est partido.

Mas acordou em sobressalto do sonhador torpor quando Cynric disse:

- Aguenta-te agora, rapaz; aquela estaca estava imunda, mas penso que podemos salvar 
o brao se o queimarmos.

- Eilan - ordenou o velho bruscamente -, sai daqui para fora; isto no  coisa a que uma 
rapariga deva assistir.

- Eu agarro nele, Eilan - disse Cynric. - Podes ir-te embora.
- Vou ficar, Pai. Talvez possa ajudar. - A sua mo fechou-se  na de Gaius e o velho 
resmungou.

- Sendo assim, faz como quiseres, mas no grites nem desmaies.

No minuto seguinte Gaius sentiu umas mos fortes - as de Cynric? - a manterem-no na 
horizontal e bem seguro. A mo de Eilan estava ainda entrelaada na sua, mas ele 
sentiu-a tremer um pouco; virou a cabea para o lado, fechando os olhos e cerrando os 
dentes, no fosse escapar-se-lhe algum grito vergonhoso. Sentiu o cheiro da 
aproximao do ferro em brasa e uma terrvel agonia dilacerou-lhe todo o corpo.

Um grito contorceu-lhe os lbios e sentiu-o escapar como um fraco grunhido; o contacto 
ardente abandonou-o e apenas sentiu

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MARION ZIMMER BRADLEY

o suave toque das mos da rapariga. Quando conseguiu abrir os olhos, viu o druida a 
observ-lo, um sorriso frio na sua barba cinzenta. Cynric, ainda inclinado para ele, 
estava branco; Gaius tinha visto aquele olhar em jovens sob o seu proprio comando 
depois da sua primeira batalha.

- Bem, cobarde  que de certeza que no s, rapaz - disse o jovem numa voz sufocada.

Obrigado       disse Gaius absurdamente. E desmaiou.

DOIS

Quando Gaius voltou de novo a si, sentindo que tinha estado inconsciente durante muito 
tempo, as luzes das lamparinas tinham-se extinguido. S vinha uma fraca luz das brasas 
na lareira e, nela, apenas conseguia entrever a rapariga, Eilan, sentada a seu lado, quase 
adormecida. Sentia-se cansado, o brao latejava e estava cheio de sede. Podia ouvir 
vozes de mulheres no muito longe.
O ombro estava envolvido em espessos envoltrios de linho - sentia-se como se tivesse 
sido envolvido em fraldas, como um beb recm-nascido. O ombro ferido estava 
escorregadio devido a algum unguento gorduroso e o linho cheirava a gordura e a 
blsamo.

A rapariga sentava-se calada a seu lado, num banco com trs pernas, to plida e esbelta 
como um jovem vidoeiro, o cabelo, um pouco ondulado, penteado para trs das 
tmporas; a sua textura era fina de mais para que se mantivesse completamente liso. 
Tinha uma corrente chapeada a ouro  roda do pescoo, com uma espcie qualquer de 
amuleto. Gaius sabia que estas raparigas brets amadureciam tarde; poderia ter  volta 
duns quinze anos de idade. Dificilmente se podia considerar uma mulher, mas de 
certeza que tambm no era uma criana.

Ouviu-se um estrondo como se algum tivesse deixado cair um balde e uma voz jovem 
gritou:

- Ento podes ir e ordenh-las tu mesma se te apetece!
- O que  que se passa com a mulher do estbulo? perguntou rispidamente uma mulher.

- Oh, lamuria-se e chora como uma das fadas que predizem a morte, porque aqueles 
carniceiros dos romanos vieram e levaram o seu homem nas levas de mo-de-obra, e ela 
ficou sozinha com trs criancinhas - disse a primeira voz -, e agora o meu Rhodri foi 
atrs deles.

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MARION ZIMMER BRADLEY

- A maldio de Tanarus para todos os romanos... - comeou uma voz que Gaius 
reconheceu ser a de Cynric, mas a voz da mulher mais velha interrompeu-o.

- Agora pouco barulho. Mairi, pe os pratos na mesa, no fiques aqui a gritar com os 
rapazes. Eu vou falar com a pobre mulher... digo-lhe que pode trazer os pequenos c 
para casa... mas algum tem que ordenhar as vacas hoje  noite, mesmo que os romanos 
levem todos os homens da Bretanha.

- Sois boa, me adoptiva - disse Cynric, e as vozes transformaram-se de novo num 
zumbido. A rapariga olhou na direco de Gaius e levantou-se do seu banco,

- Oh, ests acordado - disse ela. - Tens fome?

- Podia devorar um cavalo e uma carroa e ainda perseguir o condutor at meio caminho 
de Venta - disse Gaius gravemente, fazendo com que ela o fitasse por um momento 
antes que os olhos se lhe abrissem de espanto e risse.

- Vou ver se h um cavalo e uma carroa na cozinha disse, rindo, a luz por trs dela 
tornando-se mais forte quando uma senhora apareceu  entrada da porta. Por um 
instante ficou surpreendido com a claridade; porque a luz que entrava no quarto era a 
luz do Sol.

- j estamos no dia seguinte? - deixou escapar sem pensar, e a senhora riu-se, virou-se e 
puxou totalmente a cortina para cima, prendendo-a num gancho e apagando a gotejante 
luz das 
lamparinas com um movimento fludo.

- Eilan no nos deixou incomod-lo nem mesmo para comer
- disse ela. - Insistiu que descansar lhe faria melhor que comer, Suponho que tinha 
razo; mas agora deve estar esfomeado. Lamento no ter estado aqui para lhe dar as 
boas-vindas a nossa casa; estava fora, a tratar duma mulher doente numa das 
propriedades do nosso cl. Espero que Eilan tenha cuidado de si como deve ser.

- Oh, sim - disse Gaius. Pestanejou, porque algo na sua atitude o tinha dolorosamente 
feito recordar a sua prpria me. A senhora olhou para baixo, para ele. Ela era linda, 
esta

mulher bret, e to parecida com a rapariga que o seu parentesco era bvio, mesmo 
antes de esta ter exclamado, Me ...  e parado, tmida de mais para continuar. O seu 
aspecto era de quem tinha estado a trabalhar com as suas criadas, porque a sua fina 
tnica de linho estava coberta de farinha, mas a roupa que se via

A CASA DA FLORESTA

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por baixo era dum linho o mais branco e fino que ele tinha visto at agora na Bretanha, 
com as bainhas bordadas. Os seus sapatos eram de couro tingido de ptima qualidade e 
elegantes fechos de ouro espiralado apertavam-lhe o vestido.

- Espero que te estejas a sentir melhor - disse bondosamente.

Gaius ergueu-se, apoiado no seu brao so.

- Muito melhor, senhora - disse -, e eternamente grato

a si e aos seus.

Ela fez um pequeno gesto de quem no d importncia ao assunto.

- Vens de Deva?

- Tenho estado de visita perto de l - respondeu. O acento latino do seu sotaque 
explicar-se-la se ela pensasse que ele vinha duma cidade romana.

- Uma vez que ests acordado, enviarei Cynric para te ajudar a lavar e a vestir.

- Vai ser agradvel poder lavar-me - disse Gaius, puxando o cobertor para cima quando 
se deu conta de que estava despido, com excepo das ligaduras.

A mulher seguiu o seu olhar e disse:

- Ele trar-te- algumas roupas; podero estar muito grandes mas  por agora serviro. Se 
preferires ficar aqui estendido e descansar podes faz-lo; mas se achares que ests 
capaz, sente-te  vontade para te juntares a ns.

Gaius pensou por um momento. Sentia-se como se cada msculo do seu corpo tivesse 
sido modo  cacetada; por outro lado, no podia deixar de se sentir curioso sobre esta 
famlia, e no podia dar a impresso de desprezar a sua companhia. Tinha acreditado 
que os bretes que no se tinham aliado a Roma eram na sua maioria selvagens, mas 
no havia nada de primitivo

nesta casa.

- Juntar-me-ei a vs com muito prazer - disse, e passou uma mo pela cara, desalentado 
com a desmazelada barba. - Mas gostaria de me lavar... e talvez barbear-me.

- No creio que te devas dar ao trabalho de te barbeares... certamente no por nossa 
causa - disse ela. - Mas Cynric ajudar-te- a lavares-te. Eilan, vai procurar o teu irmo e 
diz-lhe que ele  preciso.
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MARION ZIMMER BRADLEY

A rapariga escapuliu-se. A senhora virou-se para a seguir, depois olhou para ele, vendo-
o mais claramente  luz do cubculo da alcova. Os seus olhos suavizaram-se de um 
sorriso de cortesia para um que o fazia lembrar do modo como a sua me o costumava 
olhar, h muito tempo.

- Mas - disse ela -, tu no passas dum rapaz.

Por um momento, Gaius sentiu-se ferido por estas palavras

j fazia o trabalho dum homem h trs anos - mas antes que pudesse arquitectar 
qualquer resposta corts, uma voz trocista disse:

- Sim, e se ele  um rapaz, madrasta, eu no passo dum beb com roupas compridas. 
Bem, meu desajeitado, j ests pronto para ir dar cambalhotas noutras armadilhas de 
javali?

Uma vez mais Gaius ficou impressionado pelo enorme que ele era, mas, excepto pela 
sua grande altura, tambm era ainda um jovem; embora fizesse dois de Gaius. Ele riu.

- Bem - disse -, pareces um pouco menos pronto para seres levado na carreta do velho 
que se encarrega dos loucos e dos bbedos. Deixa-me olhar para a tua perna e veremos 
se ests pronto para pores o p no cho. - Apesar de todo o seu tamanho, as mos foram 
suaves ao examinar a perna ferida e, quando acabou, riu novamente.

- Todos devamos ter pernas to boas para andar! , principalmente, um inchao 
desagradvel; o que  que fizeste, bateste com ela numa estaca? Bem me parecia. 
Qualquer pessoa com um bocado menos de sorte t-la-la partido em trs stios e ficado 
coxo para toda a vida; mas, tu, penso que vais ficar bom. J quanto ao ombro a coisa  
diferente; no estars pronto para viajar antes de mais ou menos sete dias,

Gaius lutou para se levantar.

- Tenho que.--- - disse. - Tenho que estar em Deva dentro de quatro dias. - A sua licena 
teria acabado...

- Deixa-me que te diga... se estiveres em Deva dentro de quatro dias  l que os teus 
amigos te enterraro - disse Cynric. - At mesmo eu to posso dizer. Oh, j agora - ps-
se numa pose calculada e recitou, como se estivesse a repetir uma lio
 - Bendeigid envia as suas melhores saudaes ao hspede da sua casa e espera que 
recupere o melhor que lhe for possvel; lamenta que a necessidade o obrigue a estar 
ausente durante

A CASA DA FLORESTA

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o dia e a noite de hoje, mas ficar contente por te ver quando voltar. - Acrescentou: - 
Seria necessrio um homem mais corajoso que eu para o enfrentar e dizer-lhe que no 
aceitaste a sua hospitalidade.

- O  teu pai  muito bondoso - respondeu Gaius.

Bem podia descansar. No havia nada que pudesse fazer, Dificilmente podia mencionar 
Clotinus. O que acontecesse a seguir apenas dependia do idiota que ia a conduzir a biga; 
se ele tivesse voltado para trs e relatado, como era sua obrigao, que o filho do 
Prefeito tinha sido atirado ao cho e talvez tivesse morrido, j estariam a passar os 
bosques a pente fino  procura do seu corpo. Por outro lado, se o atrasado mental tivesse 
mentido, ou aproveitado a oportunidade para fugir para alguma aldeia que no estivesse 
sob o domnio dos Romanos - e havia muitas, mesmo to perto de Deva -, bem, 
ningum podia dizer nada. Podiam no dar pela sua falta at que Macellius Severus 
comeasse a fazer perguntas sobre o filho.

Cynric estava inclinado sobre uma arca aos ps da cama; tirou de l uma camisa e 
olhou-a com uma mistura de divertimento e desnimo.

- Os trapos que vestias s servem para espantalhos - disse.
- Direi  s raparigas para os limpar e remendar, mas duvido que isso possa ser feito; de 
qualquer modo, com este tempo elas no tm muito mais que fazer. Mas nestas roupas 
irias parecer uma  donzela com um vestido comprido. - Atirou-as para a arca. -  Vou 
pedir emprestado alguma coisa mais para o teu tamanho.

Saiu, e Gaius remexeu nos bocados de roupa que estavam dobrados  ao lado da cama,  
procura da bolsa presa ao cinto de couro que tinham cortado para lho tirar. Tanto quanto 
podia dizer no tinham tocado em nada. Alguns dos quadrados de estanho que ainda 
eram usados como moeda fora das cidades romanas, um broche, uma navalha de ponta 
em mola, um ou dois pequenos anis e alguns outros adornos que no tinha querido usar 
para ir  caa -  Ah, sim, ei-lo. Tinha-lhe servido de muito! Olhou de relance para o 
pedao de pergaminho com o selo do Prefeito; o seu salvo-conduto no lhe iria servir de 
nada aqui, se  que, mesmo, no o poria em perigo; mas, quando se fosse embora, iria 
precisar dele para viajar.

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MARION ZIMMER BRADLEY

Rapidamente voltou a p-lo de volta na bolsa. Teriam eles visto o anel de sinete? 
Comeou a tir-lo do dedo para o pr na bolsa; mas, nessa altura, Cynric entrou 
novamente no quarto, com algumas roupas debaixo do brao. Gaius sentiu-se quase 
culpado; parecia que estava a examinar as suas posses para ver se tinha sido roubada 
alguma coisa.

Disse:
- Penso que o selo do anel ficou solto quando ca - e mexeu a pedra verde um          
pouco. - Estava com medo que se o usasse ele casse.

- Trabalho romano - disse Cynric, olhando para ele.
- O que  que l diz?

Tinha apenas as suas iniciais e as armas da legio, mas ele tinha muito orgulho neste 
anel, pois tinha sido Macellius que o tinha encomendado a um cortador de ao em 
Londinium quando ele recebeu a sua patente de oficial.

- No sei; foi um presente.

- O desenho  romano - disse Cynric carregando o sobrolho. - Os Romanos tm o lixo 
deles espalhado daqui at  Calednia. - Acrescentou desdenhosamente - No h nada a 
dizer donde  que veio.

Algo nos modos de Cynric disse a Gaius que corria um perigo mais mortal agora que 
quando estava no fosso. O prprio druida, Bendeigid, nunca violaria a hospitalidade; 
sabia-o pelas histrias que a me e a ama lhe tinham contado. Mas no se sabia o que 
este irascvel jovem poderia fazer.

Num impulso, tirou um dos anis mais pequenos da sua bolsa.

- A minha vida devo-a a ti e ao teu pai - disse, - Aceitars isto como um presente meu? 
No  caro, mas pode servir para te recordar uma boa aco que praticaste.

Cynric tirou-lhe o anel da mo; era pequeno de mais para qualquer dos seus dedos, 
excepto para o mais pequeno.

- Cynric, filho de Bendeigid o Druida, agradece-te,               estranho - disse. - 
Desconheo qualquer nome pelo qual                      possa retribuir os agradecimentos...

Era o mais longe que uma insinuao podia ir sem fugir s boas maneiras e Gaius no 
podia, em cortesia, ignor-lo.            Teria dado o nome do irmo da sua me; mas o 
nome do chefe                   silure

A CASA DA FLORESTA

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que tinha dado a sua filha em casamento a um romano podia j ter chegado mesmo at 
este canto da Bretanha. Uma pequena violao da verdade era prefervel a uma maior na 
educao.

A minha me chamava-me Gawen - disse finalmente. isto, pelo menos, era verdade, j 
que Gaius, o seu nome romano, tinha sido estranho  lngua dela, - Nasci em Venta 
Silurum, mais para o sul, de nenhuma linhagem que conheas.

Cyriric pensou sobre isto durante um momento, virando o anel no dedo mindinho. 
Ento, uma estranha luz de compreenso iluminou-lhe o rosto. Disse, olhando 
intencionalmente para Gaius:
- os corvos voam  meia-noite?

Gaius no ficou menos espantado pela pergunta que pelos modos de Cynric. Por um 
instante ponderou se o jovem no seria um simples de esprito; depois, respondeu 
descuidadamente:

- Receio que em assuntos florestais me leves a palma; nunca conheci nenhum que o 
fizesse.

olhou para as mos de Cynric, viu que os dedos estavam entrelaados dum modo 
peculiar e comeou a perceber. Devia ser o sinal de uma das muitas sociedades secretas, 
na sua maioria religiosas como os cultos de Mithras ou do Nazareno. Estas pessoas 
seriam crists? No, o seu sinal era um peixe ou algo do gnero, no um corvo.

Bem, nada o podia interessar menos e a sua expresso deve t-lo mostrado. A face do 
jovem breto mudou ligeiramente e disse rapidamente:

- Vejo que cometi um erro - e virou as costas. -             Aqui est, penso que isto te 
servir; pedi-o emprestado  minha irm Mairi. So do marido dela. Anda, vou ajudar-te 
a ir at ao balnerio e buscar a navalha do pai, se te quiseres barbear... se bem que j 
tenhas idade suficiente, penso, para deixares crescer a barba. Cuidado... no ponhas todo 
o peso nesse p ou cais no cho.

Lavado, barbeado e, com a ajuda de Cynric, vestido com uma tnica lavada e com as 
soltas calas que os Bretes usavam, Gaius sentiu-se capaz de se levantar e tentar 
coxear. O brao latejava e ardia, e a perna doa-lhe em diversos stios, mas podia estar 
muito pior, e sabia que os msculos endureceriam se ficasse na cama. Mesmo assim, foi 
com gratido que se apoiou no brao de Cynric, quando o rapaz mais alto lhe guiou os 
passos atravs do ptio at ao grande salo de festas.

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MARION ZIMMER BRADLEY

Uma mesa de tbuas desbastadas ocupava todo o centro, com pesados bancos de cada 
lado. o calor era fornecido por uma lareira em cada extremidade do salo. Perto destas, 
estava reunido um indistinto nmero de homens e mulheres e, at, umas poucas de 
crianas. Homens pesadamente barbados, com aventais de tecido grosseiro, falavam uns 
com os outros num dialecto to rude que Gaius no conseguia perceber uma palavra.

Se bem que o seu tutor lhe tivesse ensinado que o termo latino famlia tivesse, na sua 
origem, significado todos os que partilhavam os mesmos alojamentos: amos, crianas, 
homens libertos e escravos, os Romanos, agora, mantinham os seus servidores afastados 
da famlia. Cynric interpretou o seu olhar de indulgente averso por fraqueza e 
apressou-se a lev-lo para um banco almofadado no extremo do grande salo.

Aqui, um pouco afastada do heterclito bando na outra ponta da mesa, estava sentada, 
numa espaosa cadeira, a dona da casa. Perto dela, outra cadeira, coberta com uma pele 
de urso, estava evidentemente reservada para o patro. Outros bancos e cadeiras, 
tambm espaosos, estavam ocupados por homens e mulheres jovens, cujo vesturio de 
melhor qualidade e modos bem educados os proclamavam como filhos ou filhos de 
criao da casa, ou, talvez, servidores superiores. A dona da casa acenou com a cabea 
na direco dos rapazes mas no interrompeu a conversa com um homem idoso sentado 
perto da lareira, alto e esqueltico como um velho fantasma, com cabelo cinzento aos 
caracis cortado dum modo quase afectado. A barba tambm era cinzenta e 
primorosamente encaracolada. Olhos verdes brilhavam na face do velho; a sua longa 
tnica era branca de neve, profusamente bordada, e a pequena harpa que estava ao seu 
lado era decorada e ornamentada a ouro.

Um bardo! Mas isso no era muito surpreendente na casa de um druida. No faltava 
seno um adivinhador para que aqui estivessem representadas as trs classes de druidas 
que Csar tinha descrito Mas um adivinho no se teria deixado iludir pelo disfarce do 
jovem romano. Apesar disso, o velho bardo favoreceu Gaius com um longo olhar, que o 
fez arrepiar-se todo, antes de se voltar novamente para a sua anfitri.

Cyriric disse em voz baixa:

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- Conheces a minha madrasta Rheis; este  o bardo Ardanos; chamo-lhe av porque ele 
 pai da minha me adoptiva; eu sou rfo.

Esta frase silenciou completamente Gaius, porque j tinha ouvido falar de Ardanos nos 
quartis-generais da legio. Acreditava-se que ele era um druida muito poderoso, talvez 
o chefe dos que restavam nas Ilhas Britnicas. Se bem que,  primeira vista, Ardanos se 
parecesse com qualquer outro druida prestes a comear a tocar, todos os seus gestos 
obrigavam a que se olhasse para ele. No pela primeira vez, Gaius pensou como 
conseguiria escapar ileso.

Ficou contente por se poder deixar cair numa cadeira perto da lareira e passar 
despercebido. Se bem que ainda fosse dia claro no exterior, sentiu um calafrio, e deu 
graas pelo calor do fogo. j se tinha passado muito tempo desde que tinha tido 
necessidade de se lembrar dos costumes dos parentes da sua me. Esperava no cometer 
nenhum erro que o trasse.

Cyriric continuou.

- A minha irm Eilan j conheces; a seu lado est a irm da  minha me, Dieda. - Eilan 
estava sentada perto de Rheis. Cynric riu-se com o espanto de Gaius, j que ao lado de 
Eilan viu outra rapariga, vestida com um vestido de linho verde, encostada s costas da 
cadeira e a ouvir o velho bardo. Por um momento achou-a to parecida com Eilan como 
duas folhas de um carvalho; depois, viu que a rapariga a quem Cynric tinha chamado 
Dieda era um pouco mais velha e que tinha olhos azuis, enquanto os de Eilan eram 
quase cinzentos. Lembrava-se vagamente de ter visto dois rostos a olhar para ele desde 
a borda do fosso dos javalis, mas tinha pensado que estava a delirar.

- Existem mesmo duas; so mais parecidas que duas gmeas, no  so?

Era verdade, mas Gaius apercebeu-se repentinamente de que a certeza com que tinha 
reconhecido Eilan nunca o abandonaria. Durante toda a sua vida seria um dos poucos 
que seria capaz de distinguir as duas mulheres, como que por instinto. Um fragmento de 
memria, estreitamente ligado a dor e a fogo, veio-lhe ao esprito - Eilan tinha sonhado 
com ele.

E, agora que as contemplava, podia ver que eram diferentes tambm em muitos 
pequenos detalhes; Dieda era um pouco mais

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alta e o seu cabelo permanecia liso e suave junto  fronte, enquanto o de Eilan lhe 
escapava da faixa que o prendia, formando uma minscula aurola de caracis. O rosto 
de Dieda era regular, plido e perfeito, quase solene; o de Eilan parecia rseo, como se a 
sua face tivesse agarrado a luz do Sol e a a tivesse guardado.

A ele pareciam-lhe muito diferentes, e as suas vozes tambm o eram. Dieda disse 
qualquer coisa descuidadamente corts; a sua voz era rica e musical, sem a timidez da 
de Eilan, ou o seu riso.

- Ento s tu o simplrio que anda para a a tropear em armadilhas para javalis? - disse 
Dieda solenemente. - Pelo que Cynric me contou, esperava ver um grosseiro meio 
aluado, mas tu pareces razoavelmente civilizado.

Gaius assentiu sem se comprometer; era estranho ver uma rapariga to nova capaz de 
manter uma reserva to fria. Ele tinha gostado imediatamente de Eilan, mas, de algum 
modo, se bem que parecesse no haver nenhuma razo para que ela se importasse, sups 
que esta no gostava dele,

Cyriric acenou com a cabea e voltou-se para uma jovem que tinha passado com um 
jarro de leite.

- Mairi, o nosso hspede chama-se Gawen, se  que no te tornaste numa leiteira to 
zelosa que nem ao menos o possas cumprimentar. - A mulher mais velha inclinou a 
cabea num polido cumprimento, mas no respondeu. Quando se voltou, ele pde ver 
que ela no era gorda, mas sim que estava num estado de gravidez muito adiantado. 
Parecia que tinha estado a chorar.

- E somos todos, com excepo da minha irm mais nova, Senara - disse Cynric. Esta 
era uma rapariga de seis ou sete anos, com cabelo louro como o de Eilan. Olhou 
timidamente por detrs da saia de Mairi e ganhou coragem, dizendo:

- Eilan no veio para a cama comigo de todo; a me disse que ela ficou sentada ao p de 
ti toda a noite.

- Fico, ento, honrado pela sua gentileza - disse Gaius rindo -, mas o meu sucesso com 
as mulheres no  muito se a mais bonita de todas no me presta ateno. Por que no 
estavas tu tambm ansiosa para me velar, pequenina?

Ela era uma coisa pequena, rosada, de cara arredondada, e que lhe lembrava a sua 
prpria irm, que no tinha sobrevivido

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muito tempo  morte da me h trs anos. Puxou a criana para si com o brao so e 
esta trepou para a cadeira, a seu lado, onde alegremente se deixou ficar. Mais tarde, ela 
insistiu em partilhar o prato com ele, quando as raparigas mais velhas, Mairi e Dieda, 
lhes trouxeram comida, e Gaius, rindo, fez-lhe a vontade.

Cyriric e Dieda estavam a falar em voz baixa- Gaius tentou lidar com a sua comida, 
mas o seu brao ligado tornava a tarefa difcil. Eilan viu a dificuldade que ele estava a 
ter e veio sentar-se do outro lado. Com uma pequena faca afiada que usava no cinto, 
cortou-lhe discretamente a comida em pedaos que ele podia manejar e disse  criana, 
numa voz suave que no passou dos ouvidos deles, para no maar o seu hspede. Feito 
isto, a timidez de Eilan voltou-lhe. Dirigiu-se para a lareira, sem dizer uma palavra, e 
Gaius ficou satisfeito por poder observ-la.

Uma das servidoras trouxe uma criana de cerca de um ano at Mairi e a jovem mulher, 
sem o mnimo constrangimento, desabotoou o vestido e comeou a dar-lhe de mamar 
enquanto conversava com Cynric. Olhou para Gaius com uma curiosidade inocente, e 
disse:

- Agora vejo porque  que tiveste que pedir emprestadas a outra tnica e as calas do 
meu marido. Ele partiu para... Parou, franzindo as sobrancelhas. - No pensei que ele se 
importasse de emprestar a outra roupa que tem a um hspede, se bem que possa ter uma 
palavra a dizer-me se descobre que dei as suas roupas secas enquanto ele estava a 
tremer de frio na floresta. Diz-me Gawen, todos os Silures so to pequenos como tu, 
como um dos do povo pequenino, ou algum romano trepou para a cama da tua av uma 
noite?

Qualquer resposta que Gaius pudesse ter dado foi abafada pelas gargalhadas de toda a 
mesa. Gaius lembrou-se de que os Bretes eram dados a um tipo de gracejos mais 
pesados do que os que um romano de boa educao acharia de bom gosto. Era verdade 
que os Silures, para bretes, eram pequenos, escuros e de ossatura fina, quando 
comparados com os homens das tribos belgas, grandes e de pele clara. Cynric, Eilan, 
Dieda e Rheis eram desse tipo. Mas as poucas memrias que Gaius tinha do seu tio que 
governava os Silures eram as de um homem de poder, apesar da sua falta de altura, um 
homem de frias ou gargalhadas fceis, com drages tatuados enrolados pelos braos 
acima.

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Veio-lhe uma resposta, que no ousaria dar na sociedade romana, mas que, aqui, 
serviria muito bem.

- Quanto a isso nada posso dizer, senhora Mairi, mas elas servem-me bastante bem... e 
se no estivsseis relutante bem que as encheria.

Cyriric atirou a cabea para trs dando uma estrepitosa gargalhada, imitada por todos os 
outros. At a calma Rheis sorriu um pouco, mas rapidamente ficou sria outra vez, 
como se soubesse alguma coisa que Mairi no sabia. Por um momento pareceu que ela 
se forava  congenialidade. Virou-se para Ardanos.

- Pai, vamos ouvir um pouco de msica?

Ardanos agarrou na harpa e olhou penetrantemente para Gaius. O homem mais novo 
teve a sbita convico de que o velho druida sabia perfeitamente o que  que - e, talvez 
- quem ele era. Mas como  que podia? Gaius tinha o cabelo escuro como o seu pai, mas 
os Silures, tal como as outras raas do Oeste e do Sul, tambm eram conhecidas pelo 
seu cabelo escuro e encaracolado. Tinha quase a certeza de nunca ter posto os olhos no 
ancio anteriormente. Disse a si prprio que estava a imaginar coisas - provavelmente 
aquele olhar fixo, de suposto reconhecimento, tinha sido apenas devido a falta de viso.

O velho druida agarrou na harpa, dedilhou uma corda ou duas, depois p-la de lado.

- No estou com disposio para cantar - disse, olhando para uma das raparigas de 
cabelo loiro. - Dieda, minha filha, cantas tu para ns?

Eilan fez duas covinhas na cara e disse:

- Estou sempre ao vosso dispr, Av, mas no quereis realmente ouvir-me cantar, pois 
no?

Ardanos riu-se, mortificado.

- Ah, l estou eu outra vez, Eilan; s tu no s? juro que tu e a Dieda esto sempre a 
tentar confundir-me. Como se algum as pudesse distinguir at que abram a boca!

Rheis disse suavemente:

- No vejo que elas sejam to parecidas como isso, Pai. Claro, uma  minha irm e a 
outra minha filha, mas a mim no me parecem nada parecidas. Tendes a certeza que no 
 a vossa vista a comear a falhar?

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- No, confundo-as sempre at que uma delas comea a cantar - protestou o druida. - A 
 que ningum consegue confundir uma com a outra.

Eilan disse:

- No  preciso fazeres uma cara como uma triste ma azeda, av; eu no tive o treino 
dum bardo! - Caram depois em silncio, quando, sem qualquer acompanhamento, 
Dieda comeou a cantar:

Um pssaro no ar contou-me um enigma; Um peixe  um pssaro que nada no mar, 
Um pssaro  um Peixe que nada no ar.

A coberto da cano, Rheis chamou Mairi at si e perguntou:
- os romanos levaram mais algum alm do homem da mulher do estbulo?

- No que eu saiba, Me, mas Rhodri foi atrs deles antes que eu pudesse perguntar - 
disse Mairi abanando a cabea.
- Ele disse que a maioria das outras levas de mo-de-obra foram conduzidas para o 
Norte.

- Esse grande porco do Caradac! Ou devia dizer Clotinus, como os romanos lhe 
chamam! - explodiu Cynric. - Se o velho percevejo nos apoiasse os Romanos nunca se 
atreveriam a enviar as suas legies para esta parte do pas... mas enquanto toda a gente 
se juntar ou aos Romanos ou aos Calednios...

- Est calado! - disse Dieda rispidamente, interrompendo a cano. - Ainda acabas por 
tambm teres que ir para o Norte...

Rheis disse gentilmente:

- Ento, crianas, estes assuntos de famlia no interessam ao nosso hspede. - Mas 
Gaius percebeu que o que ela pretendia dizer era, No  seguro falar assim com um 
estranho em casa.

Ardanos disse calmamente:

- Esta regio do pas est mais calma que o que tem estado desde h anos. Os Romanos 
pensam que estamos domesticados, bons apenas para sermos espremidos para pagar 
impostos. Mas o melhor das tropas deles est fora, tentando conquistar a Novantae; 
logo, aqui h menos ordem.

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- Uma ordem dessas bem a podamos dispensar - disse Cynric ferozmente, mas Ardanos 
olhou-o fixamente e ele acalmou-se.

Gaius inclinou-se um pouco para a frente, na direco da luz da lareira. Tinha a 
sensao de que o melhor que tinha a fazer era manter-se em silncio, mas estava 
curioso.

- Estive em Deva h pouco tempo - disse vagarosamente.
- Havia rumores de que o Imperador poderia mandar regressar Agricola, de volta de 
Alba, apesar das suas vitrias. Dizem que no h proveito em gastar homens e 
abastecimentos Para manter uma terra to inspita.

- Dificilmente podamos ter tanta sorte - disse Dieda, e riu com desprezo. - Os Romanos 
podem, na realidade, vomitar o que comeram para arranjar espao nas barrigas para l 
meter mais; mas nunca nenhum romano cedeu um centmetro de terra conquistada!

Gaius abriu a boca; depois pensou melhor. Rheis disse:
- Agricola  assim to formidvel? Conseguir mesmo conquistar toda a Bretanha, at 
aos mares do Norte?

Ardanos fez uma careta.

- Os boatos em Deva         podem ter algum fundo de veracidade; no meio de lobos e         
de homens selvagens duvido que at mesmo os lavradores romanos consigam espremer 
muito lucro.

Dieda olhou para Gaius com uma sbita maldade.

- Tu que tens vivido entre romanos - disse -, talvez nos possas dizer porque  que eles 
esto a levar os nossos homens e o que  que lhes acontecer.

- Os senadores provinciais pagam os seus impostos com os homens das levas. Suponho 
que os levaro para as minas de chumbo nas montanhas do Mendip - disse 
relutantemente -, e, a, no sei o que lhes acontece.

Mas sabia. O chicote e a m alimentao seriam usados para lhes quebrar a fora de 
vontade e a navalha do castrador para desvirilizar quem quer que continuasse a resistir. 
Os que sobrevivessem  marcha seriam largados para trabalhar nas minas enquanto 
vivessem. Um brilho de triunfo nos olhos de Dieda disse-lhe que ela tinha adivinhado 
que ele sabia mais do que o que iria dizer. Ele estremeceu quando Mairi comeou a 
chorar. Nunca tinha

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conhecido - ou sequer pensado que o faria - algum que pudesse estar sujeito s levas.

- No se pode fazer nada? - gritou ela.
- No este ano     - respondeu o velho.

- No h muito que se possa fazer a esse respeito - disse Gaius defensivamente - mas 
no podem negar que as minas enriqueceram toda a Bretanha...

- Podemos viver sem essa riqueza - disse Cynric furiosamente. - Roma enriquece no 
topo, e escraviza no fundo.

- No foram apenas os romanos que enriqueceram... comeou Gaius.

- Ests a falar de traidores como Clotinus?

Rheis inclinou-se para a frente, para terminar uma conversa que  se tinha tornado 
desagradvel, mas Cynric no se deixava interromper.

- Tu que tens vivido entre romanos - disse iradamente Cynric - sabes como  que 
Clotinus, o hipcrita, fez a sua fortuna? Guiou as legies at Mona, ou s romano de 
mais para te lembrares que outrora havia a um lugar sagrado, a Ilha das Mulheres, 
talvez o lugar mais sagrado da Bretanha antes da chegada de Paulinus?

- Apenas que havia l um santurio - disse dum modo neutro Gaius, o seu pescoo a 
formigar de novo com a sensao de perigo. Para os Romanos, a destruio de Mona 
tinha sido ofuscada pela catstrofe provocada pela rebelio dos Iceni, mas ele no era 
estpido para discutir Mona na casa de um druida, especialmente porque Agricola, 
ainda no ano passado, tinha varrido qualquer resistncia que ainda a pudesse ter 
restado.

- Temos      aqui sentado um bardo, ao p da nossa prpria lareira - disse   Cynric -, que 
nos pode cantar sobre as mulheres de Mona dum       modo tal que o teu corao se 
partir!

Quase ao     mesmo tempo o druida disse:

- Hoje      noite no, rapaz - e a dona da casa inclinou-se para a frente.

- No       minha mesa; no  histria para ser contada enquanto hspedes tentam 
comer o seu jantar - disse enfaticamente.

A sugesto, pensou Gaius, foi impopular - ou suficientemente poltica para ter como 
resultado uma discusso arriscada.

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MARION ZIMMER BRADLEY

Mas concordou com os sentimentos do bardo; neste momento no tinha qualquer desejo 
de ouvir nenhuma histria sobre atrocidades dos Romanos.

Cynric pareceu ficar de mau humor por um instante, depois disse a Gaius em voz baixa:

- Ento conto-te mais tarde. Pode ser que a minha me adoptiva tenha razo; no  uma 
historia para ser contada  mesa do jantar, nem em frente de crianas.

- Faramos melhor - disse Rheis -, se falssemos sobre os nossos preparativos para a 
festa de Beltane - e Mairi e as raparigas, como obedecendo a um sinal, levantaram-se da 
mesa. Cynric ofereceu o brao a Gaius e ajudou-o a voltar para a cama.
O jovem romano estava bastante mais fatigado do que julgara; todos os msculos no 
corpo lhe doam e, se bem que estivesse decidido a no adormecer antes de ter 
exaustivamente passado em revista tudo o que se tinha passado, cedo se viu a dormir.

Durante os dias que se seguiram, o ombro ferido de Gaius inchou, o que o obrigou a 
ficar acamado com dores considerveis - mas Eilan, que o tratou devotadamente, disse 
que este desconforto no era nada comparado com a doena que poderia ter sido 
provocada por uma estaca to suja.

A nica parte do dia que era tolervel, era quando, duas ou trs vezes por dia, Eilan - 
que parecia ter-se nomeado a si prpria sua enfermeira - lhe trazia as refeies e o 
alimentava, j que ele dificilmente podia segurar numa colher, quanto mais cortar carne. 
No tinha estado to prximo de qualquer mulher desde que a sua me tinha morrido, e 
nunca compreendera bem o quanto tinha sentido a falta dessa proximidade. Talvez 
porque ela fosse mulher, ou porque fosse do povo da sua me, ou talvez por causa de 
alguma afinidade espiritual que os ultrapassava a ambos, sentiu-se realmente capaz de 
se descontrair com a sua companhia. Nas longas horas entre as suas aparies no tinha 
mais nada em que pensar, e parecia que, em cada dia que passava, a nsia que tinha de a 
ver era cada vez maior.

Uma manh, Cynric e Rheis sugeriram que lhe faria bem sair  rua para apanhar um 
pouco de sol e tentar andar. Manquejou dolorosamente at ao ptio, onde a pequena 
Senara o encontrou,

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tagarelando que Eilan e ela iam at ao prado apanhar flores e fazer grinaldas para o 
festival de Beltane do dia seguinte.

Em circunstncias normais, a ideia de ir sozinho com duas raparigas no teria atrado 
muito Gaius; mas depois dos ltimos dias na cama, teria dado as boas-vindas a uma 
viagem ao estbulo para ver Mairi - ou at a mulher do estbulo - ordenhar as vacas. De 
facto, parecia mais um piquenique, j que Cynric e Dieda se lhes juntaram. As raparigas 
mais novas tiranizavam Cynric: como se este fosse verdadeiramente seu irmo, e 
deram-lhe os seus xales e o cesto do almoo para transportar.

Senara escoltou Gaius; apoiou-se nela com mais fora do que  verdadeiramente queria e 
disse para si prprio que estava apenas a fazer a vontade  criana. Cynric parecia pairar 
sobre Dieda de um modo que pouco tinha de fraternal, falando em voz baixa. Ao olhar 
para eles, Gaius pensou se estariam prometidos um ao outro; no sabia o suficiente 
sobre os costumes das tribos para o dizer, mas no era to estpido que os fosse 
incomodar.

Colocaram o contedo do cesto na relva; havia po cozido de fresco, fatias de carne 
assada fria e mas - bastante mirradas e castanhas -, as ltimas, disseram as raparigas, 
da reserva do Inverno.

- Deixa-me ir procurar algumas bagas - Senara levantou-se num pulo, olhando  sua 
volta, e Eilan riu-se.

-  Pateta, estamos na Primavera. Pensas que o nosso hspede  um bode, para o poderes 
alimentar com flores?

Gaius no queria saber o que iam comer; estava exausto. Havia um frasco de sumo de 
fruta e outro de cerveja campestre fermentada de fresco. As raparigas no a beberam, 
dizendo que era amarga de mais; mas Gaius achou-a refrescante. Tambm havia bolos 
doces, que a prpria Dieda tinha feito. Ela e Cynric partilharam um chifre a servir de 
copo, e deixaram Gaius na companhia das outras raparigas.

Quando todos tinham comido tanto quanto podiam aguentar, Senara encheu uma bacia 
com a clara gua duma nascente que havia num canto do prado e perguntou a Eilan se 
podia ver a cara do seu amado na gua.

- Isso  uma superstio antiga - disse Eilan -, e eu no tenho nenhum amado.

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MARION ZIMMER BRADLEY

- Eu tenho - disse Cynric, agarrando na bacia e olhando fixamente para ela. - Mostrar-
me- a gua a tua cara, Dieda? Ela chegou-se e espreitou por cima do seu ombro.

-  tudo um disparate - disse. Gaius pensou que ela ficava mais bonita quando corava.

- Olhaste para a gua, Eilan? - perguntou Senara, puxando-lhe pela manga.

Eilan disse:

- Penso que  uma blasfmia tentar forar a Deusa a exprimir-se dessa maneira! O que  
que Lhiannon diria?

- Algum aqui se importa? - perguntou Dieda com um pequeno sorriso estranhamento 
duro. - Todos sabemos que ela no diz nada a no ser o que lhe  dito pelos sacerdotes.

- O teu pai importa-se - disse Cynric sobriamente.

-  verdade, importa-se - disse Dieda             e, sendo assim, suponho que tu tambm te 
devas importar.

Senara virou-se para ela.

- Diz-me o que viste na gua, Dieda               pediu estridentemente.

- A mim - disse Cynric -, ou pelo menos espero-o.
- Nesse caso ficarias mesmo nosso irmo. - Senara sorriu-lhe.

-  Por que  que pensas que quero casar com ela? - Cynric sorriu maliciosamente. - Mas 
ainda temos que falar com o teu pai.

- Pensas que ele se opor? - Dieda pareceu subitamente ansiosa, e ocorreu a Gaius que 
ser filha do Arquidruida podia ser ainda mais constrangedor que ser filho de um 
Prefeito.
- De certeza que se ele me tivesse prometido noutro lado qualquer j me teria falado 
sobre isso!

- E com quem te casars tu, Eilan? - perguntou Senara. Gaius inclinou-se para a frente, a 
sua ateno subitamente desperta.
- Ainda no pensei nisso - disse Eilan corando. - Por

vezes parece-me que ouo a Deusa... talvez eu deva entrar para a Casa da Floresta como 
uma das virgens do Orculo.

- Antes tu que eu - disse Dieda. - Nunca te invejarei essa vida.

- Ugh! - Senara abanou a cabea. - Querias mesmo viver completamente sozinha?

A CASA DA FLORESTA

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- isso seria um desperdcio vergonhoso - disse Gaius.
- No h nenhum homem com quem queiras casar?

Eilan olhou para ele, e manteve-se silenciosa um instante antes de responder, dizendo 
ento, vagarosamente:

- Nenhum ao qual os meus pais achassem apropriado entregar-me. E a vida na Casa da 
Floresta pode ser muito recompensadora. As mulheres sagradas aprendem todas as 
formas da sabedoria e as artes curativas.

Ento, pensou Gaius, ela gostaria de ser uma sacerdotisa curadora. Tal como tinha dito a 
Senara, pensava que seria um grande desperdcio para algum que tinha trazido tanta 
beleza ao mundo. Eilan era bastante diferente de tudo o que tinha ouvido dizer sobre as 
raparigas brets, as quais, pensava ele, eram todas parecidas com a filha de Clotinus. O 
seu pai tinha falado, algumas vezes, em promet-lo em casamento  filha dum velho 
amigo, um alto funcionrio em Londinium, mas ele nunca tinha visto a rapariga.

Agora, ocorria-lhe que lhe poderia ser de mais utilidade casar com algum como Eilan. 
Afinal de contas, a sua prpria me tinha sido uma mulher das tribos da Bretanha. 
Olhou para Eilan durante tanto tempo que esta se sentiu incomodada.

- Tenho alguma mancha na cara? - perguntou ela. - Devamos comear com as nossas 
grinaldas para o festival. - Subitamente, ps-se em p e comeou a percorrer o prado, 
que estava literalmente coberto com flores azuis, prpuras e amarelas. - No, no os 
jacintos - disse para Senara, que a tinha seguido. - Vo murchar cedo de mais.

- Mostra-me ento as que devo usar - pediu Senara.
- Gosto destas orqudeas azuis... no ano passado vi as sacerdotisas us-las.

- Penso que os pecolos delas so duros de mais para entrelaar mas vou tentar - disse 
Eilan, agarrando na mo-cheia de flores de Senara. - No. No consigo faz-lo; sem 
dvida que as donzelas de Lhiannon conhecem algum truque que eu no conheo - 
declarou Eilan. - Tentemos as primaveras,

- So tantas como as ervas daninhas - queixou-se Senara, e Eilan comeou a franzir as 
sobrancelhas.

- O que  que acontece no festival? - perguntou Gaius para a distrair.

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MARION ZIMMER BRADLEY

- Levam o gado pelo meio das fogueiras e Lhiannon invoca a Deusa para dizer os 
Orculos - declarou Eilan, as mos cheias de flores.

- E os apaixonados encontram-se junto das fogueiras
- disse Cynric, olhando para Dieda -, e casais prometidos tornam conhecidos os seus 
votos. Aqui, Senara, tenta estas.

- Essas so as que eu estava tentar entranar - queixou-se Eilan -, mas os seus pecolos 
so duros de mais. Dieda, essas flores iro servir?

A rapariga mais velha estava ajoelhada em frente de uma moita de um espinheiro, em 
plena, estrelada florescncia. Ao ouvir a pergunta, virou-se e picou o dedo num espinho. 
Cynric aproximou-se dela e beijou-o o que a fez corar e perguntar rapidamente:
- Queres que te faa uma coroa, Cynric?

- Como quiseres. - Nesta altura, um corvo crocitou no meio das rvores e o seu rosto 
modificou-se. - O que estou eu a dizer? Agora no devia estar a pensar em grinaldas.

Gaius viu-a abrir a boca, como que para perguntar a Cynric por que no, depois deter-
se, e pensou se seria por ele ser um estranho. Ela deitou fora as flores e comeou a 
recolher os pratos em que tinham comido, Eilan e Senara tinham acabado as suas 
grinaldas.

- Rheis vai ficar muito zangada se nos esquecermos de levar nem que seja apenas um 
prato destes - notou Dieda. - E vocs, raparigas,  melhor acabarem de comer esses 
bolos.

Senara pegou num dos bolos e partiu-o em dois, entregando metade a Gaius.

- Agora que partilhmos o mesmo bolo s o meu hspede do corao - disse. - Quase 
meu irmo.

- No sejas to pateta, Senara - disse Eilan reprovadoramente. - Gawen, no deixes que 
ela te aborrea.

- Oh, deixa-a estar - disse Gaius -, ela no me est a maar. - Pensou outra vez na sua 
irm morta e tentou imaginar como teria sido a sua vida se ela fosse viva, Quando se 
ps de p cambaleou um pouco e Eilan veio segurar-lhe no brao, entregando as suas 
grinaldas a Dieda.

- Temo que te tenhamos cansado, Gawen - disse, - Aqui, apoia-te em mim. Cuidado no 
batas com o brao em nada avisou, afastando-o duma rvore.

A CASA DA FLORESTA

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- Ora, Eilan, j ests uma sacerdotisa curadora - disse Cynric. - Gawen, se quiseres 
podes apoiar-te em mim, Claro, Eilan  muito mais bonita do que eu, por isso talvez eu 
deva ajudar Dieda - disse, o rosto iluminando-se-lhe; e deu o brao a Dieda quando 
comearam a andar de volta pelo caminho.
- Gawen, penso que o melhor  ires directamente para a cama em vez de te levantares 
para o jantar. Eilan leva-to l depois. Tive demasiado trabalho com esse brao para que 
agora estragues tudo.

TRS

A residncia da Sacerdotisa do Orculo era quadrada, como um santurio, rodeada por 
um prtico com um telhado e situada um pouco afastada dos outros edifcios dentro dos 
muros de Vernemeton. Se bem que o povo se referisse  totalidade do recinto como a 
Casa da Floresta, esta era, na verdade, uma comunidade completa, cujos numerosos 
edifcios eram ligados por caminhos cobertos. jardins e ptios, entre eles, faziam com 
que o conjunto formasse como que um labirinto. Apenas os alojamentos da Gr 
Sacerdotisa estavam localizados longe dos outros, porque apenas ela estava rodeada 
pelo gnero de total simplicidade que  mais difcil de suportar que o mais rgido dos 
rituais.

Quando o Arquidruida Ardanos chegou foi imediatamente levado  sua presena pela 
sacerdotisa que a assistia, uma mulher alta, de cabelo escuro, chamada Caillean. Estava 
vestida de modo muito semelhante  Gr Sacerdotisa, com um vestido de linho azul-
escuro, mas as argolas nos braos e o colar na garganta de Lhiannon eram de ouro puro, 
enquanto os da sua servidora eram de prata.

- Podes retirar-te, criana - disse Lhiannon a Caillean. Ardanos esperou at que a cortina 
da porta se tivesse fechado atrs dela e sorriu.

- Ela j no  nenhuma criana, Lhiannon. Muitos Invernos j se passaram desde que 
viestes com ela para a Casa da Floresta.
-  verdade, perco a conta aos anos - retorquiu Lhiannon. Ela ainda era, reflectiu 
desapaixonadamente o druida Ardanos, uma mulher excepcionalmente bonita. j a 
conhecia h muitos anos e era, provavelmente, a coisa mais parecida com um amigo, da 
sua prpria gerao, que ainda vivia. Quando ela era mais nova isso tinha-lhe custado 
muitas noites de insnia;

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MARION ZIMMER BRADLEY

agora estava mais velho, e era muito raro lembrar-se de como ela tinha perturbado a sua 
paz.

Todas as sacerdotisas da Casa da Floresta, em Vernemeton, o Bosque Mais Sagrado, 
eram escolhidas tanto pela sua beleza como por qualquer outro atributo. Isto 
surpreendeu-o sempre. Conseguia entender que um deus quisesse ser servido por 
mulheres bonitas, especialmente se fosse alguma desprezvel divindade romana, mas 
no estava nada de acordo com o que ele sabia sobre as mulheres que uma deusa 
quisesse que as suas servidoras fossem bonitas de mais.

O seu silncio no era minimamente compelido pela presena do grande labrego, Huw, 
que exibia um cacete e estava parado junto  porta, e que estoiraria imediatamente os 
miolos a qualquer homem - at os do prprio Arquidruida - que fizesse um movimento 
ofensivo ou pronunciasse uma palavra desrespeitosa  sacerdotisa. Ardanos, claro, no 
tinha essa inteno; a presena de Huw assegurava simplesmente a segurana de 
Lhiannon e concedia-lhe uma liberdade para receber visitantes que no era permitida a 
outras.

Ardanos sabia que no parecia suficientemente venervel para honrar a posio de 
Arquidruida e tambm, que no era o renascido Merlin da Bretanha. Mas consolava-se 
com o pensamento de que Lhiannon tambm j no se parecia muito com a encarnao 
viva, e profetisa, da Sagrada Deusa da Sabedoria e Inspirao. Ela era graciosa e 
delicada, e o seu rosto estava refinado pela austeridade mas, quanto ao resto, era apenas 
uma mulher envelhecida, se bem que o seu cabelo fosse to loiro que era quase 
impossvel detectar os fios cinzentos que, ele sabia, tinham de l estar. O seu vestido 
sacramental azul-escuro caa em pregas duras e deselegantes. Os direitos ombros tinham 
comeado a descair um pouco com a fadiga. Ardanos sentiu ainda mais a sua prpria 
idade ao olhar para os sinais to evidentes da dela.

Nos ltimos anos, em considerao pela sua idade, Lhiannon tinha comeado a usar 
uma touca na cabea, como fazia a maioria das matronas e mulheres mais idosas, 
excepto quando soltava o cabelo para o ritual. E no entanto, reflectiu Ardanos, durante 
vinte anos - e ele tinha-a conhecido durante a maior parte desse tempo - a figura e o 
rosto desta mulher tinham sido fundamentais para a sua f, e atravs dos seus lbios 
tinha sado, se no

A CASA DA FLORESTA

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a palavra literal dos deuses, pelo menos essa palavra tal como interpretada pelos 
sacerdotes do Orculo.

E, deste modo, talvez houvesse, apesar de tudo, algo de divino no rosto desta mulher 
que envelhecia, uma divindade que se pegava como uma fragrncia. Talvez fosse algo 
que a tivesse sido investido pelas multides perante as quais esta mulher aparecia como 
a prpria Deusa; no, para eles, como um mero smbolo da sua f, mas, nas suas literais 
mentes infantis, como o prprio eu da Deusa - a grande Virgem Me das Tribos, 
Senhora da Terra, em carne e osso.

Lhiannon levantou a cabea.

- Ardanos, tens estado a olhar para mim h tanto tempo que dava para mungir uma 
vaca! Vieste aqui para me dizer qualquer coisa ou para fazer perguntas? Atira-o c para 
fora, homem!
O pior que posso fazer  dizer que no. E quando  que alguma vez fui capaz de te dizer 
no? - E eram estas as palavras da divindade, pensou Ardanos, contente por colocar uma 
capa de cinismo sobre uma disposio que se estava a tornar opressiva.

- Perdoai-me, Senhora da Santidade - disse suavemente.
- Os meus pensamentos estavam noutro lugar,

Viu a surpresa dela quando se levantou outra vez, deu alguns passos impacientemente, e 
disse de modo abrupto:

- Lhiannon, estou preocupado; ouvi um boato em Deva, e que foi repetido por nada 
menos que o filho do Prefeito; Roma pode retirar as legies.  a terceira vez que ouo 
falar disto e,  sabido, h sempre uma faco a gritar  Abaixo Roma , mas...

- E muitos desses que passam boatos e gritam esto  espera, ou pelo menos tm a 
esperana, que nos ergamos e gritemos com eles. No acredito nesse teu rumor - disse 
Lhiannon asperamente. - Mas, se isso fosse verdade, tenho a certeza de que podamos 
viver sem eles. No  para que isso acontea que temos estado a rezar desde que 
Caractus passeou acorrentado pelas ruas de Roma?

- Fazeis alguma ideia do caos que isso criaria? - perguntou Ardanos. - A prpria faco 
que grita  Abaixo Roma ...  via-se que tinha gostado da metfora...

- ... certamente no percebe o que acontecer se o seu desejo se concretizar - disse 
Lhiannon.

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MARION ZIMMER BRADLEY

 Ela conhece-me muito bem; agora at acabmos os pensamentos um do outro , 
pensou Ardanos. Mas ele no queria deixar acabar aquela sequncia de pensamento.

- Concedo que tenha existido uma faco dessas desde que Csar ganhou a fama que 
precisava para governar Roma ao invadir a Bretanha! Mesmo agora, eles esperaro que 
ns, os do Bosque Sagrado, nos juntemos aos seus gritos - disse Ardanos -, e no 
percebero quando nos mantivermos silenciosos. Nesta altura estou preocupado que 
estoure a desordem durante Beltane...

- No. Penso que Beltane est suficientemente seguro disse Lhiannon. - As pessoas vm 
para os jogos, para as fogueiras, para se divertirem, e tudo o resto. Se fosse Samaine, 
isso...

- Estas ltimas levas de mo-de-obra pioraram as coisas disse Ardanos. - Levaram trinta 
dos homens de Bendeigid, todos os escravos libertos quando ele foi proscrito e at o seu 
prprio homem ajuramentado. Proscrito. - Riu melancolicamente. Ele no sabe a sorte 
que teve; apenas o proibiram de viver a menos de vinte milhas de Deva! E, todavia, 
ainda no foi informado sobre todas as levas, mas quando o for... bem, j antes me 
chamou coisas piores que traidor; as suas blasfmias no me incomodam.

- Tenho autorizao para realizar a reunio de Beltane; falei com o prprio Macellius 
Severus e pedi-lhe licena para realizar um   ,festival pacfico, como tem sido nestes 
ltimos sete ou oito anos, dedicado a Ceres, e  porque ele me conhece e confia em mim 
que no enviaram alguns legionrios para se assegurarem de que eles no saiam da 
ordem e, digamos assim, decidam em vez disso adorar Marte.

Lhiannon pestanejou e ele percebeu que se estava a lembrar desses dias de sangue e 
fogo, quando Boudicca tinha sacrificado homens  Deusa em troca da vitria. Eram 
todos to jovens, nesses dias, to seguros que podiam fazer voltar os dias de glria com 
um pouco de coragem e uma espada bem afiada.

- Se houver qualquer distrbio - disse Ardanos -, nem que seja uma simples 
demonstrao, sabeis to bem como eu que esta parte do pas ser feita em pedaos. 
Mas como  que eu podia saber que as legies deles tinham acabado de Passar por aqui 
e levado trinta bons homens para apodrecer nessas imundas minas de Mendip?

A CASA DA FLORESTA

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Mas ele deveria t-lo sabido; era suposto ele saber o que os romanos estavam a 
preparar mesmo antes de eles prprios o saberem. Tinha de estar pronto para a afronta 
seguinte qualquer que ela pudesse ser.

Ela disse:

-  Cancelar os ritos to tarde criaria, provavelmente, desassossego  mesmo onde antes 
nada havia. Queres que o tente? Tm havido quaisquer incidentes... talvez em reaco 
s levas?

-  No tenho a certeza - disse Ardanos. - Parece que algum tentou fazer com que o 
filho do Prefeito... desaparecesse...
- O filho do Prefeito - Lhiannon levantou uma fina sobran-

celha como se a pensar porque  que algum se importaria. Para protestar ou para 
causar problemas ao nosso povo? No seria mais do gnero de Bendeigid matar os 
homens que vieram para escoltar as levas?

- Ele encontrou o rapaz preso numa armadilha para javalis, salvou-lhe a vida e, agora, o 
rapaz  hspede na sua casa. Lhiannon olhou fixamente para ele durante um bom 
momento e comeou a rir.

- E o teu genro, Bendeigid, no o sabe?

- O rapaz parece-se o suficiente com a sua me silure para passar por um dos nossos e 
tem presena de esprito que chegue para no se denunciar. Mas ainda precisa de se 
restabelecer antes de se poder deslocar. Se acontece alguma coisa ao moo, que nunca, 
tanto quanto sei, fez nada de bom ou de mau, sabeis to bem como eu que seremos 
culpados por isso. Somos culpados por tudo o resto, at por factos to remotos como a 
pilhagem de Troy, e at mesmo pelo simples facto de as legies estarem aqui e no de 
volta  Glia, aonde pertencem. Existem as velhas histrias das atrocidades que 
remontam ao deificado Jlio... que descanse em paz - acrescentou Ardanos, com uma 
careta de ferocidade que mostrava, ela estava segura, que ele queria dizer exactamente o 
contrrio.

- H, no obstante, um elemento de revolta - disse ele.
- No o podeis ver, situada onde estais; no dou muito por ele, vivendo no meio de 
romanos h tanto tempo. Mas  minha obrigao ver os ventos. Ler sinais e pressgios. 
Por exemplo... onde os corvos voam  meia-noite; falo da sociedade secreta que adora a 
Senhora das Batalhas.

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MARION ZIMMER BRADLEY

Isto f-la rir.

- Oh, Ardanos! Esses velhos meio malucos que fazem sacrifcios a Cathubodva, lendo a 
sina e  procura de pressgios nas entranhas de pssaros mortos, to maus como as 
legies com os seus galinheiros sagrados... nunca ningum lhes prestou a mnima 
ateno...

- Isso  o que eles eram - disse Ardanos. Disse para si prprio que ficava contente com a 
possibilidade de poder contar a Lhiannon alguma coisa que ela no sabia. Nos velhos 
tempos, as sacerdotisas tinham tido o mesmo peso que os druidas nos seus conselhos, 
mas, desde a queda de Mona, tinham aprendido a ser reservados para poderem 
sobreviver. Nalgumas ocasies, o Arquidruida tinha, mesmo, de        agir por si prprio. 
Por vezes Ardanos pensava se no estariam a levar isto longe de mais se as sacerdotisas 
no poderiam cumprir melhor as decises do conselho se tivessem voz na sua       
realizao. Se assim fosse, no se teria sentido to sozinho com o problema.

- Isso  realmente o que eles eram, ainda no h uns trs anos. Agora, de repente, em 
vez de velhos sacerdotes e sacrificadores, so um grupo de jovens, nenhum com mais de 
vinte e um anos de idade, a maioria dos quais nasceram na Ilha Sagrada, que pensam ser 
a reincarnao do Bando Sagrado...

- Essas crianas! Nascidos como nasceram no me admira.
- A sua testa ia-se enrugando  medida que comeava a perceber.
- Exactamente - continuou ele. - Esse rapaz, Cynric, que

Bendeigid est a criar,  um deles, e o meu genro, que teve sempre um trao de 
fanatismo, no perdeu tempo a partilhar as suas ideias polticas com o rapaz!

Lhiannon ficou branca.

- Como, se  que posso perguntar, aconteceu isso?

- Nunca pensei que fizesse qualquer diferena; foi antes de a minha filha Rheis casar 
com Bendeigid e eu no o conhecia assim to bem. Quando percebi o sarilho que 
qualquer deles podia causar era tarde de mais. Cynric est preparado para comear onde 
o seu pai adoptivo parar. Ele e Bendeigid, entre ambos, conseguiram encontrar a 
maioria dos rapazes... e l estavam os Ravens, com um nome e uma organizao prontos 
a entregar...

- Se alguma coisa me acontecer, ou a vs... - Ele abanou a cabea, com uma careta. - 
Quem poder fazer com que eles

A CASA DA FLORESTA

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ponham fim  tentativa de se vingarem, sobre Roma, da vergonha das suas mes? As 
pessoas, daqui at aos lagos, j esto a espalhar que estes homens so heris 
reencarnados.

-   E pode ser que o sejam - disse Lhiannon. Ardanos resmungou.

- O pior de tudo  que o parecem.

- Eu aconselhei que fossem todos afogados, no apenas as raparigas, lembras-te? - disse 
Lhiannon, recuperando a compostura. - Por cruel que parea, teria evitado os problemas 
agora. Mas havia outros que tiveram outras ideias; foram compassivos ou, como 
Bendeigid, quiseram educar os rapazes para vingarem as sacerdotisas. E, assim sendo, 
ainda esto vivos, e j  vinte anos tarde de mais para negar a sua existncia. No 
posso, agora, dizer que eles no tm nenhum direito  vingana.

Isso nunca, pensou Ardanos. No podia sugerir, nunca, que a palavra de Lhiannon era a 
sua prpria palavra, ou a palavra dos sacerdotes, e no a palavra da Deusa. No podia 
recordar-lhe que a palavra de Lhiannon nunca tinha diferido, em nenhum modo 
essencial, da vontade expressa do Conselho dos Druidas ou que a Deusa - se  que ela 
existia de todo, pensou cinicamente no teria h muito deixado de se preocupar em 
intervir no que acontecia aos seus adoradores, ou a qualquer outra pessoa, excepto - ou 
talvez at incluindo - a sua sacerdotisa.

Disse cautelosamente:

- No estava a insinuar nada. Lembro-vos, simplesmente... no  preferis sentar-vos? O 
vosso guarda est a olhar para mim dum modo muito inquietante... eu apenas disse que 
se a Deusa responder s vossas preces em favor da paz, Ela tambm ouvir, e ignorar, 
as preces da maioria da populao a favor duma revolta declarada ou da guerra. Durante 
quanto tempo mais continuar Ela a ouvir as vossas preces e a ignorar as deles? ou, 
pondo-o ainda mais directamente - mas no suficientemente directo, pensou ele -, 
desculpai-me por isto, mas j no sois nenhuma jovem; e no dia em que j no 
estiverdes ao servio do santurio?

Se ao menos pudesse dizer-lhe a verdade. Uma paixo que pensava j ter esquecido 
apertou-lhe a garganta. Ela e eu enfraquecemos com a idade, mas Roma ainda  forte. 
Quem ensinar os mais novos a preservar os nossos antigos costumes at que

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MARION ZIMMER BRADLEY

Roma, por seu turno, se torne velha e a nossa terra seja a nossa prpria de novo?

Passado um momento ela deixou-se cair numa cadeira e tapou os olhos com as mos. Disse:

- Pensas que eu no pensei nisso?

- Sei que penssteis nisso - disse ele. - E sei o resultado dos vossos pensamentos. Vernemeton poderia ser um dia 
servida por algum que, digamos, correspondesse aos gritos de muitos a favor da guerra em vez de o fazer s preces 
da sua Sacerdotisa. E, nessa altura, haveria guerra. E sabeis o que seria de ns ento.

- S posso servir o santurio enquanto for viva - disse Lhiannon amargamente, - Mesmo tu no podes pedir-me mais 
que  isso.

- Enquanto viveres - fez-se eco o velho druida -  disso que  precisamos de falar neste momento. - Lhiannon passou a 
mo pelos olhos. Mais suavemente, ele perguntou:

- No sois vs a escolher a vossa prpria sucessora?

- De certo modo. - Ela respirou fundo. - Dizem que o saberei quando estiver para morrer, para assim poder transmitir 
os meus poderes e a sabedoria que possuir. Sabes quem faz a verdadeira escolha, No fui eu a escolhida de Helve. Ela 
amava-me,  certo, mas no fui eu a sua escolha. Essa escolha, o seu nome no interessa, tinha apenas dezanove anos 
e era um pouco lenta de esprito. Foi nela que recaiu a escolha de Helve; deu a essa rapariga o beijo de despedida e, 
no entanto, ela no foi sequer considerada, nem lhe foi dado nenhum julgamento s mos dos deuses. Por que no? 
Sem dvida que o sabeis melhor do que eu. Os sacerdotes fizeram a escolha final. O que eu disser sobre a minha 
sucessora ter pouco peso... a menos que eu seja suficientemente cuidadosa para nomear algum aceitvel para eles.

- Contudo - disse Ardanos -, isso podia-se arranjar... que a vossa escolha fosse a deles.

Ela disse:

- A tua escolha, queres    dizer,

- Se preferirdes, - Ele    suspirou, Ela era rpida de mais a adivinhar-lhe os pensamentos, o que dificilmente lhe 
poderia levar a mal - certamente no nestas circunstncias.

- Tentei isso uma vez - disse Lhiannon fatigadamente com Caillean; e sabes no que  que deu essa tentativa.

A CASA DA FLORESTA

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_ Sei? - perguntou ele.

Lhiannon olhou para ele de um modo estranho.

- Devias prestar mais ateno ao que se passa na Casa da Floresta. Desconfio que irias achar muito difcil. confiar 
nela; ela tem o hbito extremamente incmodo de pensar, e isto, especialmente, logo nas alturas erradas.

- Mas ela  a sacerdotisa mais antiga. Se morresses amanh sabeis que Caillean seria a escolhida, a no ser - 
acrescentou com nfase - que ela morresse durante o julgamento, - Lhiannon empalideceu, e ele continuou: - Sois 
quem melhor sabe se ela seria aceitvel para os deuses...

Desta vez ela ficou silenciosa, e ele acrescentou persuasivamente:

- Mas se houvesse outra pessoa, menos bem conhecida, algum que pudsseis treinar. Se o Conselho... nunca 
suspeitasse de um arranjo prvio-

- Se a rapariga fosse adequada e inteligente no vejo porque se pudesse pensar que era um crime, ou uma blasfmia, 
prepar-la para a escolha dos deuses... ou at para o ordlio s suas mos - disse pensativamente a velha Gr 
Sacerdotisa.

Ardanos ficou em silncio; sabia que isto era o mximo at onde podia tentar influenci-la. L fora podia ouvir o 
vento a sussurrar nas rvores, mas dentro do quarto no havia nenhum som excepto o da sua respirao.

- Quem escolheste para eu escolher? - perguntou Lhiannon.

Durante os trs dias que precediam um dos festivais no qual deveria servir como a Voz da Deusa, a Gr Sacerdotisa 
vivia em recluso, servida apenas pelas sacerdotisas por si escolhidas, descansando, meditando e purificando-se. 
Caillean, que quase sempre lhe ficava a fazer companhia, ficava grata por este perodo de isolamento. O refgio da 
Casa da Floresta podia tornar-se constrangedor e, onde quer que tantas mulheres, se bem que sagradas, vivessem 
juntas, era inevitvel haver conflitos de tempos a tempos.

Nesta altura, porm, achava difcil deitar para trs das costas as memrias do mundo exterior. Ela deitou alguma papa 
de aveia tornada mais nutritiva pela adio de nozes, uma vez que a Gr

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MARION ZIMMER BRADLEY

Sacerdotisa no podia comer nenhuma carne durante o seu perodo de purificao - 
numa tigela de madeira esculpida e ofereceu-a a Lhiannon.

- O que  que Ardanos queria de vs? - Caillean sentiu a amargura na sua prpria voz, 
mas no conseguiu deter as palavras,
- No esperava v-lo seno no dia do festival.

- No deves falar dessa maneira do Arquidruida, criana.
- Lhiannon abanou a cabea, franzindo as sobrancelhas. - Ele tem que suportar um 
pesado fardo,

- Tambm vs tendes - disse Caillean acidamente -, e ele no o torna mais leve com as 
exigncias que vos faz. Lhiannon encolheu os ombros e Caillean pensou, uma vez

mais, quo frgeis eles eram para suportar o peso de tantas esperanas e medos.

- Ele faz o melhor que pode - disse a Gr Sacerdotisa como se no tivesse ouvido. - 
Preocupa-se com o que se passar depois de eu me ter ido.

Caillean olhou-a alarmada, Dizia-se que uma sacerdotisa, especialmente uma de alta 
posio, sabia quando chegava a sua altura,
- Tivsteis algum pressgio... teve ele?

Lhiannon abanou a cabea com irritao,

- Ele falou dum modo geral, mas algum deve pensar nestas coisas. Ningum  imortal, 
e quem quer que venha a suceder-me deve comear rapidamente o seu treino.

Durante um instante Caillean olhou para ela. Depois riu-se.
- Pelo que dizeis devo entender que nenhuma de ns, que j estamos treinadas,  
aceitvel... especialmente eu? No vos preocupeis em responder - disse depois. - Sei que 
apenas o defendereis e, na verdade, no me importo. O ttulo de Gr Sacerdotisa no  
suficiente para justificar o que vos tenho visto sofrer durante todos estes anos. - 
Especialmente, pensou, na medida em que a dignidade desse ttulo estava esvaziada 
enquanto Lhiannon no escolhesse exercer o poder que detinha.

Lhiannon teve um gesto de desconforto e Caillean percebeu que estava a entrar de mais 
em terreno proibido. Tinha sido mais ntima da idosa mulher que uma filha, ainda antes 
do seu primeiro perodo lhe ter aparecido, e isso j tinha acontecido h mais de vinte 
anos, pelo que sabia como Lhiannon estava dependente das iluses que a protegiam da 
realidade.

A CASA DA FLORESTA

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outra mulher podia ter perguntado      a Caillean o que  que ela queria em vez disso. os 
lbios de Caillean retorceram-se quando ps de lado a papa meio comida porque, na 
realidade ela prpria tambm no o sabia. Mas o corao dizia-lhe que devia haver 
alguma coisa mais no servio da Deusa que estes rituais formais com as suas 
torturantes sugestes de poder.

os ensinamentos secretos dos druidas incluam lendas de um tempo muito antigo, 
quando sacerdotes de uma terra perdida, agora afundada debaixo do mar, tinham 
chegado  Bretanha, Tinham sido mestres da magia e,  medida que casavam dentro 
das linhagens reinantes do povo que aqui tinham encontrado e, mais tarde, com as 
famlias de cada novo grupo de conquistadores, o sangue antigo e o novo conhecimento 
tinham sido preservados. Mas aqueles que eram mais versados nessas tradies tinham 
morrido em Mona e o seu conhecimento com eles.

Por vezes, parecia a Caillean que o que a Casa da Floresta ainda retinha eram apenas 
resduos do poder. Muitas das outras mulheres estavam satisfeitas com a sua pequena 
magia mas, de tempos a tempos, Caillean sentia uma estranha convico de que devia 
haver qualquer coisa mais. Tinha falado a verdade a Lhiannon - no queria ser 
Sacerdotisa do Orculo. E, no entanto, se no era isso, o que  que era que ela queria 
fazer?

- So horas das nossas oraes da manh - a voz de Lhiannon penetrou a sua abstraco. 
A mulher mais idosa agarrou-se  mesa e ps-se de p.

E a Deusa probe que falhemos, mesmo no mais nfimo dos pormenores do ritual , 
pensou Caillean enquanto ajudava a Gr Sacerdotisa a dirigir-se para o jardim e a 
colocar-se em frente do modesto altar de pedra que a se encontrava. Mas, quando 
Caillean acendeu a lamparina que estava em cima dele e trouxe as flores para depositar 
 sua frente, reencontrou uma certa paz de alma.

- Olhai, Tu que chegaste com a aurora, adornada com flores
- disse suavemente Lhiannon, erguendo as mos numa saudao,
- O Vosso resplendor brilha no fortalecido Sol e no fogo sagrado - respondeu Caillean.

- A leste nascendo, Tu ests a surgir para trazer nova vida ao mundo. - A voz da Gr 
Sacerdotisa parecia tornar-se mais jovem, mais pura, e Caillean sabia que se tivesse 
olhado teria visto

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MARION ZIMMER BRADLEY

as rugas desaparecerem da face de Lhiannon, at a beleza da Deusa Virgem 
resplandecer nos seus olhos.

Mas, nessa altura, j o mesmo poder lhe enchia o seu prprio corao.

- As flores brotam onde pisais; a terra torna-se verde 			onde Vs 
passais--- - Como tantas vezes o tinha feito, deixou que o ritmo do ritual a transportasse 
para um lugar onde apenas existia a harmonia da Senhora.

Na manh do festival de Beltane, Eilan acordou antes do nascer do Sol, na casa das 
mulheres onde dormia com as suas irms. A cama de Eilan, uma estrutura de madeira 
ligada com tiras de couro cru e coberta de peles e finos cobertores de l, estava 
construda junto ao inclinado tecto de colmo, to perto que ela podia estender um brao 
e toc-lo. Ao longo dos anos, tinha alargado uma racha no emboo de lama at a 
transformar numa abertura pela qual podia espreitar. L fora, a luz duma matinal 
alvorada de Vero estava prestes a romper.

Deitou-se de novo, com um suspiro, tentando lembrar-se dos seus sonhos, Tinha havido 
algo sobre O festival, e depois o cenrio tinha mudado. Ela sabia que tinha havido uma 
guia e ela tinha sido um cisne e, nessa altura, pareceu-lhe, a guia tinha-se 
transformado tambm num cisne e tinham ambos voado para longe.

A pequena Senara ainda estava a dormitar; dormia encostada  parede porque ainda era 
suficientemente pequena para cair da cama. Os seus joelhos dobrados, 	pontiagudos, 
espetavam-se no flanco de Eilan. Do outro lado do quarto, Mairi, que tinha 
temporariamente voltado para junto das irms at que soubessem o que tinha acontecido 
a Rhodri, dormia com o seu filho; e, do lado de fora, dormia Dieda, com o seu cabelo 
solto espalhado pela cara e com a roupa desabotoada, de modo que Eilan podia ver  
volta do seu pescoo a corrente que segurava o anel de Cynric.

Rheis e Bendeigid ainda no sabiam que os dois se tinham comprometido um com o 
outro. O segredo tornava Eilan apreensiva. Mas eles faziam teno de o anunciar neste 
festival, e pedir  famlia que comeasse as complexas negociaes respeitantes ao dote 
e aos acordos, para que se pudessem casar. Cynric, pelo

A CASA DA FLORESTA

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menos, no tinha nenhum parente vivo, o que tornava as coisas mais simples.

A nica outra moblia neste quarto era um banco fixado  parede e a arca de carvalho 
na qual as raparigas guardavam as suas mudas de roupa e os trajes de festa. Tinha 
pertencido a Rheis antes de se ter casado, e esta tinha dito sempre que faria parte do 
dote de Dieda. Eilan no lho invejava, porque outro, igualmente bom, destinado a 
Eilan, j estava a tomar forma s mos do velho Vab, o marceneiro. E, na devida altura, 
haveria um para Senara. Ela tinha visto as pranchas de carvalho esfregadas at 
brilharem e as cavilhas de madeira Pintadas at ser impossvel not-las.

O beb choramingou ensonadamente, comeou a berrar e Mairi sentou-se com um 
suspiro, o seu cabelo encaracolado formando uma aurola  volta do rosto. Levantou-
se para lhe mudar as fraldas, depois voltou atrs e p-lo em cima da cama. Ele 
gorgolejou e ela deu-lhe umas pancadinhas.

Eilan calou uns tamancos e disse:

- Ouam; estou a ouvir a me l fora. Suponho que seja melhor levantarmo-nos. - Vestiu 
o vestido e Dieda abriu os olhos e disse:

- Visto-me num instante.

Mairi riu.

- Ajudo a Rheis assim que acabar de dar de comer ao beb Tu e a Eilan podem ficar 
aqui a porem-se bonitas para o festival. Se algum dos rapazes tiver ganho a vossa 
simpatia o melhor  prepararem-se para brilhar. - Ela sorriu gentilmente para as suas 
parentas mais novas. Dieda, com dois irmos mais novos em casa, no estava 
acostumada a ser mimada e toda a gente conspirava um pouco para a estragar sempre 
que ela estava aqui.

Quando Mairi e o filho j tinham sado, Dieda sorriu e disse ensonadamente:

-  mesmo o dia do festival? Pensei que era amanh.

-  hoje - troou Eilan - que tu e Cynric faro o vosso juramento de fidelidade.

- Pensas que Bendeigid aprovar? - perguntou Dieda.
- Afinal de contas ele  o pai adoptivo de Cynric.

- Oh, se o teu pai der o consentimento no interessa muito
O que pensa o meu - observou Eilan com perspiccia. - E se

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ele desaprovasse o facto de vocs os dois se juntarem suponho que j o teria dito. Alm 
disso, a noite passada sonhei contigo e com Cynric no festival,

- Sonhaste? Conta-me! - Dieda sentou-se, enrolando as roupas da cama  sua volta 
porque o ar ainda estava frio.

- No me lembro de muito sobre ele. Mas o teu pai estava feliz, Tens a certeza que 
queres casar com aquele meu irmo?
- Quero mesmo - disse Dieda com um pequeno sorriso, e Eilan percebeu que ela no 
diria mais nada.

Eilan disse:

- Talvez deva perguntar a Cynric... pode   ser que ele tenha mais qualquer coisa a dizer! 
- e riu.

- E talvez no - disse Dieda. - Ele tambm no fala muito. Tu no queres casar-te com 
ele, pois no?

Eilan abanou a cabea enfaticamente.

Ele  meu irmo! - Se ela tivesse de casar, de certeza que o ltimo rapaz que escolheria 
seria o grande e tosco grosseiro que costumava pr-lhe rs na cama e puxar~lhe o 
cabelo!

- Sabes que no  bem assim - disse Dieda.

-  Ele  meu irmo adoptivo e isso  como ser um parente corrigiu Eilan. - Se o Pai 
quisesse que nos casssemos no o teria adoptado. - Estendeu um brao para apanhar um 
pente de corno esculpido e comeou a desemaranhar os brilhantes cabelos.

Dieda recostou-se com um suspiro.

- Suponho que Lhiannon v estar no festival... - disse passado algum tempo.

- Com certeza que estar. Afinal de contas a Casa da Floresta est junto da nascente, no 
sop da colina. Porqu?

- Oh, no sei. Agora que estou a pensar em casar-me d-me arrepios imaginar algum a 
passar a vida daquela maneira - disse Dieda.

- Ningum to pediu - disse Eilan.

- No em tantas palavras - disse Dieda -, mas o Pai perguntou-me, uma vez, se eu nunca 
tinha pensado em entregar-me aos deuses.

- Ele perguntou-te isso? - Os olhos de Eilan arregalaram-se.

Sim                                     - disse Dieda         mas Disse que nunca tinha pensado

mas eu durante semanas tive pesadelos em que discutamos E ele
Me aprisionava numa rvore oca. E eu amo mesmo o Cynric.
De qualquer modo, no suportaria viver toda a minha vida den-
Tro da Casa da Floresta... ou confinada em qualquer outra casa.
 Tu serias capaz?

_ No sei - disse Eilan. - Talvez se me pedissem eu
 aceitasse... - Lembrou-se de COMO
 as sacerdotisas se pas-
 seavam pelo festival, to serenas nos seus vestidos azuis-escuros. Essa vida no seria 
melhor do que estar s ordens de qualquer homem? E as sacerdotisas aprendiam todas 
as tradies secretas. 
E, no entanto, vi-te a olhar para o jovem estrangeiro provocou-a Dieda. - Aquele que 
Cynric salvou; penso que darias  uma sacerdotisa ainda pior do que eu!

virou-se de costas para que a outra rapariga no pudesse ver o rubor que lhe incendiou 
a face, Estava preocupada com Gawen porque tinha passado tanto tempo a cuidar dele, 
era apenas isso.

isso. Mas, agora me lembro - disse pensativamente          Lhiannon tambm entrava no 
meu sonho.





QUATRO

Mais tarde nessa manh a famlia, ps-se a caminho para o festival. Estava um claro dia 
de Maio, com uma pequena frescura no ar devido  chuva da noite anterior, mas o vento 
tinha arrastado a ltima das nuvens para leste e o cu estava limpo, Numa manh como 
esta todas as cores do mundo pareciam recriadas para saudar o dia.

Gaius ainda coxeava, mas Cynric: tinha-lhe tirado a ligadura do tornozelo, afirmando 
que lhe faria bem caminhar com esse p. Andou cuidadosamente, respirando 
profundamente o ar fresco, duplamente inebriante depois de ter passado tanto tempo 
deitado dentro de casa, Duas semanas atrs tinha parecido que nunca mais conseguiria 
andar de novo sob o cu aberto. Para j, era suficiente estar vivo, vendo a luz do Sol nas 
verdes folhas, as flores da Primavera e a brilhante roupagem das pessoas que o 
rodeavam.

Eilan tinha posto um vestido comprido, solto, tecido em quadrados cruzados em plidos 
tons de ouro e castanho, e uma cor semelhante  de folhas em boto, sobre uma tnica 
dum verde plido. O cabelo caa como uma brilhante capa cobrindo-lhe os ombros, mais 
brilhante que o ouro dos seus broches e braceletes. A ele parecia-lhe que em todo aquele 
resplandecente mundo ela era, de todas as coisas, a mais formosa.

Prestou pouca ateno  tagarelice deles sobre o festival. Tinha visto umas poucas de 
celebraes entre o povo da sua me, quando era criana, e supunha que esta seria muito 
parecida, Ouviu o rudo do festival antes de l chegarem, visto os grandes festivais 
celtas serem geralmente associados a uma feira. As festividades tinham, na realidade, 
comeado h j alguns dias, e ainda continuariam durante algum tempo, mas isto - a 
noite
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MARION ZIMMER BRADLEY

de Beltane - era a fase crucial do festival. Seria no crepsculo que a Sacerdotisa do 
Orculo faria a sua apario.

Os bosques tinham desabrochado com tendas e barracas feitas com ramos entrelaados, 
j que o festival tinha atrado gentes de lugares distantes de dias de viagem. A maioria 
das pessoas que aqui se encontrava eram Comovii, mas Gaius reconheceu a tatuagem 
tribal dos Dobunni e dos Ordovices, e at alguns Deceangli, muito acima de Deva. 
Depois de duas semanas na casa de Bendeigid, a sua lngua britnica de nascena vinha-
lhe facilmente  boca, e Deva e as legies comeavam a parecer embaados e muito 
distantes.

 volta do sop da velha colina estavam apinhadas barracas que vendiam pratos e 
pequenos artigos de loua, alguns parecendo que tinham sido feitos pelos camponeses 
locais e outros que podiam ter sido vendidos at na prpria Roma. Talvez fossem de 
feitura romana, j que havia um comrcio crescente entre a Bretanha e Roma, e os 
comerciantes gregos e gauleses se deslocavam por todo o lado. Havia barracas de mas 
e doces, mercados onde pessoas trocavam cavalos e uma feira onde se podia encontrar 
de tudo, pelo menos foi o que Cynric disse, desde um porqueiro at uma ama de leite.

Mas quando Gaius chegou ao topo achatado da colina, que se levantava como uma ilha 
acima do mar de floresta, os seus olhos arregalaram-se. A feira ocupava os terrenos de 
um grande e desbravado terraplano, demasiado cheia de barracas e de gente para que o 
seu permetro fosse visvel. Na extremidade da avenida principal erguia-se um grande 
tmulo feito de barro, com uma entrada de pedra. Cynric fez um sinal de reverncia 
quando atravessaram a estrada.

Gaius perguntou:

- Ento, este  que  o teu templo?

Cyriric deitou-lhe um olhar de curiosidade, mas disse apenas:
-  o cemitrio dum grande chefe entre os nossos antepassados. A no ser que um dos 
velhos bardos saiba quem ele foi o seu nome est perdido, e se alguma vez houve uma 
cano sobre ele j a esqueci ou nunca a aprendi.

Uma outra avenida, mais comprida, conduzia at um edifcio com a forma duma 
pequena torre quadrada, rodeado por um prtico com um telhado de colmo, ao qual 
Gaius lanou um olhar de curiosidade. Eilan sussurrou:

A CASA DA FLORESTA

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- Aquele  o santurio onde guardam os objectos sagrados.
- Parece um templo - disse ele em voz baixa, e ela olhou-o fixamente.

- De certeza que sabes que os deuses no podem ser adorados em nenhuma casa feita 
por mos humanas, mas apenas sob o cu aberto? - E acrescentou passados uns 
momentos: - Nalgumas das ilhas ocidentais, onde no crescem rvores, fazem os rituais 
em florestas de pedra; mas o meu pai diz que os segredos dos antigos grandes anis de 
pedra, aqui no Sul, se perderam com os druidas mais antigos que foram mortos quando 
chegaram os Romanos.

Uma barraca onde se vendiam braceletes de vidro grego atraiu-lhe a ateno e ela parou 
de conversar. Gaius suspirou. O melhor era no fazer mais perguntas, pensou, a fim de 
no se trair ainda mais. Havia certamente algumas coisas que eles esperariam que at 
mesmo um homem da tribo dos Silures soubesse,

Havia tendas de vassouras e esfreges, e lindas raparigas vendendo grinaldas - quase 
toda a gente usava uma -, outras flores, e uma grande quantidade de outras coisas, 
algumas estranhas de mais para que Gaius as identificasse. A gente jovem passeava-se 
pelo meio das barracas, olhando casualmente para as mercadorias. Cynric indagou por 
um porqueiro, mas disse que todos pediam de mais pelo seu trabalho.

- Os malditos romanos levaram tantos homens nas suas levas que temos que alugar 
homens para tomar conta dos nossos animais e cultivar os nossos campos - disse. - Mas 
foram tantas as pessoas que foram expulsas das suas terras que podemos, por vezes, 
encontrar homens que se nos dirigem apenas pela comida e pelo abrigo. Suponho que se 
fosse um lavrador ficaria contente com isso. Mas que os Deuses me guardem de ter que 
cultivar a terra!

Ao meio-dia Rheis juntou a famlia debaixo de um carvalho de grande envergadura, no 
sop da colina, para uma refeio de carnes frias e po. A velha colina era o ponto de 
convergncia de inmeras veredas. Daqui podiam ver um extenso e bem tratado 
caminho que se prolongava para oeste, ladeado por imponentes carvalhos. Mesmo no 
seu fim, os telhados de colmo da Casa da Floresta e os seus edifcios exteriores 
destacavam-se palidamente contra o verde carregado do Bosque Sagrado.76

MARION ZIMMER BRADLEY

Cyrirc e Gaius tinham partido para ver os cavalos e Rheis tinha~se escapulido para 
falar com uma pessoa conhecida, As raparigas estavam a arrumar a comida, quando 
Eilan se imobilizou e murmurou:

- Olha, ali est Lhiannon.

A Gr Sacerdotisa, com algumas das suas servidoras, vinha pelo Caminho Sagrado, 
entre as extensas filas de rvores. O seu dbil vulto vislumbrava-se nos salpicos de luz 
do Sol que era filtrada pelos ramos das rvores, e ela mova-se com a passada deslizante 
de uma sacerdotisa treinada, de tal modo que no parecia de todo um ser humano 
enquanto se ia aproximando. Lhannon parou, como para lhes desejar um alegre festival, 
e os seus olhos caram nas raparigas.

- Sois as parentas de Bendeigid - disse. O seu olhar fixou-se em  Dieda. - Que idade 
tens, minha filha?

-  Quinze anos - murmurou a rapariga.

- j ests casada? - perguntou Lhiannon. Eilan sentiu o corao comear a bater 
surdamente no peito. Esta era a face da Gr Sacerdotisa tal como a tinha visto no seu 
sonho.

- No - disse Dieda numa voz calma. Estava a olhar fixamente para a Sacerdotisa como 
que num transe provocado por aquele olhar luminoso.

- Nem prometida em casamento?

- No... ainda, se   bem que tenha pensado... - a sua voz vacilou.

Diz-lhe , pensou Eilan. Ests prometida a Cynric! Tens de lhe dizer agora! Mas, se 
bem que os seus lbios se mexessem, Dieda estava paralisada, como uma jovem lebre 
quando cai a sombra do falco.

Lhannon desapertou a pesada capa azul que lhe caa dos ombros.

- Ento reclamo-te para a Deusa; daqui por diante servirs Aquela que eu sirvo e mais 
ningum... - A capa abriu-se como uma asa escura quando a sacerdotisa a fez voltear, e 
a luz cintilou quando os ramos das rvores se moveram com uma sbita rajada de vento.

Eilan pestanejou. Decerto era apenas a luz do Sol - mas no encadeamento, por um 
momento, pensou que a abertura da capa tinha revelado uma figura a irradiar luz. 
Fechou os olhos, mas

A CASA DA FLORESTA

impressa na sua viso interior viu, ainda, uma face com um terno sorriso de me e 
ferozes olhos de ave de rapina, e pareceu-lhe que era ela, e no Dieda, que era fitada por 
esse olhar, Mas Lhiannon no tinha falado com ela, nem parecia sequer estar a v-la.

- Doravante tu vivers connosco na Casa da Floresta, minha filha. Vem a ter 
connosco... bem, amanh ser mais que suficiente.
- A voz de Lhiannon parecia vir de muito longe. - Assim seja.

Eilan abriu os olhos outra vez e viu a sombra cair quando a capa se abateu sobre os 
delgados ombros de Dieda.

As mulheres que seguiam Lhiannon entoaram:

- Ela  a amada da Deusa; a Sua escolha foi feita. Assim seja, Lhiannon tirou a capa dos 
ombros da rapariga e as suas servidoras ajudaram-na a apert-la de novo. Depois, 
afastou-se delas, em direco ao festival.

Os olhos de Eilan ainda estavam fixos nela.

- A escolha da Deusa... tu vais ser uma delas... o que  que se passa contigo? - Ela 
voltou a si e viu que a face de Dieda estava mortalmente branca, as mos crispadas.

Dieda abanou a cabea, a tremer.

- Por que  que no consegui falar? Por que  que no lhe consegui dizer? No posso ir 
para a Casa da Floresta... estou prometida a Cynric!

- Mas ainda no ests, no oficialmente - disse Eilan, ainda entontecida pelo que tinha 
presenciado. - Promessas privadas no so vinculativas e nada foi to longe que no 
possa ainda ser desfeito. Penso que qualquer pessoa preferiria ser uma sacerdotisa a 
casar com o meu irmo...

- Pensas... - disse Dieda furiosamente. - Sim, devias mesmo pensar de vez em quando; 
seria uma nova experincia para ti, atrevo-me a dizer... - E parou, com algo parecido 
com desespero. - s to criana, Eilan!

Ellan olhou para ela, percebendo que a outra rapariga no partilhava a sua excitao.

Dieda, ests a dizer que no queres ser uma sacerdotisa? Que pena a sua escolha no ter 
recado em ti - disse Dieda desamparadamente. - Talvez devssemos dizer que foste tu. 
Talvez, como o Pai, ela nos tenha confundido. Talvez fosses realmente tu que ela 
queria...

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MARION ZIMMER BRADLEY

- Mas se a Deusa te escolheu a ti isso seria uma impiedade      protestou Eilan.

O que  que eu vou dizer a Cynric? O que  que h que lhe possa dizer? - Perdeu o 
controlo e comeou a rir desesperadamente.

- Dieda - Eilan ps o brao  volta da outra rapariga no podes falar com o teu pai? 
Dizer-lhe que no queres isto? Se fosse eu estaria feliz, mas se tu odeias a ideia...

Entorpecida, sufocada pela misria, Dieda disse:

- No me atrevo. O meu pai nunca entenderia, nem enganaria a Gr Sacerdotisa. H 
qualquer coisa... - Com uma voz que mal se ouvia, disse - O Pai  to amigo de 
Lhiannon....  quase como se fosse o seu amante...

Escandalizada, Eilan virou o olhar para a outra rapariga.
- Como podes dizer isso? Ela  uma sacerdotisa!

- No quero dizer que eles tenham feito nada de mal; mas ele conhece-a h tanto tempo! 
Por vezes parece importar-se mais com ela do que com qualquer ser vivo... seguramente 
mais que com qualquer uma de ns, raparigas.

- Tem cuidado com o modo como dizes essas coisas avisou Eilan, corando. - Pode 
algum ouvir-te que no te perceba to bem como eu.

Dieda disse lugubremente:

- Oh, o que  que interessa? Queria era estar morta! Eilan no sabia o que dizer para a 
confortar. Manteve-se silenciosa, agarrada  mo da outra rapariga. No conseguia 
entender como  que Dieda podia querer recusar esta honra. E como Rheis ficaria feliz 
por a sua jovem irm ter sido escolhida!

Tambm Bendeigid ficaria satisfeito; Dieda era como se fosse outra filha para ele e 
tinha sido sempre muito afeioado  irm mais nova da sua mulher. Eilan tentou 
esquecer o seu prprio desapontamento.

Gaius e Cynric andavam pelo meio da multido em frias, parando de tempos a tempos 
para comentar os pormenores dum qualquer cavalo, pondo-se de novo a caminho 
depois. Passado algum tempo, Cynric perguntou:

A CASA DA FLORESTA

79

-  ento verdade, amigo, que no sabes nada sobre o que sucedeu na ilha de Mona? 
Teria pensado... vivendo perto de Deva...

- Nunca ouvi a histria - disse Gaius. - Sou do pas dos Silures, lembra-te, mais para o 
Sul. - E sabendo que a minha me era casada com um oficial romano , pensou nessa 
altura, teria sido preciso um homem com mais coragem que a maioria para ma contar. 
-  uma histria muito conhecida? - perguntou em voz alta, - Disseste que o druida 
Ardanos a podia cantar.

- Ouve-a ento, e no te admires mais porque  que tenho to  pouco a dizer de bom 
sobre os Romanos - disse Cynric furiosamente. - Havia, nos dias antes de os Romanos 
chegarem, um recinto sagrado de mulheres, onde no h nada agora seno um lago 
poludo. Um dia as legies vieram, e fizeram o que sempre  fazem; deitaram o bosque 
abaixo, saquearam os seus tesouros, assassinaram todos os druidas que lhes fizeram 
frente e violaram todas as mulheres, desde as velhas sacerdotisas at  mais jovem das 
novias. Algumas eram quase avs em idade, outras no mais que crianas de nove ou 
dez anos de idade, mas isso no lhes interessou!

Gaius ofegou. Ele nunca tinha ouvido aquela parte da histria. Os Romanos apenas 
falavam dos druidas a agitar os seus archotes e das mulheres vestidas de escuro que 
tinham guinchado maldies, e contavam que os legionrios tinham tido tanto medo de 
atravessar as ferventes guas do estreito de Menai, que o seu comandante teve de os 
envergonhar para que atacassem. Mona tinha sido o ltimo baluarte do sacerdcio dos 
druidas, At ter conhecido Bendeigid e Ardanos, tinha pensado que a maioria deles 
tinham sido eliminados, A lgica militar tornava bvio que Mona tinha de ser destruda. 
Mas um bom comandante, pensou zangado, mantinha os seus homens na ordem. Teriam 
os soldados reagido to violentamente porque as mulheres os tinham aterrorizado?

- O que aconteceu s mulheres? Bem o podes perguntar disse Cynric. Na realidade 
Gaius no o tinha perguntado; mas sabia que Cynric estava a contar a histria tal como 
lha tinham ensinado e, mais cedo ou mais tarde, chegaria a.

- Os Romanos deixaram a maioria das mulheres grvidas continuou Cynric. - Quando 
os bebs nasceram, as raparigas

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MARION ZIMMER BRADLEY

foram afogadas no lago sagrado que os Romanos j tinham dessacralizado e os rapazes 
adoptados pelas famlias dos druidas. Quando chegaram  idade adulta foi-lhes contado 
sobre os seus antecedentes e foi-lhes dado treino militar. E um dia eles devero vingar 
as suas mes e os seus deuses; e, acredita em mim, f-lo-o! Eles f-lo-o... juro pela 
Senhora dos Ravens que me est a ouvir! - acrescentou com veemncia. Caiu em 
silncio, e Gaius esperou desconfortavelmente que ele continuasse. Cynric tinha falado 
de um movimento subterrneo chamado Ravens.
O outro rapaz era, ento, um deles?

Depois de um momento, Cynric continuou.

- Foi nessa altura que todas as    mulheres dos druidas dessa ilha foram trazidas para 
aqui, para a Casa da Floresta, onde podiam ser protegidas.

Gaius ouviu, pensando se a histria lhe tinha sido contada com alguma finalidade. Mas 
Cynric no sabia que ele era romano, facto pelo qual Gaius se sentia muito grato. Neste 
momento, ele prprio no estava seguro de querer ser romano, se bem que isso tivesse 
sempre sido a fonte de todo o seu orgulho.

 medida que o crepsculo caa, homens jovens em vestimentas brancas, com colares 
dourados  volta do pescoo, comearam a fazer duas grandes pilhas de madeira no 
espao aberto em frente do tmulo, assegurando-se - como o informou Cynric num 
sussurro - que cada uma delas inclua a madeira das nove rvores sagradas. Gaius no 
fazia a mnima ideia sobre o que  que elas eram, mas teve medo de o admitir, pelo que 
se limitou a abanar a cabea em concordncia. Entre as pilhas, tinha sido colocada uma 
prancha de carvalho, com uma pea colocada perpendicularmente, como um eixo. Nove 
druidas, homens velhos e imponentes nos seus imaculados mantos brancos, faziam 
turnos para rodar o eixo ao ritmo de um tambor.  medida que o cu ia escurecendo as 
pessoas juntaram-se  sua volta, observando, e o silncio espalhou-se pela multido.

E ento, na altura mesmo em que o Sol deslizava para o outro lado das rvores, Gaius 
percebeu de relance um claro vermelho. Outros tambm o tinham visto. Um murmrio 
perpassou pela multido e, nesse preciso momento, um dos druidas lanou alguma coisa 
pulvurulenta para a base do eixo e ele pareceu explodir em chamas.

A CASA DA FLORESTA

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- As fogueiras ardero at  alvorada, enquanto as pessoas danam  sua volta - disse 
Cynric. - E alguns dos rapazes vigiaro a rvore de Beltane. - Ele fez um gesto na 
direco dum alto poste que se erguia no outro extremo do cimo da colina.
- os restantes andaro por a fora at de madrugada com as suas namoradas juntando 
verdura, ou pelo menos  o que eles dizem - sorriu maliciosamente -, e tr-la-o de 
manh para enfeitar o poste e danar durante o dia.

o fogo tinha sido levado para as pilhas de madeira, que estavam agora a comear a 
crepitar alegremente. Estava a escurecer; Gaius deu um passo  retaguarda quando 
sentiu o primeiro sopro de calor na sua pele.

Formou-se uma linha de danarinos que comeou a rodear as fogueiras. Algum 
colocou um frasco de vinho nos lbios de Gaius. A multido j se estava a tornar 
desordeira, mergulhando livremente nos barris da cerveja e do hidromel, Tinha visto 
ritos como         antes e sabia o que esperar. Reparou que nesta altura as moas mais 
pequenas tinham sido levadas embora; as   jovens -sacerdotisas da Casa da Floresta, nos 
seus mantos azuis,-jxas e vus j no se encontravam no meio da multido.

Gaius e Cynric vaguearam juntos pelo meio do risonho aglomerado at que, perto das 
fogueiras, encontraram Eilan e Dieda.
- Aqui esto vocs! - exclamou Cynric, precipitando-se para a frente. - Dieda, anda 
danar comigo.

Toda a cor abandonou a face de Dieda e ela agarrou-se  mo de Eilan.

- No ouviram? - perguntou Eilan alegremente.

- Ouvir o qu, irm? - Cynric comeou a franzir o sobrolho.
- Ela foi escolhida para a Casa da Floresta... pela prpria Lhiannon, esta tarde!

Cynric levantou os braos na direco de Dieda e depois, vagarosamente, deixou cair as 
mos.

- A Deusa falou?

- Como podes aceit-lo? - A fora pareceu voltar-lhe.
- Sabes que no posso casar contigo se tiver que fazer votos.
- E tu sabes que votos j me prendem - disse ele sombria-

mente. - Tenho andado desfeito tentando decidir. Eu amo-te mas durante alguns anos, e 
se  que alguma vez o poderei, no posso

82

MARION ZIMMER BRADLEY

deixar que uma mulher e filhos me estorvem. Talvez tenham sido os Deuses a escolher 
este caminho para ns.

Ele inspirou fundo, sentindo-se abalado, e, desta vez, quando levantou os braos ela 
veio at ele. Dieda era       uma rapariga alta, mas rodeada pelos seus fortes braos 
parecia         frgil.

- Ouve, amada, ainda h uma maneira - disse ele suavemente, puxando-a para um lado. - 
Podes oferecer trs anos  Deusa; no precisas de te comprometer por toda a vida. H 
uma escola militar nas ilhas do Norte e  para a que eu estou destinado a ir. Mas tu no 
s nenhuma donzela guerreira; mesmo que estivssemos comprometidos oficialmente, 
no podias ir para l comigo. Talvez seja pelo melhor que devas servir o santurio 
durante uns tempos - estars mais segura a. E se acontecer a guerra...

Dieda deu um pequeno soluo e escondeu a cara de encontro ao seu ombro. Gaius viu as 
grandes mos de Cynric fecharem-se-lhe nos braos.

- Durante trs anos outros votos nos vincularo - murmurou ele -, mas esta noite  
nossa. Eilan, fica aqui com Gawen acrescentou, a voz abafada pelo cabelo de Dieda.

Eilan hesitou.

- A Me disse que eu e Dieda devamos ficar juntas...  Beltane...

Dieda levantou a cabea e os seus olhos estavam enlouquecidos.

- Tem piedade! Rheis no se atreve a enganar o teu pai... e o meu Pai.--- - ela engoliu 
em seco. - Se eles soubessem no nos deixariam ter nem este bocadinho de tempo!

Eilan aquiesceu, os olhos arregalados e srios.

- Fiz mal em deixar Eilan sozinha com o estranho? - perguntou Dieda, quando Cynric a 
levava embora. - Afinal de contas, ele tem vivido no meio dos romanos e pode ter os 
hbitos deles com mulheres.

- Ele  um convidado na nossa casa; mesmo que fosse o filho do prprio Procurador...

- isso  que ele no pode ser - disse Dieda com uma sbita risadinha. - O meu pai diz 
que o Procurador tem apenas uma filha...

A CASA DA FLORESTA

83

- --- se ele fosse, seguramente respeitaria a filha do seu anfitrio. E Eilan  apenas uma 
criana - replicou Cynric.

- Ela e eu nascemos no mesmo ano - disse Dieda. - Pensas que ela  uma criana porque 
ela  tua irm.

- Do que estavas  espera? - perguntou Cynric irritadamente. Que dissesse o quanto te 
amo  frente deles?

- O que resta para dizer? Decerto no o suficiente... - E ela parou, porque os seus 
braos a rodearam e ele inclinou~se para lhe cortar as palavras com um beijo.

Ela agarrou-se a ele por um momento, depois separou-se, preocupada.

- Isto no ajuda - disse - E se fssemos vistos...
 Ele riu melancolicamente.
- Elas no te puseram ainda sob votos, ou j? - E podia sempre dizer que era ilan que 
tinha beijado. Ps as mos debaixo dos cotovelos dela e inclinou-se para a beijar mais 
uma vez. Depois de um instante a sua resistncia derreteu-se e ela deixou que ele a 
estreitasse de encontro a si, beijando-a uma e outra vez.
 - O sensato que eu soei h bocado! Mas estava enganado. No  posso deixar-te fazer 
isto!

- o que queres dizer?

- No posso deixar que sejas fechada no meio de paredes com essas mulheres todas.

- Que mais posso eu fazer? - Agora era ela que tinha de ser a ajuizada. - Cynric, foste 
educado por um druida, conheces as leis to bem como eu. Lhiannon escolheu. Onde 
tenha cado a mo da Deusa...

- Tens razo, eu sei-o, mas mesmo assim... - Puxou-a para si rudemente, mas a voz era 
suave quando disse: -  Beltane. Faz amor comigo esta noite e a tua famlia ficar mais 
que satisfeita por nos deixar casar.

A boca dela era jovem de mais para mostrar tanta amargura.
- Talvez gostasses de explicar calmamente ao meu pai como isso aconteceu? Ou ao teu?

Ele disse:

- Bendeigid no  o meu pai.

- Sim, eu sei - disse ela. - No que isso faa qualquer diferena. Mas, quer ele seja teu 
pai quer no, Ardanos  o meu, e ele estrangular-me-la e, a ti, aoitar-te-la. Est feito, 
quer eu

84

MARION ZIMMER BRADLEY

goste quer no. Sou, agora, uma virgem prometida do Bosque Sagrado e tu s o filho de um druida... bem, pelo 
menos foste educado como tal, e, de qualquer modo, s o filho duma sacerdotisa - acrescentou rapidamente. - Cynric, 
tu prprio o disseste. Posso pedir para ser libertada ao fim de trs anos. E ento...

- E ento - prometeu ele - levar-te-ei para o outro lado da terra se isso for preciso.

- Mas tu disseste que no querias ser sobrecarregado com mulher ou filhos - protestou ela, apenas para o ouvir 
responder:
- No me interessa o que disse; quero-te a ti. - Depois
acrescentou: - Ento, senta-te aqui ao p de mim; olhemos para as fogueiras. Pode ser que seja pela ltima vez. Ou 
durante trs anos, o que - acrescentou desanimadamente -  quase a mesma coisa.

O Arquidruida da Bretanha estava parado no porto para a Casa da Floresta, observando a ltima luz desvanecer-se 
no cu. Vindo do cume do morro podia ouvir os sons de muitas vozes, o seu clamor abafado pela distncia at se 
tornar numa msica como a de um lago cheio de pssaros migratrios e, por baixo dos outros sons, o profundo rufar 
dos tambores. Cedo as fogueiras de Beltane seriam acesas.

Se bem que o tempo estivesse a passar, Ardanos sentia-se curiosamente relutante em mover-se dali. Nessa manh 
tinha estado em Deva, a ouvir o Prefeito romano. Esta noite teria de ouvir as queixas do povo governado pelos 
Romanos. No havia maneira de poder satisfazer a todos. O mais que podia esperar era manter um equilbrio incerto 
at que... de que  que, na realidade, estava ele  espera? Que as velhas feridas sarassem?

Estars morto antes que isso acontea, velho! disse para si prprio. E Lhiannon tambm. Suspirou, e viu que a 
primeira estrela tinha despontado no cu que escurecia.

- A Senhora est pronta - disse uma voz suave atrs dele. Ardanos virou-se e viu uma das virgens, Miellyn, pensou 
ele, segurando a porta.

O aposento de Lhiannon estava iluminado por lanternas de bronze.  sua luz tremeluzente ele viu-a, j afundada na 
sua cadeira, com Caillean, vigilante a seu lado. Durante um momento

A CASA DA FLORESTA

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a sacerdotisa mais jovem enfrentou desafiadoramente o seu olhar, depois afastou-se para o lado.

- Ela j tomou as ervas sagradas - disse Caillean num tom de voz neutro.

Ardanos aquiesceu. Estava bem consciente da hostilidade da rapariga, mas enquanto Caillean observasse as normas 
do respeito pouco lhe importava o que ela pensava dele. Era o bastante que ela fosse devotada a Lhiannon,

Ainda de sobrolho carregado Caillean deixou-os ss. Numa altura destas, quando a Gr Sacerdotisa se encontrava 
soba sombra da Deusa que ela servia
  at nem mesmo o seu guarda-costas podia estar presente.

- Lhiannon - disse suavemente, e viu um tremor correr pelo seu dbil corpo. - Podeis ouvir-me? - Houve um longo 
silncio.

- Ouo-te sempre... - disse por fim a Gr Sacerdotisa.
- Sabeis que eu no faria isto, minha cara - disse, quase para si prprio -, se houvesse outra maneira qualquer. Mas 
soube que h mais sarilhos a propsito das levas de mo-de-obra.
O genro de Bendeigid, Rhodri, foi atrs dos homens que eles levaram do cl do druida e atacou os soldados que os 
escoltavam. Houve uma luta e Rhodri foi capturado.

Macellius conseguiu arranjar maneira de manter secreta a sua identidade, mas no h nenhuma maneira de ele o 
poder salvar. O louco foi capturado em armas contra Roma. Se essa notcia se espalha seguramente que haver uma 
revolta. Tens que aconselhar a paz, minha cara. - A sua voz caiu para um sussurro. - Que haja paz na terra... a Deusa 
deseja-o. A altura de Roma h-de chegar, mas no ainda e no pela guerra. As pessoas devem ajudar-se umas s 
outras e serem pacientes; dizei-lhes, Senhora. Deixai-os rezar aos Deuses pela paz.

 medida que falava viu-a comear a oscilar e soube que as suas palavras estavam a atingir esse lugar profundo, para 
l da memria consciente, atravs do qual vinham as palavras do Orculo. Apesar do que Caillean pudesse pensar, 
Ardanos nunca duvidou de que algo falava por intermdio da Gr Sacerdotisa quando esta se encontrava num transe 
como este. Mas os druidas sabiam bem que a capacidade de um esprito para falar atravs de um orculo humano 
estava directamente relacio-

86

MARION ZIMMER BRADLEY

nada com o contedo e sofisticao da mente que era o seu veculo. Uma rapariga 
ignorante, no importa o quo sensitiva, podia falar apenas em termos simples, caseiros. 
Era uma das razes pelas quais as sacerdotisas druidas eram to cuidadosamente 
escolhidas e treinadas.

Alguns podiam t-lo acusado de manipulao, mas para o Arquidruida parecia que 
estava apenas a juntar o seu conhecimento particular das necessidades do pas aos 
recursos sob comando do Orculo. Se bem que tivesse feito o seu melhor para imprimir 
uma certa informao na memria do Orculo, a Deusa, se era verdadeiramente Ela que 
falava, tinha seguramente a liberdade de decidir o que dizer.

- Paz e pacincia... - repetiu vagarosamente. - Roma cair quando os Deuses o quiserem, 
mas no s nossas mos...

CINCO

Gaius viu Dieda e Cynric desaparecerem na multido, lutando com um desejo de os 
chamar de volta. Eilan, com um sbito ataque de timidez, olhava para os ps. Ele 
pensou sobre o que  que poderia falar com ela. A histria das sacerdotisas de Mona 
tinha-o deixado estranhamente acanhado, no de todo o senhor do mundo, como um 
romano se devia sentir. Graas aos deuses Cynric no suspeitava da sua verdadeira 
identidade. Tinha o incmodo pressentimento, que o velho Ardanos tinha adivinhado, 
mas, se assim fosse, o druida tinha guardado o seu segredo, o que, a seu modo, era ainda 
mais perturbador.

Procurou algum tpico de conversao que fosse inofensivo e disse por fim:

- Conta-me mais sobre como a tua tribo celebra este festival. Os usos dos Silures so um 
pouco diferentes e no quero ofender novamente os vossos costumes. - Um caminho 
seguro, pensou, de encobrir o facto de apenas ter assistido a uma celebrao nativa a 
Beltane, quando tinha seis anos de idade.

Ela corou.

- So? - Agora ela estava genuinamente enleada. -  um festival muito antigo. Talvez 
outrora todas as tribos o tenham celebrado de maneira idntica. Ardanos disse que o 
nosso povo o trouxe consigo quando veio para estas ilhas. E ele deve saber.

- Sim, de facto - disse Gaius. - Ele  to velho, o teu av; achas que ele veio com esses 
primeiros barcos da Glia?
  Ela deu uma risadinha e Gaius suspirou de alvio, sentindo a tenso entre eles a 
diminuir.

- Viste como eles fizeram a chama sagrada - disse ela depois. - Hoje  noite, quando a 
Sacerdotisa sair para abenoar as fogueiras, aclam-la-emos como sendo a Deusa, No 
sei como

88

MARION ZIMMER BRADLEY

 com as tribos do Sul, mas no Norte, nos tempos antigos, as mulheres eram mais livres do que agora. Antes de os 
Romanos chegarem, a Rainha, por vezes, governava a tribo por direito prprio. Agora  a Sacerdotisa e os Druidas.  
por isso que Cartimandua pde comandar os Brigantes, e que os Iceni seguiram Boudicca.

Gaius endureceu. Entre os Romanos, Boudicca, a Rainha Assassina, era um nome que ainda se usava para assustar as 
crianas. Em Londinium podia-se ver as marcas onde a baslica tinha ardido, e trabalhadores que cavavam fundaes, 
acompanhando o ritmo de crescimento da cidade, por vezes encontravam os ossos daqueles que tinham tentado fugir 
ao apetite de sangue das hordas dos Iceni. Eilan, distrada, estava ainda a falar.

- S em tempo de guerra  que ela nomeava um cabo de guerra para chefiar os exrcitos; algumas vezes era o seu 
irmo, outras o seu consorte, mas, quem quer que ele fosse, isso dava-lhe pouco poder na tribo. A Rainha governava 
por direito prprio e, diga-se o que se disser, as mulheres sabem mais sobre governo porque cada mulher dirige a sua 
casa. No estar ela melhor qualificada para governar uma tribo que um homem, que apenas pode fazer o que lhe 
manda o seu cabo de guerra?

- Uma tribo, talvez - disse Gaius. - Seria no entanto absurdo que uma mulher comandasse uma legio... ou governasse 
um grande imprio como o dos Csares.

- No vejo porque isso deva ser          assim - disse Eilan.
- Decerto que uma mulher que  capaz de governar uma grande casa est to preparada para governar um imprio 
como qualquer homem. No tero havido algumas rainhas poderosas entre os Romanos?

Gaius fez uma careta, lembrando-se da histria que o seu tutor grego tinha insistido que ele aprendesse.

- Nos tempos dos Imperadores Cludios - disse cuidadosamente -, ouvi dizer que havia uma velha e diablica mulher 
chamada Livia, a me do deificado Tibrio. Ela envenenou todos os seus parentes. Talvez seja por isso que os 
Romanos no simpatizem muito com a ideia de mulheres dirigentes.

O seu passeio tinha-os levado at ao lado mais distante das fogueiras, onde o monte de barro se inclinava em direco 
ao terreno do festival.

A CASA DA FLORESTA

89

- Gawen, pensas que as mulheres so ms? - perguntou Eilan.

- De certeza que tu no s m - disse ele, enfrentando o seu luminoso olhar. Os seus olhos eram como um poo de 
gua pura, no qual ele podia mergulhar para todo o sempre. Um poo de verdade... nesse momento pareceu-lhe 
monstruoso que tivesse de viver esta mentira. Se bem que no fizesse nenhum sentido, sentiu que lhe podia confiar a 
sua vida; e se lhe confiasse a sua verdadeira identidade, era provvel que fosse exactamente isso o que estaria a fazer.

Houve uma agitao por detrs deles. Os gritos e as canes aproximaram-se. Gaius virou-se e viu alguns homens 
que traziam imagens feitas de vime ou de palha. Algumas tinham a forma humana, outras eram figuras sadas dum 
pesadelo. Uma estava, mesmo, equipada com um reconhecvel simulacro dum elmo de legionrio.

O cabelo arrepiou-se-lhe na nuca. H pouco tinha dito a Eilan que no se lembrava de nada dos ritos a Beltane, mas 
agora, quer por causa dos tambores, ou da bruxuleante luz, ou do aroma de ervas doces que tinham sido lanadas  
fogueira, lembrou-se repentinamente de que j antes tinha visto algo semelhante a isto. Fechou os olhos, vendo na 
memria drages tatuados enredando-se em fortes braos, ouvindo o riso de um jovem. Por um momento, o rufar dos 
tambores ensurdeceu-o; o sangue encheu-lhe a viso e uma mgoa h tanto tempo reprimida que nem mesmo agora 
ele lhe conseguia dar um nome.

Apertou o brao de Eilan com mais fora.

- Pateta! - riu-se Eilan da sua expresso. - So apenas efgies. Mesmo nos velhos tempos, era apenas de sete em sete 
anos que o Rei do Vero, ou o seu substituto, era oferecido em sacrifcio para renovar a terra.

- s a filha de um druida - disse, deitando-se na relva.
- Suponho que devas sab-lo.

Ela sorriu e sentou-se a seu lado na borda do crculo.

- No tenho o conhecimento de todas as tradies que lhes ensinam na Casa da Floresta, mas ouvi essa histria. 
Dizem que o Escolhido era tratado como um rei durante o ano anterior  sua morte, Era uma grande honra para a sua 
famlia. O seu mnimo

90

MARION ZIMMER BRADLEY

desejo era satisfeito, tinha a melhor comida, e as mais bonitas jovens eram-lhe trazidas. 
Era uma grande honra gerar um filho do deus; mesmo as mulheres do santurio no lhe 
estavam proibidas; isto apesar de o facto de dormir com uma sacerdotisa ser a morte 
para qualquer outro. E quando esse tempo acabava... ela hesitou. - Era oferecido ao 
fogo.

Eilan estava sentada muito chegada a ele. Ele podia sentir o fresco aroma a flores 
selvagens do seu cabelo.

- Ouvi dizer que h um novo culto em Roma, chamado os seguidores do Nazareno, que 
acreditam que o seu profeta era o filho do seu deus e que morreu pelos pecados deles - 
disse Gaius. Pessoalmente, ele favorecia Mithras, o deus dos soldados.

- No se encontram apenas em Roma - disse ela. - O meu pai diz que alguns deles 
fugiram para a Bretanha quando o Imperador os estava a mandar matar. E os druidas 
autorizaram-nos a construir um santurio na Ilha das Mas, mais para Sul, no Pas do 
Vero. Mas aqui temos apenas o consorte da Deusa... ou o seu substituto, que oferece o 
seu sangue  terra.

Gritando, bandos de jovens atiravam as efgies para as fogueiras, aplaudindo enquanto 
as chamas subiam Para o cu. Eilan encolheu-se quando outro grupo passou e Gaius ps 
o brao  sua volta, protectoramente.

- Agora esto a queimar todos os espritos do mal e depois vo passear o gado por entre 
as fogueiras para os proteger durante o Vero, enquanto pastam nas colinas. As 
fogueiras so muito poderosas... - Repentinamente ficou vermelha devido a qualquer 
coisa mais que o calor das chamas.

- O que  que acontece mais  volta das fogueiras? - perguntou ele suavemente, 
tremendo ligeiramente com o esforo que precisava de fazer para no a chegar mais 
para si. Mesmo atravs do vestido podia sentir a esguia suavidade do seu corpo. Quando 
encontrou Eilan pela primeira vez tinha-a julgado uma criana, mas agora, por muito 
esbelta que ela fosse, via que era uma mulher e percebeu que a desejava.

- Bem - comeou ela hesitantemente, o olhar fixo nas chamas -, nesta noite, quando 
ardem as fogueiras da Deusa, os casais que esto comprometidos saltam sobre elas, de 
mos dadas, para honrar a Deusa e para lhe suplicar que lhes d filhos. E, depois, vo 
juntos para a floresta. Talvez nos velhos tempos no se

A CASA DA FLORESTA

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soubesse como os filhos eram feitos; mas Ardanos diz que eles notaram que as crianas 
nasciam depois de as pessoas terem honrado a Deusa desta maneira - e as pessoas ainda 
a honram seguindo este velho costume...

- Estou a ver - disse Gaius gentilmente e sentiu a sua pulsao a acelerar-se.

- Claro - continuou Eilan rapidamente -, no  coisa que as filhas de chefes ou de 
druidas faam...

- Claro que no - disse Gaius muito suavemente. O seu corpo dizia-lhe que isto era uma 
coisa que o filho de um Prefeito podia muito bem fazer, mas tinha a esperana de o 
poder esconder de Eilan. Sendo filha do seu anfitrio, devia ser to sagrada para ele 
como a sua prpria irm.

- E no entanto, seria maravilhoso se... - ele respirou fundo - se pudssemos os dois 
honrar a Deusa desse modo... Ele podia sentir o calor e a cor nas suas faces, se bem que

nesta altura estivesse quase escuro de mais para se poder ver. Ela ficou mais rgida 
dentro do crculo dos seus braos.

- Nunca pensei... - disse ela suavemente e parou, comeando a tremer um pouco por sua 
vez. Mas no se afastou.
- Seria esse o modo de mostrar o que sinto por vs - disse

ele ainda mais suavemente, como se receasse assustar um pssaro selvagem que lhe 
tivesse pousado na mo. Ela tinha contado a histria com tal inocncia! A filha de 
Clotinus tinha tomado claro que daria as boas-vindas aos seus avanos; a imprudncia 
dela apenas tinha desgostado Gaius, mas parecia-lhe que nunca antes tinha sentido por 
nenhuma donzela o que neste momento sentia por Eilan, sentada to confiadamente a 
seu lado. Ela estava to prxima de si que podia sentir o calor do seu corpo. E cada vez 
que respirava enchia-o o aroma a flores do seu loiro cabelo.

Quando a gritaria morreu, ouviu os pequenos rudos da noite: pequenos animais roando 
na relva onde a colina caa atrs do tmulo; o sussurro e os estalidos das fogueiras, o 
grito longnquo de um pssaro. E agora, excitado pela histria que ela lhe tinha contado, 
podia ouvir outros rudos na noite de Primavera. Na ladeira atrs deles, homens e 
mulheres faziam amor.

Tocou na face de Eilan e esta era como uma ptala duma flor. Gentilmente virou o seu 
rosto para ele. Os olhos dela estavam

92

MARION ZIMMER BRADLEY

abertos e sonhadores, os lbios entreabertos. Ele sentiu o seu sobressalto de surpresa 
quando a beijou, mas ela no se afastou. Os seus lbios eram doces, to doces que ele a 
manteve junto a si e a beijou outra vez, e, depois de um momento de resistncia, sentiu 
a sua boca abrir-se por baixo da dele como uma flor.

Gaius deixou-se levar pela doura dela. Entorpecido, cada pulsao um batimento de 
tambor, levou um momento a perceber o que tinha acontecido quando ela o afastou.

- Ns no devemos! - murmurou ela. - O meu pai matar-nos-la aos dois!

Gaius forou as suas mos a abrirem-se e a deix-la afastar-se. Pr as mos na filha do 
seu anfitrio era uma impiedade da pior espcie. Eilan devia ser to sagrada para ele 
como a sua prpria irm. Sagrada... percebeu de sbito que o que sentia por ela era uma 
coisa sagrada. Deu-se conta de que quando a largou tinha, em vez disso, mergulhado os 
dedos na relva, e sentou-se limpando as mos.

-  verdade - Estava surpreendido por conseguir falar to serenamente. Os seus sentidos 
estavam ainda num rodopio mas sentiu o calor da certeza dentro de si. Desde aquele 
primeiro instante em que a tinha visto a olhar para si, para dentro do fosso onde tinha 
cado, aureolada pela luz, pareceu-lhe que este momento tinha sido predestinado.

- Envergonhar-nos-la a ambos e no h desonra de qualquer espcie no que sinto por 
vs. Amo-vos, Eilan, como um homem ama a mulher que tornaria na sua esposa.

- Como podeis? - murmurou ela, olhando fixamente para a fogueira. - Sois um estranho. 
Nem nunca me tnheis visto at h duas semanas. Sonhastes comigo, tambm?

- Sou ainda mais estranho do que pensais - disse ele rigidamente. - Mas provarei o meu 
amor por vs... - juntou toda a sua coragem. - Agora vou pr a minha vida nas tuas 
mos. Eu sou romano, Eilan. No menti inteiramente! - acrescentou rapidamente 
quando ela se afastou. - Gawen era o nome pelo qual a minha me me chamava; mas o 
meu verdadeiro nome  Gaius Macellius Severus Siluricus e no tenho vergonha da 
minha linhagem. A minha me era uma filha real dos Silures e o meu pai  Prefeito de 
Campo da II Legio Adiutrix. Se isso fizer com que me odeies, chama os guardas e 
deixa que eles me tirem a vida.

A CASA DA FLORESTA

93

Ela corou e voltou a empalidecer.
- Nunca vos trairia.

Ele olhou-a fixamente. A minha me f-lo... Subitamente percebeu quo estranho era 
esse pensamento, j que de certeza que a sua me no tinha querido morrer e deix-lo 
sozinho. S agora, de novo no quente e colorido mundo dela, estava a perceber quo 
doloroso tinha sido o choque de ter sido arrebatado desse mundo para a fria disciplina 
de um aquartelamento. Seria por isso que ele nunca tinha sido capaz de se abrir com 
nenhuma rapariga romana como o estava a fazer agora com Eilan?

- Amanh devo voltar para o meu povo, mas fao-vos a minha promessa de que se sair 
daqui inclume, e se isso no vos desagradar, pedirei ao teu pai, honrosamente, a 
vossa mo!

Podia sentir o bater do seu corao agitando-lhe o peito, mas no conseguia pensar em 
mais nada para dizer.

- No seria desagradvel para mim, Gawen... Gaius - disse ela por fim. A sua voz era 
muito suave, mas o seu olhar nunca se desviou do dele. - Mas no penso que o meu pai 
consentisse em entregar-me a um romano, especialmente a um sado das legies. E, 
mesmo que concordasse, o meu av no o faria; e Cynric... - As palavras saram num 
tropel. - Cynric matar-vos-la se soubesse!

- Isso podia no ser to fcil - disse Gaius, o seu orgulho vindo ao de cima, se bem que 
o mesmo pensamento lhe tivesse ocorrido. - Mas  assim to impossvel? Desde que 
viemos para esta ilha um certo nmero dos nossos oficiais tm casado com mulheres 
brets de boas famlias para cimentar alianas. Afinal de contas eu prprio sou meio 
breto.

- Talvez - disse ela duvidosamente -, mas no na nossa famlia!

- Bem, o meu sangue, por ambos os lados,  seguramente to bom como o vosso!

Ela lanou-lhe um estranho olhar e ele percebeu que o seu orgulho romano estava a 
falar. Ela parecia no desgostar dele, mas tambm no estava convencida e o seu 
inflexvel pai seria ainda mais difcil de persuadir.

- Nunca encontrei ningum de que gostasse tanto como vs - disse ela 
desamparadamente -, e em to pouco tempo.

94

MARION ZIMMER BRADLEY

Tambm no o percebo - admitiu -, mas parece, de algum modo, como se vos 
conhecesse desde o comeo do mundo.

- Talvez tenhais - disse Gaius, quase num murmrio. Por um momento sentiu-se to 
inocente como a rapariga nos seus braos.

Ele disse:

- Alguns dos filsofos gregos acreditam que cada alma volta uma e outra vez at 
completar a sua misso na terra, e se encontra de novo com aqueles que amou e odiou 
nas outras vidas. Pode ser que algum destino, numa outra vida, nos tenha dirigido um 
para o outro, Eilan. - Mesmo enquanto estava a falar, ele pensava consigo prprio. 
Como podia ele, Gaius Macellius Severus, falar assim a qualquer mulher? Mas Eilan, 
justificou-se, no era  uma mulher qualquer ; nunca, na sua vida, se tinha sentido to 
prximo de qualquer pessoa. Pela primeira vez na sua vida, o seu sentimento por uma 
rapariga era quase mstico, algo que ele no sabia explicar.

- Os druidas tambm ensinam isso - disse ela suavemente.
- Os maiores dos nossos sacerdotes tiveram muitas existncias nesta terra, vivendo 
como veados, salmes e javalis, para que pudessem compreender tudo o que vive; e 
heris, cuja vida  interrompida abruptamente, renascem frequentemente. Mas quanto a 
mim e a vs... - Ela enrugou a fronte e ele achou difcil enfrentar o seu lmpido olhar.

Uma vez olhei para um lago e vi-me a mim prpria com um rosto diferente e, no 
entanto, era eu. Penso que, nessa altura, eu era uma sacerdotisa. Agora olho para vs e 
no vejo nem um breto nem um romano. O meu corao diz-me que reis um grande 
homem entre o teu povo... como um rei.

Gaius corou. Este gnero de conversa constrangia-o sempre.

- Agora no sou um rei - disse asperamente -, e vs no sois uma sacerdotisa. Eu quero-
vos nesta vida, Eilan! - Pegou-lhe na mo. - Quero ver-vos de manh quando acordo e 
dormir convosco nos meus braos. Sinto como se alguma coisa me tivesse faltado em 
toda a minha vida e vs tornais-me completo! Conseguis compreender? - Parecia 
impossvel que amanh j estivesse de regresso s legies, impossvel que pudesse 
nunca mais voltar a v-la.

A CASA DA FLORESTA

95

Durante algum tempo ela olhou para a fogueira, depois voltou-se para ele.

- Antes de vos encontrar sonhei convosco - disse suavemente. - Muitos na minha famlia 
tm segunda viso e, por vezes, vejo coisas verdadeiras nos meus sonhos. Mas isto no 
o contei a ningum. Vs j estais no centro do meu corao. No sei que poder nos 
est a arrastar um para o outro, mas penso que j vos amei antes.

Ele inclinou-se para lhe beijar a palma da mo e ela soltou um trmulo suspiro.

- Eu amo-vos, Gaius. H um lao entre ns. Mas como podemos ficar juntos, isso no 
consigo eu ver...

-    Devia, Tom-la agora , pensou Gaius, desse modo eles teriam de deixar que nos 
casssemos! Estava quase a pux-la para si quando uma forma passou entre eles e a 
luz. O espao  volta das fogueiras estava a encher-se de gente. Uma olhadela s 
estrelas disse-lhe que era quase meia-noite e a Lua estava alta. Para onde se tinham ido 
as horas? Eilan soltou uma branda exclamao e comeou a pr-se de p.

- O que ? - perguntou ele. - O que se passa? - Podia ouvir,  distncia, gritos 
turbulentos e gargalhadas, mas, aqui, a disposio das pessoas era ao mesmo tempo 
reprimida e alegre. A sensao de expectativa que podia sentir  sua volta fez a sua pele 
formigar.

- Chiu! - murmurou Eilan quando ele se ps de p a seu lado. - Vem a a Deusa...

Algures, para l do crculo de luz das fogueiras, trinaram flautas e Eilan calou-se. No 
sbito silncio, o sibilar do fogo ouvia-se COM nitidez. As chamas tinham ardido at se 
transformarem em ties que iluminavam o espao com um brilho uniforme, esfriado 
pelo luar at se tornar numa radincia dourada plida, como nenhuma luz que ele tivesse 
jamais visto.

Algo luziu fracamente para l do crculo de luz. Estavam a chegar druidas com os seus 
mantos brancos; homens com ondulantes barbas, coroados com folhas de carvalho e 
com colares dourados  volta do pescoo, Deslocando-se no sentido do movimento do 
Sol, rodearam as fogueiras e pararam, aguardando. O seu crculo era to uniformemente 
espaado como o de sentinelas  volta do permetro de um acampamento, mas os seus 
movimentos

96

MARION ZIMMER BRADLEY

no tinham nada da preciso militar que Gaius tinha aprendido. Vieram, simplesmente 
para se imobilizarem onde deviam ficar, tal como as estrelas.

Campainhas de prata tilintaram docemente e a tenso no crculo cresceu. Gaius 
pestanejou, mas no conseguia ver nada e, no entanto, havia alguma coisa que se movia, 
uma massa de sombra que avanava na sua direco. Abruptamente percebeu que estava 
a ver formas de mulheres envoltas em roupagens de um azul como o da meia-noite. Elas 
deslizaram para dentro do crculo, e  sua volta, ornamentos de prata a tinirem 
levemente, as suas faces uma plida mancha por baixo dos vus.

Subitamente compreendeu. Eram as sacerdotisas da Casa da Floresta, as mulheres 
sagradas que tinham escapado  violao em Mona. Ver tantos druidas juntos eriou-lhe 
o cabelo, e quando olhou para as formas sombrias das sacerdotisas sentiu terror e um 
sbito sentimento de fatalidade. Estaria o seu destino de alguma forma ligado ao das 
sacerdotisas da Casa da Floresta? Este pensamento gelou-lhe o sangue, e ele apertou 
com fora a mo de Eilan.

As trs ltimas sacerdotisas moveram-se em direco a uma liteira com trs assentos 
que tinha sido colocada entre as fogueiras. A mais importante delas era esbelta, um 
pouco arqueada sob as suas roupagens, ladeada por uma mulher alta e por outra mais 
vigorosa. Ambas tinham cabelo escuro e usavam ornamentos de prata. As duas no 
usavam vu e ele podia ver os crescentes azuis tatuados entre as suas sobrancelhas. O 
primeiro pensamento de Gaius foi que a rapariga alta seria um adversrio de peso numa 
luta, enquanto, nos olhos da sua companheira, conseguiu sentir descontentamento.

O grupo fez uma pausa e houve um ritual qualquer com uma bacia dourada que ele no 
conseguiu perceber. Depois, ajudaram as sacerdotisas a sentar-se na liteira com os trs 
assentos e transportaram-na para o cimo do monte, entre as fogueiras. A vaga de som 
dos sinos atingiu o clmax, depois parou,

- Filhos de Don, por que vieram aqui? - perguntou a mulher alta, chamando-os pelo 
nome da mtica avoenga das tribos.

- Pedimos a bno da Deusa - replicou um dos druidas.
- Ento chamem por Ela!

A CASA DA FLORESTA

97

Duas das mulheres lanaram mos-cheias de ervas nas brasas. As narinas de Gaius 
abriram-se quando uma lufada de fumo adocicado redemoinhou e se espalhou, 
enchendo o espao com uma neblina rubra. Ele estava habituado ao incenso, mas nunca 
tinha sentido, antes, esta estranha sensao de opresso, Teria dito que o tempo estava a 
mudar, mas o cu estava limpo.

 sua volta o sussurro estava a transformar-se num murmrio de muitas vozes, um 
suave murmrio de invocao e apelo. Por baixo de tudo, ouvia os druidas a zunir, e 
pareceu-lhe que a terra debaixo dos seus ps vibrava em resposta. Uma vez mais teve 
medo. Olhou para Eilan e viu o seu olhar, enlevado e arrebatado, fixo nas trs figuras 
no meio das fogueiras.

A mulher velada deixou sair um pequeno soluo e ele viu-a oscilar.

Ela  como a Sibila , pensou Gaius, ou como a Pitonisa de Delfos de que o meu 
tutor me falou. Mas nunca tinha esperado ele prprio ver tal coisa. O zunido cresceu 
de intensidade e, subitamente, a mulher velada imobilizou-se e as outras duas recuaram. 
Susteve a respirao, pois, de algum modo, parecia que ela tinha ficado mais alta. 
Endireitou-se, virando-se como se estivesse a olhar  sua volta. Depois, riu-se 
suavemente e puxou o vu para trs.

Gaius tinha ouvido dizer que a Gr Sacerdotisa de Vernemeton era   velha, mas esta 
mulher fulgurava de beleza e gesticulava com uma tal incansvel energia que no tinha 
nada a ver com a velhice. O seu cinismo romano evaporou-se e o seu sangue materno 
cresceu nele.  verdade - todas as histrias so verdadeiras - a Deusa est aqui...

- Eu sou a verde terra que vos embala e o tero das aguas... - disse ela, numa voz cuja 
suave ressonncia fazia parecer que lhe estava a falar ao ouvido. - Eu sou a branca Lua e 
o mar de estrelas, Eu sou a noite da qual nasceu a primeira luz. Eu sou a me dos 
deuses; Eu sou a virgem; Eu sou a escura serpente que tudo engole. Vem-me? 
Desejam-me? Aceitam-me agora?

- Ns vemos... - veio a resposta murmurada. - Ns vemos-Vos  e adoramos...

- Regozijem-se ento, para que a vida possa continuar, Cantem, dancem, festejem e 
faam amor, e tero a minha bno; o gado parir e o trigo crescer.

98

MARION ZIMMER BRADLEY

- Senhora! - Elevou-se subitamente uma voz de mulher.
- Eles levaram o meu homem para as minas e os meus filhos tm fome. O que hei-de fazer?

- Eles levaram o meu filho! - gritou um homem, e outros fizeram eco. - Quando nos livrareis vs dos Romanos? 
Quando voar a seta da guerra? - Levantou-se um murmrio de protesto e Gaius encolheu-se, sentindo a tenso no ar. 
Bastava a Eilan dizer uma palavra e eles f-lo-lam em pedaos. Mas quando olhou para ela viu os seus olhos 
brilhantes com lgrimas.

- Sois vs, os meus filhos, os que ouvis o choro da vossa irm e no a amparam? - Escuras roupagens esvoaaram 
quando a Deusa se voltou. - Cuidai uns dos outros! Nos arcanos volumes dos cus li o nome de Roma, e nesse rol, 
vos digo, li Morte!  um facto, Roma cair, mas o seu destino no vos cabe a vs proclamar! Tenho dito, atendei 
agora  minha palavra!

- Recordai-vos do crculo da vida. Todo aquele que perderdes reencontrareis um dia, e o que vos foi tirado ser 
devolvido. Tomai nota, eu fao descer o poder dos cus para que o mundo possa ser renovado!

Ergueu as mos na direco do luar, e Gaius teve a sensao, de tal modo a figura dela foi obscurecida, de que a 
luminosidade se tinha tornado mais brilhante. As sacerdotisas agrupadas em seu   redor comearam a cantar:

Sobre essas antigas rvores sagradas,

Brilha agora a tua encantadora luz prateada; Descobre o teu rosto para que possamos ver descoberto o seu brilho 
na noite ... 

Gaius tremeu. Nunca tinha pensado que       vozes de mulheres pudessem ser to belas. Por um instante pareceu que 
um feitio tinha sido lanado sobre todo o mundo para o reduzir ao silncio; depois, os braos da Gr Sacerdotisa 
abriram-se. As suas duas sacerdotisas precipitaram-se uma para cada lado e, nesse preciso momento, as chamas das 
fogueiras subiram furiosamente para o cu. Teriam elas lanado alguma coisa para as chamas? Ele no conseguiu ver 
- ele mal conseguia pensar, pois toda a gente estava a gritar.

- Dancem! - A voz da Deusa ergueu-se por cima da multido. - Alegrem-se, recebam o meu xtase! - Durante um

A CASA DA FLORESTA

91)

momento ela arqueou-se para cima, braos estendendo-se como que para abraar o mundo. Depois, deixou-se cair nos 
braos da sacerdotisa alta.

Mas Gaius no conseguiu ver o que aconteceu depois porque algum veio de encontro a ele. A sua mo apertou com 
fora a de Eilan e sentiu a outra agarrada por um estranho. Tambores soaram e, de repente, estavam a mexer-se, todo 
o crculo se mexia, e no havia mais nada no mundo a no ser o bater do tambor.  medida que o rufar o levava para 
o exterior, conseguiu ver Cynric e Dieda do outro lado do crculo e pareceu-lhe que o rosto da rapariga brilhava com 
lgrimas.

Muito tempo mais tarde, pareceu, a dana acabou e Cynric e Dieda encontraram-nos mas, uma vez que o xtase se 
tinha dissipado, o seu prprio desespero impediu-os de pensar sobre o que Gaius e Eilan teriam achado para 
conversar nessa noite de Beltane. Era muito tarde quando chegaram a casa de Bendeigid, e no pareceu que algum 
tivesse suspeitado que os dois casais no tinham passado juntos todo o tempo. Gaius ficou contente que assim fosse - 
era muito melhor pedir a mo de Eilan desde Deva, com a fora do seu pai por detrs dele, do que deixar o druida 
suspeitar que o seu convidado tinha assumido um compromisso com a filha enquanto Gaius ainda se encontrava em 
poder do velho.

Mas, se fosse ele o pretendente aprovado de Eilan eles teriam podido, pelo menos, deixado v-la para lhe dizer 
adeus. Rheis tinha decretado um dia de limpeza e todas as mulheres estavam atarefadas a trabalhar. Tal como as 
coisas estavam, teve apenas direito  promessa de Rheis de transmitir a sua cuidadosamente censurada despedida, e a 
um relance do brilhante cabelo de Eilan, para o confortar quando tomou a estrada para Deva e para o mundo de 
Roma,

SEIS

O Macellius Severus mais velho, Prefectus Castrorum da
11 Legio Audiutrix, em Deva, era um homem que estava apenas agora a entrar na meia 
idade, com uma grande e imponente presena, que podia esconder uma formidvel fria 
por baixo de uma superfcie exterior de calma. A sua suavidade era enganadora. Grande 
como era, ele nunca gritava ou berrava; era afvel, quase escolar e, de vez em quando, 
os que no o conheciam bem iludiam-se a pensar que ele era ineficaz.

Esta aparente suavidade era um valioso trunfo para a posio que agora ocupava: 
Prefeito de Campo, Prefectus Castrorum de Deva. Para alm de estar encarregado do 
Campo em permanncia, servia como uma espcie de ligao entre a legio e a 
populao; no era responsvel perante o comandante da legio, mas apenas perante o 
governador da provncia e perante o recentemente institudo LegatusJuridicus, mas, 
uma vez que o governador estava nos campos da Calednia e o Juridicus estava baseado 
em Londinium, isto queria dizer que, neste distante posto avanado, a sua palavra era 
uma verdadeira lei civil. Felizmente ele trabalhava bem com o comandante da legio, 
sob cujas ordens tinha servido h muito tempo em diversas campanhas, o qual tinha 
encorajado os seus esforos para satisfazer os requisitos financeiros necessrios para 
ascender  categoria de cavaleiro, as classes mdias que eram a espinha dorsal do 
governo romano.

Macellius Severus assegurava os abastecimentos e raes para toda a legio, dirigia o 
aquartelamento e agia como oficial de ligao geral entre a populao - tanto bret 
como romana - e o exrcito. Na teoria, representava tambm os interesses da populao 
civil. Ao requisitar abastecimentos para as legies, era-lhe pedido que providenciasse 
para que as pessoas que os forneciam
102

MARION ZIMMER BRADLEY

eram deixadas com comida e mo-de-obra suficientes que evitasse conduzi-las a uma 
revolta, Da a verdadeira administrao das terras da Ordovia,  volta de Deva, estar 
mais nas suas mos, excepto em caso de guerra, que nas do comandante legionrio.

O seu escritrio, pequeno e austero, e construdo com uma rgida economia de espao, 
conseguia, de algum modo, acomodar uma enchente diria de pessoal civil e militar, 
com uma longa lista de queixas, requisies e peties. Por vezes, Macellius, que no 
era um homem pequeno, parecia como que fisicamente empurrado para um canto.

Tinha quase acabado o seu acervo desta manh. Sentado numa espcie de cadeira 
reclinvel e de cenho franzido para um rolo de pergaminho que tinha no colo, fazia de 
conta que ouvia pacientemente um gordo e efeminado habitante da cidade, vestido com 
uma toga de cidado romano, o qual estava a falar ininterruptamente h quase um 
quarto de hora. Macellius podia t-lo interrompido em qualquer altura, mas a verdade 
era que no tinha ouvido uma palavra em cada vinte; estava a ler a lista de 
abastecimentos. Teria sido grosseria interromper um peticionrio apenas para estudar 
uma listagem; no custava nada deixar o homem falar enquanto a lia. Em qualquer caso, 
tinha ouvido o suficiente para perceber que Lucius Varullus estava simplesmente a 
repetir a mesma coisa, vezes sem conta, com uma srie de variaes oratrias.

- Seguramente no desejais que me dirija ao legado, Macellius - continuou 
lamurientamente a voz de falsete. Macellius enrolou a lista e p-la de lado, decidindo 
que j o tinha ouvido o tempo suficiente.

- Claro que podeis se o quiseres - asseverou, suavemente -, mas duvido que ele vos 
conceda uma audincia como esta, se  que tem sequer tempo de todo para vs. - Ele 
conhecia bem o seu comandante. - Deveis lembrar-vos que estes so tempos de 
desassossego. Uma certa dose de sacrifcio...

O gordo lbio inferior do homem do outro lado da mesa continuou, em protesto.

- No, claro que no - disse, acenando com a mo num gesto delicado. - Meu caro 
amigo, ningum, absolutamente ningum mais do que eu est preparado para o fazer, 
mas como posso trabalhar as minhas herdades e os meus jardins se todos os

A CASA DA FLORESTA

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homens da rea forem recrutados? No  certo que a paz e conforto dos cidados 
romanos devem ser as preocupaes mais importantes? Ora, at tive que pr os meus 
jardineiros a trabalhar nos canteiros de nabos! Deveis ver os meus jardins! - concluiu 
lamentosamente.

- Ora essa! - disse imediatamente Macellius. - No sou responsvel pela organizao do 
recrutamento dos nativos. - Silenciosamente, amaldioou a sombra do Imperador que 
tinha concedido a cidadania romana a idiotas como este. - Tenho pena, Lucius - disse 
(estava a mentir e no tinha pena nenhuma) -, mas agora no posso fazer nada por vs.

- Oh, mas meu caro amigo, simplesmente tendes que o fazer.

- Olhai - disse    Macellius simplesmente -, estais pura e simplesmente a perseguir o 
cavalo errado. ide ter com o legado se desejardes e vede que tipo de resposta ele vos d; 
duvido que tenha sequer metade da pacincia que eu tenho tido. Trazei escravos da 
Glia ou pagai melhores salrios - Ou , acrescentou silenciosamente, vai tu mesmo 
para l com um forcado e desfaz alguma dessa gordura. - Agora, se fazeis favor, estou 
muito ocupado esta manh. - Deixou o seu olhar cair novamente no rolo e tossiu 
discretamente.

Valerius comeou a protestar, mas Severus j se tinha virado para o seu secretrio, um 
jovem magro, de aspecto triste,
 - O que se segue, Valerius?

Depois de Varullus ter resmungado a sua despedida, o secretrio fez entrar um boiadeiro 
que tinha vendido gado s legies. De bon na mo, implorou o perdo de Sua 
Excelncia, num hesitante latim dos mercados, por estar a ma-lo, mas as estradas 
estavam to cheias de bandidos...

Macellius dirigiu-se fluentemente ao homem no seu prprio dialecto silure.

- Fala, homem. O que te est a preocupar?

Quando o campons despejou a sua histria, parecia que ele tinha sido contratado para 
conduzir o seu gado por terra at  costa, e havia ladres e assaltantes, e o gado 
pertencia  legio, e ele era um homem pobre que no podia suportar a sua perda para 
os bandidos, e...

Macellius levantou uma mo.

104

MARION ZIMMER BRADLEY

- Est bem - disse, no sem simpatia -, queres uma escolta militar. Vou-te dar uma nota para um dos centuries. 
Encarrega-te disso, Valerius. - Acenou com a cabea para o secretrio.
- D-lhe uma nota para Paulus Appius e diz-lhe que se encarregue de escoltar estes animais do exrcito. No, homem, 
no te desculpes,  para isso que aqui estou.

Depois de o boiadeiro ter sado, acrescentou impacientemente:
- No que  que Paulus est a pensar? Por que  que, em nome dos cus, este assunto teve que chegar at mim? 
Qualquer decurio a meio do percurso podia ter tratado dele! - Engoliu algum ar, esforando-se por readquirir a sua 
calma habitual.
- Bem, manda entrar o prximo.

O seguinte era um breto chamado Tascio que tinha aparecido para vender centeio. Macellius fez uma carranca.

- No o receberei; o ltimo lote que nos vendeu estava podre.
 Mas ns precisamos dele; h falta de gro.
 Ouve. Oferece a esse aldrabo metade do que ele pede; e antes de dares ordem ao tesoureiro para lhe fazer o 
pagamento traz meia dzia dos cozinheiros das messes para o inspeccionarem. Se estiver podre ou bolorento deita-o 
para o lixo e queima-o; o centeio podre provoca doenas nos homens. Se estiver bom paga-lhe a metade acordada e se 
ele te causar qualquer problema ameaa-o de ser chicoteado por enganar a legio. Sextiflus disse-me que da ltima 
vez seis homens tinham sido envenenados pela malfadada coisa. Se ele ainda armar rebolio, entrega-o a Appius - 
continuou e eu farei uma queixa ao druida Curia, e o que eles lhe fizerem no ser nem metade to bondoso. E, j 
agora, se este lote estiver estragado coloca-o na lista negra e diz-lhe para no aparecer mais por aqui. Percebeste?

Valerius, parecendo mais triste que nunca, concordou. Porque, apesar da sua fraca aparncia, era extremamente 
eficiente neste gnero de assuntos. Quando se preparava para sair, Macellius ouviu a sua incongruente voz baixa 
elevar-se com a surpresa.
- Ol, jovem Severus. j estais de volta?

Macellius ouviu uma voz familiar responder.

- Salve, Valerius! Hei, tem calma, esse brao ainda me di!
O meu pai est?

Macellius levantou-se to precipitadamente que a sua cadeira se virou.

A CASA DA FLORESTA

105

- Gaius! Meu querido rapaz, j estava a comear a ficar preocupado contigo! - Deu a volta  secretria e abraou 
rapidamente o filho. - O que te reteve tanto tempo?

- Vim assim que pude - desculpou-se Gaius.

Ele sentiu o rapaz retrair-se quando o abraou com mais fora e largou-o abruptamente.

- O que se passa? Ests ferido?

- No verdadeiramente, estou quase curado. Estais ocupado, Pai?

Macellius olhou  volta do pequeno escritrio.

- No h aqui nada de que Valerius no se possa encarregar perfeitamente bem. - Olhou desaprovadoramente para as 
poeirentas roupas do filho e disse com alguma dureza: - Tens que andar pelo Campo vestido como um liberto ou um 
nativo?

Os lbios de Gaius apertaram-se um pouco, como se a palavra  nativo  o tivesse ferido. Mas a sua voz era normal e 
sem qualquer tom de desculpa quando replicou.

-  mais seguro viajar deste modo.

- Humph! - Mas Macellius sabia que era verdade. - Nesse caso, no podias ento, ao menos, ter tomado banho e 
vestido decentemente antes de vires  minha presena?

- Pensei que podias estar ansioso a meu respeito, Pai
- disse Gaius -, vendo que eu excedi a minha licena por alguns dias. Com a vossa permisso irei tomar banho e 
vestir-me.
O nico banho que tomei durante esta semana foi no rio.

- No te apresses - disse Macellius amuadamente. - Vou contigo. - Deixou a sua mo descansar no antebrao do 
homem mais novo, agarrando-o sem palavras. Por alguma absurda razo, preocupava-se sempre que Gaius estava 
fora, que o rapaz pudesse no voltar; no sabia porqu, j que o jovem tinha sido sempre auto-suficiente. A viso do 
brao ligado tinha-o assustado.

- Agora diz-me o que aconteceu; por qu as ligaduras?
- Ca numa armadilha para javalis - disse Gaius. - Uma das estacas atravessou-me o ombro. - O seu pai empalideceu e 
Gaius acrescentou de maneira tranquilizadora. - Agora est mais que curado; j nem sequer di, a no ser que bata 
com ele nalguma coisa. j poderei agarrar numa espada dentro de seis semanas.

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MARION ZIMMER BRADLEY

- como ... ?

- Como  que sa de l para fora? - o rapaz fez uma careta. - Alguns bretes 
encontraram-me e trataram-me at estar bom outra vez.

A face de Macellius traiu o que ele no conseguia exprimir.
- Espero que os tenhas recompensado convenientemente.
- Mas Gaius pareceu perceber a ansiedade escondida por trs da indirecta.

- Pelo contrrio Pai, a hospitalidade foi oferecida generosamente e eu aceitei-a da 
mesma forma.

- Estou a ver. - Macellius no forou o assunto. Gaius tinha a tendncia para se tornar 
sensvel quando se tocava no seu sangue breto.

Nos banhos militares, mesmo encostados  paliada, Macellius escolheu uma cadeira 
baixa, enquanto Gaius era despido e esfregado pelos servidores do exrcito. Depois de 
os seus escravos terem sido enviados a casa buscar roupas lavadas, Macellius recostou-
se na sua cadeira meditando no que  que o rapaz teria andado a fazer at agora. Havia 
uma diferena nele, alguma coisa mais que no podia ser explicada apenas pelo 
ferimento. Por um momento desejou estar de volta ao seu escritrio a tratar de assuntos 
dos quais se podia descartar com facilidade.

Nesta altura Gaius emergiu do banho, parecendo muito jovem e muito limpo, na sua 
curta tnica de l, com o cabelo molhado caindo aos caracis pelas costas. Mandou 
chamar um escravo-barbeiro e, enquanto o homem cortava o rebelde cabelo at um 
comprimento militar e lhe rapava a barba nascente, contou a sua aventura. Era claro que 
ele estava a deixar algumas coisas de fora, pensou Macellius. Por que  que Clotinus 
Albinus no tinha reportado o acidente? Sentiu um sentimento de alvio por ter sido 
poupado ao gnero de aborrecimento que qualquer irregularidade teria provocado.

- Esse brao tem que ser visto por um mdico do exrcito - limitou-se a dizer quando a 
histria acabou.

Gaius protestou irritadamente.

- Est tudo a correr muito bem.

Mas Macellius insistiu, e, depois de uma certa demora, o velho Manhus entrou, 
desapertou as cuidadosas ligaduras de Cynric e sondou, tacteou e carregou at Gaius 
ficar branco e a suar.

A CASA DA FLORESTA

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Depois, anunciou solenemente que o brao estava to bem curado como se tivesse sido 
ele que o tivesse tratado desde o incio.

- Podia-vos ter dito isso... - resmungou o rapaz, recusando enfrentar o olhar do pai.  
Bom , pensou o homem mais velho, no  to estpido que discuta comigo ... 

Gaius recostou-se de modo hesitante, a sua mo boa tombando depois duma desajeitada 
tentativa para prender o alfinete da tnica, e, no entanto, fez uma careta quando 
Macellius estendeu as mos e a prendeu, tentando segurar a mo do pai com a sua.

- Disse-vos que estava bem, Pai, meu velho estico - disse com alguma aspereza. 
Macellius pensou novamente, Ele  um belo rapaz; que tipo de diabrura ter estado a 
tramar? Bem, ele tem direito a uma certa dose de aventura. Se bem que seja melhor 
que no o saiba, no entanto ...  Pigarreou, contente por no estar mais ningum a usar a 
casa dos banhos nesta altura do dia.

- Ento, que desculpa podes dar por ultrapassares o tempo da tua licena, filho?

Gaius acenou com a cabea na direco do brao.

- Percebo; claro que no podias viajar com esse ferimento e eu falarei com Sextilius. 
Mais uma vez,  preciso ter em considerao que Os acidentes acontecem. Mas tu no 
s nenhum boneco patrcio que te possas relaxar. O teu av era um lavrador nos 
arredores de Tarentum e eu tive que trabalhar duramente para chegar at onde cheguei. 
Gaius, o que dirias de no voltar para Glevurn?

- Quereis dizer que me levariam a tribunal marcial por ultrapassar a licena devido a um 
acidente ... ? - Pareceu to Preocupado que Macellius se apressou a acalm-lo.

- No, no, no quis dizer isso. O que quero dizer  se gostarias de ser transferido para o 
meu pessoal? Preciso de algum que me ajude aqui, e quando falei ao Governador, 
quando ele ia a caminho do Norte, ele concordou em abrir uma excepo e deixar-te 
servir comigo.  tempo de eu comear a apresentar-te s minhas relaes aqui. A 
provncia est a crescer, Gaius. Inteligncia e energia levaro um homem longe. Se eu 
pude ascender ao grau de cavaleiro, apenas um degrau abaixo da nobreza, quem sabe at 
onde poders tu ir?

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MARION ZIMMER BRADLEY

Viu o sofrimento nos olhos de Gaius e pensou se o seu filho estaria com dores. Pareceu 
passar-se muito tempo antes que o rapaz respondesse.

- Nunca percebi porque ficaste aqui na Bretanha, Pai. No poderias ter subido mais 
rapidamente se te tivesses disposto a ir para outro lado?  um grande imprio.

- A Bretanha no  todo o mundo - disse Macellius mas eu gosto dela. - A sua face ficou 
sria. - Uma vez ofereceram-me o posto de Juridicus, na Hispnia. Devia t-lo aceitado, 
nem que fosse por tua causa.

- Porqu a Hispnia, Pai? Por que no na Bretanha? Assim que a pergunta lhe saiu dos 
lbios, Gaius pareceu dar-se conta de que tinha sido um erro. Macellius sentiu a sua 
prpria face endurecer.

- O Imperador Claudius estava to ocupado a tentar reformar as coisas em casa, desde o 
Senado e a cunhagem de moeda at  religio do Estado, que nunca arranjou tempo para 
reformar as leis militares - explicou Macellius - e os Imperadores que vieram depois 
dele pareceram pensar que ele, tendo sido o conquistador oficial da Bretanha, sabia o 
que estava a fazer.
- No percebo o que quereis dizer, Pai.

- Visitei Roma apenas uma vez - disse Macellius. - E Londinium parece-se mais com a 
Roma que fui educado a honrar do que o que a prpria Roma  agora. O Imprio est 
num diabo duma confuso, Gaius; isso no deve constituir nenhuma surpresa para ti. - 
Franziu o sobrolho, depois, com uma sbita irritao, virou-se para o escravo que 
permanecia junto das suas cadeiras e ordenou: - Arranja-nos alguma coisa para comer, 
no fiques para a a olhar estupidamente.

Quando ficaram novamente ss, virou-se para Gaius.

- O que vou dizer agora cai sob a definio oficial de traio; quando eu acabar de falar 
esquece-te do que ouviste, est bem? Mas, como oficial da legio tenho uma certa 
responsabilidade. No caso de alguma vez haver qualquer reforma, talvez esta tenha de 
partir das provncias como a Bretanha. Tito... esta conversa  perigosa... Tito  bem 
intencionado, mas parece mais interessado em aumentar a sua popularidade que em 
governar o Imprio. Domiciano, o irmo dele, pelo menos  eficiente, mas ouvi rumores 
de que a sua ambio se pode vir a sobrepor  sua

A CASA DA FLORESTA

109

pacincia. Se ele se tomar num pretendente  prpura e vier a ser imperador, ento o 
pouco poder que ainda resta ao Senado e ao povo de Roma pode desaparecer.

Eu faria a minha famlia progredir  velha maneira, pelo servio e por criteriosos 
empreendimentos, uma gerao a seguir  outra - continuou Macellius muito 
deliberadamente. - Perguntaste-me porque fiquei na Bretanha. Julius Classicus tentou 
criar um imprio Gauls ainda nem h dez anos. Depois de Vespasiano o ter esmagado, 
este decretou que os auxiliares no podiam ser utilizados no seu pas de origem e que as 
legies deviam ser formadas por uma mistura de homens de todo o Imprio. Foi por isso 
que eu tive tanto trabalho para conseguir autorizao para tu servires na Bretanha e 
porque teria sido mais sensato para ns ter tentado a sorte na Hispnia, ou noutro local 
semelhante. o mais profundo medo de Roma  que as naes conquistadas se possam 
levantar de novo...

- Mas vs educastes-me a venerar as velhas virtudes de Roma. O que quereis, Pai, e, j 
que estamos a falar francamente, o que temeis?

Macellius olhou para a suave face do rapaz  sua frente, procurando algum trao da rude 
fora do seu prprio pai. Havia, talvez, uma parecena na forte linha do queixo, mas o 
nariz do rapaz era celta, pequeno, quase arrebitado, como o da me, No admira que 
tivesse parecido um breto quando entrou pela porta dentro. Ele  fraco, pensou, ou 
apenas jovem? E, depois, onde repousa verdadeiramente a sua lealdade?

- Caos... - disse sobriamente. - O mundo de pernas para o ar. Outra vez o tempo dos 
quatro Imperadores ou o da Rainha Assassina. No te podes lembrar mas, para ns, no 
ano em que nasceste, parecia que o mundo estava a acabar...

- Pensais que uma rebelio romana, ou uma bret, so igualmente de temer? - perguntou 
Gaius com curiosidade.

- Leste Valerius Maximus? - disse o pai subitamente. - Se no o fizeste, l-o quando 
puderes; costumava haver aqui umas duas cpias, na biblioteca dos legionrios.  um 
livro escandaloso; ele nunca o devia ter escrito. Quase perdeu a cabea no tempo de 
Nero, o que no me surpreende. Ele comeou a escrever no tempo do deificado Tibrio, 
mas faz algumas observaes vlidas sobre alguns dos Imperadores que se lhe 
seguiram... dizer

110

MARION ZIMMER BRADLEY

que alguns deles eram to falveis como G.- bem, como os Deuses sempre o so, no  
traio; no agora, de qualquer modo. Ele prprio o refere, mesmo um mau Imperador  
melhor que a guerra civil.

- Mas disssteis que a reforma podia ter que partir das Provncias...

Macellius fez uma careta. Pelo menos no havia nada de errado com a memria do 
rapaz.

- Reforma, no rebelio... Lembra-te de que eu tambm disse que hoje em dia 
Londinium  como Roma costumava ser. As velhas virtudes romanas podem sobreviver 
nas provncias, longe da corrupo que rodeia o Imperador. De muitos modos, as tribos 
aqui so como o povo do campo em que nasci. D-se-lhe o melhor da cultura romana e 
talvez a Bretanha se possa tornar no que Roma era suposto ser.

- Foi por isso que cassteis com a minha me? - perguntou Gaius rompendo o silncio.

Macellius olhou para ele e pestanejou, vendo uma vez mais o rosto de fina ossatura e o 
trigueiro cabelo de uma rapariga, lembrando-se de como ela costumava cantar quando 
puxava o pente de chifre pelos seus pesados caracis, faiscando com cintilaes de 
vermelho quando captavam a luz do fogo. Moruadh... Moruadh... por que me deixaste 
sozinho?

- Talvez fosse uma das razes - replicou finalmente.
- Mas talvez se justificasse, Nessa altura tnhamos esperana de juntarmos os nossos 
dois povos. Mas isso foi antes de Classicus... Boudicca. Talvez ainda possa acontecer, 
mas levar mais tempo, ters de ser mais romano que os romanos para sobreviver.

- O que  que ouviste? - perguntou Gaius, franzindo as sobrancelhas.

- O Imperador, Tito, tem estado doente. No gosto disso. Ele ainda  um jovem. Ele 
pode morrer na cama mas, depois dele, quem sabe? No confio em Domiciano. Deixa-
me dar-te um conselho, filho: tenta viver sem nunca chamares a ateno dum prncipe. 
s ambicioso?

- Os deuses o probam - disse Gaius.

Mas Macellius tinha visto o relmpago de orgulho nos seus olhos. Bem, se fosse bem 
dirigida, a ambio num jovem no era uma coisa m. Deu uma curta gargalhada.

A CASA DA FLORESTA

- Em qualquer dos casos,  tempo de darmos o passo seguinte para o progresso da 
famlia. Nada que v preocupar o Imperador... mas tu tens, o qu, dezanove anos?  
tempo de casares.

- Farei vinte dentro de algumas semanas, Pai - disse Gaius suspeitosamente. - Tendes 
algum em mente para mim?

- Suponho que sabes que Clotinus, sim, o velho percevejo, tem uma filha... - comeou 
Macellius, e parou quando o filho comeou a rir.

- Os Deuses o probam. Praticamente tive que a correr a pontap para fora da minha 
cama quando l estive hospedado.

- Clotinus ir ser um dos grandes homens na Provncia, apesar de ser breto. Se tivesses 
gostado da sua filha eu estaria disposto a comprazer-te, mas no se ela  assim to 
impudica.
O meu pai pode ter sido apenas um plebeu, mas podia nomear todos os seus 
antepassados. A honra da famlia exige que os teus filhos sejam da tua prpria 
procriao.

Olhou para cima, quando o escravo apareceu  porta trazendo uma bandeja com 
biscoitos duros e vinho. Serviu, entregou uma taa a Gaius e bebeu profundamente antes 
de falar novamente.

- Eis uma ideia de que talvez gostes mais. Podes no te lembrar disto, mas quando eras 
uma criana foi acordada uma tentativa de contrato de casamento entre ti e a filha dum 
velho amigo meu, Ele  agora o Procurador, Licinius.

- Pai - disse Gaius rapidamente -, tens falado com ele ultimamente? Espero que no 
tenhais levado as coisas longe de mais...

Macellius fitou-o cuidadosamente.

- Por qu? H alguma outra rapariga que desejes? No pode ser, sabes? Um casamento  
uma aliana econmica e social. Deixa-te guiar por mim, filho; essas atraces 
romnticas no duram muito tempo. - Ele pde ver o sombrio rubor que escureceu a 
clara pele do filho.

Muito cuidadosamente, Gaius bebeu outro gole de vinho.
- Ha uma rapariga, mas no  desejo o que sinto por ela. Propus-lhe casamento - disse 
calmamente.

- O qu? Quem  ela? - troou Macellius, virando-se para olhar para o filho.

112

MARION ZIMMER BRADLEY

- A filha de Bendeigid.

A taa de vinho tiniu     ruidosamente quando Macellius a pousou.

- Impossvel. Ele  um     proscrito e, se no me engano, um druida. De boa famlia, e 
por esse lado nada tenho a dizer contra a rapariga se ela  sua parente, mas isso ainda 
torna as coisas piores. Essa espcie de casamentos...

- Vs fizsteis um - interrompeu Gaius.

- E ele quase destruiu a minha carreira! A tua rapariga pode ser to boa mulher como a 
tua me, mas um casamento desse gnero  suficiente em qualquer famlia - exclamou 
Macellius. Moruadh, perdoa-me , gritou-lhe o corao. Eu amei-te, mas tenho de 
salvar o nosso rapaz.

As coisas eram diferentes nessa altura - continuou mais moderadamente. - Desde          
a rebelio de Boudicca que qualquer ligao, desde que no      seja com uma das mais 
leais famlias brets,  um desastre. E tu, em especial, tens de ser cuidadoso, porque s 
filho da tua me. Pensas que eu suportei trinta anos nas legies apenas para te ver deitar 
tudo borda fora? - Deitou mais algum vinho para a sua taa e engoliu-o de uma s vez.

No h limite para o que poders fazer se tiveres os conhecimentos adequados, e a 
filha do Procurador  um. Afinal de contas, a famlia est relacionada com os Jlios. 
Entretanto, se tens uma inclinao por aventuras romnticas, h muitas escravas e 
libertas; afasta os teus pensamentos dessas raparigas brets.
- Olhou penetrantemente para o filho.

- Eilan  diferente; eu amo-a.

- A tua Eilan  filha de um druida! - replicou Macellius.
- Ele j foi acusado de incitar os Auxilia  revolta. No puderam prov-lo, pelo que 
apenas o baniram; teve sorte de no ter sido enforcado ou crucificado. Por isso no te 
queiras envolver, qualquer que seja a forma, com a sua famlia. Ela no est grvida ou 
coisa do gnero?

- Eilan  to inocente como qualquer Vestal - disse Gaius rigidamente.

- Humph; no apostaria nisso; eles no olham para estas coisas como ns deveramos - 
notou Macellius. Vendo o olhar de Gaius escurecer, acrescentou: - No olhes para mim 
dessa

A CASA DA FLORESTA

113

maneira... no estou a duvidar de ti. Mas se a rapariga  virtuosa isso ainda torna mais 
ruinoso para ti o desej-la tanto. Aceita-o, rapaz, ela no  para ti.

- isso  para o pai dela decidir - disse Gaius apaixonadamente -, no vs!

Macellius resmungou.

- ouve bem o que te digo, o pai dela vai encarar uma aliana dessas tal como eu, como 
uma enorme catstrofe para vocs os dois. Esquece-a e vira os teus pensamentos para 
alguma boa rapariga romana. Ganhei uma posio social aqui que te permite unires-te 
com quem quer que escolhas.

- Desde que se chame Julia Licinia... - respondeu Gaius amargamente. - E se a filha de 
Licinius no quiser um marido com sangue breto?

Macellius encolheu os ombros.

- Escreverei amanh a Licinius. Se ela for uma rapariga romana como deve ser pensar 
no seu casamento como parte do seu dever para com a sua famlia e com o Estado. Mas 
casado  que tu j estars antes que nos desgraces a todos.

Gaius abanou a cabea teimosamente.

- Veremos. Se Bendeigid me quiser entregar a sua filha casarei com Eilan. A minha 
honra est comprometida com ela.
- No; impossvel - disse Macellius. - E o que  mais, se

 que conheo alguma coisa sobre Bendeigid, ele reagir duma maneira muito parecida. 
- Maldio , pensou, o problema  que ele  muito parecido comigo. Pensar ele que 
eu o deixaria escapar-se? O rapaz pode acreditar que o pai no percebe - a gente jovem 
pensa sempre que eles so os nicos que jamais amaram - mas a verdade  que 
Macellius compreendia bem de mais. Moruadli tinha sido fogo no seu sangue mas ela 
nunca tinha sido feliz, fechada dentro de lisas paredes de pedra. As mulheres romanas 
tinham troado dela e o seu prprio povo tinha-a amaldioado. No deixaria o seu filho 
viver com a dor de saber que, tambm ele, apenas tinha trazido sofrimento  mulher que 
adorava.

os bnus de campanha de Macellius tinham sido bem investidos e ele era 
suficientemente rico para no passar necessidades quando se retirasse, mas no era o 
suficiente para o filho, a no ser que Gaius tambm tivesse uma carreira. No hon-

114

MARION ZIMMER BRADLEY

raria Moruadh de nenhum modo se permitisse que o filho dela deitasse fora o seu 
futuro.

- Pai - continuou Gaius, num tom que o pai nunca antes lhe tinha ouvido -, eu amo 
Eilan; ela  a nica mulher com quem jamais me casarei. E se o pai dela no ma quiser 
entregar, bem... sabeis bem que Roma no  todo o mundo.

Macellius olhou-o penetrantemente.

- No tinhas nenhum direito de fazer tal promessa. O casamento  um assunto para as 
famlias; se eu mandar pedir a mo dela para ti ser contra a minha vontade.

- Mas f-lo-eis? - persistiu Gaius e, contra a sua vontade, Macellius comoveu-se.

- Continuo a achar que  uma loucura,        mas posso transmiti-lo a Bendeigid. Mas 
quando ele recusar no quero ouvir falar mais disto. Escreverei nessa altura a Licinius e 
ter-te-ei casado antes do ano novo.

Havia algo a dizer, pensou, sobre os velhos dias, quando os pais detinham o poder de 
vida ou morte mesmo sobre os filhos crescidos. A lei ainda estava nos livros - para o 
bem que fazia a quem quer que fosse; nenhum pai, desde h centenas de anos, a tinha 
invocado formalmente e conhecia-se demasiado bem para pensar que iria ser o primeiro. 
Mas no teria que o fazer.
O pai de Eilan podia desferir esse golpe bem mais eficazmente que ele.

SETE

Nos dias que se seguiram  partida de Gaius, o brilhante Sol de Beltane escondeu-se por 
detrs de lacrimejantes cus, como se, afinal de contas, a estao tivesse decidido no se 
transformar em Vero. Eilan arrastava-se pela casa como um fantasma. Os dias 
passavam-se e Gaius no mandava notcias. Mesmo antes de partir para a Casa da 
Floresta, Dieda tinha dito que ela se devia ter entregue a Gaius. Haveria mais ou menos 
probabilidades de ele a ter esquecido se o tivesse feito?

Afinal de contas, os festivais importantes existiam num tempo muito prprio. Nessa 
noite, quando se sentaram juntos a ver as fogueiras, foi como um sonho do Alm. Nessa 
altura, quando as portas entre os mundos se abriram, tudo pareceu possvel - mesmo o 
casamento da filha de um druida com um oficial romano. Mas agora, rodeada pelas 
vistas e sons familiares da sua casa, ela comeou a duvidar de si mesma, do seu amor e, 
acima de tudo, de Gawen - ou Gaius, como supunha que lhe devia chamar-se.

E o pior de tudo era que ningum parecia dar-se conta da sua dor. Mairi tinha insistido 
em voltar para a sua prpria casa, para esperar o regresso do marido, e Rheis estava 
atarefada com todas as tarefas que a chegada do Vero implicava. Podia ter confiado em 
Dieda, mas a sua parenta encontrava-se na Casa da Floresta, onde devia estar ocupada 
com as suas prprias dores de corao e mgoas. os cus choravam, o corao de Eilan 
chorava com eles, e ningum parecia importar-se de todo.

Finalmente chegou o dia em que o seu pai a mandou chamar. Ele estava sentado no 
salo de festas, ao lado da lareira - agora apenas cinzas, pois embora o cu estivesse 
cinzento e enevoado, estava suficientemente quente para no ser preciso um fogo.

116

MARION ZIMMER BRADLEY

Uma estranha mistura de clera e divertimento suavizava a sua habitual dureza.

- Eilan - disse suavemente -, sinto que te devo dar conhecimento disto; foi feita uma 
oferta pela tua mo.

Gaius , pensou ela. As minhas dvidas fizeram-lhe uma injustia!

- Mas,  claro foi uma que eu no pude ter em considerao.
O que  que sabes do jovem que se chamava a si prprio Gawen?
- O que quereis dizer? - De certeza que ele podia ouvir o rpido bater do seu corao.

- Disse-te o seu verdadeiro nome? Disse-te que o seu pai  Macellius Severus, Prefeito 
do Campo em Deva?

Ela via, agora, a fria por baixo da suavidade de Bendeigid e lutou para acalmar o seu 
tremor; mas assentiu com a cabea.
- Ento pelo menos ele no te enganou. - O seu pai sus-

pirou. - Mas deves afast-lo dos teus pensamentos, filha. No tens ainda idade suficiente 
para casares---

Ela levantou a cabea para protestar. Por que no teria ela pensado que era muito mais 
provvel ser o seu prprio pai a no dar autorizao do que Gaius a repudiar o seu 
amor?

- Posso esperar - murmurou, no ousando levantar os olhos.

O pai continuou:

- No estou habituado a ser um tirano para os meus filhos, Eilan; para dizer a verdade 
tenho sido bem brando contigo. Se tivesses medo de mim no falarias deste modo. Mas 
isto no pode ser, Filha... no, deixa-te estar - ordenou -, ainda tenho mais uma coisa 
para te dizer.

- O que h mais? - exclamou Eilan, sobressaltando-se quando ele lhe agarrou o pulso. - 
Recusaste-lo, no foi?

- Quero que percebas porqu. - 0 seu tom suavizou-se. - Eu no tenho nenhuma m 
vontade contra o rapaz e se ele fosse um dos nossos entregar-te-la de boa vontade a ele. 
Mas o leo no se mistura com a gua, nem o chumbo com a prata, nem o romano com 
o breto.

- Ele  apenas meio romano - protestou ela. - A me dele era uma mulher da tribo dos 
Silures. Ele parecia suficientemente breto quando aqui esteve hospedado.

0 pai abanou a cabea.

A CASA DA FLORESTA

117

- isso torna tudo ainda pior. Ele  o filho bastardo de um casamento (na minha opinio 
um casamento ilegal) com uma raa de traidores, pois os Silures j eram traidores 
mesmo antes de os Romanos atravessarem o mar, roubando o nosso gado e caando 
furtivamente nos nossos terrenos de caa. Seria juntar duas loucuras casar-te com um 
filho dos nossos antigos inimigos. Cheguei mesmo a falar a Ardanos sobre isto e, se 
bem que ele fale da paz que da podia advir, como se tu fosses filha de uma das nossas 
rainhas e ele o filho de um Csar, eu sei que no pode ser.

os seus olhos arregalaram-se com o pensamento que o Arquidruida, entre todas as 
pessoas, pudesse mostrar-se seu amigo. Mas o pai ainda estava a falar.

- Pelo tom da carta, a minha suposio  que Macellius Severus gosta disto tanto como 
eu. Nada pode sair de tal casamento a no ser uma rotura de lealdades para vocs os 
dois. Se Gaius estiver disposto a renunciar a Roma por ti, sou eu que no o quero entre 
os nossos parentes. E se ele aderir aos dele, ento serias tu a ser banida pelo nosso povo 
e isso eu no o quereria para ti.

Eilan no olhou para cima.

Por ele suport-lo-la - disse, a voz apenas audvel.
 Sim, na tua loucura acredito que o fizesses - disse o pai com rudeza. - A juventude est 
sempre pronta para desafiar o mundo. Mas o nosso sangue no  um sangue de 
traidores, Eilan. Por cada momento que trasses os teus parentes com ele, os corvos 
debicariam secretamente no teu corao. - A sua voz suavizou-se. - E o que  mais, no 
s apenas tu mas toda a tua descendncia que seria forada a quebrar um lao a seguir 
ao outro.

Eilan, tens que perceber isto; no tenho nenhuma m vontade contra Gawen; foi um 
hspede na minha casa, e seria discutir por discutir dizer que me mentiu, quando, na 
realidade, ningum perguntou o seu verdadeiro nome. Se m vontade pudesse haver, 
seria apenas por ele ter trabalhado em segredo para te virar contra os teus parentes.

As palavras de Eilan mal se ouviram.

- Ele lidou honrosa e integramente tanto comigo como convosco.

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MARION ZIMMER BRADLEY

- Pus isso em questo? - respondeu Bendeigid. - Mas aquele que pergunta compromete-
se ele prprio a submeter-se  resposta. Pediram-me honesta e honrosamente a tua mo; 
eu respondi honestamente e sem rodeios, e ponto final no assunto.

Ela disse numa voz estrangulada:

- Outro homem menos honrado podia ter agido comigo de tal modo que estareis 
grato por vos verdes livres de mim.
 Uma fria negra incendiou o rosto do seu pai e, pela pri-

meira vez que se lembrasse, teve medo dele. Puxou-a bruscamente para ele e deu-lhe 
uma palmada - se bem que no com muita fora - na boca.

- Acabou... - disse. - Acabou! Tivesse-te eu dado umas palmadas mais vezes quando 
eras uma criana e no precisaria agora de te bater por causa dessas palavras 
vergonhosas.

Eilan deixou-se cair no banco quando ele a largou; h dez dias teria chorado se o pai lhe 
tivesse falado assim; agora sentia que nada a poderia fazer verter outra lgrima.

Ele disse enfaticamente:

- No casars com nenhum romano enquanto eu tiver os ps acima da terra; no, nem 
depois disso se eu conseguir o que quero. E se me tivesses dito que as coisas tinham ido 
to longe que precisavas de casar com esse filho de traidores meio romanos, ou me 
desses um bastardo que me chamasse av, nenhum homem em toda a Bretanha me 
culparia se te afogasse com as minhas prprias mos. Poupa-me esse corar de vergonha, 
filha; no tiveste nenhuma h momentos!

Eilan teria preferido enfrentar o pai de p, mas os joelhos tremiam-lhe tanto que no se 
conseguia levantar.

- Podeis, na realidade, pensar tal vergonha de mim?

- No fui eu quem falou nisso pela primeira vez - retorquiu o pai. Depois a voz 
suavizou-se. - Criana, criana - admitiu -, falei sob o efeito da clera. Peo-te perdo, 
s uma boa rapariga e verdadeiramente a minha filha. Agora j basta desta conversa. 
Viajars para o Norte amanh. A tua irm Mairi ter necessidade duma parenta, visto o 
seu filho ir nascer em breve e nesta estao a tua me no poder ser dispensada. O que 
parece mais provvel, agora,  que o marido dela, Rhodri, tenha sido preso pelos 
romanos quando partiu atrs das levas. Assim,

A CASA DA FLORESTA

119

mesmo que tudo tivesse corrido de maneira diferente, esta no seria uma boa poca para 
me presentearem com um genro romano.

Eilan assentiu silenciosamente. Bendeigid ps o brao  sua volta e disse suavemente:

- Sou mais sbio e mais velho que tu, Eilan. Os jovens vem as coisas apenas por si 
prprios. Pensas que no tenho visto a prostrao em que tens andado? Pensei que era 
apenas porque sentias a falta de Dieda, mas a principal razo da minha ira em relao a 
esse bastardo meio romano  porque te infligiu tamanha dor.

Ela acenou com a cabea, constrangida no seu abrao, sentindo-se muito longe dali. Ele 
tinha dito que um corvo debicaria no seu corao se casasse com Gaius e ela tinha 
pensado que era apenas uma forma de falar potica. Mas agora via que ele tinha falado a 
pura da verdade, pois a dor no seu corao era to aguda como se, na verdade, um bico 
dum corvo a estivesse a trespassar. Sentindo a sua resistncia, o pai disse irritado:

- A tua me falou a verdade quando disse que estavas solteira h tempo de mais. Este 
Inverno procurarei um marido para ti, um dos nossos.

Eilan afastou-se dos seus braos, os olhos chamejando.

- No tenho escolha seno obedecer-vos - disse amargamente -, mas se no posso casar-
me segundo a minha vontade, no casarei com nenhum homem acima da face desta 
terra.

- Como queiras - disse acidamente. - Nunca procurarei forar-te. Mas prometerei Senara 
antes que ela comece a usar o seu cinto de donzela. No voltarei a ter de novo este tipo 
de luta com uma filha!

A chuva continuou a cair durante muitos dias, aumentando o volume de rios e correntes 
e inundando campos, estradas e caminhos. Aproximava-se a altura em que Mairi devia 
dar  luz e o destino do seu marido ainda era desconhecido. Ela tinha admitido que 
talvez tivesse feito melhor em ter ficado sob o telhado do pai at que a criana tivesse 
nascido, mas com este tempo teria sido mais arriscado para ela viajar que ficar em casa. 
Foi Eilan, portanto, quem viajou para a propriedade da sua irm, escoltada por dois dos 
homens do seu pai.

120

MARION ZIMMER BRADLEY

Se bem que ainda chorasse de noite quando pensava em Gaius, Eilan acabou por ficar 
contente por ter vindo. Aqui ela era til; a irm precisava de algum com quem falar, e 
o seu pequeno sobrinho estava rabugento e confuso porque a me tinha deixado de o 
amamentar e o pai tinha desaparecido, Nesta altura Mairi andava desajeitada de mais 
para lhe prestar muita ateno; mas Eilan tinha pacincia para se sentar durante horas 
dando-lhe de comer com uma colher feita de chifre e ele recuperava alguma da sua 
alegria quando ela brincava com ele,

Como a chuva continuava a cair, havia alturas em que Eilan pensava se a deixariam 
sozinha para ajudar no parto do segundo filho da sua irm. Mas Mairi tinha combinado 
tudo para que viesse uma sacerdotisa.

- Todas as mulheres da Casa da Floresta esto treinadas em tais assuntos, irm - disse-
lhe Mairi, coando as costas que, nesta altura, lhe doam constantemente. - No precisas 
de ter medo. - Era a tarde do quarto dia com a sua irm e Eilan estava a comear a 
sentir-se em casa.

- No seria maravilhoso se fosse Dieda que elas nos enviassem?

- Ela  uma recm-chegada  Casa da Floresta e no pode sair durante o primeiro ano. 
Prometeram enviar uma das assistentes de Lhiannon, uma mulher de Hibernia chamada 
Caillean. - Ela falou to secamente que Eilan pensou se Mairi no gostava da mulher, 
mas chegou  concluso que seria melhor no perguntar.

Trs dias mais tarde, Caillean chegou; uma mulher alta, embrulhada em xales e lenos 
que lhe deixavam visveis apenas os olhos e o pesado cabelo escuro. Contra a negrura 
do cabelo e das sobrancelhas a sua pele parecia ter a palidez do leite, mas os olhos eram 
azuis. Quando ela se desfez dos abafos, uma rajada de vento trouxe nuvens de fumo da 
lareira e a sacerdotisa comeou a tossir. Eilan apressou-se a encher uma caneca de 
cerveja e ofereceu-lha em silncio.

A sacerdotisa disse, em voz baixa:

- Agradeo-te, filha, mas no me    permitido; se puder ter alguma gua---

- Claro - murmurou Eilan, corando, e apressou-se a encher um copo no barril perto da 
porta. - Ou posso tirar mais fresca do poo...

A CASA DA FLORESTA

121

- No, assim est muito bem - disse a sacerdotisa, tirando-lhe o copo da mo e 
esvaziando-o. - Agradeo-te. Mas qual  a mulher que est grvida? Tu mesma s pouco 
mais que uma criana.

-  a Mairi que est para ter o beb - murmurou Eilan. - Eu sou Eilan, filha do meio de 
Bendeigid. E h outra, Senara, que tem apenas nove anos.

- O meu nome  Caillean.

-  Vi-vos em Beltane, mas no sabia o vosso nome. Pensei que, de certeza, a assistente 
de Lhiannon fosse... - ela parou timidamente.

Caillean completou a frase:

- Mais velha? Mais digna? Estou com Lhiannon desde que ela me trouxe das praias 
ocidentais de Eriu. Tinha catorze anos ou  volta disso quando viemos para a Casa da 
Floresta e j l estou vo agora fazer dezasseis anos.

- Conheceis a minha parenta Dieda?

- Certamente que sim, mas ela habita com as donzelas; ns  somos muitas e no 
pertencemos todas  mesma ordem. Agora que te vejo  que percebo... mas isso  para 
mais tarde. Agora deixa-me falar com a tua irm.

Eilan conduzu-a at Mairi, agora num estado de gravidez to adiantado que se movia 
com dificuldade e afastou-se um pouco para lhes dar alguma privacidade. Mal podia 
ouvir o baixo murmrio enquanto Caillean interrogava Mairi detalhadamente. Havia 
algo de calmante na suave cadncia da voz da sacerdotisa.

Eilan podia ver a tenso a abandonar a face de Mair! e percebeu, pela primeira vez, que 
a sua irm tinha estado com medo. Ela no recuou quando Caillean lhe carregou no 
ventre com as suas longas mos. Quando ela terminou, Mairi recostou-se com um 
suspiro.

- Penso que o beb no ir nascer hoje, e talvez nem amanh. Descansa agora, rapariga, 
pois irs precisar de todas as tuas foras quando a altura chegar - disse Caillean 
acalmando-a.

Quando Mairi estava acomodada de novo, Caillean juntou-se a Eilan perto da lareira.

-  verdade que o seu marido desapareceu? - perguntou em voz baixa,


122

MARION ZIMMER BRADLEY

- Receamos que tenha sido levado pelos Romanos - replicou Eilan, - O meu pai avisou-
me para no o mencionar a Mairi.

Por um momento a viso de Caillean virou-se para o interior.
- No o faas, pois receio que ela no o veja de novo. Eilan olhou para ela horrorizada.

- Ouvisteis algo?

- Vi os pressgios e eles no         auguravam nada de bom.
- Pobre Mairi, pobre querida, Como lho vamos dizer?
- No digas nada agora - aconselhou Caillean. - Dir-

-lho-ei eu mesma depois do nascimento, quando ela tiver razes para viver pelo seu 
filho.

Eilan estremeceu, porque gostava de Mairi e lhe parecia que a sacerdotisa tinha falado 
da morte tal como falava da vida, sem sentimento ou pena por ambos. Mas, supunha ela, 
para uma sacerdotisa vida e morte devem ter um significado bastante diferente do que 
tinham para Eilan.

- Espero que ela tenha homens na famlia para cuidar da herana dos filhos - continuou 
Caillean.

- o meu pai no tem filhos - disse Eilan. - Mas, se houver necessidade, Cynric cumprir 
os deveres de um irmo em relao a Mairi.

- Ele no  filho de Bendeigid?

-  Apenas um filho adoptivo; fomos criados juntos e gostou sempre   muito de Mairi. 
Agora encontra-se no Norte.

- j ouvi falar desse Cynric - disse Caillean, e Eilan pensou o quanto a sacerdotisa sabia 
realmente. - E, na verdade, a tua irm ter necessidade de famlia.

Nessa noite, abateu-se, turbilhonando, uma nova tempestade vinda do Oeste e Eilan, 
acordando durante a noite, ouviu-a a bater  volta da casa como uma criatura selvagem; 
quando chegou a manh as rvores estavam ainda a assoprar e a balanar devido s 
rajadas. Mas, onde uma estrutura mais rgida podia ter dado de si, e se bem que umas 
mos-cheias de colmo tivessem sido arrancadas do telhado, a casa redonda apenas se 
vergava e tremia perante cada nova rajada de vento. A chuva continuava a cair 
implacavelmente mas Caillean, olhando para fora, para o aguaceiro, pareceu ficar 
satisfeita.

A CASA DA FLORESTA

123

- H rumores de assaltantes vindos da costa - disse quando Eilan a questionou. - Se 
todos os caminhos estiverem inundados no chegaro at to longe no interior.

- Assaltantes? - repetiu Mairi, parecendo assustada. Mas Caillean no se quis repetir, 
dizendo apenas que falar dum mal servia muitas vezes apenas para o chamar para perto. 
De manhzinha cedo o pior do vento j tinha passado e o tempo estabilizou-se numa 
pesada, insistente chuva, deixando todo o mundo inundado com o som da gua e o das 
nascentes e cisternas a transbordar. Afortunadamente havia um bom suprimento de 
madeira cortada e empilhada num barraco Perto da casa principal, pelo que puderam 
acender um alegre fogo e Caillean desembrulhou o pequeno instrumento musical que 
transportava enfaixado como um beb. Eilan nunca tinha conhecido uma mulher que 
tocasse harpa; a ela prpria tinham-lhe inclusivamente batido, quando era uma criana, 
por ter mexido na do av.

- Oh,  verdade, h mulheres bardos entre ns - disse Caillean -, se bem que eu toque 
apenas para meu prprio entretenimento. Penso que Dieda vir a tornar-se num.

- No me surpreende - disse Eilan um pouco tristonha.
- Ela canta maravilhosamente.

- Tens inveja, criana? H outros dons para alm da msica, sabes. - A sacerdotisa 
franziu as sobrancelhas na direco de Eilan, pensativamente, depois pareceu chegar a 
uma deciso. - No sabias que ela foi escolhida por engano em vez de ti?

Eilan ficou a olhar fixamente para ela, lembrando-se de todas aquelas vezes durante a 
sua infncia em que tinha brincado s sacerdotisas, e a viso que teve quando a capa de 
Lhiannon tinha coberto a outra rapariga.

- Nunca tinhas pensado sobre isso, pequenina?

Eilan no respondeu. Claro, tinha sonhado com uma coisa desse gnero durante muito 
tempo, mas depois conheceu Gaius. Como podia estar destinada a ser sacerdotisa se era 
capaz dum tal amor por um homem?

- Bem, no h necessidade de tomar uma deciso agora - disse Caillean, sorrindo, - 
Falaremos sobre isto noutra ocasio.

124

MARION ZIMMER BRADLEY

Eilan olhou para ela, e subitamente, com a dupla viso, viu as duas juntas, levantando os 
braos em homenagem  Lua. Mas, se bem que o reconhecimento fosse total, ela viu, 
surpreendida, que o cabelo de Caillean no era escuro, mas vermelho, as feies de 
ambas parecidas como as de duas irms, e que a sua prpria face era a que tinha visto 
anteriormente no lago da floresta. Irms... e mais que irms. Mulheres, e mais que 
mulheres... As palavras vieram-lhe de algum lugar para l da memria.

Ento, com um ligeiro choque, lembrou-se de que nunca tinha falado com Caillean at  
vspera. Mas, tal como tinha acontecido com Gaius, teve a sbita impresso de que 
tinha conhecido a sacerdotisa desde o comeo do mundo.

Caillean estava a tocar h bastante tempo quando Mairi se levantou subitamente e 
gritou, olhando esgazeada para a mancha escura que se espalhava pelo seu vestido. As 
outras duas fitaram-na surpreendidas.

- As tuas guas j rebentaram? - perguntou a sacerdotisa. - Bem, amor, os bebs vm 
quando lhes apetece e no quando nos convm;  melhor levarmos-te para a cama. 
Eilan, vai procurar o pastor e faz com que ele traga mais lenha para a lareira. Depois, 
acende o fogo, enche o caldeiro e traz mais madeira para a lareira. A Mairi vai querer 
ch quente antes de isto acabar e ns tambm.

Tal como Caillean tinha sem dvida esperado, o ter algo que fazer acalmou a rapariga 
mais nova.

- Sentes-te melhor agora? - perguntou a sacerdotisa quando Eilan regressou. - Tenho 
muitas vezes achado ser um erro permitir a presena de qualquer mulher que no tenha 
ainda dado  luz num quarto durante um parto; serve apenas para a assustar. Mas se  
suposto que te juntes a ns na Casa da Floresta, mais cedo ou mais tarde ters que 
aprender.

Eilan engoliu em seco e acenou com a cabea, determinada a justificar a f que a mulher 
mais velha depositava nela. Durante as primeiras duas horas Mairi dormitou no 
intervalo das dores, despertando apenas algumas vezes por hora para gritar, quase como 
que ainda a dormir. Eilan passou pelo sono no banco perto da lareira; era a altura mais 
escura da noite e a chuva

A CASA DA FLORESTA

125

tinha-se estabilizado num suave, insistente bater, quando Caillean se inclinou e a 
acordou.

- Vem, agora vou precisar de ti; atia o fogo da lareira e faz uma chvena de ch de 
folhas de bagas. No sei quanto tempo  que isto vai durar e vou querer a tua ajuda.

Quando o ch estava pronto, Caillean inclinou-se sobre Mairi, que se estava a mexer 
desassossegadamente, e levou-lhe a chvena aos lbios.

- Aqui est, agora bebe isto. Far com que te sintas mais forte.

Mas passados poucos momentos Mairi abanou a cabea, a face tomando-se vermelha e 
contorcida.

- j no falta muito, minha querida - disse Caillean encorajadoramente. - No tentes 
sentar-te direita agora.

Quando Mairi se deixou cair, ofegando, depois da contraco, Caillean disse:

- Eilan, limpa-lhe a cara enquanto eu preparo tudo. Dirigiu-se  lareira e falou de novo a 
Mairi:

- Vs, j tenho umas belas fraldas preparadas para a pequenina e j no falta muito, para 
que possas segurar nela. Ou pensas que  ser outro belo rapaz como o que j tens?

- No me interessa - gemeu Mairi, respirando com dificuldade. - Quero apenas... que 
acabe... ahh... ainda falta muito ... ?
- Claro que no. S mais um bocadinho, Mairi, e ters o teu

filho nos braos... ah,  verdade, s mais um bocadinho... uma comea mal a outra 
acaba; sei que  duro, mas isso significa que o teu filho estar aqui tanto mais cedo...

Eilan sentia-se quase rgida com o pavor. Mairi j nem mesmo se parecia consigo 
prpria. A sua face estava vermelha e inchada, gritava e parecia nem mesmo saber que o 
estava a fazer. Ento ela ofegou, arqueando as costas e apoiando os ps contra os ps da 
cama.

- No posso... oh, no posso - veio o rouco grito, mas Caillean estava ainda a sussurrar 
palavras de encorajamento. Parecia a Eilan que o parto tinha durado uma vida inteira, 
mas o Sol ainda mal se tinha levantado.

Ento a voz de Caillean mudou.

- Agora penso que estamos prontas. Deixa-a agarrar as tuas mos, Eilan; no, no dessa 
maneira... nos pulsos. Agora, Mairi,

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MARION ZIMMER BRADLEY

faz fora s mais uma vez. Sei que ests cansada, criana, mas isto em breve estar 
acabado. Respira...  isso, respira fundo... deixa-o sair. Calma, calma, ora vejam s!

O corpo de Mairi arfou e a sacerdotisa endireitou-se, segurando em algo, 
inacreditavelmente vermelho e pequeno, que se mexia nas suas mos com um leve 
choro.

- Olha, Mairi, tens uma bela filha.

O avermelhado rosto de Mairi acalmou-se com um sorriso de felicidade quando 
Caillean lhe pousou a criana recm-nascida sobre o ventre.

- Ah, Senhora - murmurou a sacerdotisa olhando para elas.
- Tenho assistido a isto mais vezes que as que consigo lembrar e  sempre um milagre! - 
O tnue miar tomou-se num penetrante e exigente grito e Mairi riu-se.

- Oh, Caillean, ela  to bonita, to bonita...

Com rpida eficincia a sacerdotisa atou o cordo umbilical e limpou a criana. Quando 
Mairi comeou a expulsar as secundinas, Caillean entregou a criana a Eilan.

Parecia impossvel que uma coisa to frgil fosse uma criana humana; os seus dedos e 
os ps eram finos e como os de um aranhio, a sua cabea coberta com uma penugem 
escura. Quando Mairi caiu num sono de exausto, Caillean pendurou um pequeno 
amuleto de metal  volta do pescoo do beb e comeou a embrulh-lo em faixas.

- Agora ela no pode ser roubada pelos duendes e ns temos estado a olhar para ela 
desde o momento em que nasceu, pelo que sabemos que no  nenhuma troca - disse 
Caillean.
- Mas, sair para uma chuva assim nem mesmo a Gente Boa era provvel que o fizesse. 
Como vs, mesmo algum bem pode vir duma inundao destas.

Caillean endireitou as suas cansadas costas, apercebendo-se de que um Sol avermelhado 
comeava a despontar atravs das pesadas nuvens baixas, pela primeira vez em muitos 
dias.

O beb era comprido e frgil. O seu cabelo transformava-se numa penugem 
avermelhada  medida que ia secando.

- Ela parece to delicada... viver? - perguntou Eilan.
- No vejo nenhuma razo por que no - replicou Caillean. -  uma bno dos deuses 
que na noite passada no tenhamos sado daqui. Pensei que, apesar de tudo, pudesse ser

A CASA DA FLORESTA

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mais seguro procurar refgio na Casa da Floresta; se o tivssemos feito este beb teria 
nascido por baixo duma rvore qualquer ou no meio de um descampado, e bem 
poderamos ter perdido ambas, a me e a filha. A minha viso nem sempre  verdadeira.

A sacerdotisa sentou-se pesadamente num banco Perto da lareira.

- Olha,  novamente dia; no admira que esteja exausta. E j no deve faltar muito 
tempo para o rapaz acordar e podermos mostrar-lhe a sua pequena irm.

Eilan estava ainda a pegar no beb, mas quando Caillean olhou para ela, pareceu que 
um vu caiu entre elas, como um sopro de fria bruma vinda do Alm. Enquanto ele 
redemoinhava, um sofrimento atroz gelou os ossos de Caillean; estava, de sbito, a 
olhar para uma Eilan mais velha, no vestido azul da Casa da Floresta, com o crescente 
azul duma sacerdotisa ajuramentada tatuado entre as sobrancelhas. Nos seus braos 
segurava uma jovem criana; e nos seus olhos Caillean viu uma dor to intensa que lhe 
rasgou o corao em pedaos.

Caillean tremeu, abalada por esta vaga de tristeza, e pestanejou tentando afastar as 
lgrimas. Quando olhou de novo, a jovem rapariga estava a fit-la espantada, 
Involuntariamente, a sacerdotisa deu um passo em frente e tirou a criana a Mairi, que 
gemeu suavemente e adormeceu de novo.

- Qual  o problema? - perguntou Eilan. - Por que estais a olhar para mim desse modo?

- Uma corrente de ar - murmurou Caillean. - Gelou-nos a ambas. - Mas podiam ambas 
ver que as pequenas luzes nas lamparinas ainda ardiam intocadas. A minha viso nem 
sempre  verdadeira , disse para consigo. Nem sempre ... 

Abanou a cabea.

- Esperemos que as correntes ainda estejam intransitveis - disse. At mesmo a ideia dos 
assaltantes era uma distraco benvinda depois daquela viso.

- Por que dizeis isso, Caillean? O meu pai com certeza que querer vir o mais cedo que 
possa, e a minha me tambm, para verem a sua nova neta. E mais ainda se, como 
dizeis, Mairi enviuvou...

Caillean comeou.

 
128

MARION ZIMMER BRADLEY

- Eu disse isso? Bem, com certeza que o tempo far o que lhe apetecer; nunca ouvi dizer 
que tivssemos ou mais Sol ou mais chuva nem mesmo por ordem do Arquidruida. Mas 
no consigo deixar de pensar que os teus parentes no so os nicos que podem viajar 
pelas estradas. Vem - acrescentou -, o beb tem que voltar para o seio da me. Dirigiu-
se em direco  cama, a criana nos braos.

OITO

A chuva continuava a cair sobre o aquartelamento romano de Deva com uma insistncia 
enlouquecedora. Os homens deixavam-se ficar nas suas casernas, a jogar aos dados ou a 
reparar o equipamento estragado, ou ento iam at  taberna para passar a tarde a beber. 
No meio desta sempre presente humidade, Macellius Severus mandou chamar o filho.

- Ests familiarizado com o pas para o Oeste - comeou -, pensas que podes guiar um 
destacamento pelas estradas at  propriedade de Bendeigid Vran?

Gaius endireitou-se, deixando a sua capa de couro oleado pingar para o cho de 
ladrilhos.

- Sim, mas, Pai...

Macellius adivinhou o seu pensamento.

- No estou a sugerir que devas espiar a casa dum amigo, meu rapaz, mas foram vistos 
assaltantes de Hibernia perto de Segontium. Todos os lares bretes ficaro em risco se 
eles conseguirem passar.  para o prprio bem deles, se bem que suponha que eles no 
o vero assim. Mas, se devo mandar uma unidade at l para ver o que se passa, no 
ser melhor que seja chefiada por um amigo que por algum que odeie os Celtas ou por 
algum idiota recm-chegado de Roma que pense que os Bretes ainda andam por a 
pintados de azul?

Gaius sentiu-se corar. Odiava o modo como o pai podia inesperadamente faz-lo sentir-
se como uma criana.

- Estou ao vosso servio, Pai... e ao de Roma - acrescentou rigidamente aps um 
momento, sentindo-se to cnico quanto  polida frmula que quase esperou um riso de 
escrnio em resposta. Quo corrupto me estou a tornar, mas, pelo menos, sei quando 
estou a ser hipcrita. Tambm ficarei to habi-

130

MARION ZIMMER BRADLEY

tuado a pr esse ar de benigna superioridade quando tiver a idade do meu pai, que 
acreditarei nela?

- Ou temes perder a cabea porque Bendeigid te recusou a mo da filha? - continuou o 
pai. - Eu         disse-te o que se iria passar.

Gaius sentiu os punhos cerrarem-se e       mordeu o lbio com fora. Nunca tinha levado 
a melhor numa confrontao com o pai e sabia que agora tambm no teria nenhuma 
hiptese. Apesar disso, aquelas palavras tinham sido como sal numa ferida aberta.

-  Disseste-mo e tinheis razo - disse Gaius entredentes. Mostrai-me qualquer vitela que 
queirais... qualquer rapariga com ancas largas e de boa estirpe, essa Julia se o desejais... 
e eu cumprirei o meu dever.

- s um romano e espero que te comportes como tal disse Macellius mais suavemente. - 
Agiste honrosamente e assim continuars a fazer. Em nome de Juno, rapaz, a rapariga 
que amaste pode estar em perigo, Mesmo que no possas casar com ela, no queres ter a 
certeza que ela est segura e bem?

E quanto a isso, claro, ele no podia ter qualquer resposta, mas sentiu o sangue gelar 
com um pavor que nada devia a um medo fsico quando fez a continncia e saiu pela 
porta.

Talvez tenha apenas medo de os enfrentar , pensou Gaius quando a sua pequena 
unidade de cavaleiros, destacados dos Auxilia, trotou para fora dos portes da fortaleza 
e se espalhou pela colina. De certo modo tra a confiana deles e todos eles foram 
amveis para mim. Durante a confuso de distribuir o servio pelos homens e da 
preparao da partida tinha sido capaz de dominar os seus sentimentos, mas agora a 
doentia preocupao percorria-o de novo.

Tinha visto Cynric apenas uma vez depois de ter deixado a casa de Bendeigid... Um dia 
no mercado de Deva tinha-se virado e reconhecido o jovem gigante louro, a negociar 
uma espada na loja dum ferreiro. Cynric estava to profundamente embrenhado na 
conversa com o vendedor de armas que no o tinha visto, e, apesar da sua educao, 
Gaius tinha rodado os calcanhares e

A CASA DA FLORESTA

131

fugido. Tinha sido logo aps ter recebido a resposta de Bendeigid. Se a famlia tivesse 
sabido da proposta, Gaius sentir-se-la envergonhado e se no, o que iria pensar Cynric, 
vendo o rapaz a quem tinha oferecido a sua amizade a usar o uniforme de um tribuno 
romano, seno que tinham sido trados?

Pensou quem lhe teria escrito a resposta do druida em latim. Gaius tinha queimado as 
placas de cera em que tinham sido escritas, mas as palavras permaneciam gravadas na 
sua memria. Estas eram muito simples. o druida sentia que no podia entregar a filha 
em casamento por causa da sua juventude e dos antecedentes romanos de Gaius.

Gaius tinha resolvido pr toda a questo completamente fora do seu pensamento. Afinal 
de contas ele era um romano, treinado a disciplinar tanto a mente como o corpo. Mas 
estava-se a provar ser mais difcil do que tinha esperado. Podia controlar os seus 
pensamentos durante o dia, mas na noite passada tinha sonhado mais uma vez que ele e 
Eilan estavam a viajar para ocidente num navio branco. No entanto, mesmo que 
houvesse alguma terra no Oeste para onde pudessem fugir, no fazia a mnima ideia de 
como fazer para raptar mesmo uma rapariga concordante, nem se Eilan estaria disposta 
a fugir. No tinha nenhuma inteno de enfrentar todos os seus parentes, para no falar 
dos dela. Nada podia advir disso a no ser a misria para ambos.

Se calhar nesta altura j Eilan estava noiva de algum, apesar do que o seu pai tinha dito 
sobre a sua juventude. Era verdade que muitas raparigas romanas com essa idade j 
estavam casadas.
O seu pai podia seguir em frente, se quisesse, e promet-lo a quem quisesse. A filha de 
Licinius tambm era jovem, de modo que talvez no tivesse de enfrentar o problema 
durante um certo tempo. Melhor ainda, pensou Gaius, para deixar completamente de 
pensar em mulheres. Os deuses sabiam que ele tinha tentado. Mas, de vez em quando, 
vendo - talvez nalguma escrava gaulesa um lampejo de cabelo louro e uns olhos verdes, 
a imagem dela voltava-lhe ao esprito de modo to vivido que lhe apetecia chorar.

Teria gostado de saber por Cynric como passava a famlia. Mas, na altura em que tinha 
reunido de novo a sua coragem j o jovem gigante tinha desaparecido. E, bem vistas as 
coisas, era provavelmente o melhor.

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MARION ZIMMER BRADLEY

Eilan acordou subitamente, piscando os olhos enquanto tentava lembrar-se onde estava. 
O beb tinha chorado? Ela tinha sonhado? Mas Mairi e o beb estavam sossegados no 
caixote cama do outro lado da lareira. Quando se mexeu, o seu sobrinho, Vran, virou-se 
a dormir e aninhou-se mais para junto dela. A sacerdotisa, Caillean, estava imvel 
encostada  parede. Eilan, na borda da cama mais perto do fogo, tinha dormido mal, 
desassossegadamente. Se tinha estado a sonhar no se lembrava disso; apenas sabia que 
estava acordada e a olhar fixamente para as brasas vermelhas onde o fogo tinha ardido 
at se transformar em cinzas. No escuro, Caillean disse suavemente:

- Tambm o ouvi. Est algum l fora.

- A esta hora? - ela escutou, mas apenas se ouvia o gotejar da gua das goteiras e o 
crepitar do fogo.

Mas Caillean disse com uma urgncia peremptria:
- Est quieta.

Deslizou da cama e silenciosamente testou a tranca que protegia a porta. Estava segura 
na sua, mas, passado um momento, Eilan ouviu novamente o som que a tinha acordado 
e viu a porta curvar-se ligeiramente ao ser empurrada para dentro.

Eilan estremeceu. Tinha sido desmamada a ouvir histrias de assaltantes, mas tinha 
vivido sempre na grande casa de Bendeigid, protegida pelos homens armados do seu 
pai. Os dois servidores que ajudavam no trabalho da herdade dormiam na outra casa 
redonda e as casas dos outros homens ajuramentados a Rhodri estavam espalhadas pelas 
colinas.

- Levanta-te, sem fazer barulho, e veste-te o mais depressa que possas - murmurou 
Caillean. - Espera.

A porta gemeu quando algum a empurrou com mais fora e Mairi acordou, 
murmurando. Mas Caillean, j completamente vestida, tinha a mo sobre os seus lbios.

- Est calada se prezas a tua vida e a da tua criana - murmurou. Mairi acalmou-se com 
um ofego, e o beb, felizmente, continuou a dormir.

- Vamos esconder-nos no fosso de guardar a comida? - murmurou Eilan, quando a porta 
abanou de novo. Quem quer que fosse que estava l fora estava determinado a forar a 
entrada.

A CASA DA FLORESTA

Caillean disse suavemente:

- Fiquem aqui, e acontea o que acontecer no gritem.
- E foi at  porta. Mairi gritou quando Caillean comeou a levantar a tranca. A 
sacerdotisa disse ferozmente:

- Queres ter que consertar a porta depois de eles a terem despedaado? Eu no.

Quando ela levantou a tranca, a porta abriu-se com um estrondo. Uma dzia de homens 
irrompeu atravs dela como se tivessem sido soprados pelo vento e imobilizaram-se 
quando Caillean gritou uma simples palavra que soou como uma ordem. Eram homens 
grandes, com cabelo selvagem e comprido caindo-lhes pelos ombros, envoltos em peles 
e peludos mantos de pesada l sobre tnicas de um axadrezado ainda mais brilhante que 
as usadas pelos Bretes.  frente deles, Caillean parecia esguia como uma vara de 
salgueiro. O seu cabelo escuro caa-lhe at  cintura, sobre o seu vestido azul sem cinto, 
voando um pouco quando o vento soprou atravs da porta. Era a nica coisa  sua volta 
que se mexia.

Mairi mergulhou no meio dos cobertores, agarrando a filha. Um dos homens riu-se, 
disse qualquer coisa apenas audvel e Eilan tremeu. Teve vontade de fazer o mesmo que 
Mairi mas estava paralisada de mais para se mexer.

Caillean gritou de novo numa voz ressoante e deu um passo  retaguarda na direco da 
lareira. Os homens pareciam hipnotizados pelo seu olhar. Estavam parados, a olhar, 
quando ela se ajoelhou e enfiou as mos nos ties. Depois, subitamente, levantou-se 
atirando as brasas aos intrusos com ambas as mos. Gritou novamente e os estranhos 
guerreiros ofegaram e recuaram; no instante seguinte tinham-se ido, numa vaga atravs 
da soleira da porta, praguejando numa estranha espcie de breto e noutra lngua que ela 
no conhecia, atropelando-se uns aos outros enquanto lutavam para fugir.

A sacerdotisa seguiu-os at  porta, rindo, e gritou qualquer coisa em voz alta como o 
grito de um falco. Depois, atirou com a porta ao vento ululante e tudo acalmou de 
novo.

Quando eles partiram, Caillean deixou-se cair no banco perto da lareira e Eilan, que 
tremia at aos ps, dirigiu-se-lhe.

- Quem eram eles?

- Assaltantes, um bando misto penso, do Norte e do meu pas - disse Caillean. - Mais 
vergonha para mim, pois sou uma

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MARION ZIMMER BRADLEY

mulher de Eriu, trazida para aqui por Lhiannon. - Ela levantou-se e comeou a limpar a 
gua da chuva que tinha entrado. Eilan disse com a voz tremente:

- E o que  que vs lhes disssteis?

- Disse-lhes que era uma bean-drui,      uma ela-druida e se eles tocassem em mim ou 
em qualquer uma das minhas irms os amaldioaria pelo fogo e pela gua; e mostrei-
lhes que tinha esse poder. - Caillean estendeu as mos. Os esguios dedos que Eilan tinha 
visto mergulhar nas brasas estavam brancos e ilesos. No teria tudo isto passado de um 
sonho?

Eilan, lembrando-se do que Caillean tinha gritado quando eles iam a fugir, disse 
hesitantemente:

- Irms?

- Pelos votos que tomei, todas as mulheres so minhas irms. - Os seus lbios torceram-
se. - E disse que se eles se fossem embora e nos deixassem em paz lanaria uma bno 
sobre eles...

- E vs fizeste-lo?

- No; so lobos ferozes da floresta, ou ainda pior - disse Caillean desafiadoramente. - 
Abeno-los? Antes abenoar um lobo com os dentes na minha garganta.

O olhar de Eilan voltou para os dedos de Caillean.

- Como fizsteis aquilo? Foi uma iluso de druida ou pegastes mesmo no fogo com as 
vossas mos? - j estava a comear a pensar se os seus olhos no lhe teriam pregado 
uma partida.

- Oh, foi mesmo verdade. - Caillean deu uma pequena gargalhada. - Qualquer um com o 
meu treino podia t-lo feito. Eilan olhou para ela com os olhos arregalados,

- Eu poderia?

- Se fosses ensinada, certamente - disse Caillean com impacincia na voz. - Se tivesses a 
f e a vontade. Mas no to posso mostrar agora. Talvez na Casa da Floresta, se fores 
para l.

Nessa altura, a realidade daquilo a que tinham escapado apossou-se de Eilan e ela 
deixou-se cair em cima da cadeira que estava perto da sacerdotisa, a tremer.

- Eles teriam... eles teriam... - Eilan engoliu em seco.
- Todos vos devemos a vida.

- Oh, penso que no - disse Caillean. - Uma mulher em parto  uma fraca tentao, 
mesmo para algum como aqueles.

A CASA DA FLORESTA

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E eu acho que teria conseguido assust-los para longe de mim. Mas tu sim; a violao 
era o menos que podias esperar da sua parte. Eles no matam raparigas novas e bonitas; 
mas podias bem ter acabado como uma esposa activa, se assim lhe podes chamar, nas 
praias da selvagem Eriu. Se esse  um destino que te teria agradado lamento ter 
interferido.

Eilan estremeceu ao lembrar-se das brutais caras dos homens.
- Acho que no. Os homens na tua terra so todos como aqueles?

- No sei. Quando parti era ainda muito nova. - Depois de um momento de silncio 
Caillean continuou: - No me lembro nem da minha me nem do meu pai, apenas que 
na cabana onde vivamos, todos ns, havia sete crianas mais pequenas do que eu. Um 
dia fomos ao mercado e Lhiannon estava l, Nunca tinha visto ningum to belo.

- E alguma coisa, sei-o agora, atingiu-a, pois ela lanou o seu manto sobre mim, 
reclamando-me assim, por meio do mais antigo dos rituais, para os deuses. Anos mais 
tarde, perguntei-lhe por que me tinha escolhido no meio de todas as outras que l 
estavam. Ela disse que tinha visto que todas as outras estavam vestidas de lavado e que 
os seus pais se agarravam a elas. No havia ningum para se agarrar a mim - 
acrescentou com um pouco de amargura. - Na casa dos meus pais eu era apenas mais 
uma boca para alimentar. Nem o meu nome era Caillean; a minha me, no me lembro 
realmente dela, chamava-me Lon-dubh, Blackbird.
- Ento Caillean  um nome de sacerdotisa?

Caillean sorriu.

- No - disse. - Caillean, na nossa lngua, significa apenas minha, filha, minha rapariga 
. Era assim que Lhiannon me chamava sempre que falava comigo; agora no penso em 
mim por nenhum outro nome.

- Devo chamar-vos assim, ento?

- Deves, se bem que tenha outro nome que me foi dado pelas sacerdotisas. jurei nunca o 
dizer em voz alta ou mesmo murmur-lo, excepto a outras sacerdotisas.

- Estou a ver. - Eilan olhou fixamente para ela, depois pestanejou, porque, por um 
instante, um nome tinha ecoado na sua conscincia, to alto como se tivesse sido 
pronunciado de viva voz. Isarma... quando eras minha irm, Isarma era o teu nome...
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MARION ZIMMER BRADLEY

Caillean suspirou:

- Bem, a alvorada ainda vem longe. Repara, a tua irm j voltou a cair no sono. Pobre 
rapariga, o nascimento esgotou-a. Tambm devias dormir...

Eilan abanou a cabea, tentando voltar  realidade.

- Depois duma desordem destas, no penso que            conseguisse dormir, nem que 
tentasse.

Caillean olhou para ela e riu-se subitamente.

- Bem, para dizer a verdade, eu tambm no. Pensava que j tinha esquecido aquele 
dialecto... a ltima vez que o ouvi j foi h tanto tempo.

- No parecesteis aterrorizada - disse Eilan. - Pareceis uma deusa ali parada. - Ouviu 
uma vez mais a gargalhada amarga da outra mulher.

- As coisas nem sempre so o que parecem, minha pequena. Tens de aprender a no 
confiar inteiramente no que as pessoas parecem, ou no que dizem.

Eilan olhou fixamente para o fogo, cujas brasas, avivadas pelo atiar de Caillean, 
estalavam e faiscavam na lareira. O homem de quem tinha aprendido a gostar como 
Gawen tinha sido uma iluso, mas mesmo como Gaius, o romano, o que a tinha feito 
am-lo ainda perdurava. E ele tinha sido honesto com ela. Conhec-lo-la, pensou ento, 
mesmo que viesse at mim como um leproso ou um homem selvagem. Por um 
momento ela alcanou qualquer coisa que estava para l de rosto, forma ou nome. 
Depois, um tio estalou e perdeu-se.

- Ento dizei-me qual  a verdade - disse Eilan para preencher o silncio. - Como se 
tornou numa sacerdotisa que pde segurar o fogo nas mos essa alde escocesa que vs 
dizeis que reis?

Dizei-me qual  a verdade... Caillean olhou para a rapariga, que tinha baixado as louras 
sobrancelhas sobre aqueles mutveis olhos como se assustada pelo seu prprio 
atrevimento. Que outras verdades podiam voltar para a perseguir, como a sua lngua 
natal tinha regressado nos lbios daqueles homens monstruosos? Tinha o dobro da idade 
de Eilan - suficientemente velha para ser a sua me se tivesse casado cedo e, no entanto, 
neste momento, a rapariga mais nova era como uma irm, uma alma gmea.

A CASA DA FLORESTA

137

- Visteis, ento, logo para a Casa da Floresta com Lhiannon?     persistiu Eilan.

No; penso que Vernemeton no estava ainda construdo
- Caillean recomps-se o suficiente para responder. - Lhiannon tinha vindo para Eriu 
para estudar com a bean-drui, as sacerdotisas do santurio de Brigid, em Druim Cliadh. 
Quando voltou  Bretanha, vivemos primeiro numa torre redonda na costa, muito para 
norte daqui. Lembro-me de que, a, havia um anel de pedras brancas colocado  volta da 
torre e era a morte para qualquer homem, salvo apenas o Arquidruida (no Ardanos mas 
o anterior), entrar dentro desse anel de pedras. Tratou-me, sempre, como sua filha 
adoptiva; uma vez ela disse que me tinha encontrado abandonada na praia. Bem que 
podia ter sido verdade; nunca mais vi nenhum membro da minha famlia.

- No sentis a falta da vossa me?

Caillean hesitou, abalada pela torrente de recordaes.

- Suponho que tiveste uma me boa e carinhosa. A minha era  diferente. No que ela 
fosse m, mas eu ligava-lhe pouco e ela a mim. - Deteve-se, olhando para a mulher mais 
nova prudentemente. Que poder est em ti, rapariga , pensou, que podes conjurar 
tais memrias em mim? Suspirou, tentando encontrar as palavras certas.

Para ela eu era apenas outra boca para alimentar. Uma vez, anos mais tarde, no 
mercado de Deva, vi uma velha mulher que me fez lembrar a minha me. No era ela, 
claro, mas nem mesmo senti pena quando o percebi. Foi ento que cheguei  concluso 
de que no tinha nenhuns parentes a no ser Lhiannon e, mais tarde, as outras 
sacerdotisas da Casa da Floresta...

Houve um longo silncio. Ela podia ver Eilan a tentar imaginar o que seria crescer sem 
uma famlia. Caillean podia ver que o autoritarismo de Eilan tinha sido afeio e, pelo 
que Dieda lhe tinha dito, esta tinha sido como uma irm gmea de Eilan, E apesar disso, 
apercebeu-se subitamente, tal como ela prpria nunca tinha aberto o corao com 
nenhuma das suas companheiras sacerdotisas, tambm nunca Eilan podia ter falado com 
ningum da sua famlia do modo que estava a falar agora com Caillean.

Dizer-lhe estas coisas  como falar comigo mesma , pensou tristemente Caillean, ou, 
talvez falar com a pessoa que eu podia ter sido, inocente e pura para sempre.
138

MARION ZIMMER BRADLEY

- A escurido e a luz do fogo aqui fazem-me lembrar os meus primeiros anos - disse por 
fim a sacerdotisa e, quando ela falou, a fraca luz apoderou-se-lhe da viso e viu-se a cair 
pelo tnel dos anos, as palavras jorrando dela como se estivesse sob a influncia dalgum 
feitio.

Tudo o que verdadeiramente recordo da cabana  que era escura e estava sempre cheia 
de fumo. Aquilo fazia-me doer o corao, de modo que passava a vida a fugir sozinha 
para a praia. Lembro-me, principalmente, dos gritos das gaivotas; tambm as havia 
perto da torre, de modo que quando vim para a Casa da Floresta, h muitas estaes, 
durante um ano dificilmente consegui dormir por estar afastada do barulho do mar. 
Amava o oceano. As minhas memrias da minha... casa... - continuou, hesitantemente -, 
so todas de crianas, um beb sempre no peito da minha me, sempre a choramingar, a 
berrar e a puxar pelas suas saias e pelas minhas quando no lhes conseguia escapar. Mas 
nem mesmo as sovas conseguiam manter-me dentro de casa, para moer cevada ou para 
ser puxada dum lado para o outro pelos fedelhos chores e nus.  surpreendente que 
consiga suportar bebs
- acrescentou - mas no tenho nenhuma averso por aqueles, como os de Mairi, que vm 
para onde so desejados e so bem tratados quando nascem.

Devo ter tido um pai, mas mesmo quando era muito pequena sabia que ele no fazia 
nada pela minha me excepto assegurar-se de que havia sempre um novo beb no seu 
peito. - Ela hesitou. - Atrevo-me a dizer que Lhiannon teve piedade de mim como uma 
esfomeada.

Caillean ouvia as suas prprias palavras, admirada que elas no contivessem nenhuma 
amargura; como se tivesse aceite tudo isto h demasiado tempo.

Assim nem sequer sei, no verdadeiramente, a minha idade. Foi apenas cerca de mais 
ou menos um ano depois de Lhiannon me ter levado que o meu corpo comeou a 
mostrar os primeiros sinais de maturidade, Penso que teria, ento,  volta de doze anos. 
- Deteve-se subitamente, e Eilan olhou para ela espantada.

Eu sou uma mulher, uma sacerdotisa , disse para si prpria Caillean, uma feiticeira 
que pode assustar homens armados! Mas o transe do fogo tinha-a transportado longe 
de mais para dentro da memria e sentia-se como uma criana aterrorizada.

A CASA DA FLORESTA

139

Qual era a verdade? Ou o logro estava apenas no tremeluzir do fogo?

- Devo estar mais abalada que o que pensava - disse numa voz rgida - ou talvez seja da 
hora,   e da escurido, como se tivssemos passado para fora do tempo. - Olhou para 
Eilan, forando-se  honestidade - Ou talvez seja porque estou a falar contigo...

Eilan engoliu em seco, e fortificou-se para enfrentar o olhar da outra mulher. A 
verdade... dz-me a verdade - Caillean ouviu o pensamento como se fosse seu, e no foi 
capaz de dizer qual delas tinha mais necessidade dela.

- Nunca o disse a Lhiannon e a Deusa no me fulminou...
- ela sentiu as palavras serem-lhe arrancadas. - Mas depois de todos estes anos parece-
me que talvez algum deva saber.

Eilan estendeu os braos para ela e os dedos de Caillean fecharam-se com fora na sua 
mo.

- Foi a viso e o barulho desses assaltantes que me fez recordar. Na minha antiga casa 
havia um homem que eu por vezes via na praia. Era, penso, um que a vivia, afastado 
dos outros homens, um fora-da-lei expulso do seu cl. Eu no pensava sobre isso - 
acrescentou amargamente. - Ao princpio eu confiava nele; dava-me pequenos 
presentes, coisas belas que tinha encontrado nas praias, conchas, penas brilhantes. - 
Hesitou. - Maior loucura a minha por pensar que ele era inofensivo; mas como podia eu 
adivinhar? Quem tinha jamais existido para me ensinar?

Ela olhou cegamente na direco do fogo, mas, mesmo que no houvesse nenhuma luz 
na cabana, nenhuma luz podia agora chegar at ela neste lugar da memria.

- No suspeitei de nada, nunca percebi o que ele queria quando um dia me arrastou para 
a sua cabana... - Ela tremeu, abalada por memrias para as quais, mesmo agora, no 
tinha palavras.

- O que fizsteis? - A voz de Eilan veio de muito longe, como uma estrela distante.

- O que podia eu fazer? - disse Caillean asperamente, agar~ rando-se quela pequena 
luz. - Eu... eu fugi a chorar... a chorar at que pensei que desaparecia, e cheia dum tal 
horror e nojo... no consigo falar disso. Parecia que no havia ningum a quem
140
                 MARION ZIMMER BRADLEY

pudesse contar, ningum que se tivesse importado, - Ficou silenciosa durante muito tempo. - At hoje ainda 
me lembro do cheiro na cabana: porcaria, fetos, algas, e de ser obrigada a deitar-me enquanto choramingava... 
era nova de mais para perceber o que ele queria. O cheiro do mar e dos fetos ainda hoje me enjoa acrescentou.

- Nunca ningum soube? No fizeram nada? - perguntou Eilan. - Penso que o meu pai mataria quem quer que 
tivesse tocado em mim dessa maneira,

Caillean tinha-o finalmente dito e o respirar era agora um pouco mais fcil. Deixou escapar alguma da dor 
num longo, tremente suspiro.

- Mesmo selvagem como a nossa tribo o era, as mulheres no podiam ser molestadas, muito menos uma 
criana to nova. Tivesse eu acusado o meu atacante que ele teria ido parar  jaula de vime e sido assado em 
fogo lento. Ele sabia-o quando me ameaou. Mas nessa altura eu  que no o sabia. - Agora ela falou com um 
estranho desinteresse, como se tudo se tivesse passado com outra pessoa.

- Foi cerca de um ano depois que Lhiannon chegou. Ela nunca teria suspeitado que uma rapariga to nova 
pudesse j ser impura... e na altura em que comecei a confiar nela, e a acreditar na sua bondade, j era tarde 
de mais; tive medo de ser mandada embora. Assim, finalmente, essa divindade que julgaste ver em mim no 
passa de uma mentira - disse asperamente. - Se Lhiannon tivesse sabido eu podia nunca ter sido feita 
sacerdotisa... mas assegurei-me que nunca o soubesse. - Ela virou a cara para o lado. Durante um momento, 
que pareceu demasiado longo, fez-se silncio.

- Olhai para mim_

Caillean viu o seu olhar ser atrado para a criana e viu a face de Eilan, metade o brilho duma deusa, a outra 
metade na sombra.
- Acredito em vs - disse a rapariga gravemente. Caillean deu um suspiro e a imagem de Eilan ficou 
embaciada pelas lgrimas.

- Vivo apenas porque acredito que a Deusa tambm me perdoa - disse a sacerdotisa. - j tinha recebido a 
minha primeira iniciao antes de compreender a enormidade do meu logro. Mas no houve nenhuns maus 
pressgios. Quando me

A CASA DA FLORESTA

141

fizeram sacerdotisa esperei que casse um raio mas no caiu nenhum, Pensei, ento, que talvez no houvesse 
nenhuns deuses, ou que, se existem, no se importam de todo com as aces da humanidade,

- Ou talvez sejam mais misericordiosos que os homens disse Eilan que nessa altura pestanejou como que 
admirada com a sua prpria temeridade. Nunca antes lhe tinha ocorrido pr em causa a sabedoria de homens 
como o seu pai ou o seu av.
 - Por que deixsteis a vossa torre perto do mar? - incitou-a Eilan depois de algum tempo.

Caillean, perdida nas suas memrias, comeou e disse:

- Devido  destruio do santurio em Mona... conheces essa histria?

- O meu av... ele  um bardo... tem-na cantado. Mas de certeza que isso foi antes de terdes nascido...

- No realmente - Caillean riu. - Mas era ainda uma criana. Se nessa altura Lhiannon no estivesse em Eriu, 
 qual chamais Hiberna, tambm teria morrido. Durante alguns anos depois desse desastre os druidas da 
Bretanha sobreviventes ficaram ocupados de mais a lamber as suas feridas para pensar muito nas suas 
sacerdotisas. Ento, o Arquidruida fez uma espcie de tratado com os Romanos que garantiu um santurio no 
interior do territrio romano a todas as mulheres sagradas sobreviventes,

- Com os Romanos! - exclamou Eilan, - Mas foram os Romanos que mataram as outras!

- No, eles apenas as despojaram - disse Caillean amargamente. - As sacerdotisas de Mona viveram o tempo 
suficiente para dar  luz os bastardos que os romanos nelas tinham gerado, depois suicidaram-se. As crianas 
foram entregues a famlias leais, tais como a tua.

- Cynric! - exclamou Eilan, com um olhar de sbita compreenso. -  por isso que ele  to amargo em 
relao aos Romanos e est sempre a querer ouvir a histria de Mona, embora tenha acontecido h tanto 
tempo. Eles mandavam-me sempre calar quando dantes eu fazia perguntas sobre ela!

- O teu Cynric, o que odeia os Romanos, tem exactamente tanto sangue romano como esse rapaz com quem o 
teu pai recusou deixar-te casar - disse Caillean, rindo. Mas Eilan apertou os braos e olhou para a lareira.

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MARION ZIMMER BRADLEY

- No acreditas em mim? - perguntou a sacerdotisa, -  tudo bem verdade. Bom, talvez 
os romanos sintam alguma culpa pelo que aconteceu, mas o teu av  um animal 
poltico to astuto como qualquer senador romano e negociou com Cerealis, que era o 
governador antes de Frontinus. De qualquer forma, a Casa da Floresta foi construda em 
Vernemeton para abrigar mulheres e sacerdotisas de toda a Bretanha, E, por fim, 
Lhiannon tornou-se Gr Sacerdotisa e arranjaram-me um lugar entre elas, em grande 
parte porque elas no sabiam o que mais haviam de fazer comigo. Tenho servido 
Lhiannon desde que era uma criana pequena, mas no sou eu que lhe devo suceder. 
Isso j me foi tornado bem claro.

- Por que no?

- Primeiro pensei que era a vontade da Deusa... por causa do que te contei. Mas agora 
acredito que  porque os sacerdotes no confiam em mim para lhes obedecer. Amo 
Lhiannon, mas vejo claramente nela e sei que ela se dobrar com o vento. Talvez a 
nica vez que ela jamais desafiou o Conselho tenha sido quando insistiu em ficar 
comigo. Mas eu percebo as maquinaes deles e digo o que penso, se bem que no - ela 
abanou a cabea -, como falei contigo!

Eilan devolveu-lhe o sorriso.

- Isso deve ser verdade, pois no consigo imaginar-me a dizer sequer metade das coisas 
que ouvi esta noite no salo do meu pai.

- Eles no se atreveriam a deixar-me falar com a voz da Deusa... ficariam sempre a 
pensar o que  que eu iria dizer! Caillean vu-se a rir novamente, - Querero algum 
mais leal. Durante um tempo pensei que seria Dieda; mas ouvi por acaso um pouco do 
que Ardanos disse quando ela foi escolhida. Penso que eles tinham Planeado que devias 
ser tu.

- j antes disssteis qualquer coisa como isso mas eu penso que o meu pai tenciona 
arranjar-me um casamento.

-  verdade? - Caillean levantou uma sobrancelha. - Bem, talvez esteja enganada. 
Apenas soube que o filho do Prefeito do Campo de Deva te tinha pedido,

- O meu pai ficou to zangado... - Eilan corou, lembrando-se das coisas que ele lhe tinha 
dito. - Disse que casaria Senara antes que ela lhe pudesse causar qualquer problema. 
Pensei que

A CASA DA FLORESTA

143

ele queria dizer o mesmo para mim, Mas no disse nada sobre mandar-me para 
Vernemeton. Se no puder ficar com Gaius - acrescentou pesadamente -, suponho que 
no me interessa o que eu fizer.

Caillean olhou para ela pensativamente.

- Nunca me senti tentada a casar; fui prometida  Deusa h tanto tempo. Talvez devido 
ao que me aconteceu quando era uma criana nunca senti que quisesse pertencer a 
qualquer homem. Suponho que se tivesse sido infeliz no templo, Lhiannon tivesse 
tentado encontrar um modo de me dar em casamento; ela quis sempre tornar-me feliz. 
Eu amo-a verdadeiramente - acrescentou. - Tem sido para mim mais que uma me.

Ela hesitou.

- Irrita-me pensar em ceder aos Planos de Ardanos, mas a Deusa pode estar metida 
tambm nisto. Gostarias de vir comigo para Vernemeton quando eu voltar?

- Penso que sim - respondeu Eilan, e um lampejo de interesse brilhou nesses estranhos, 
inutveis olhos, que por vezes pareciam castanhos-escuros e outras cinzentos, 
substituindo a dor. - No penso que mais nada me pudesse agradar tanto. Nunca 
acreditei realmente que eles deixassem que eu e Gaius ficssemos juntos. H muito 
tempo, antes de conhecer Gaius, costumava sonhar em ser uma sacerdotisa. Assim, pelo 
menos, terei uma vida honrosa e coisas interessantes para aprender.

- Penso que isso se podia arranjar - disse Caillean secamente. - Bendeigid vai sem 
dvida ficar encantado, bem como Ardanos. Mas quem deve concordar com isto  
Lhiannon. Devo falar com ela?

Eilan assentiu e, desta vez, foi a mulher mais velha que lhe pegou na mo. Ao contacto 
com a suave pele da rapariga, Caillean sentiu a familiar vertigem duma mudana de 
viso e viu Eilan mais velha e ainda mais bela, envolta nos vus do Orculo. irms, e 
mais que irms... Como num eco ouviu as palavras.

- No tenhas medo, criana. Penso que pode estar... - fez uma pausa e disse finalmente - 
predestinado que venhas para o meio de ns. - Alegrou-se subitamente. - E, escusado 
ser dizer, que eu te darei as boas-vindas a. - Suspirou quando a viso a abandonou, e 
ouviu, como num eco, uma cotovia no exterior, dando as boas-vindas  alvorada.

144

MARION ZIMMER BRADLEY

O dia est a nascer. - Com um esforo, Caillean fez com que os msculos presos lhe 
obedecessem e cambaleou em direco  porta. - Temos estado a falar toda a noite. No 
fazia isto desde que era mais nova que tu. - Abriu a porta, deixando o sol nascente 
inundar o quarto. - Bem, pelo menos a chuva parou; o melhor  sair e ver se o estbulo 
sobreviveu  noite; pelo menos esses patifes dificilmente podiam pegar-lhe fogo com 
uma chuva destas... e se eles nos deixaram algumas vacas, e algum para as ordenhar.

Durante os quatro dias seguintes, Gaius mourejou  cabea do destacamento de 
auxiliares dacianos, cujo decurio doente estava a substituir, com Priscus, o seu optio, 
todos eles amaldioando a lama e a humidade que parecia infiltrar-se por tudo quanto 
era abertura apesar das capas de couro oleado, enferrujando as armaduras e, onde quer 
que o couro molhado tocasse na pele, irritando a pele. As florestas pingavam 
incessantemente e os campos estavam encharcados, para ambos os lados, as razes do 
trigo jovem apodrecendo em poas de gua parada. O final do Vero traria uma pobre 
colheita, pensou sombriamente. Teriam de importar gro de outras partes do Imprio 
onde os Deuses tivessem sido mais condescendentes. No admirava que os assaltantes 
estivessem a vaguear se na Hibernia o tempo tambm tivesse estado assim.

Apesar do andamento lento, a meio do quinto dia j estavam bem dentro da terra onde 
tinha tido a sua aventura. Passaram essa noite em casa de Clotinus. No dia seguinte 
passaram pelo fosso para javalis em que tinha cado e viraram para o caminho que 
levava  propriedade de Bendeigid. A chuva estava finalmente a abrandar e para 
ocidente, entre os bancos de nuvens que se iam dispersando, o cu brilhava com a cor 
do ouro.

Gaius sentiu o pulso a bater mais depressa ao reconhecer as familiares pastagens e o 
bosque no qual tinha    colhido primaveras com Eilan. Depressa ela o veria, revestido 
pela majestade, ainda que enlameada, de Roma. Ele nada diria; ela poderia julgar a 
profundidade do seu sofrimento pelo seu silncio. E ento, talvez ela o procurasse, e...

- Pelos Deuses! Aquilo so mais nuvens de tempestade?
- Era o optio, Priscus, por trs dele. - Esperei que tivssemos pelo menos um dia para 
nos podermos secar!

A CASA DA FLORESTA

145

Gaius focou-se no mundo exterior e viu que, embora o cu para sul estivesse a clarear, 
as nuvens  frente eram de um agourento cinzento-escuro. O seu cavalo sacudiu a 
cabea nervosamente e um pequeno formigueiro de apreenso endureceu-lhe a pele.

- No so nuvens - disse um dos dacianos. -  fumo... Nesse momento, o vento trouxe-
lhe o desagradvel cheiro de madeira em combusto lenta. Agora todos os cavalos 
estavam a resfolegar, mas eles j antes tinham cheirado fogo e os homens mantiveram-
nos sob controlo.

- Priscus, desmonta e leva dois batedores pelos bosques para ver - disse Gaius, um 
pouco espantado com a fria preciso do seu tom. Era o treino que evitava que ele 
esporeasse o seu cavalo para a frente, ou estava ele simplesmente mergulhado na 
inaco pelo pensamento do que poderia ver? Pareceu que se tinha passado muito pouco 
tempo antes que os batedores voltassem.

- Assaltantes, senhor - disse o optio, a sua cara marcada pelas cicatrizes, dura como a 
pedra. - Os Hiberninanos de que ouvimos falar, acho. Mas j se foram embora.

- Alguns sobreviventes?

Priscus encolheu os ombros e Gaius sentiu a garganta apertar-se.
             - Uma recepo quente, mas nenhum lugar para dormir, eh?
Suponho que vamos seguir em frente - disse um dos homens, e os outros riram. Ento 
Gaius voltou-se, e a sua cara f-los calar. Fincou os calcanhares nos flancos da sua 
montada e os soldados seguiram-no em silncio.

Era verdade. Mesmo at chegarem  orla do bosque at  elevao onde se tinha erguido 
a casa de Bendeigid, Gaius tinha tido a esperana que, de qualquer modo, Priscus se 
tivesse enganado. Mas tudo tinha desaparecido - erguidas em muda homenagem, 
restavam apenas algumas vigas escurecidas nas extremidades daquilo que tinha sido o 
salo de festas- Nenhum sinal do edifcio onde tinha convalescido, e nenhum sinal de 
vida. Casas com telhados de colmo ardiam rapidamente.

- Feroz, sem dvida, deve ter sido o fogo para arder quando a palha estava molhada pela 
chuva - disse Priscus.

- Sem dvida - Gaius concordou entorpecido, imaginando a pequena Senara, Eilan, toda 
a famlia, prisioneiros nas mos dos

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MARION ZIMMER BRADLEY

selvagens assaltantes das costas da Hibernia, ou, pior ainda, pilhas de ossos 
carbonizados entre a confusa massa de madeira queimada que tinha uma vez sido uma 
casa. Ele no podia deixar que os homens vissem o quanto isto o estava a afectar; tapou 
a cara com o seu capuz, tossindo como se o fumo que ainda se evolava dos edifcios 
exteriores fosse o culpado. Priscus tinha tido razo. Ningum podia ter sobrevivido a 
este incndio.

Ele disse ferozmente:

- Faamos os homens seguir, ento. No temos tempo para ficar especados a olhar para 
alicerces se queremos encontrar um abrigo antes que a noite caia! - A sua voz quebrou-
se e ele transformou-a noutro ataque de tosse, pensando no que  que Priscus tinha 
deduzido do seu tom, isto no caso de ele ter pensado qualquer coisa. Mas o optio, um 
velho soldado, estava mais que familiarizado com os efeitos nos jovens da viso de 
pilhagem e carnificinas.

Priscus lanou-lhe um olhar bondoso e desviou a vista.
- Prometemos a esta gente a paz quando os conquistmos... o menos que podamos 
fazer, pensar-se-la, seria proteg-los. Mas apanharemos os bastardos que fizeram isto, 
no temam, e ensinar-lhes-emos a no se meterem com Roma. Que pena os Deuses no 
terem inventado outra maneira de civilizar o mundo. Oh, bem, podamos ter sido 
plantadores de nabos; mas, como quer que seja, escolhemos como profisso o sermos 
soldados e isto faz parte disso. Eram vossos amigos, no eram?

- Hospedei-me aqui - replicou Gaius rigidamente. - Na Primavera passada. - Pelo menos 
a sua voz estava novamente sob controlo.

- Bem,  assim que o mundo gira - replicou Priscus.
- Um dia aqui, no outro nada. Mas suponho que os Deuses devam ter sabido o que 
estavam a fazer.

- Sim - respondeu Gaius, tanto para interromper a filosofia caseira do homem como por 
qualquer outra razo. - D a ordem de marcha; ponhamos os homens fora da chuva logo 
que possamos chegar  prxima cidade.

- Certo, Senhor. Coluna, formar! - gritou. - Quem sabe, talvez a famlia estivesse toda 
fora a visitar amigos. Por vezes  isso que acontece.

 medida que se deslocavam pelo meio dum cada vez mais espesso nevoeiro que, mais 
uma vez, se estava a transformar em

A CASA DA FLORESTA

147

chuva, Gaius lembrou-se que tinha visto Cynric no mercado, pouco antes de deixar 
Deva; tinha havido uma conversa sobre mandar o jovem para uma qualquer escola 
militar no Norte, pelo que ele bem podia ter sobrevivido. A morte de um druida to 
importante como Bendeigid causaria alguma agitao. Gaius suspeitava que o seu pai 
tinha fontes de informao que mantinha secretas. Decerto que ele o saberia. Tinha 
apenas de esperar para ver.

Gaius tentou reunir alguma esperana. Priscus tinha razo.
O incndio da casa no significava necessariamente a morte ou a priso das pessoas que 
a viviam. Mairi podia bem ter voltado para sua casa; Dieda j nem sequer era um 
membro da casa de Bendeigid. Mas Eilan... provavelmente era de mais esperar que 
Eilan, ou a pequena Senara, ou a suave Itheis, tivessem sobrevivido. Neste momento ele 
no teria dado a mais pequena das moedas de cobre pela sua prpria carreira ou por todo 
o Imprio.

Se tivesse levado Eilan ela ainda estaria viva... se tivesse feito frente ao meu pai, 
mesmo t-la roubado ... , pensou.

Uma sbita memria fez-lhe doer a garganta - a viso da sua me jazendo fria e branca 
no seu leito, e as mulheres carpindo sobre o seu corpo. Ele tinha chorado com elas, mas 
o seu pai tinha-o tirado dali e ensinado que um romano no chora. Mas chorava por ela, 
agora, como chorava por aquelas mulheres que o tinham, por um curto perodo, feito 
sentir parte duma famlia.

No podia deixar que os soldados o vissem chorar. Colocou o seu manto sobre a cabea 
e tentou fingir que as lgrimas que corriam pelas suas faces eram chuva.

NOVE

Quero o meu marido. - Mairi tinha acordado, a meio da manh no dia seguinte ao do 
nascimento da sua criana, rabugenta e exigente. - Onde est Rhodri? Ele ter-nos-la 
protegido desses homens...

A casa circular estava quente depois do frio l de fora. Eilan, que estava a comear a 
sentir os efeitos da sua noite interrompida, olhou exasperada para a irm e sentou-se 
perto da lareira. j era suficientemente mau que os assaltantes tivessem levado todas as 
vacas leiteiras, e ela tivesse tido de caminhar algumas milhas atravs dos bosques 
molhados para pedir emprestado um animal para que Mairi, cujo leite ainda no tinha 
aparecido, pudesse alimentar a criana. Felizmente as manadas principais estavam nas 
pastagens de Vero, pelo que a sua irm no estava sem dote se se casasse novamente, 
se bem que Eilan no fosse to cruel que lhe fosse falar disso j.

- As vacas no teriam sido levadas se Rhodri aqui tivesse estado!

- O mais provvel  que tivesse tentado lutar com os assaltantes, e serias na mesma... - 
Eilan mordeu o lbio, horrorizada com o que estava a dizer. Tinha-se esquecido de que 
Mairi no sabia. - Caillean... - Olhou para a sacerdotisa num apelo.

- Serias na mesma uma viva... - disse Caillean brutalmente, trazendo a canequinha de 
leite quente da lareira e pousando-a. Os olhos de Mairi arregalaram-se,

- O que estais a dizer... - Olhou para cima, para o rosto da sacerdotisa, e o seu prprio 
ficou plido com o que a viu,
- Teria esperado, mas j no nos podemos dar a esse luxo.

Rhodri foi capturado pelos Romanos quando tentava libertar os homens das levas. Eles 
executaram-no, Mairi,

150

MARION ZIMMER BRADLEY

- No  verdade... estais a mentir-me. Ele no pode estar morto e eu no saber! Era 
melhor que os assaltantes me tivessem morto... por que no os deixsteis, Caillean? Oh, 
devia estar morta... quem me dera que estivesse! - Mairi caiu para trs na cama de 
penas, a soluar, e o beb comeou a chorar. Caillean entregou a criana a Eilan e 
inclinou-se para a outra mulher, murmurando suavemente:

- V, ento, no serve de nada chorar. Tens dois belos filhos, com a vida  sua frente. 
Tens que juntar as tuas foras, Mairi, para os pores em segurana antes de os Scotti 
virem outra vez!

Os olhos de Mairi abriram-se muito e estendeu os braos como uma louca. Eilan, 
dividida entre as lgrimas e o riso, colocou o beb nos seus braos. Caillean tinha tido 
razo. Logo que Mairi tivesse terminado com a choradeira, continuaria a viver para os 
seus filhos. Caillean tinha experincia de coraes de mulheres.

Um pouco mais tarde, enquanto Mairi ainda dormia, exausta pelo choro, Eilan ouviu o 
barulho dum cavalo, a patinhar na lama deixada pela tempestade. Pararam no exterior. 
Os assaltantes!, pensou Eilan loucamente. Mas nenhum atacante bateria  porta to 
devagar e pesadamente. Com o corao a bater como um tambor, Eilan levantou a 
tranca. Quando espreitou para fora viu o pai.

Nesse momento apenas conseguiu pensar em Rhodri. O seu pai tinha vindo para trazer a 
notcia a Mairi? O jovem tinha sido um dos seus melhores guerreiros, vivendo como um 
filho da casa e tratando-a como uma irm, mesmo antes de ela se tornar numa. Agora 
que Mairi sabia da sua perda, tambm Eilan podia lamentar-se.

Abriu a porta. Bendeigid cambaleou quando entrou, como se a viagem o tivesse cansado 
ou se se tivesse subitamente tornado velho. Ento, ela sentiu a dureza das mos dele a 
fecharem-se nos seus ombros. Ele deixou-se ficar a olhar para ela durante muito tempo,

- Caillean acabou de contar  Mairi sobre Rhodri - disse numa voz baixa. - Sabeis?

- Sabia - disse o pai com uma grande amargura. - Esperei que a notcia que me chegou 
no fosse verdadeira. Uma maldio certamente se abater sobre todos os Romanos por 
esse feito. Vs agora, Eilan, porque no permiti que casasses dentro desse povo 
amaldioado? - Largou-a e deixou-se cair no banco perto da lareira,

O povo de Gaius pode ser culpado de tal maldade, mas ela no acreditava que o prprio 
Gaius o tivesse feito. Mas ao olhar para a dura face do seu pai, segurou a lngua.

A CASA DA FLORESTA

151

- Mas isso no  o pior mal que temos de lamentar. - A face de Bendeigid contorceu-se 
subitamente, e Eilan sentiu o primeiro arrepio de verdadeiro medo. - No sei como to 
contar, Eilan.

- Pode ser que eu ja o saiba - Caillean falou, por trs deles.
- Por vezes sou presciente e na noite antes de deixar a Casa da Floresta sonhei que vi 
uma casa transformada em cinzas e soube que era a vossa. Mas, depois, encontrei Eilan 
aqui e pensei que devia estar enganada. Na noite passada tivemos uma visita dum bando 
de assaltantes. Sei o tamanho da alcateia em que esses lobos se costumam deslocar... e 
tive medo. 0 corpo principal virou, ento, para sul, na vossa direco?

- Veio aqui um bando? - disse numa voz spera e baixa, virando-se para olhar para ela.

- Apenas uns poucos deles, e eu consegui assust-los daqui para fora.

- Ento tenho que vos agradecer o ter ainda filhas vivas! Eilan no precisou de nenhuma 
presciencia para perceber as suas palavras, mas o que estava a ouvir era horrvel de mais 
para se acreditar. Sentiu a cor a fugir-lhe da face.

- Pai...

-  Filha, filha, como to posso dizer? Chegou a notcia que um bando misto de assaltantes 
estava a atacar a casa de Corimor. Peguei nos meus homens para ir em sua ajuda. Mas 
eles eram mais que o que podamos sonhar que pudessem vir com um tempo destes. 
Enquanto estivemos fora...

-  A Me e Senara esto ento mortas? - a sua voz quebrou-se e Mairi, levantando-se, 
afastou as cortinas da cama e ps-se inseguramente de p, a olhar. Caillean dirigiu-se a 
ela e o druida continuou.

-  Atrevo-me a esper-lo. - A sua face contorceu-se com a dor. - Porque a alternativa, 
serem levadas como escravas para l do mar,  ainda pior. Pensar que qualquer delas 
possa viver em tal desonra...

- Preferirieis v-las mortas, que vivas em escravatura? - perguntou Caillean, numa voz 
baixa, tensa.

- Preferiria - exclamou Bendeigid ferozmente. -  melhor uma morte rpida, mesmo nas 
chamas, e ser bem recebidas no Alm, que a vida com a lembrana das mortes da nossa 
gente

152

MARION ZIMMER BRADLEY

a persegui-las, tal como eu tenho que viver agora. Os Deuses sabem que esses monstros 
pagariam com o sangue pelas suas mortes, e pela minha, se apenas l tivesse estado!

Deteve-se e olhou ferozmente de Eilan para Mairi, que deu um vacilante passo na sua 
direco. Gemendo, juntou as duas filhas nos seus braos. A soluar, Eilan agarrou-se  
sua irm. Antigamente, ela teria encontrado conforto nos braos do pai, mas estas eram 
dores das quais ele no a podia proteger.

- O corpo de Senara no foi encontrado nas cinzas - disse ele debilmente -, e ela ainda 
nem sequer tinha dez anos... Eilan pensou, Ento pode bem ser que ela ainda esteja 
viva ... , mas no o disse alto.

- Tinha tencionado levar Mairi para casa quando as notcias sobre Rhodri se 
confirmaram, mas agora no tenho nenhuma casa para lhe oferecer. Agora no posso 
oferecer proteco a ningum...

- Senhor druida, talvez vs no possais - disse Caillean suavemente - mas a vossa ordem 
pode. A Casa da Floresta dar abrigo a Mairi e aos pequeninos enquanto tiverem 
necessidade. E quero perguntar-vos se permitis que Eilan entre como uma sacerdotisa 
novia do santurio.

Bendeigid endireitou-se e olhou atentamente para Eilan.
-  isso que queres, criana?

-  - disse ela simplesmente. - Se no posso casar-me onde est o meu amor, deixai-me 
ento entreg-lo  Senhora, Agradar-me-la, verdadeiramente, j que costumava sonhar 
com essa vida antes de ter idade suficiente para pensar de todo em casamento.

O seu pai sorriu pela primeira vez, embora um pouco abalado.
- Agradar ao teu av, de qualquer forma. Eu no tinha pensado nessa vida para ti, 
Eilan, mas se  mesmo o que queres, ento tambm fico satisfeito.

- Mas e o que... - Eilan engoliu as palavras. Como se podia ter esquecido? A sua me 
nunca mais lhe poderia dizer o que quer que fosse. Mas o pai pareceu ter adivinhado o 
que ela no conseguiu dizer. Deixou-se cair de novo perto da        lareira, a cara 
enterrada nas mos. Ela nunca tinha imaginado que o pai pudesse chorar. Mas quando 
ele olhou para cima, ela viu as suas faces cobertas de lgrimas.

Eilan tambm estava desolada pela morte das suas parentas, mas no tinha lgrimas. 
Pensar Gaius que estou morta quando

A CASA DA FLORESTA

153

souber? Chorar por mim? Era melhor, talvez, que pensasse que ela estava morta do que 
infiel  sua memria. Mas isso no interessava; ela seria uma sacerdotisa da Casa da 
Floresta. Mais que isso no conseguia fazer o seu pensamento ir.

- Elas sero vingadas! - exclamou o druida, olhando para as chamas. - Aqueles 
demnios selvagens no encontraro em toda a Bretanha vidas to caras como estas! 
Nem mesmo os Romanos se atreveram, nunca, a ir to longe, e digo-vos que aceitaria 
mesmo a sua ajuda para conseguir vingana! Isto significar a guerra! Porque no se 
trata apenas de rapina e assassnio, Eilan;  sacrilgio. Atacar a casa de um druida, 
matar a mulher, a filha e a neta de druidas; e destruir os objectos sagrados... como 
puderam faz-lo? Os nortenhos so nossos parentes e eu estudei com os druidas de Eriu.

- O nosso povo foi sempre assim, a lutar uns contra os outros quando no havia nenhum 
inimigo comum - observou calmamente Caillean.

- Mas ns temos um inimigo desses - exclamou Bendeigid. - No odiamos todos Roma?

- Talvez as tribos selvagens pensem em ns, agora, como romanos...

O druida abanou a cabea.

- Os Deuses seguramente que os castigaro; e se o no fizerem, o nosso povo f-lo-. 
Cynric tem sido um filho para mim, e digo-vos, ele amaldio-los- quando souber do 
que se passou hoje! Mas ele est longe, nas ilhas do Norte. Tu e Mairi so tudo o que 
me resta, Eilan.

Na verdade , pensou ela lembrando-se. Restam-me to poucos parentes e Dieda 
tambm perdeu uma irm. Dar-me- ela as boas-vindas  Casa da Floresta?

Bem, o que quer que da resultasse, ela seria uma sacerdotisa. Do sangue de seu pai 
restavam Mairi, a sua filha recm-nascida e o seu filho; esperou que essas crianas 
pudessem ser um conforto para o seu pai. Ele ainda no era velho; podia casar outra vez 
e ter outros dele ou, mais provavelmente, Mairi podia encontrar um novo marido e ter 
mais. Mas se Eilan fosse para a Casa da Floresta ele no teria netos dela.

Bendeigid levantou-se, olhando para Caillean         com a testa enrugada.

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MARION ZIMMER BRADLEY

- Tenho necessidade das tuas capacidades, sacerdotisa; Cynric tem que ser mandado 
voltar. Podes cham-lo por mim? E f-lo-s?

- Com a ajuda de Lhiannon, posso - replicou Caillean.
- De qualquer modo ela teria de saber...

- Tambm preciso das tuas capacidades para descobrir esses homens - interrompeu 
Bendeigid.

- Isso  fcil de fazer; vi-os quando eles entraram por aqui dentro, e se no estavam 
entre os que queimaram a tua casa devem, apesar disso, estar sob o mesmo comando. 
Alguns eram calednios e os outros scotti, de Eriu.

- Se vieram aqui a noite passada, os Scotti deviam estar de volta  costa e os Calednios 
de novo a caminho do Norte. - Bendeigid tinha-se levantado e comeado a andar dum 
lado para o outro; nesta altura voltou a retomar o seu lugar perto da lareira. Caillean 
trouxe-lhe uma caneca de cerveja e ele mergulhou a sua barba nela para um longo gole, 
depois repetiu:

- Precisamos de Cynric em casa, mais depressa que mesmo um homem montado pode 
viajar. Manda a mensagem, Caillean, com a tua magia...

- F-lo-ei - disse a sacerdotisa. - Ficarei aqui com as tuas filhas enquanto vais dizer a 
Lhiannon. Depois vai a Deva, porque o Arquidruida tambm tem que saber.

- Tens razo; a minha mulher, Rheis, era sua filha - disse Bendeigid, esfregando 
distraidamente a testa. - Talvez ele tambm tenha algum conselho para nos dar.

Notcias da incurso espalharam-se rapidamente pelo interior do pas. Viajaram nos 
lbios de bufarinheiros ambulantes e com os correios das legies; parecia que os 
prprios pssaros levavam as notcias nas suas asas.

Trs dias depois da incurso, Ardanos, o Arquidruida, ao sair pela manh da sua casa 
em Deva, ouviu um corvo a crocitar  sua esquerda e reconheceu um pressgio de 
desastre. Mas ele tinha ganho a sua posio devido a um tipo de viso terrena que lhe 
permitia antecipar-se aos Romanos e minar a Oposio entre o seu prprio povo. No 
pela primeira vez, lamentou a limitao terrena dos seus poderes. Ento, viu o 
enlameado homem a subir a rua e soube que no teria de esperar pelo corvo para lhe 
dizer, pois

A CASA DA FLORESTA

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o sofrimento estava bem estampado nos olhos ardentes do seu genro.

Quando Ardanos recuperou um pouco do choque provocado pelas notcias de 
Bendeigid, dirigiu-se a Macellius Severus, o qual solicitou uma audincia ao 
comandante da Legio Audiutrix.

- Estes assaltantes do outro lado do mar esto a ficar atrevidos de mais - disse Macellius 
zangadamente. - Os Bretes tambm so o nosso povo, protegidos de Roma. Ningum 
os oprimir enquanto eu for vivo. A famlia de um dos druidas que vive perto daqui, 
Bendeigid...

- Um homem proscrito - interrompeu o comandante da Legio, franzindo o sobrolho. - 
Ele no devia estar aqui de todo!
- isso no faz qualquer diferena! No compreendeis que

Roma est aqui para proteger todos os homens deste pas... tanto os nossos cidados 
como os nativos - insistiu Macellius, ainda perseguido pela memria do sofrimento de 
Ardanos. Com o decorrer dos anos tinha aprendido a respeitar o velho e anteriormente 
tinha visto sempre o Arquidruida perfeitamente sereno. - Como podemos persuadi-los a 
depor as armas se depois no os podemos proteger? Podamos conquistar a Hibemia 
com duas legies...

- Pode bem ser que tenhas razo, mas isso ter de esperar at Agricola ter acabado com 
os Novantae. Tem sido sempre assim... com cada provncia que ns colonizamos temos 
de pacificar uma nova fronteira. No tempo do governador Paulinus os druidas de Mona 
foram desfeitos para que no pudessem pr o Ocidente do pas a ferro e fogo. Agora so 
os Calednios que tm de ser ensinados que no podem assaltar os Brigantes. Suponho 
que quando o Imprio se expandir at Ultima Thula possamos vir a ter uma fronteira 
pacfica, mas duvido que isso acontea antes.

- No entretanto tudo o que podemos fazer  apressar a construo de novas fortalezas 
costeiras - disse cinicamente o comandante da legio - e preparar uma ou duas unidades 
de cavalaria para sarem se eles forem detectados novamente. O teu filho est por l 
agora com alguns soldados, no est? Destaca-o para esse servio quando ele se 
apresentar... - resmungou o comandante. - Compete-nos a ns oprimir o povo da 
Bretanha e mais ningum o far.

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MARION ZIMMER BRADLEY

Mas construir fortalezas e planear campanhas levava tempo. Muito antes que as 
paliadas estivessem prontas, ou que o gro que tinha sobrevivido s chuvas tivesse sido 
colhido, Bendeigid voltou para escoltar as filhas at  Casa da Floresta. Trouxe mulas 
dceis para Mairi e as crianas montarem. Eilan viajou com o filho mais velho de Mairi 
 sua frente, bem agasalhado para se proteger da leve chuva. No estava habituada a 
montar e foi-lhe necessria toda a sua concentrao para se equilibrar atrs da excitada 
criana. A distncia no era grande, mas a pouco habitual jornada pareceu comprida.

A escurido estava quase a cair quando entraram nos muros de estacas. Dentro da rea 
cercada havia uma meia dzia de grandes edifcios; Caillean levou Mairi e os filhos para 
uma casa de hspedes, levantando o pequeno rapaz do seu poleiro  frente de Eilan, e 
apontou para um grande edifcio de slidas vigas de madeira, com um tecto de colmo 
quase at ao cho.

- Eis ali a Casa das Donzelas - disse. - A chefe das sacerdotisas mais novas, Eilidh, foi 
avisada da vossa chegada e dar-vos- l as boas-vindas. Irei l mais tarde, quando 
puder; mas antes tenho de ir ver se Lhiannon precisa de mim.

A lua nova - a primeira da recm-nascida vida de Mairi flutuava baixa no horizonte a 
ocidente. Enquanto as serviais a conduziam at ao edifcio, Eilan espantou-se de sentir, 
j, a falta da sua irm.

Ento, abriu-se um porto, e as mulheres conduziram-na para o ptio interior.  sua 
frente encontrava-se um comprido edifcio, parecido com o salo de festas do seu pai. 
Quando passou a porta viu-se rodeada por um mar de caras desconhecidas. olhou  sua 
volta, sentindo-se abandonada. As serviais tinham-na deixado sozinha  porta. O salo 
parecia muito grande e havia um leve aroma a ervas doces no ar. Ento, uma das 
sacerdotisas chegou-se  frente.

- Eu sou Eilidh - disse.

- Onde est a minha parenta Dieda? - perguntou Eilan nervosamente. - Tinha esperado 
v-la... tinha esperado v-la aqui...
- Dieda assiste Lhiannon e est recolhida com ela na prepa-

rao dos rituais de Lughnasad - disse a sacerdotisa. - Ela  tua prima? Teria jurado que 
a vossa consanguinidade era ainda mais chegada; gmeas, at.

- Caillean pediu-me para me encarregar de ti, pois agora que est de volta tem que 
acompanhar Lhiannon. s quase to bonita como ela me tinha dito.

Eilan corou timidamente e baixou os olhos. A sacerdotisa tambm era muito bonita; 
com um cabelo louro aos caracis, cortado curto, que  luz da lamparina lhe rodeavam a 
cara como um delicado halo. Estava vestida como as outras sacerdotisas de posio 
inferior, no com os vestidos escuros que usavam fora dos muros, mas com um vestido 
de linho no ti 
A CASA DA FLORESTA

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ngido, com um corte extremamente antiquado, apertado por um cinto tecido a verde.

- Deves estar meio morta de cansao - disse amavelmente Eilidh. - Vem at  lareira, 
criana, e aquece-te.

Eilan obedeceu, sentindo-se um pouco atordoada com todas as caras desconhecidas. 
No tinha pensado no que poderia enfrentar aqui. Agora, pensava no que iria encontrar e 
se no teria tomado uma deciso de que se iria arrepender toda a vida.

- No tenhas medo de ns - disse uma voz grave atrs dela. A nova oradora era alta e 
robusta, com o cabelo avermelhado. - No somos nem metade do que parecemos. 
Devias ter-me visto quando para c vim primeiro, a olhar  minha volta e a soluar 
como uma maluca. O meu nome  Myellin. J c estou h cinco ou seis anos e hoje em 
dia no posso sequer imaginar qualquer outra vida. Todas as minhas amigas esto aqui e 
um dia tambm tu ters amigas c. Por muito que agora te pareamos to estranhas. - 
Ela tirou a capa a Eilan e p-la de lado.

- Penso que Lhiannon deseja falar contigo antes de mais nada - disse Eilidh -, de modo 
que vem comigo. - Dizendo isto, conduziu Eilan atravs dum ventoso ptio at uma 
habitao isolada a bateu  porta. Passados uns instantes ouviram passos e Caillean 
espreitou para fora.

- Eilan? Entra, filha - disse, fazendo um gesto para algum atrs dela. - Vs Dieda, 
finalmente trouxe Eilan at ti.

-  verdade que o fizeste - disse Dieda, emergindo das sombras atrs dela. - O meu pai, 
o Arquidruida, tambm est c; e Bendeigid, de modo que suponho que iremos ter uma 
normal reunio familiar. - Ela riu, e Eilan pensou que nunca tinha ouvido um som to 
cnico. - E se ele levar a dele avante, tambm Cynric ser trazido para c. Ouvi dizer 
que eles querem usar a tua viso, Caillean.

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MARION ZIMMER BRADLEY


- Ou talvez a tua - disse Caillean, e Dieda deu uma pequena gargalhada. Eilan sentiu a 
hostilidade entre as duas e perguntou-se qual seria a razo.

- Penso que eles sabem o que eu diria a isso - disse Dieda.
- Se for para procurar Cynric, tudo bem; mas para fazer um orculo para Lhiannon 
recitar obedientemente como se no passasse duma boneca s ordens de Roma...

- Em nome da Deusa, de qualquer deusa, cala-te criana ordenou Caillean, ao ouvir uma 
porta a bater perto dali.
 - O que ? Quem est aqui?

- Apenas sua santidade o meu pai - resmungou Dieda

e a Gr Sacerdotisa de toda a Casa da Floresta, que obedientemente proferir os 
orculos tal como ele o desejar.

- Cala-te, desgraada criatura - murmurou Caillean -, sabes bem que o que dizes  um 
sacrilgio.

- Ou talvez aqui se passe um maior sacrilgio, no qual no tenho participao - replicou 
Dieda. - Talvez, com a viso, eles se queiram assegurar que mandam os romanos contra 
o grupo certo e, se assim for, o que fars tu, Caillean?

- Farei o que Lhiannon mandar - disse Caillean, a sua voz cada vez mais rispida -, como 
todas o faremos.

Caillean estava a tentar falar razoavelmente para suavizar a raiva de Dieda; a outra 
rapariga parecia mais zangada que nunca e Dieda tinha tido sempre a lngua afiada, mas 
Eilan nunca antes a tinha ouvido to amarga.

- Eu sei o que tu querias que pensssemos... - comeou Dieda, mas a cara de Caillean 
ficou rubra com a fria. Apesar disso falou calmamente.

- Sabes perfeitamente bem que no  o que pensas, ou o que eu penso, que importa - 
comeou -, mas o que a Gr Sacerdotisa deseja; e  isso o que eu farei.

- Se for o seu desejo - respondeu Dieda mais suavemente - mas nas circunstncias 
actuais como pode a vontade de Lhiannon ser executada... mesmo que ela pudesse ser 
minimamente determinada ou se  que ainda tem alguma vontade.

- Dieda, j antes ouvi tudo isso - disse Caillean cansadamente. - Mas ser que  uma 
coisa to m chamar o nosso parente Cynric para que ele possa lamentar adequadamente 
a sua me adoptiva?

- Podamos t-lo feito h semanas - comeou Dieda.
A CASA DA FLORESTA

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- Talvez, mas isso  tudo o que te  pedido, ou a mim, para

fazer - repetiu Caillean. - Por que  que tu te pes to teimosamente contra isso agora?

- Porque sei, se tu no sabes - disse Dieda -, que este uso do poder  um logro para 
obrigar Cynric a fazer aquilo que ele passou toda a vida a aprender a enfrentar; aquilo 
que o prprio Bendeigid preferiria morrer a fazer, e que  dar as mos a Roma. Ser que 
no sabes que foi por causa dele que Bendeigid se deixou ser proscrito?

Oh, em nome da Deusa, rapariga! Tambm sei alguma coisa sobre Cynric e sobre 
Bendeigid - disse Caillean rabugentamente. - E, acredites ou no, at alguma coisa sobre 
os Romanos; pelo menos tenho vivido sob o seu domnio h mais tempo que tu. E digo 
que no ser exercida nenhuma violncia, nem contra os teus preciosos princpios 
ticos, nem contra os de Cynric. Pensas, talvez, que s a nica pessoa em toda a 
Bretanha que sabe o que Cynric quer fazer?

- Sei o suficiente... - comeou Dieda, mas Caillean disse severamente:

- Chiu; ainda nos ouvem. E Eilan, nesta altura, j deve estar verdadeiramente confusa...

A face de Dieda adoou-se.

- Suponho que sim, e  uma pssima recepo a que lhe fazemos a discutir desta 
maneira. - Ela chegou-se e abraou Eilan, que sabia o suficiente para no protestar e 
muito menos ainda para comear de novo a discusso.

Nesta altura abriu-se a porta interior e Lhiannon apareceu  frente delas.

- Crianas, esto a discutir?

- Claro que no, minha me - disse rapidamente Caillean. E, passado um momento, 
Dieda acrescentou:

- No, certamente que no, Santa Me; estvamos apenas a dar as boas-vindas  ltima 
novia.

- Ah, sim; ouvi que Eilan estava para vir - disse Lhiannon, e voltou o seu olhar para a 
jovem rapariga que estava calmamente entre elas. Eilan sentiu o corao bater com mais 
fora quando olhou para a mulher que tinha visto pela ltima vez, como uma deusa, 
perto das fogueiras de Beltane.

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MARION ZIMMER BRADLEY

- Ento s tu a Eilan? - A voz de Lhiannon era doce mas um pouco fina, como se o ter 
sido a porta-voz da Deusa desde h tantos anos lhe tivesse gasto a fora. -  verdade; s 
muito parecida com Dieda; suponho que deves estar farta que to digam. Mas temos de 
inventar algum modo de as distinguir aqui no Santurio. - Ela sorriu e Eilan sentiu uma 
estranha sensao de proteco.

Lhiannon estendeu uma mo para Eilan, que estava ainda parada nervosamente perto da 
porta.

- Entra, criana. O teu pai e o teu av esto aqui connosco, sabias? - Eilan pensou 
porque se deveria surprender, visto o seu pai t-la escoltado at aqui. Estava ele, ento, 
a viver entre os sacerdotes?

Lhiannon pegou gentilmente no brao de Eilan e levou a rapariga para a sala interior, 
acrescentando para as duas sacerdotisas na sua doce voz:

- Venham tambm. Sero ambas precisas aqui.

O quarto interior pareceu pequeno, ou talvez fosse apenas porque gente de mais se tinha 
apinhado l dentro. Um espesso fumo evolava-se de ervas que ardiam numa braseira no 
centro da sala; o seu cheiro fez a cabea de Eilan andar  volta. Entre o fumo e a 
multido, por um momento, sentiu dificuldade em respirar.

Depois de um momento a sua vista habituou-se e ela viu o pai, a cara descarnada pela 
dor da Lua anterior, at parecer quase to velho como Ardanos.

O seu av, que estava a pr alguma coisa no fogo, olhou para cima, para as mulheres, e 
disse:

- Ento j estamos todos aqui. E, uma vez mais, sinto-me confundido; qual de vocs  
qual?

Eilan manteve-se em silncio, esperando que algum mais velho respondesse, mas 
Dieda disse atrevidamente:

-  fcil de dizer, Pai. A Eilan ainda no recebeu o vestido duma sacerdotisa.

- Ento  desse modo que esperam que eu distinga a minha filha da minha neta! Bem, 
talvez seja apenas do fumo que h aqui. Mas continuo a ach-las parecidas de mais para 
meu conforto disse o druida mais velho vivamente. - Ento, Eilan, chegaste aqui numa 
triste altura; temos que chamar Cynric para os nossos Conselhos e como ele foi criado 
contigo, como teu irmo de leite, a tua ajuda ser til. Ests pronta, Caillean?

A CASA DA FLORESTA

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Caillean disse calmamente:
- Se Lhiannon o quiser.

- Quero - respondeu Lhiannon. - O que quer que saia disto, Cynrie deve ter 
conhecimento da morte da sua me adoptiva e destes novos ultrajes. Os Romanos no 
so os nossos nicos inimigos...

Dieda disse suavemente, entredentes:

- Gostaria de dizer isso a Mairi neste momento, Pai?

- Paz, criana - disse Ardanos. - Apesar do que possas pensar, Macellius Severus  um 
bom homem; ficou to zangado quando lhe contei como se tivesse sido a sua propria 
casa a ser incendiada.

- Duvido - murmurou Dieda, mas suficientemente baixo para que s Caillean e Eilan a 
tivessem ouvido.

O velho druida franziu as sobrancelhas na sua direco; depois, disse:

- Caillean, minha filha...

Caillean, com um olhar de relance para Lhiannon, dirigiu-se a um guarda-loua e tirou 
uma pequena bacia de prata, sem qualquer ornamento excepto um elaborado trabalho de 
relevo no seu exterior. Encheu-a de gua tirada dum jarro e colocou-a sobre a mesa. 
Ardanos puxou um banco com trs pernas para que ela se pudesse sentar em frente  
bacia, enquanto Lhiannon se sentou numa cadeira esculpida, ali perto.

Ardanos afastou Caillean com um gesto de mo.

- Espera - disse ela. - Dieda, eras tu a mais chegada a ele; s tu que deves olhar para a 
gua e cham-lo.

Dieda corou e, por um momento, Eilan pensou se ela recusaria directamente. Dieda 
tinha tido sempre mais coragem do que ela - ou o av tinha-as confundido outra vez? 
Ele estava a olhar para ela; depois virou-se para o lado e os seus olhos procuraram 
Dieda.

- Foste prometida - disse ele. - Peo-te, criana... - e a sua voz foi a mais terna que Eilan 
jamais lhe tinha ouvido. - Peo-to por causa da tua irm; ela foi a sua me adoptiva 
antes de teres nascido.

Eilan pensou: Ele brinca com todos ns como se fssemos as suas harpas. Mas Dieda 
tambm no conseguiu ignorar a ternura na sua voz.

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MARION ZIMMER BRADLEY

- Como quiserdes, pai - e tomou o seu lugar em frente da bacia.

Ardanos comeou:

- De modo que, estamos aqui reunidos neste local, que j foi protegido e purificado, 
para chamar Cynric, o filho adoptivo de Bendeigid. Todos vs, que sois, de tudo o que 
vive, o que ele tem de mais parecido com parentes, devem manter a sua imagem na 
memria e juntar o chamamento dos vossos coraes ao meu. - Bateu no cho com o 
seu bordo e Eilan ouviu o doce tilintar de campainhas de prata.

- Cynric, Cynric, chamamos-te! - a sua forte, treinada voz de bardo ressoou subitamente 
e Eilan pestanejou pois, subitamente, o quarto pareceu ficar mais escuro e Ardanos, todo 
o seu corpo, no apenas o seu hbito branco, pareceu brilhar. Forte filho, amado rapaz, a 
tua famlia chama-te... Guerreiro, filho-Raven, chamamos-te pelos poderes da terra, do 
carvalho e do fogo!

 medida que os ecos do seu chamamento se iam desvanecendo, a respirao de Dieda, 
tornando-se cada vez mais spera quando inspirava grandes golfadas de perfumado 
fumo, era o nico som no quarto. Eilan abafou uma tossidela. At a pequena quantidade 
de fumo que tinha inalado a fazia sentir-se tonta; podia imaginar o que estava a fazer a 
Dieda, que olhava fixamente para a gua, imvel.

S agora Eilan reparou no comprido cabelo de Dieda, cado de lado de tal modo que 
escondia a bacia. Donde estava, Eilan conseguia ver a superfcie da gua. A pele 
arrepiou-se-lhe um pouco quando Dieda oscilou, ou seria ela prpria? Talvez fosse o 
mundo que se estava a mover; pestanejou, quando as sombras  sua volta se toldaram e 
fluram, at a nica coisa que conseguia focar ser a superfcie da bacia.

Enquanto olhava, esta enevoou-se lentamente e, depois de um momento, houve um 
redemoinho cinzento que primeiro escureceu e depois clareou. Eilan arquejou; um rosto, 
um rosto muito conhecido - a face do seu irmo adoptivo Cynric - espreitava na gua.

Dieda abafou um grito; depois disse suave mas claramente, como se estivesse a falar 
com algum muito distante:

- Cynric, tens que vir. Desta vez no foi um ultraje dos Romanos mas o povo do Norte 
que incendiou a tua casa e matou

A CASA DA FLORESTA

163

a tua me e a tua irm. Volta para a terra dos Ordovici. O teu pai adoptivo est vivo e 
precisa de ti.

Depois de um certo tempo a face desapareceu, a gua redemoinhou escuramente na 
bacia e Dieda levantou-se, agarrando-se, um pouco entontecida,  borda da mesa.

- Ele vir - disse ela. - O guardio da escola de sacerdotisas de l dar-lhe- mantimentos. 
Com boas estradas e bom tempo deve estar aqui dentro de poucos dias.

Bendeigid disse:

- Mas e sobre os brbaros que nos queimaram a casa? Se no  estiveres muito cansada, 
criana, deves localiz-los e saber onde temos que ir para os castigar...

- No o farei - disse Dieda. O cabelo ainda estava solto sobre a cara. - Podeis-me fazer 
vergar  vossa vontade sempre que o queirais. Mas deixai ser Caillean a faz-lo;  
vontade dela que trabalhemos conjuntamente com os romanos nisto, no minha. Acharei 
difcil perdo-lo.

- Minha filha...

Oh, eu sei a necessidade; mas usar-me para atrair Cynric aqui, como o pudsteis fazer?

Caillean. agarrou na bacia e deitou fora a gua pela porta, deixando entrar uma benvinda 
rajada de ar fresco. No entanto, apesar do calor da noite de Vero, depois duns instantes 
Eilan comeou a sentir frio. Caillean voltou a encher a bacia e inclinou-se sobre ela, 
sem se mover.

Desta vez pareceu que a imagem levou mais tempo a formar-se e que as rodopiantes 
nuvens na gua duraram mais. A concentrada face de Caillean ficou mais plida, plida 
como a morte; depois falou, apesar de tudo suavemente, e com um cansao mortal na 
voz:

- Vejam, se quiserem.

Eilan nunca soube o que os outros viram, mas quando a superfcie da gua clareou, 
formou-se perante os seus olhos um pequeno quadro: os assaltantes, tal como estavam 
quando entraram em casa de Mairi, imobilizados, gelados no degrau da porta; homens 
vestidos em tecidos esfarrapados e multicolores. Alguns levavam espadas, que ela no 
tinha visto na altura, e outros lanas. A imagem era to ntida que ela podia ver as gotas 
de chuva a brilhar nas suas desalinhadas barbas louras ou avermelhadas,

164

MARION ZIMMER BRADLEY

ou nos compridos cabelos gotejantes. Os homens apinhavam-se  volta da bacia, 
bloqueando a imagem que Eilan via ainda na memria e que sabia seria capaz de evocar 
 vontade at ao dia em que morresse.

Na sua imagem viu Caillean saltar para a frente, agarrando numa mo-cheia de ties 
em chama e atirando-os na direco dos estranhos homens. Supunha que o av e o pai 
deviam ter visto algo como isto, pois a face do pai estava fechada e contrada.

- Red Rian - disse ele entredentes. - Maldita seja a sua espada e a sua sombra! E eles 
ainda esto na costa...

- Ento assim seja, e junto a minha maldio  tua pois que isso  merecedor - disse 
Lhiannon, mexendo-se na sua cadeira.
- Declaro-vos que o teu povo e os Romanos se uniro para os castigar.

Bendeigid comeou a falar mas Lhiannon silenciou-o com um gesto.

- Basta; j o disse; agora parti; que seja como Caillean o viu e eu o declarei. Podereis 
apanhar o Red Rian na costa.

- Senhora, como o podeis saber?

- Haveis esquecido que eu e os meus podemos governar os ventos quando queremos? - 
disse Lhiannon. - Ele no encontrar uma brisa para o levar, por isso vs o encontrareis. 
Isto satisfaz-vos?

- Por causa da vingana contra esses demnios... se assim tiver que ser - declarou 
Bendeigid. - Mas juro que me aliarei mesmo com os Romanos se eles me ajudarem na 
vingana, se bem que a contragosto... e precisaremos da ajuda deles para mandar estes 
assaltantes e assassinos para fora das nossas costas para sempre!

Dieda inspirou profundamente.

- Esperaro pela chegada de          Cynric?

- Isso depende em parte do          que Macellitis disser - disse Bendeigid de m vontade 
passados uns momentos, o olhar de Lhiannon caiu em Eilan.

- Mas olhai, a nossa novia mais nova est quase morta de frio - disse ela. - Onde est o 
teu capote, criana?

- Deixei-o no outro salo com as sacerdotisas - murmurou Eilan, tentando, em vo, 
controlar os tremores.

A CASA DA FLORESTA

165

ens que ir rapidamente para a cama. Mas as ervas agora j se queimaram... anda para ao 
p da braseira e aquece-te, criana. Dentro em pouco Caillean j tratar de te levar at 
ao dormitrio das novias e de te dar roupas de dormir e o vestido duma sacerdotisa.             
- - Bem dito - acrescentou Ardanos - e  tempo de ns partirmos tambm.

Lhiannon conduziu Eilan at ao fogo e, gradualmente, os tremores da rapariga 
desapareceram. Mas ainda tremia por dentro. Caillean ps um brao  sua volta.

- Vai passar, criana, eu sei... Pode ser muito frio, entre os nitindos; senti-te a 
acompanhar-me, se bem que no tivesse sido planificado. Teremos que nos precaver 
contra isso da prxima vez.

Bendeigid embrulhou o capote  sua volta, mas antes de seguir Ardanos parou  frente 
de Eilan.

- No sei quando nos veremos outra vez. Mas deixo-te em  segurana e isso  um 
conforto para mim. Possa a Deusa abenoar-te aqui. - Ele abraou-a.

- Rezarei a Ela pela tua segurana, Pai - disse ela suavemente, a garganta a apertar-se.

Bendeigid estendeu a mo e tocou nos caracis que se tinham escapado  faixa enrolada 
na sua testa.

- O cabelo da tua me crescia exactamente desta maneira murmurou. rapidamente, 
depois, beijou-a na testa. Ela estava a tentar reter as lgrimas quando a porta se fechou 
atrs dele.

Bem, j est feito e j  verdadeiram ente tarde - disse Caillean com um trao de alvio. - 
Eilan, h algo que me queiras perguntar? - Ela chegou-se e apertou a rapariga num 
caloroso abrao.- se perguntar? Se j ests aquecida, anda da e instalar-te-ei no 
dormitrio das novias.

Desta vez com Caillean a seu lado, Eilan atravessou o ventoso  ptio que separa os 
alojamentos de Lhiannon do salo onde primeiro lhe tinham sido dadas as boas-vindas 
entre as sacerdotisas. Anos mais tarde, quando j conhecia os cantos daquele local to 
bem como os da casa em que tinha nascido, lembrava-se da sua primeira viso da Casa 
da Floresta e espantava-se como lhe  tinha parecido to imensa.
166

MARION ZIMMER BRADLEY

Eilidh e algumas das outras mulheres ainda estavam reunidas no salo em que Eilan 
tinha entrado primeiro. Olharam todas para Eilan com curiosidade, mas um gesto de 
Caillean manteve-as quietas.

- No podemos ainda pedir que tomes os teus votos
- disse Caillean a Eilan -, mas para o teu primeiro ano entre ns tens que fazer algumas 
promessas - ela deixou-se ficar em p e a sua face mudou. Eilan observou-a 
atentamente, pensando no que viria a agora.

- Primeiro que tudo... vieste at ns de tua livre vontade? No foste forada ou 
ameaada para conseguires a tua admisso aqui?

Eilan olhou para ela espantada,
- Sabeis que no fui.

- Chiu...  rotina. Tens que responder com as tuas prprias palavras.

- Muito bem - disse Eilan. - Vim para c de minha prpria vontade - isto parecia-lhe 
muito disparatado. Pensava se teriam perguntado o mesmo a Dieda e o que  que a outra 
rapariga teria respondido.

- Prometes que tratars todas as mulheres nesta habitao como tuas irms, mes e 
filhas, como tuas prprias parentes?
- Prometo. - Agora no tinha nenhuma me viva e,

se tomasse votos permanentes, no teria tambm nenhuma filha.
- Prometes que obedecers a qualquer ordem legtima que te for dada por qualquer 
sacerdotisa mais velha, e que no te deitars com nenhum homem... - Caillean parou e 
fez uma careta, emendando - Exceptuando, apenas, o poderes deitar-te com o Rei do 
Ano, se a sua escolha recair sobre ti.

Eilan sorriu.

- Obedecerei, e no  nada difcil prometer no me entregar a qualquer homem. Visto o 
nico homem que podia ter amado me estar proibido.

Caillean acenou com a cabea.

- Ento assim seja - disse. - Em nome da Deusa, que, embora tenha muitos nomes  
apenas uma, aceito-te.

Abraou Eilan, e, uma por uma, as outras sacerdotisas fizeram o mesmo. Quando 
tinham acabado Eilan viu que estava a chorar, como se de algum estranho modo tivesse 
recuperado os familiares que tinha perdido.

A CASA DA FLORESTA

167

A sacerdotisa mais velha colocou-lhe o capote sobre os ombros e conduziu-a atravs de 
uma passagem com um tecto de colmo at uma casa redonda com cerca de doze camas - 
no caixotes cama iguais ao que estava acostumada, mas estreitos catres - colocados  
volta da parede. Algumas j estavam ocupadas. Uma ou duas raparigas sentaram-se, 
pestanejando ensonadas, quando Caillean afastou a cortina da cama mais prxima da 
porta e depois recuou outra vez.

- j te foi feita a cama aqui - murmurou Caillean. Vestiu Eilan numa grosseira muda de 
roupa branca que parecia um pouco grande de mais. - Vir algum acordar-te para os 
servios do nascer do Sol no bosque. No esperes ver-me... estarei a assistir Lhiannon 
na preparao das cerimnias da lua cheia. Aqui est o vestido que deves usar amanh. - 
Tirou duma arca prxima um monte de roupa.

Eilan meteu-se na estreita cama e Caillean ajeitou-lhe o espesso cobertor. Depois 
baixou-se para a abraar e Eilan sentou-se para corresponder.

- O que quer que possas pensar, lembra-te que s benvinda entre ns - disse Caillean. - 
Mesmo para Dieda; ela agora est muito infeliz, mas vir um dia em que tambm ficar 
contente por que estejas aqui.

Beijou Eilan na fronte.

- Amanh uma das raparigas ajudar-te- a vestires os hbitos duma sacerdotisa; muito 
provavelmente Eilidh. E durante um ou dois dias ir para todo o lado contigo e mostrar-
te- o que fazer.

Eilan deitou-se. Os lenis eram speros de encontro  sua pele e cheiravam a ervas 
perfumadas. Perguntou, querendo prolongar o momento:

Que perfume  este nos lenis?

Lavanda; colocamo-lo entre a nossa roupa quando a lavamos.

Eilan disse para si prpria que no se devia surpreender. As sacerdotisas eram mulheres, 
se bem que no exactamente como as outras que ela tinha conhecido; evidentemente 
davam tanta importncia ao colher de ervas e ao lavar da roupa como qualquer outra. 
Tambm ela aprenderia todas estas coisas.

168

MARION ZIMMER BRADLEY

Caillean disse suavemente:

- Agora dorme, e no te preocupes.  bom que tenhas vindo para aqui. Penso que tens 
um destino muito especial entre ns. Nenhuma delas podia ter imaginado como essa 
profecia viria a ser consumada.

DEZ

- Por que  que ns ocultamos  gente comum os nomes das ervas que so mais 
poderosas para curar? - A velha Latis, a mais antiga de todas as herboristas, virou-se 
para as raparigas que estavam sentadas perto do velho carvalho, segurando num 
pednculo de dedaleira na mo.

- Para que tenham de vir at ns e respeitem as sacerdotisas? - perguntou uma das 
raparigas mais novas.

- O seu respeito tem de ser ganho, filha - disse severamente Latis. - Pode ser que sejam 
ignorantes, mas no so estpidos. A razo do segredo jaz mais fundo: o que  mais 
poderoso para o bem  tambm poderoso para o mal se manuseado de maneira errada. A 
dedaleira pode estimular um corao fraco, mas d-lhe de mais e ele galopar como um 
cavalo assustado at rebentar. Para o curador, a capacidade de julgamento  tudo.

Eilan franziu o sobrolho, j que nunca tinha pensado nisso daquela maneira. Mais tarde, 
olhando para trs, para os seus anos na Casa da Floresta, pensou no que tinha esperado 
vir a encontrar ali. Paz, talvez, ou mistrio, e at um pouco de aborrecimento. No tinha 
esperado que dias passados a estudar com um grupo de outras mulheres pudessem 
simplesmente ser to interessantes.

As suas noites eram mais duras, porque nos primeiros tempos sonhou muitas vezes com 
Gaius. Por vezes via-o a viajar com os seus homens e a treinar com a espada. s vezes 
ele gritava quando a espada atingia o poste de madeira em forma de homem - esta  por 
Senara, e esta por Rheis! Esta por Eilan! Quando acabava, a sua testa estava molhada 
com o suor, mas a humidade nas suas faces eram lgrimas.

Eilan acordava, ento, a chorar devido  sua dor. Percebia agora como o sofrimento dos 
vivos podia atormentar os mortos.

170

MARION ZIMMER BRADLEY

Pensou em mandar-lhe uma mensagem para o avisar que ainda estava viva, mas no 
havia maneira de o fazer e, presentemente, comeava a aperceber-se de que, para ele, 
ela estava realmente morta e que quanto mais cedo ele o aceitasse melhor seria para 
ambos.

Nesses meses iniciais ela era apenas uma de um grupo de potenciais sacerdotisas. 
Passou muito do seu tempo a comear a memorizar a totalidade do corpo da tradio 
drudica. Tal como os deuses no podiam ser adorados num templo construdo por mos 
humanas, tambm nenhuma das tradies divinas podia ser confiada  escrita. Por vezes 
pensou que isto era estranho, visto a memria humana ser ela prpria to frgil. Mas 
tinha visto os seus professores executarem espantosos feitos de memorizao. Muito do 
antigo conhecimento tinha sido perdido quando Mona foi destruda, mas muito ainda 
restava. Ardanos, por exemplo, podia recitar toda a Lei de memria.

Ela estava bastante satisfeita com as suas companheiras sacerdotisas. As que conhecia 
melhor eram as duas que lhe tinham dado as boas-vindas  Casa das Donzelas naquela 
primeira noite: Eilidh e Miellyn.

Eilidh era mais velha do que parecia e estava na Casa da Floresta desde a sua tenra 
infncia. Miellyn estava mais prxima da sua prpria idade. Alm destas duas, quem ela 
conhecia melhor era uma mulher chamada Celimon, que tinha cerca de quarenta anos, e 
cuja principal tarefa era a de instruir as sacerdotisas mais jovens e oficiar nalguns dos 
rituais menos importantes,

A sua primeira tarefa foi memorizar todos os detalhes desses rituais aos quais as 
donzelas assistiam, j que se fizessem algum erro a cerimnia tinha de ser recomeada 
de novo. Eilan tinha causado interrupes dessas por duas ou trs vezes. Sentiu-se um 
bocado pateta, mas Miellyn assegurou-lhe que todas tinham passado por aquilo.

Eilan tambm foi ensinada sobre os movimentos da Lua e das estrelas. Passou muitas 
horas da noite deitada entre MicIlyn e Eilidh, num local isolado do recinto, a olhar para 
a grande carreta girando interminavelmente em volta da Estrela Polar e a solene marcha 
dos planetas enquanto se erguiam e desapareciam, e as estrelas do Norte reluziam e 
circulavam no cu de Vero. Aprendeu que a Terra girava  volta do Sol - de todas as 
maravilhas

A CASA DA FLORESTA

171

a mais difcil de acreditar. De todos os seus anos iniciais na Casa da Floresta foram 
estas noites que mais lhe prenderam a imaginao; deitada bem agasalhada na relva 
hmida, com a voz de Caillean a flutuar por cima delas na escurido, entoando longas 
histrias sobre as estrelas.

Desejou, por vezes, aprender a acompanhar o canto, mas numa das poucas ocasies em 
que foi autorizada a passar algum tempo com Caillean foi-lhe dito que as mulheres no 
tocavam a harpa nas cerimnias.

- Mas porqu? Agora as mulheres tambm podem ser bardos, no podem, como Dieda? 
E vs tocais uma harpa, no tocais? Estava calor, e no bosque fora dos muros, um dos 
mais jovens

sacerdotes do colgio drudico, do outro lado dos campos, estava a praticar. No era 
muito bom no que fazia, mas era muito difcil tocar uma harpa to mal que ouvi-la se 
tornasse doloroso. Se bem que a melodia estivesse um pouco hesitante, cada nota era 
pura e clara.

- O meu instrumento  a lira, o primeiro presente que Lhiannon me deu, e tenho-a 
tocado h anos, de modo que ningum se atreve a objectar. E um talento como o de 
Dieda no pode ser negado. - Os escuros olhos de Caillean brilharam.

- No faz sentido. Por que  que eu no posso aprender? - perguntou Eilan. Por muito 
mal que pudesse tocar, podia com certeza fazer melhor que aquele homem l fora, que 
parecia no ter notado que,  medida que o dia se ia tornando mais quente, as suas 
cordas superiores estavam a ficar fora de tom.

- Claro que no faz sentido - replicou Caillean. - Uma grande parte do que os sacerdotes 
fazem no faz sentido; e eles sabem-no. Essa  uma razo pela qual eu no sucederei a 
Lhiannon. Ardanos est consciente de que eu tambm o sei.

- Quereis ser Gr Sacerdotisa? - perguntou Eilan, arregalando os olhos.

- O cu o proba - disse Caillean fervorosamente. - Passaria todos os dias da minha vida 
a ir de cabea contra a vontade dos sacerdotes; que  como uma parede de pedra. A 
liderana  outra das coisas que os homens querem guardar para si prprios. Penso que 
tem piorado desde que eles encontraram os Romanos. Querem conservar as armas, e as 
harpas, e tudo o resto, salvo o sofrimento de dar  luz e a labuta da cozinha e do tear. 
Ouso dizer


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MARION ZIMMER BRADLEY

que eles gostariam de afirmar que as mulheres no podem servir os deuses, mas   
ningum seria to idiota que o acreditasse. Mas por que  que tu queres aprender a 
tocar harpa?

Eilan disse:

- Porque amo a msica, e no sei cantar.
- j ouvi a tua voz e ela  fina, mas doce.

- O meu av diz que, comparada com Dieda, eu grasno como uma r - disse Eilan 
amargamente. - Em nossa casa era sempre ela que cantava.

- Penso que ele est enganado; mas desta vez no discutirei, pois at eu tenho que 
admitir que ele  um dos nossos maiores bardos. Dieda tem uma voz muito bonita, 
talvez herdada dele. Ao p duma voz como a da tua parenta todas somos como rs 
a coaxar, criana, pelo que no sofras. Podes aprender as histrias dos deuses, 
mesmo que no as possas cantar to bem como ela; de qualquer modo, penso que 
no ters nenhum problema em tornar-te uma cantora de feitios. Nem todos 
podemos ter as melhores vozes, mesmo entre os bardos.

E, na realidade, Eilan foi ensinada a cantar muitas das palavras mgicas que tinha 
de memorizar e algumas das mais simples Palavras do Poder foram-lhe confiadas, 
mesmo durante esse primeiro ano.

Um dia, quando estava a aprender feitios com Caillean, a mulher mais velha 
perguntou:

- Lembras-te daquela noite depois de o filho de Mairi ter nascido, quando eu 
assustei os assaltantes atirando-lhes fogo para cima?

- Nunca a esquecerei - disse Eilan.

- Lembras-te de que te disse que poderias aprender a faz-lo se tivesses a instruo 
apropriada?

Eilan acenou com a cabea, o corao a comear a bater, no sabia se de excitao 
se de medo.

- Bem, vou-te ensinar agora. A coisa mais importante a lembrar  que o fogo no te 
pode fazer mal; viste-me manuse-lo e, assim sendo, sabes dentro de ti prpria que 
pode ser feito. - Ela agarrou nos esguios, brancos dedos da rapariga com os seus, 
frios, e soprou na palma da mo de Eilan.

- Agora - disse -, o importante  confiares em ti prpria. Estende a mo 
rapidamente para o fogo e agarra uma mo-cheia

A CASA DA FLORESTA

173

de ties; o fogo s te pode fazer mal se tu acreditas que est na natureza do fogo 
queimar; uma vez que conheas a sua verdadeira natureza espiritual, podes 
manuse-lo como farias com uma mo-cheia de folhas secas. O fogo arde dentro de 
ti tal como arde na lareira. Como pode uma chama fazer mal a outra? Deixa a 
centelha de vida dentro      de ti dar as boas-vindas ao fogo!

Eilan hesitou, mas era verdade que     tinha visto Caillean fazer este truque; e confiava 
completamente na mulher mais velha. Estendeu a mo na direco da braseira      com 
os ties em brasa; o calor tocou-lhe na face, mas Caillean     disse firmemente:

- No hesites... f-lo rapidamente!    - E Eilan enfiou a mo no meio das chamas.

Nas suas faces podia ainda sentir calor mas, para seu espanto, os ties assemelhavam-
se a uma mo-cheia de neve de Inverno. Caillean, ao ver a sua face pensativa, disse:

- Larga-as; rpido, agora! - Eilan abriu os dedos ao sentir uma sbita onda    de calor e 
os ties rolaram para a lareira. Ela olhou para as mos, maravilhada.

- Fiz realmente aquilo?

- Fizeste - disse Caillean. O tio tinha atingido um pano que estava na lareira e que 
comeou a arder lentamente. Um forte cheiro a tecido queimado subiu subitamente das 
suas chamuscadas bordas quando Caillean o apanhou e o apagou.

Eilan olhou para ela espantada.

- Como sabeis que s mais um instante e me ia queimar? Caillean disse:

- Pude sentir tu a comeares a pensar e a divagar... e a duvidar. A dvida  a inimiga da 
magia. Somos ensinadas a fazer coisas destas para espantar o povo comum com 
maravilhas e prodgios, ou para nos proteger no perigo. Mas tens que aprender - avisou - 
que no  correcto fazer milagres meramente para espantar os nascidos. Mesmo para te 
preservar do perigo, tens de ser prudente a fazer o que pode parecer milagres. Pode ser 
que no tenha sido de todo sensato us-lo naquela noite em casa de Mairi; mas o que 
est feito est feito. Agora que sabes que  possvel, aprenders quando  correcto usar 
tais coisas e quando no .

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MARION ZIMMER BRADLEY

Como o passar do ano era marcado pelos festivais, as raparigas aprenderam, no apenas 
a tradio dos deuses que cada festival comemorava, mas tambm o significado por 
detrs das histrias, muitas das quais, se bem que simbolicamente verdadeiras, no o 
eram de facto. Discutiram sobre a virgindade da deusa Arianrhod e sobre o destino do 
brilhante filho que ela to relutantemente deu  luz; analisaram as transformaes de 
Gwion, que provou a bebida no caldeiro da sabedoria. Aprenderam a tradio secreta 
do Rei Sagrado e da Senhora da Soberania. E, nos mais escuros dias do Inverno, 
contemplaram os mistrios das sombrias deusas, cujas sangrentas faces e mirradas 
carnes eram a encarnao dos medos dos homens.

- Mas por que  que os homens temem as mulheres velhas? - perguntou Eilidh. - Eles 
no sentem do mesmo modo quanto a homens velhos!

- O homem velho torna-se num sbio, algo a que um homem pode aspirar - disse-lhes 
Caillean. - Eles temem a feiticeira porque ela est para l do poder deles. Com o 
aparecimento das regras uma rapariga torna-se numa mulher. Ela precisa de um homem 
para se tornar me, e uma me precisa de um homem para proteger os seus filhos. Mas a 
mulher velha conhece todos os segredos do nascimento e da morte; ela renasceu e no 
precisa de nada. Sendo assim, claro que o homem, que passa apenas pela primeira 
mudana que o leva para a idade adulta, tem medo.

O nome de Lhiannon era sagrado, mesmo quando as raparigas mais novas faziam risota 
sobre as mais velhas, pela noite dentro na Casa das Donzelas, mas Eilan no conseguia 
deixar de pensar se a Gr Sacerdotisa teria passado pelo renascimento de que Caillean 
tinha falado. Velha como era, ningum conseguia imaginar que alguma dor ou paixo 
lhe tivesse jamais tocado. Ela no tinha feito amor com qualquer homem, no tinha 
dado  luz nenhum filho; flutuava pela Casa da Floresta numa nuvem de aroma a 
lavanda e roupagens a arrastar-se, o seu doce sorriso, vago e distante, como se se 
movesse no meio da sua realidade privada.

E no entanto Caillean amava-a. Eilan no se podia esquecer que a sacerdotisa mais 
velha, com quem nessa noite do nascimento da criana de Mairi tinha sentido uma 
ligao to profunda, via na Gr Sacerdotisa alguma coisa que ela prpria no tinha 
visto; mas ela tom-lo-la como certo que estava l.

A CASA DA FLORESTA

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Quando comearam a ensinar as raparigas as disciplinas que  lhes dariam acesso aos 
planos interiores, Eilan aplicou-se com diligncia. Tais coisas - sonhos e intuies - 
tinham-lhe sempre chegado com facilidade e sem aviso. Agora, aprendeu a chamar as 
vises  sua vontade e, quando necessrio, a bloque-las.

Aprendeu a tarefa de ver vises numa bacia de gua e o uso de feitios para a viso  
distncia. Uma das primeiras coisas que viu atravs do seu escrutnio foi a batalha com 
os assaltantes que tinham destruido a sua casa.

- A Senhora de Vernemeton seja abenoada se foi ela que enviou este vento! - disse 
Cynric, cheirando a bruma que passava por ele, pesada com o cheiro do mar.

- Ela  to boa como a sua palavra - respondeu Bendeigid atrs dele. - Desde o terceiro 
dia depois de eles terem incendiado a minha casa que tem soprado este vento. Quando 
os diversos bandos dispersos voltaram para trs, para encher as suas pelotas com os 
despojos, encontraram o vento parado contra eles. - Ele sorriu melancolicamente. - 
Encurral-los-emos entre a costa e o mar!

Ouviu-se ao perto uma cortante ordem e o rudo ritmado de sandlias ferradas deteve-se. 
Cynric fez uma careta, contente por o vento no ter levado o rudo at ao inimigo. Seria 
o mesmo avanar com trombetas a tocar do que deixar os assaltantes ouvir esse 
agourento rudo de passos. Os Bretes no eram nem de perto to ordenados, mas eram 
bastante mais silenciosos.

Ainda se sentia constrangido cada vez que via uma pluma dum capacete romano no 
meio da bruma. Nunca tinha esperado lutar lado a lado com o seu inimigo, Mas se por 
causa dum bem maior at Bendeigid podia suspender o seu dio, ele supunha que podia 
fazer o mesmo.

Nessa altura Bendeigid colocou-lhe uma mo na manga e Cynric parou, perscrutando 
atravs da franja de raquticos amiciros entre eles e a praia. Podia cheirar o fumo de 
madeira e o repelente odor da fossa da latrina - no muito bem cuidada. Era verdade, 
podia-se seguir o rasto da vermina pelo cheiro. Baixou o escudo que levava ao ombro e 
segurou melhor a sua lana.

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MARION ZIMMER BRADLEY

O corao de Cynric estava a bater estranhamente e tinha a boca seca. Tu ansiavas por 
uma verdadeira batalha, como podes estar com medo?, perguntou a si prprio. Ter-te-
las escondido atrs das saias de Rheis se l tivesses estado quando eles atacaram a 
casa? Com este pensamento, o pnico transformou-se em fria.

Nesse momento as trombetas romanas troaram. Bendeigid deu uma ordem com um 
rugido gutural e Cynric viu a sua prpria garganta a abrir-se. Gritando, os bretes 
correram em frente. Cynric abriu caminho atravs das rvores, a lana preparada, e 
ouviu a carga dos romanos marcando o compasso em acompanhamento aos gritos dos 
britnicos.

Enquanto os romanos empurravam o inimigo os bretes caram-lhes na retaguarda. Um 
guerreiro virou-se, a sua forma distorcida pela bruma at se transformar na de um 
monstro. Ele era um monstro! O treino de Cynric dominou-o e golpeou com a lana; 
sentiu o choque e ouviu o grito quando a lmina o penetrou. Mas no teve tempo para 
reagir, j que outro avanava para ele. Uma espadeirada ressoou no seu escudo. A sua 
viso lateral mostrou-lhe os soldados romanos, a cortar pelo meio do inimigo com uma 
eficincia mecnica. Cynric libertou a lana e rodou, vendo o inimigo em cada face 
contorcida.

Cyriric no podia dizer se se tinha passado metade de um dia, ou metade de uma vida, 
quando percebeu que j ningum o estava a atacar. A toda a sua volta jaziam corpos e 
Bendeigid estava, meto~ dicamente, a dar o golpe de misericrdia a quem quer que 
ainda estivesse vivo. Estava coberto de sangue, se bem que nenhum dele parecesse ser 
seu. Tinha cado uma vez e pensado que estava acabado, mas um legionrio tinha-se 
colocado em p por cima dele, cobrindo-o com o seu grande escudo oblongo at que ele 
se pudesse levantar.

Percebeu que se podia odiar algum e apesar disso admir-lo. Nunca gostaria dos 
Romanos, mas podia agora ver que talvez houvesse alguma coisa a aprender com eles. 
Nesta altura, at o seu sangue romano no lhe parecia uma coisa to m. Ouviu um 
crepitar de fogo e viu que Ardanos estava a comandar a operao de pegar fogo s 
embarcaes do inimigo, o fumo tresandava a carne queimada, mas os barcos redondos, 
cobertos a couro, ardiam alegremente. Cynric virou as costas, pensando se iria ficar 
enjoado.

A CASA DA FLORESTA

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Um barco tinha sido poupado e um dos assaltantes mantido vivo, se bem que o tivessem 
cegado, para o tripular.

Ardanos levantou as mos para o cu, gritando algo na antiga fala, que era usada 
apenas pelos druidas. Por um momento a brisa morreu, depois voltou e comeou a 
soprar na direco do mar. Ardanos ps a mo na borda superior da pelota, segurando-a.

- Chamei os ventos para te apressar - disse ao homem que estava l dentro. - Se os 
Deuses te amarem, chegars de novo a Eriu. Que sejas o nosso mensageiro e leva-lhes 
esta mensagem - disse Ardanos ferozmente -, que se vierem at estas praias outra vez, o 
mesmo ser feito a cada um de vs.

A viso desapareceu e Eilan deixou-se cair para trs, a tremer. Nunca tinha visto uma 
luta a srio e o que viu encheu-a de horror, mas, apesar disso, sentiu-se ferozmente 
contente  medida que os assaltantes iam morrendo. Um daqueles homens tinha 
certamente morto a sua me e, provavelmente, a sua irm mais nova, e pegado fogo  
casa em que tinha nascido.

Ela perscrutou a gua,  procura do rosto de Gaius, mas no captou nenhum sinal dele. 
Teria ele cado nalguma escaramua anterior com o inimigo, julgando-a morta nas 
runas de sua casa? Bem, era melhor que a julgasse morta que infiel, disse para si 
prpria, mas estava surpreendida com o quanto, ainda agora, o pensamento de que ele 
fosse um dos que podia ter morrido lhe provocava sofrimento. Na noite em que se 
tinham sentado em frente s fogueiras de Beltane tinham parecido um s ser. Decerto 
que se ele fosse morto ela no poderia deixar de o saber.

Mas, hoje em dia, o sereno ritmo da sua vida na Casa da Floresta afastou at mesmo a 
dor da memria de Gaius e do que poderia ter acontecido.

Com as outras, revezou-se a colher as plantas e ervas sagradas, aprendendo quais as que 
deviam ser colhidas numa luz especial do Sol ou da Lua.

- Esta tradio  mais antiga que os druidas - confiou-lhe Miellyn, uma vez em que as 
tinham emparelhado. Miellyn, se bem que tivesse vindo para a Casa da Floresta h 
muito tempo, no

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MARION ZIMMER BRADLEY

era muito mais velha que Eilan e as duas, sendo as mais novas na Casa, eram muitas 
vezes emparelhadas no seu trabalho, Miellyn tinha escolhido ser uma sacerdotisa das 
artes curativas e j tinha tido um treino extensivo. - Uma parte dela vem desde os 
tempos antigos, antes mesmo do nosso povo ter vindo para esta terra.

Tinha sido uma Primavera hmida e ao longo das margens dos riachos que 
serpenteavam pelos campos atrs da Casa da Floresta, as artemsias chegavam  altura 
da cintura, o custico e acre aroma das suas folhas era quase atordoante, quando ela as 
separava dos seus talos. As sacerdotisas usavam-nas para induzir vises, e numa infuso 
para aliviar os msculos doridos-

- Caillean contou-me algo sobre isso - respondeu Eilan,
- Havia um tempo, diz ela, em que no havia nenhuns sacerdotes druidas na Bretanha. 
Quando o nosso povo chegou, mataram os sacerdotes das tribos que conquistaram, mas 
no se atreveram a matar as sacerdotisas da Grande Me. As nossas prprias mulheres 
sagradas aprenderam com elas e acrescentaram o conhecimento antigo ao seu prprio.

-  verdade - disse Miellyn, deslocando-se ao longo da margem do rio. - Caillean tem 
estudado estas coisas mais do que eu, e ela  uma sacerdotisa do Orculo. Elas recuam, 
pelo menos, at um tempo bem antes de a Casa da Floresta ser construda e muito antes 
de a Ordem dos Druidas ter vindo para esta ilha da Bretanha. Eles dizem que as suas 
primeiras sacerdotisas vieram para c de uma ilha muito distante no oceano ocidental, 
que agora est afundada por baixo das ondas. Com elas veio o homem sacerdote 
chamado o Merlin, que ensinou a tradio das estrelas e das pedras erectas.

Durante um instante quedaram-se na contemplao de uma quase inimaginvel 
antiguidade. Ento, uma ligeira brisa fez-lhes esvoaar as saias e trouxe-as de volta para 
a beleza do verde mundo que as rodeava.

- Aquilo  matricria ou cereflio? - Eilan apontou para uma massa de brilhante 
folhagem verde rasteira, com pequenas folhas denteadas.

- Cereflio. Vs como os caules so tenros? Acabaram de nascer aqui. A matricria 
perdura durante o Inverno e o seu caule  lenhoso. Mas  verdade, as folhas so muito 
parecidas.

A CASA DA FLORESTA

179

- H tanta coisa para aprender! - exclamou Eilan. - Se o nosso povo no viveu sempre 
aqui, como aprendemos todas estas tradies?

- os homens so por natureza vagabundos - disse Miellyn -, se bem que possas no o 
pensar, com as tuas raizes aqui entre ns. Todos os povos vieram de algum lado e 
tiveram de aprender os costumes da terra com os povos que a estavam antes. A ltima 
das nossas prprias tribos veio para esta ilha apenas  volta de uns cem anos antes dos 
Romanos e praticamente da mesma parte do mundo.

- Pensar-se-la, ento, que os Romanos saberiam mais sobre ns, se ramos vizinhos - 
disse Eilan.

- Sabiam o suficiente sobre os nossos guerreiros para terem medo - sorriu ferozmente 
Miellyn. - Talvez seja por isso que espalharam tantas calnias sobre ns. Diz-me, Eilan, 
alguma vez viste um homem queimado nos nossos altares? Ou to-pouco alguma 
mulher?

- No; nem ningum mandado matar, excepto os criminosos - replicou Eilan. - Como 
podem os Romanos dizer tais coisas sobre ns?

- Por que  que no deveriam? Eles so homens ignorantes - disse desdenhosamente 
Miellyn. - Eles registam todo o seu conhecimento em pedaos de couro ou de madeira 
encerados ou em placas de pedra e pensam que isso  sabedoria. Que bem  que faz um 
bocado de pedra para ter sabedoria? At eu, uma sacerdotisa to nova, sei que  a 
compreenso gravada no corao que torna os homens sbios. Podes aprender as 
peculiaridades das ervas num livro? Nem sequer basta ser      ensinado. Tens de ser tu 
prpria a procurar as plantas, a manuse-las, a am-las, a v-las crescer. S depois  que 
as podes utilizar, pois os seus espritos falaro contigo.

- Talvez as suas mulheres saibam mais - disse Eilan. - Pelo que tenho ouvido, os 
Romanos no ensinam as artes das letras a todas as suas mulheres. Imagino que 
sabedoria as mes transmitem s suas filhas que os homens no sabem.

Miellyn fez uma careta.

- Talvez eles tenham medo de que se as mulheres tambm aprendessem o ofcio dos 
livros no houvesse trabalho suficiente para os escribas e escrives de cartas do 
mercado.

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- Caillean disse algo parecido pouco depois de eu para c ter vindo - disse Eilan, e 
sentiu um arrepio, se bem que o dia estivesse quente, lembrando-se dos ventos gelados 
durante o escrutnio. - Mas no a tenho visto muito desde ento. Penso, por vezes, se a 
terei zangado,

- No deves prestar muita ateno ao que Caillean diz ou no diz - avisou Miellyn.      - 
Ela sofreu muito e ... por vezes... imoderada nas suas opinies. Mas  verdade que os 
Romanos no ligam muito ao que as mulheres possam fazer.

- Ento eles so loucos.

- Eu sei isso. Tu sabes isso - disse Miellyn.           - Mas h alguns romanos que ainda 
no o sabem. Esperamos que o aprendam durante a nossa vida. Os nossos prprios 
sacerdotes podem ser loucos, tambm. Disse-me algum que quiseste aprender a tocar 
harpa. Ouviste a Caillean tocar a sua lira?

Eilan abanou a cabea.

- No muitas vezes. - Subitamente lembrou-se da ocasio em que Caillean lhe tinha 
ensinado a agarrar o fogo e sentiu um arrepio.

Mellyn disse:

- Na realidade no te deves importar muito com os estranhos modos de Caillean; ela  
muito solitria. Por vezes passa dias sem falar com ningum, excepto, talvez, com 
Lhiannon. Sei que Caillean gosta de ti; ouvi-a diz-lo.

Eilan olhou para ela e depois rapidamente para outro lado. Certamente que tinha 
parecido isso naquela noite em casa de Mairi, depois de Caillean ter afugentado os 
assaltantes. Percebeu agora o pouco habitual que tinha sido para a mulher mais velha o 
ter-se aberto daquela maneira. Talvez fosse por isso que ela tinha evitado tanto Eilan 
desde ento.

Miellyn tinha localizado um local em que crescia tomilho selvagem debaixo duma 
rvore, e estava a usar a sua pequena faca curva para cortar os caules, o aroma chegou, 
doce e spero, at s narinas de Eilan quando ela se inclinou para as juntar.

- Fala-lhe da sua harpa - acrescentou ento Miellyn,
- Pensei que tinhas dito que no era uma harpa...

- De facto, Caillean deu-se a uma considervel quantidade de trabalho para explicar a 
diferena... - Miellyn fez uma careta,
- As cordas vo para uma caixa na base em vez de ao lado, mas

A CASA DA FLORESTA

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o som  muito parecido. Ela sabe muitas canes de Eriu. So de facto muito estranhas; 
todas soam, de algum modo, como o mar. Sabe, tambm, todas as antigas canes, se 
bem que, devido ao nosso treino, todas nos lembramos mais que a maioria das pessoas. 
Se eles tivessem querido treinar mulheres para bardos antes de tantos sacerdotes terem 
sido mortos, talvez ela tivesse sido um. - Irresistivelmente, Mieliyn comeou a rir. - Ou 
talvez viesse a ser o Arquidruida, se no for blasfmia diz-lo, depois do teu pai.

- Ardanos  o pai da minha me, no o meu. A filha dele  Dieda - disse-lhe Eilan, 
colhendo o resto do tomilho.

- E o teu irmo adoptivo  um dos do Bando Sagrado? perguntou Mieilyn. - Na verdade 
tu descendes de urna familia sacerdotal. Provavelmente, um dia eles tentaro fazer de ti 
uma sacerdotisa do Orculo,

- Ningum me disse nada sobre isso - respondeu-lhe Eilan.

- No gostarias? - Miellyn riu-se para ela. - As restantes de ns temos os nossos ofcios, 
e eu, por exemplo, estou feliz com as minhas ervas. Mas as que o povo venera so as 
videntes. No gostarias de ser a voz da Deusa?

- Ela ainda no me disse nada - respondeu a rapariga, um pouco asperamente.

No era da conta de Miellyn saber o que Eilan podia secretamente almejar, ou os 
sentimentos que nela se tinham agitado quando viu Lhiannon levantar os braos em 
invocao  Lua. Quanto mais tempo aqui permanecia mais vividamente se lembrava 
dos seus sonhos de infncia, de todas as vezes que levava oferendas ao santurio na 
nascente e olhava para a gua, esperando ver a Senhora outra vez,

- Serei o que quer que os meus superiores disserem. Sabem mais sobre a vontade dos 
deuses do que eu.

Miellyn riu.

- Oh, talvez alguns deles saibam; mas no estou certa disse. - Caillean no o diria. Ela 
disse-me, uma vez, que o conhecimento dos druidas  o que foi dado a toda a gente, 
tanto homens como mulheres, nos velhos tempos.

- E no entanto, at o Arquidruida se submete a Lhiannon disse Eilan, enquanto se 
inclinava para cortar algumas folhas dum

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macio de murugem que tinha descoberto a crescer no lado soalheiro duma grande 
rocha.

- Ou parece - disse Miellyn. - Mas Lhiannon  diferente, e, claro, todas a adoramos...

Eilan franziu as sobrancelhas.

- Ouvi algumas das mulheres a dizer que nem mesmo o meu av se atreveria a engan-
la.

- Por vezes pergunto-me - disse Miellyn enquanto escolhia as folhas que Eilan tinha 
cortado. - Corta-as mais rente ao ramo; no podemos usar os caules, Sabes, ouvi que 
nos velhos tempos as leis exigiam que qualquer homem que cortasse uma rvore devia 
plantar outra no seu lugar para que as florestas nunca pudessem diminuir. Isso no tem 
sido feito desde que os Romanos aqui chegaram; eles cortam rvores e no plantam 
nada, de modo que, um dia, no haver rvores em toda a Bretanha...

- Parece que h tantas como sempre - disse Eilan.

- Algumas espalham sementes e crescem por si prprias.
- Miellyn virou-se e reuniu as plantas que tinham cortado.

- E as ervas? - perguntou Eilan.

- No cortmos o suficiente para      fazer qualquer diferena; crescero rebentos 
suficientes num dia ou dois para substituir o que tirmos. Isto chega. Penso que pode 
chover; temos de nos apressar. A sacerdotisa que me ensinou a tradio das ervas 
costumava dizer que a floresta  o jardim da Deusa, e os homens no podem colher nele 
sem substituir o que usam!

- No o tinha ouvido antes dito dessa maneira, mas, mas penso que  lindo - disse Eilan. 
- Suponho que, se pensarmos em termos de sculos, deitar abaixo uma rvore  uma 
loucura to grande como abater uma cora prenhe...

- E, no entanto, alguns homens acreditam, ou parecem acreditar, que tm o direito de 
fazer o que querem com tudo o que seja mais fraco do que eles - disse Miellyn. - No 
percebo como os Romanos podem fazer o que fazem.

- Os melhores entre eles ficariam to zangados como tu, ou eu, em relao a alguns dos 
ultrajes - ousou Eilan. Estava a pensar em Gaius. Ele pareceu quase to zangado como 
Cynric quando ouviu a histria dos Romanos em Mona. No conseguia imagin-lo a 
massacrar os indefesos; e, apesar disso, ele devia saber quo curta e horrivel se podia 
esperar que a vida fosse para

A CASA DA FLORESTA

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as levas de mo-de-obra romanas nas minas, mal alimentados, pobremente vestidos e 
respirando a poeira venenosa do minrio que extraam. Se se limitasse este 
procedimento a criminosos e assassinos, mesmo assim j seria suficientemente mau, 
mas o marido da mulher do estbulo?

E contudo Gaius acreditava que os Romanos estavam a transformar brbaros em gente 
civilizada. Talvez nunca tivesse pensado verdadeiramente sobre as minas, porque ser 
levado para l nunca tinha acontecido a ningum que ele conhecesse. At mesmo ela 
nunca tinha pensado muito sobre isso at acontecer com um dos seus. Mas se ela no 
sabia o que se passava, seguramente o seu pai e o seu av sabiam, e eles tambm no 
tinham feito nada para parar com isso.

As rajadas de vento viraram para oeste e, subitamente, as nuvens descarregaram a sua 
carga de chuva. Miellyn guinchou e puxou o seu xale para cima da cabea.

- Morreremos afogadas se ficarmos aqui! - exclamou.
- Agarra o teu cesto e vem! Se formos a correr estaremos dentro de casa antes de 
ficarmos completamente molhadas.

Mas as raparigas estavam encharcadas quando entraram no salo central das 
sacerdotisas. Eilan sentiu que Miellyn tinha agradecido a oportunidade de poder correr.

- Agora vo-se secar, raparigas, ou apanham um reumtico e eu terei que gastar todos os 
meus remdios para as tratar!
- Latis, que estava agora to velha que j no podia sair para a floresta para colher as 
ervas, cacarejou com o riso e enxotou-as em direco  porta. - Mas lembrem-se de 
voltar para arranjar as ervas que me trouxeram, ou elas murcham e tanto as plantas 
como o vosso trabalho se tero perdido!

Com a pele ainda a brilhar da estimulante esfrega, Miellyn e Eilan voltaram ao salo. 
Construdo atrs da cozinha, onde o calor dos fomos mantinha o ar quente e seco, as 
vigas estavam engrinaldadas com cachos de ervas penduradas. Tabuleiros entranados 
sobre os quais estavam espalhadas raizes e folhas para secar estavam pendurados por 
baixo delas, rodando preguiosamente. Ao longo de uma parede viam-se prateleiras 
com cntaros de barro, e sacos e cestos de ervas preparadas estavam armazenados ao 
longo de outra, nitidamente etiquetados com os sinetes do ofcio das herboristas. O ar 
estava acre.

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- Tu s Eilan, no s? - Latis perscrutou-a. Ela prpria se parecia com uma raiz 
ressequida, pensou Eilan, marcada e enrugada pela idade. - A Deusa nos ajude, de ano 
para ano so cada vez mais novas!

- Quem, Me? - perguntou Miellyn, escondendo o seu sorriso.

-  As raparigas que mandam para servir a Sacerdotisa do Orculo.

- Eu disse-lhe que cedo ela seria enviada para ser treinada para a Senhora - disse 
Miellyn. - Bem, Eilan, acreditas-me agora?
- Oh, eu acreditei em ti - disse Eilan -, mas pensei que

de certeza que seria necessrio algum mais velho e com mais experincia do que eu.

- Caillean diria que no querem ningum instrudo de mais perto de Lhiannon com 
medo que fizesse muitas perguntas. Se a Sacerdotisa fosse obrigada a pensar no que 
estava a fazer, os Orculos que ela profere poderiam nem sempre servir as polticas dos 
druidas de modo to conveniente.

- Miellyn, chiu - exclamou Latis. - Sabes que no deves dizer essas coisas... nem mesmo 
num murmrio!

Falarei a verdade, e se os sacerdotes objectarem perguntar-lhes-ei com que direito me 
pedem que minta. - Mas Miellyn baixou a voz. - Eilan, tem cuidado; ests a segurar 
nesse cesto de travs. Tivemos trabalho que chegue para colher essas folhas e no as 
quero sujas por uma queda no cho.

Eilan reajustou o ngulo do cesto que estava a segurar.
- H algumas verdades que nunca deviam ser ditas alto, nem sequer murmuradas - 
continuou Latis sobriamente.

- Sim - disse Miellyn -, assim mo dizem; e so normalmente as verdades que deviam ser 
proclamadas de cima dos telhados.
-  vista dos deuses pode bem ser que isso seja verdade -

replicou a outra. - Mas sabes muito bem que no ests na presena de deuses mas sim 
de homens.

- Bem, se a verdade no pode ser dita numa casa construda pelos druidas - replicou 
resolutamente Miellyn -, onde  que, em nome dos Deuses, o poder ser?

- S os Deuses o sabem! - disse Latis. - Sobrevivi este tempo todo por me limitar s 
minhas ervas e tu farias bem em fazer o mesmo. Pelo menos elas falam a verdade.

A CASA DA FLORESTA

185

- Eilan no tem essa escolha - disse Miellyn. - Ela ficar vinculada  Gr Sacerdotisa 
pelos prximos seis meses.

- Mantm-te fiel a ti mesma, criana - A velha Latis agarrou o queixo de Eilan de modo 
que ela no podia desviar o olhar. 
Se conheceres o teu Prprio corao, ters sempre um amigo que no mente.

A sacerdotisa tinha dito a verdade. Com a chegada da lua seguinte, Eilan foi levada  
presena de Lhiannon e ensinaram-lhe o protocolo cerimonial para assistir  Gr 
Sacerdotisa em pblico, o que, na realidade, queria dizer todas as vezes que Lhiannon 
saa do seu prprio alojamento na Casa da Floresta. Aprendeu os rituais de vestir 
Lhiannon para as cerimnias, que eram mais complicados que pareciam; porque, logo 
desde o incio do ritual, nem mesmo a ponta de um dedo humano podia tocar

na Sacerdotisa. Partilhava com Lhiannon a longa recluso ritual com a qual a 
Sacerdotisa se preparava para os ritos, e ajudava-a durante o colapso fsico que se 
seguia.

  Foi nessa altura que aprendeu o preo que Lhiannon pagava

pela grande venerao na qual era tida. Porque a ddiva da palavra dos Deuses era um 
pesado fardo. Distrada e esquecida como Lhiannon na sua prpria pessoa podia por 
vezes ser, quando assumia os Ornamentos do Orculo outro poder a invadia. Ela tinha 
sido escolhida, no tanto pela sua fora de vontade ou sabedoria, mas porque, quando 
era necessrio, era capaz de deixar que a sua prpria personalidade se desvanecesse.

Era ento, quando a identidade humana tinha sido posta de lado juntamente com as suas 
roupas normais, que Lhannon se abria para que a Deusa pudesse falar atravs de si. E 
nessas alturas, ela era realmente uma grande sacerdotisa - quase, pensava Eilan, mais 
que humana. O preo de se tornar um veculo para um to grande poder era tanto fsico 
como mental e o respeito de Eilan pela sacerdotisa mais velha cresceu quando viu 
Lhiannon pag-lo sem questionar o seu custo ou, pelo menos, sem se queixar.

Quando Eilan deixou a Casa da Floresta e os bosques que a rodeavam, pela primeira 
vez, foi para acompanhar Lhiannon. Foi ento que reparou o quanto as semanas 
anteriores a tinham

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modificado. At mesmo a Casa das Donzelas parecia remota e estranha. Quando as novias mais recentes se 
apressaram a afastar-se do seu caminho ela mal o notou, e s depois percebeu que elas tinham visto nela a mesma 
irreal serenidade que associavam a Lhiannon.

Era, sups, um bastante normal Festival do Solstcio de Vero. Tinha visto os jogos, o mercado e o acender da grande 
fogueira muitas vezes antes, mas depois dos seus meses de isolamento na Casa da Floresta, o barulho de tanta gente 
era doloroso, e ela encolheu-se com os cheiros das pessoas e dos cavalos. At os coloridos tecidos que os 
comerciantes tinham posto para abrigar da luz as suas mercadorias lhe agrediram os sentidos.

O solestcio de Vero era uma poca em que os homens mostravam a sua fora em competies, para entreter os 
deuses e o povo, e para fortalecer as colheitas durante o seu crescimento. Mas, enquanto Eilan observava as corridas a 
p e as lutas, era os corpos suados dos competidores que lhe pareciam o mais grosseiro e pervertido de tudo. No 
conseguia sequer imaginar como  que alguma vez tinha querido deitar-se com um homem.

O vencedor dos jogos foi engrinaldado com as flores do Vero e escoltado para presidir s cerimnias. Lembrando-se 
do que tinha aprendido sobre os Mistrios, Eilan olhou para ele com uma nova considerao. Em tempo de 
necessidade, ou, nalgumas tribos, em cada sete anos, o novo Rei do Ano teria visto o seu predecessor ser queimado e, 
mesmo agora, alguma da antiga sacralidade ainda recaa sobre ele. O Imprio tinha morto ou romanizado os herdeiros 
dos prncipes bretes, mas, enquanto houvesse homens dispostos a oferecer as suas vidas pelo povo, eles no 
conseguiriam erradicar os Reis Sagrados, que cada ano ofereciam segurana queles que j no compreendiam o seu 
papel.

Se houvesse um grande desastre, e se se tornasse necessrio um sacrifcio durante o prximo ano, e apesar das 
proibies romanas, seria neste jovem que o golpe seria desferido. E em reconhecimento do risco que corria, apenas 
ele, de todos os homens, era autorizado a deitar-se com qualquer mulher que lhe agradasse - at com uma virgem da 
Casa da Floresta se fosse a que o seu olhar tombasse.

A CASA DA FLORESTA

187

Eilan manteve-se perto de Lhiannon, observando enquanto os guerreiros apanhavam bocados de madeira a arder da 
enorme fogueira e os lanavam o mais alto que podiam para fazer as colheitas crescer. O povo tinha-se tornado 
desordeiro com a bebida e com a libertinagem do festival. Mas ningum a incomodaria enquanto estivesse com a Gr 
Sacerdotisa. No havia notcia que sequer o Rei do Ano tivesse, jamais, levado to longe os seus direitos.

Estava sentada com Caillean e Dieda, contente com a proteco dada pela presena de Lhiannon e a grande e tosca 
fora do seu guarda-costas Huw atrs delas, e esperava que as outras sacerdotisas que tinham vindo com elas para o 
festival se tivessem sado to bem.

No foi seno depois de se terem passado algumas semanas que soube porque  que a sua amiga Miellyn se tinha 
vindo embora das festividades to plida e pensativa, e porque  que estava doente tantas vezes. Foi Eilidh que lho 
disse, um dia em que Miellyn no se conseguia encontrar em lado nenhum, mas nessa altura j toda a gente na Casa 
da Floresta estava a cochichar com as notcias.

- Ela est grvida, Eilan - murmurou Eilidh, e abanou a cabea como se ainda achasse isto espantoso. - Pelo vencedor 
dos jogos. Lhiannon ficou perturbada e muito zangada quando o soube e mandou Miellyn para o isolamento da 
cabana perto do poo branco para meditar sozinha durante algum tempo.

- isso no  justo! - exclamou Eilan. - Se ele a escolheu, como poderia ela recus-lo? Teria sido uma impiedade. - 
Tinham os padres esquecido a sua prpria teologia?

- As sacerdotisas mais velhas dizem que ela se devia ter mantido fora do seu caminho. Afinal de contas, no h falta 
de mulheres nesta parte da Bretanha. Eu teria achado um meio de lhe escapar se ele tivesse comeado a olhar para 
mim!

Eilan teve de admitir que tambm ela prpria teria procurado alguma maneira de evitar ser escolhida. Mas quando 
Miellyn reapareceu entre elas, os seus compridos vestidos j incapazes de esconder o arredondado do seu corpo, teve 
o bom senso de no o dizer.

E assim o Vero se foi passando, e chegou a altura do segundo aniversrio da sua chegada  Casa da Floresta.

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Na altura em que Eilan tinha assistido a Gr Sacerdotisa numa meia dzia de festivais, 
j tinha perdido todo o entusiasmo em se tornar ela prpria o Orculo, mas sabia que os 
seus desejos no fariam qualquer diferena se fosse escolhida pelos druidas. No podia 
evitar ter conhecimento que os sacerdotes se dirigiam a Lhiannon antes de cada ritual, 
para ajudar, diziam, a prepar-la. Mas uma vez, quando uma porta entreaberta se abriu 
completamente, ela viu a mulher mais velha mergulhada em transe enquanto Ardanos 
lhe sussurrava ao ouvido.

Observou com um interesse suplementar nessa noite, quando a Deusa foi chamada  
Sua Sacerdotisa, estremecendo enquanto Lhiannon se contraa e murmurava, 
deturpando algumas respostas enquanto outras saam claras. Era como ver um cavalo a 
lutar com uma rdea apertada, como se algo no interior da Sacerdotisa lutasse contra o 
poder que flua atravs dela.

Eles coagiram-na , percebeu horrorizada quando se sentou ao lado de Lhiannon nessa 
noite, j depois de tudo ter acabado. Eles lanaram feitios sobre ela para que apenas 
pudesse dizer as palavras que concordassem com a sua vontade!

Talvez fosse por isso, apesar do ritual, que havia alturas em que a Deusa no aparecia, e 
as respostas de Lhiannon nasciam da sua prpria sabedoria, ou talvez as palavras que os 
sacerdotes lhe tinham dito. Parecia a Eilan que essas alturas eram as mais cansativas de 
todas. E, mesmo quando o transe era um dos verdadeiros, o Orculo apenas podia 
responder s perguntas que lhe eram colocadas;  medida que o tempo passava, Eilan 
comeou a suspeitar que os druidas tambm controlavam quem era autorizado a 
colocar-lhe as questes. Alguns orculos genunos foram realmente ditos; mas apenas, 
descobriu Eilan, em assuntos de pequena importncia. E estes, se  que provinham da 
Deusa, geralmente faziam pouca diferena quer para os que perguntavam quer para os 
que ouviam.

A primeira reaco de Eilan tinha sido a de protestar, mas a quem? Caillean estava fora, 
levando uma mensagem de Lhiannon a uma nova rainha duma das tribos, e Miellyn 
estava preocupada de mais com a vinda do filho para que Eilan a fosse perturbar. Na 
altura em que havia algum a quem podia ter contado, ocorreu-lhe que Caillean e Dieda, 
pelo menos, j deviam saber. Isso explicaria algumas das suas discusses, e a de

A CASA DA FLORESTA

189

algum modo amargurada ternura com que Caillean cuidava de Lhiannon.                                                 
E a Gr Sacerdotisa, antes de tudo, devia perceber o

que lhe estava a ser feito. Lhiannon tinha escolhido vir para a   Casa da Floresta e 
permanecer em poder dos sacerdotes. Se eles a   estavam a transformar no seu porta-
voz, decerto que era com o seu prprio consentimento e vontade.

Era neste estado que os assuntos se encontravam quando Eilan acompanhou Lhiannon 
ao festival de Beltane, quase trs anos depois de ter sido entregue ao templo.

ONZE

Gaus no tinha estado nas terras dos Ordovici h quase dois anos quando chegou a 
altura do terceiro Beltane desde que tinha perdido Eilan. O seu pai no lhe tinha falado 
de novo no sugerido casamento com a filha de Licinius, mas tinha-o proposto para o 
pessoal do Governador. Tinha passado as duas estaes anteriores a marchar por toda a 
Alba, com Agricola, empenhados no que apaixonadamente esperavam fosse a 
pacificao das tribos das terras baixas. Assaltantes como os que tinham morto a famlia 
de Bendeigid eram suficientemente maus, mas eram as ainda livres tribos do Norte que 
ameaavam o domnio do Imprio na Bretanha. Para um oficial do exrcito romano no 
activo o sofrimento era um luxo. Gaius cumpriu o seu dever, e se a viso do brilhante 
cabelo e graves olhos de alguma rapariga lhe fazia doer as suas velhas feridas, teve o 
cuidado de chorar onde ningum o pudesse ver.

Foi to bem sucedido, que quando a campanha na Calednia teve uma paragem 
temporria, foi recompensado sendo enviado a escoltar um grupo de feridos de volta aos 
aquartelamentos permanentes da legio em Deva, enquanto os restantes da Vigsima 
trabalhavam na construo duma nova fortaleza nas Terras Altas da Calednia. E foi 
assim que se viu de novo no Sul, trotando pela estrada que conduzia  Ilha das 
Donzelas, com um centurio a seu lado e um destacamento de soldados regulares a 
marchar atrs.

- Precisamos de um homem em quem confiemos para vigiar o festival e tu s o nico 
disponvel nesta altura que consegues falar a lngua suficientemente bem para te 
introduzires l. Tens que o enfrentar alguma vez, rapaz - tinha-lhe dito o pai quando ele 
tinha protestado. - O melhor  despachar o assunto. - Mas

A CASA DA FLORESTA

192

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no foi seno quando viu o cabeo nu do morro elevando-se do mar da floresta, e ouviu 
o mugir do gado a reunido, que Gaius compreendeu o quo duro iria ser. Puxou as 
rdeas, observando, e o centurio gritou uma ordem para parar os homens.

- Parece bastante pacfico - disse o centurio. - Onde quer que vamos as feiras so todas 
muito parecidas. Podem tornar-se desagradveis, no entanto, quando se lhes mistura 
religio.

O soldado riu-se. Gaius j tinha descoberto que o homem era uma alma tagarela, que 
requeria um mnimo de resposta por parte da sua audincia. - Passei os meus primeiros 
trs anos de legio no Egipto. Eles tinham um deus para cada dia da semana e cada um 
deles com o seu prprio festival. Tivemos alguns distrbios bastante complicados, por 
vezes, quando duas procisses chocavam uma com a outra no centro da cidade.

- Oh? - perguntou Gaius polidamente, se bem que na realidade no se importasse 
minimamente que o homem -tivesse servido no Egipto ou no fim do mundo. Este era o 
porto pelo qual tinham entrado nos terrenos do festival h trs anos. Lembrou-se de 
como a pequena Senara tinha saltitado pela estrada  sua frente, rindo.

Como o tinha feito nessa altura, estava a usar roupas nativas, j que a sua misso era a 
de procurar sinais de sedio no festival, mas aquela famlia feliz com quem tinha 
percorrido este caminho da ltima vez j no o acompanhava.

- Como  que era o Egipto? - disse rapidamente, tentando bloquear a memria.

- Oh, como em todos os outros lados - disse o centurio e bocejou. - Grandes templos e 
reis imensamente ricos, e a mesma enorme pobreza no mercado. Era quente, contudo 
acrescentou e tiritou com o frio. - No me importaria dum bocadinho do seu sol agora;  
frio e chuvoso de mais aqui na Bretanha,

Gaius olhou para cima, para o nublado cu. O homem tinha razo; ele ainda no tinha 
reparado no tempo. A estava uma coisa que era diferente. No pensava que pudesse ter 
suportado ver de novo este local num dia de sol brilhante.

- Vs no pareceis importar-vos muito      com isso, apesar disso - acrescentou 
invejosamente o centurio. - Haveis nascdo aqui, no  verdade? Eu sou da Etrria. 
Est-se a tornar uma raridade, nos dias que correm, encontrar outro latino nativo

193

nas legies. J servi por todo o Imprio: Egipto, Hispnia, Prtia. A minha Corte foi 
despedaada em Prtia, e quando me promoveram a centurio, provavelmente porque 
fui um dos poucos que sobreviveram, mandaram-me para aqui. Se  verdade que foi 
Apolo que descobriu este pas, no lhe gabo o gosto.

- Vamos desmontar aqui - disse Gaius quando ganhou coragem para o fazer. - E deixar 
um homem com os cavalos. No h espao para eles l dentro.

Ouviram mugir atrs deles quando outro contingente de gado era conduzido para l. O 
centurio gritou uma ordem aos soldados para se chegarem para o lado e ele e Gaius 
recuaram.

- No h necessidade de ficar debaixo dos seus cascos acrescentou preguiosamente. - 
No sei quanto a vs, mas eu tenho melhor uso para     os meus ps do que deixar que 
sejam pisados por estas vacas. Estais pronto para entrar agora?

Gaius suspirou. Pronto nunca estaria, mas era um romano e j no podia fugir mais das 
suas memrias. Tremeu com o frio e puxou uma dobra do seu capote sobre a cabea.

- O que  que se passa aqui, afinal de contas? - perguntou o centurio quando iam a 
atravessar o porto atrs do gado.
-  alguma espcie de festival para os agricultores? Eles faziam-no no Egipto: tinham 
um grande touro branco a que chamavam deus: passeavam-no pelas ruas com grinaldas 
 volta do pescoo e deitavam incenso por cima do gado at que mal se conseguia 
respirar. Tentavam dar-lhes sade, diziam.

- Aqui atiram ervas para as chamas e conduzem as vacas pelo meio das fogueiras para 
as abenoar - respondeu-lhe Gaius.

-  uma coisa engraada como as pessoas continuam a lutar a propsito da religio 
quando, na realidade,  tudo o mesmo. A mim parece-me que so os padres que criam 
todos os problemas; a maioria das pessoas apenas quer boas colheitas e bebs saudveis, 
tentam apenas passar o melhor possvel. Se no  o gado a debandar, so os padres a 
arengar s multides. Os druidas dirigem este festival?

- No exactamente - disse Gaius. - H uma sacerdotisa, algo como uma Vestal, que 
invoca as bnos dos seus deuses.
- Por um instante fechou os olhos, vendo uma vez mais aquela figura velada levantando 
os braos  Lua.
194

MARION ZIMMER BRADLEY

- Ela vai fazer os sacrifcios? - moveram-se lentamente em direco ao terreiro central, 
pois a manada de vacas ainda estava  sua frente, os animais mugindo ansiosamente e 
apertando-se uns contra os outros devido aos pouco familiares cheiros e imagens. Gaius 
abanou a cabea.

- Hoje em dia, de qualquer modo, os druidas, ou quem quer que seja que dirige o seu 
culto, no sacrificam nada a no ser frutos e flores.

- Ouvi dizer que eles faziam imensos sacrifcios... at mesmo humanos - disse o 
centurio.

- Portes de Tartarus, no. - Gaius lembrou-se de como Eilan tinha ficado indignada 
quando ele lhe fez a mesma pergunta. - Na verdade, este festival  bastante inspido. 
Estive aqui uma vez, e...

- Oh, pelos tomates de Calgula! Algum assustou as vacas - exclamou o centurio, 
espreitando para a sua frente. Era o que eu receava.

Um grande homem com um manto axadrezado tinha virado uma lanterna, e as vacas 
estavam a movimentar-se e a mugir inquietas.

Atrs dele, um homem mais velho estava a arengar  multido. Mais de uma centena de 
pessoas tinha-se juntado para escutar. Gaius chegou-se  frente para ouvir. Era para isto 
que aqui estava, para o caso de algum usar a reunio pacfica para incitar  rebelio. As 
pessoas na multido gritavam em aprovao, ignorando a crescente inquietao da 
manada.

Um rapaz veio a correr com um balde de gua, encharcando um dos oradores quando 
passou por ele. O homem virou-se, a gritar, e a vaca mais prxima levantou a cabea 
com um bramido, espetando a sua vizinha com um corno retorcido.

- Oh, Hades, agora  que j est; aquelas vacas vo estourar - gritou Gaius, mesmo na 
altura em que uma das vacas da frente se lanou num galope desajeitado, batendo no seu 
condutor e mandando-o de pernas para o ar para o meio da multido.

O orador continuava a arengar  multido, mas agora a sua audincia estava a gritar uns 
com os outros. Dois ou trs homens foram atirados ao ar e uma mulher gritou, e, ento, 
toda a linha da frente do gado avanou numa pesada correria. Uma vaca urrou, virando-
se para o lado, e Gaius viu vermelho no seu corno.

A CASA DA FLORESTA

195

Algum gritou. Homens, mulheres e umas poucas de crianas lanaram-se para trs, a 
gritar.

Nesta altura j toda a gente estava a empurrar, tentando fugir do seu caminho. Em 
poucos momentos o terreiro central tinha-se tornado numa confuso de movimento e 
som, Mes tentavam agarrar os seus chorosos filhos; um dos legionrios, no 
acostumado a gado, foi mandado pelos ares e caiu a gritar. Gaius lutou para se manter 
de p e foi afastado dos seus homens.

Algum lhe agarrou no brao.

- Aqui, tu pareces forte, tens que me ajudar; a Senhora vai cair. - Uma mulher alta, de 
cabelo escuro, num vestido azul, agarrou o brao de Gaius e puxou-o na direco da 
orla do terreiro onde uma anci num manto azul tinha desfalecido de encontro a duas 
mulheres em vestidos de linho, com grinaldas de folhas verdes sobre os seus imaculados 
vus de linho.

Gaius estendeu os braos cuidadosamente e as mulheres deixaram o seu fardo cair-lhe 
nos braos. Ele pestanejou, reconhecendo a Sacerdotisa que tinha invocado a Deusa dois 
anos antes. Cuidadosamente, levantou-a, espantado com a fragilidade da forma dentro 
das pesadas roupagens. A maioria das pessoas tinha fugido, mas algum gado ainda 
estava a correr furiosamente, ou errando em grupos de dois ou trs, de cornos baixos e 
caudas a abanar, mugindo desafios a quem quer que tentasse junt-los.

Perto, jazia a imvel figura do gigante que acompanhava a Sacerdotisa para todo o lado.

- Qual  o problema com ele?

- Huw? Oh, ele est bem - disse a sacerdotisa mais velha descuidadamente. - Uma das 
vacas escorneou algum; ele tem medo de ver sangue.

Que raio de guarda-costas , no conseguiu deixar de pensar Gaius.

- Temos que a tirar para fora do caminho das vacas - disse ele alto. - Para onde a devo 
levar?

- Por aqui. - A mais alta das duas sacerdotisas rapidamente indicou o caminho atravs 
da confuso de barracas destrudas. Gaius colocou o seu fardo de modo a que a cabea 
ficasse encostada ao seu ombro, aliviado por ouvir o arfar da sua respirao. No queria 
pensar no que lhe aconteceria se a Gr Sacerdotisa de Vernemeton lhe morresse nos 
braos.

196

MARION ZIMMER BRADLEY

As suas narinas fremiram com um sbito cheiro e apercebeu-se de 
que as sacerdotisas os tinham levado para a tenda duma vendedora 
de ervas. A herborista, gorda e preocupada, estava a levantar a 
manta dependurada para o lado, para que Gaius pudesse fazer 
entrar a Gr Sacerdotisa. Ele ajoelhou e depositou-a nas peles para 
dormir ali empilhadas.

O local era sombrio e poeirento, acre com o fresco, estival cheiro das ervas suspensas 
das vigas ou arrumadas em prateleiras dentro de sacos de linho. Gaius levantou-se e o 
seu manto caiu. Por trs dele ouviu-se um sbito grito de surpresa. Gaius sentiu o 
corao comear a bater pesadamente no peito. Muito devagar, porque subitamente 
precisou de mais coragem que a que tinha sido necessria para enfrentar uma carga dos 
homens das tribos da Calednia, voltou-se.

A mais pequena das sacerdotisas tinha puxado o seu vu para trs. Por baixo das suas 
dobras viu Eilan a olhar para ele. Sentiu o sangue abandonar-lhe a cabea; o mundo 
escureceu, depois iluminou-se num esplendor quando conseguiu respirar de novo. Tu 
ests morta... pensou. Morreste no incndio! Mas, mesmo quando todas as outras vises 
lhe falharam, continuou a ver, brilhando para ele, os olhos de Eilan. Sentiu um sopro de 
ar na cara e, gradualmente, os seus sentidos voltaram-lhe.

- s realmente tu? - disse ento com a voz rouca. - Pensei que tinhas morrido no 
incndio... Eu vi o que restava da tua casa depois de os assaltantes terem vindo.

Ela deu um passo  retaguarda, indicando-lhe a direco da extremidade da barraca 
enquanto as outras sacerdotisas se inclinavam sobre Lhiannon, e Gaius, a cabea ainda 
vacilante, levantou-se e seguiu-a.

- Eu estava fora a ajudar a minha irm mais velha com a sua nova criana - disse ela 
suavemente de modo a no poderem ser ouvidos. - Mas a minha me e a pequena 
Senara estavam l. - A voz falhou-lhe. Ento ela deteve-se e lanou um rpido olhar de 
culpa para as outras sacerdotisas.

Na luz sombria, envolta em plidos       hbitos, ela parecia um esprito. Ele estendeu os 
braos para ela. Mal podia acreditar que ela estava ali, viva e ilesa. Por um momento os 
seus dedos roaram o frio linho, depois ela afastou-se bruscamente.

A CASA DA FLORESTA

197

- No podemos falar aqui - disse ela sem flego -, ainda que  no estejas de uniforme.

- Eilan - disse ele rapidamente -, quando te posso ver?
- Isso no  possvel - disse -, sou uma sacerdotisa da Casa da Floresta e no estou 
autorizada...

No ests autorizada a falar com um homem? - Uma Vestal , pensou ele. A rapariga 
que eu amo -me to proibida como se fosse uma Vestal.

- No  to mau como isso... - disse ela com um vago sorriso. - Mas tu s um romano e 
sabes o que o meu pai diria.
- Se sei - disse ele passados uns instantes, e, ento, pensou

no que o seu pai diria. Tinha o Prefeito deixado Gaius a lamentar-se, sabendo que no 
havia necessidade? Juntamente com o espanto pela sua presena surgiu uma vaga de 
fria.

Olhando para os olhos cor-de-avel de Eilan, percebeu subitamente que durante todo o 
tempo desde que tinha deixado a casa de Bendeigid nunca se tinha sentido to vivo.

Ela mexia-se inquieta.

- Dieda est a olhar para ns; ela pode bem reconhecer-te. E Caillean, a sacerdotisa mais 
velha...

- Eu lembro-me de Dieda - disse ele asperamente.
- E devo voltar para junto do meu centurio. Deuses! Como estou contente por te ver 
viva - disse, sbita e intensamente, mas no se mexeu. Agora as outras duas sacerdotisas 
estavam a olhar para eles e ela levantou a mo num movimento de bno.

- Agradeo-vos - disse numa voz que apenas tremeu um pouco. - Lhiannon  pesada de 
mais para qualquer de ns a levantar. Se vires Huw e ele parecer recuperado, manda-lo-
s ter aqui connosco?

- Para o manter a salvo das vacas - disse ele, e foi recompensado pelo sbito lampejo do 
seu sorriso.

- Vai agora.

- Devo faz-lo - concordou ele. Nessa altura Lhiannon agitou-se; uma das mulheres 
inclinou-se para ela, falando-lhe dum modo calmante e, ao ouvir esses baixos tons, foi 
finalmente atingido pelo facto de Eilan ser uma sacerdotisa dos druidas.

Cambaleou em direco  entrada e foi apenas quando estava no exterior, pestanejando 
com a luz, que percebeu que no lhe tinha dito adeus ou desejado o seu bem. Era ela 
feliz na Casa da



198

MARION ZIMMER BRADLEY

Floresta? Tinha ela escolhido aquela vida, ou tinham-na eles forado a ela? Mas o 
batente da porta j se tinha fechado atrs de si. Enquanto se afastava, ouviu a voz de 
Dieda atrs de si.

- Eilan, o que estavas a dizer quele homem? Ele anda como um romano!

- Oh, no me parece - ouviu Eilan dizer devagar. - No deveria ele estar em uniforme? 
Os outros estavam,

Ele abrandou, espantado com a sua astcia. Tinha sido, pelo menos em parte, a 
inocncia dela que primeiro o tinha atrado.

Agora onde diabos se tinha metido o seu centurio? Forou-se a si prprio a andar de 
novo. Haveria alguma hiptese de o homem vir a contar a Macellius sobre isto? E, mais 
importante ainda, como se arranjaria Gaius para ver Eilan outra vez? Agora que a tinha 
encontrado de novo, no podia deix-la simplesmente desaparecer.

Atrs dele, na tenda, Eilan fechou as mos sobre o seu corao que batia como um 
tambor. Parecia quase impossvel que as outras sacerdotisas no fossem capazes de o 
ouvir,

Lhiannon mexeu-se e murmurou:

- O que aconteceu? Feriu-se algum?

- Algum idiota assustou o gado e elas estouraram - respondeu Caillean.

- Como... como  que eu cheguei at aqui?

- Um viajante transportou-vos. Huw desmaiou... o grande idiota - disse incisivamente 
Caillean. - No, o vosso salvador j Se foi embora; Eilan abenoou-o, em vosso nome.

Eilan, ouvindo-a, pensou que era uma felicidade que Gaius no estivesse a usar o 
uniforme romano e perguntou a si prpria porqu. Ela pensou como  que ele ficaria no 
uniforme das legies. Elegante, imaginava, mas, tambm, ele era bem parecido de 
qualquer maneira. Ela abanou a cabea, sabendo que no devia estar a pensar nele 
daquele modo, decerto no aqui. Essa parte da sua vida estava acabada.

- Primeiro assegurem-se de que Huw est bem e tragam-no para aqui - ordenou 
Lhiannon. - Se o gado estourou, provavel-





A CASA DA FLORESTA

199
mente no pode ser reunido imediatamente e vamos ter que ficar aqui at ao fim do dia.

Eilan saiu para a luz do Sol. Encontrou Huw sentado no cho, quase inconsciente, a 
abanar atordoadamente a cabea.
- A Senhora Sagrada est a salvo?

Se o est no  de certeza graas a ti - respondeu zangada Eilan. - Ela desmaiou, e um 
viajante levou-a para a tenda da vendedora de ervas.

- onde est todo o gado?

Eilan olhou  sua volta e viu que Lhiannon se tinha enganado. o terreiro estava apinhado 
com gente a levantar as barracas que tinham cado e a conversarem, mas no se via 
uma nica vaca.

- Apenas os deuses o sabem, e talvez tambm os Seus condutores; elas estouraram. - Ela 
reparou que o homem que tinha sido corneado tinha sido levado pelos seus amigos. - 
Foi por isso que elas cornearam aquele homem; estavam assustadas - disse ela 
incisivamente.

- Foram os romanos que as assustaram - resmungou Huw, levantando-se penosamente. - 
A marchar com todo aquele estrpito e resplendor, Que a lepra os atinja; e afinal de 
contas, o que  que eles aqui vieram fazer? Pensaram que o abenoar do gado era 
alguma espcie de ajuntamento ilegal?

- No haver nenhuma bno do gado hoje - continuou, abanando a cabea -, o melhor 
 levar a Senhora para casa. Com romanos nas redondezas o mais provvel  que venha 
a acontecer alguma espcie de sarilho - acrescentou numa rosnadela a meia voz.

No pela primeira vez, Eilan pensou porque  que Lhiannon tolerava este enorme 
imbecil. Ele tinha pouca utilidade para ela como guarda-costas; Eilan no conseguia ver 
que ele tivesse qualquer utilidade de todo. Se ela alguma vez viesse a estar na posio 
da sacerdotisa do Orculo - por pouco que o desejasse a primeira coisa que faria seria 
ver-se livre dos servios deste meio atrasado mental.

Cerca de um ms depois de Beltane, Eilan foi chamada  presena de Lhiannon e 
encontrou-a com um homem que estranhamente lhe fazia lembrar Cynric, e com uma 
rapariguinha de

200

MARION ZIMMER BRADLEY

oito ou dez anos de idade, de cabelo avermelhado claro, que o sol fazia brilhar com tons 
de ouro.

Eilan sorriu para a criana, que lhe devolveu envergonhadamente o olhar. Lhiannon 
disse:

- Hadron  um dos da Irmandade dos Raven. Conta-lhe tu a tua histria, Hadron.

- Conta-se rapidamente - disse o homem. - Tenho um irmo adoptivo que se juntou s 
legies como auxiliar e ele intercedeu por mim seno eu teria sido preso e levado para 
as minas de chumbo. Depois desta intercesso, o castigo foi retirado e a minha vida 
poupada, tendo-me sido dados apenas dez anos de exlio fora de qualquer possesso 
romana. Agora tenho que fugir para o Norte, e no posso levar uma rapariguinha 
comigo para o stio onde vou.

- Ento qual  o problema? - Eilan sabia que Lhiannon tinha a autoridade para pura e 
simplesmente admitir a rapariga na Casa da Floresta sem ter de consultar ningum. o 
facto de ainda no o ter feito significava que havia alguma dificuldade.

- Ela parece-me nova de mais para um lugar no meio de ns - disse Lhiannon, franzindo 
as sobrancelhas. - No sei o que lhe hei-de dizer.

- Se  apenas isso - replicou Eilan -, eu ficaria feliz por cuidar dela at que possa ser 
enviada para adopo noutro stio qualquer. Ou existe uma parente feminina a quem ela 
possa ser consignada?

- No h - disse o homem. - Isto porque a minha mulher era nascida romana e eu no sei 
quase nada sobre os seus parentes mais chegados.

- Ento a tua filha  parcialmente romana? No podes mand-la para os seus    parentes 
entre eles? - perguntou Lhiannon.
O homem respondeu mal humoradamente:

- A minha mulher desafiou os seus parentes para casar comigo; implorou-me com o seu 
ltimo suspiro que me assegurasse que a sua filha nunca cairia nas mos deles. Pensei 
que se a pudesse deixar  guarda das sacerdotisas...

Lhiannon disse firmemente:

- Ns no somos um refgio para rfos. Embora para um dos da Irmandade dos Raven 
possamos, possivelmente, abrir uma excepo.

A CASA DA FLORESTA

201

Eilan olhou para a criana e pensou na sua prpria irm mais nova, morta s mos dos 
assaltantes h trs anos. Se Senara estivesse viva, quem estaria agora a tomar conta 
dela? Ela tinha antegozado a ideia de cuidar do beb de Miellyn como uma espcie de 
substituto para a sua irm perdida, mas a mulher mais velha tinha abortado o filho do 
Rei do Ano.

- Eu tomarei conta dela de boa vontade, Lhiannon.

- Foi por isso que te chamei. No ests ainda comprometida com nenhumas tarefas 
muito exigentes, aqui entre ns - replicou Lhiannon. - Se bem que isto ultrapasse os 
requisitos habituais. Apesar disso, se tu assim o quiseres, porei esta pequena refugiada a 
teu cargo. - Ela fez uma pausa e perguntou a Hadron - Qual  o nome dela?

- A minha mulher chamava-lhe Valeria, Senhora. Lhiannon fez uma carranca.

- Isso  um nome romano; no pode ser chamada por ele aqui.

- A minha mulher tinha desistido de todos os seus parentes para casar comigo - disse 
Hadron. - O mnimo que eu podia fazer era deixar que ela desse o seu nome de famlia  
filha dela.

- Mesmo assim, se ela vai viver entre ns tem que ter um novo nome - disse Lhiannon 
firmemente. - Eilan, ds-lhe um? Eilan olhou para a criana, que estava a olhar para ela 
com

olhos assustados. Ela j tinha perdido tudo o resto; agora devia perder o pai e at o 
nome. Eilan disse gentilmente:

- Com vossa autorizao, chamar-lhe-ei Senara.

- Isso servir muito bem - disse Lhiannon. - Agora vo; encontra um lugar para ela 
dormir e roupas adequadas. Quando ela chegar a uma idade conveniente poder tomar 
votos entre ns, como sacerdotisa, se assim o desejar.

Quando Hadron j se tinha ido embora, Eilan olhou de novo para a rapariguinha, que 
estava a olhar extasiada para a Senhora.
- Lamento descarregar isto sobre ti, Eilan. Nunca tive que

lidar com uma rapariga desta idade. O que  que faremos com ela? - disse Lhiannon.

- Talvez possa fazer recados. - Eilan ps o brao  volta da rapariga e sorriu.

Lhiannon acenou com a cabea.

202

MARION ZIMMER BRADLEY

- Uma vez que ela no est sob votos,        talvez possa levar mensagens para l dos 
nossos muros.

-  um pouco nova para isso, mas se estais verdadeiramente incerta quanto ao mant-la 
aqui, talvez devamos perguntar entre os romanos - sugeriu Eilan. - Apesar do que 
Hadron disse, pode ser que o povo da sua me a queira. Devamos pelo menos fazer 
algumas pesquisas.

-  uma boa ideia - concordou Lhiannon um pouco vagamente, a sua ateno j a 
esvoaar para outro lado. - Trata disso, Eilan, se quiseres.

A pequena mo enfiou-se confiantemente na dela, e alguma coisa no corao de Eilan, 
que tinha estado em chaga desde que tinha perdido a sua irm, comeou finalmente a 
acalmar-se. Enquanto caminhavam pelo ptio perguntou  criana:

- No ficas infeliz por te chamares Senara? Era o nome da minha irm.

- De todo - respondeu a rapariguinha. - Onde est a tua irm? Est morta?

- Morta ou levada para l dos mares - replicou Eilan.
- Pena que eu no o saiba. - E, nessa altura, ela pensou porque no tinha perguntado a 
Caillean por alguma palavra sobre o destino da sua irm e da sua me quando a mulher 
mais velha estava a consultar a gua. Seria, talvez, porque preferia pensar que Senara 
estava pacificamente morta que a viver em escravatura?

Olhou para a criana, procurando algum trao do seu parentesco romano, e pensou em 
Gaius. Sendo filho do Prefeito, Gaius podia pesquisar se havia alguma coisa que se 
pudesse saber. Antes de Valeria se tornar em Senara para sempre, ela devia  criana 
pelo menos o tentar.

Enquanto Eilan mostrava  sua protegida onde devia dormir, e procurava um vestido de 
novia, de linho, que pudesse ser cortado para ela usar, viu-se a pensar tanto em Gaius 
como na rapariga.

Onde estava ele agora? Estaria a pensar to ansiosamente nela como ela nele? Tinha-lhe 
ele lanado algum feitio, para que ela no pudesse pensar noutra coisa embora no o 
desejasse particularmente? Suspirou, recordando a fora da sua voz, a sua bela face e 
viril figura; o ligeiro acento com que dizia o seu nome, o seu hesitante beijo durante as 
fogueiras de Beltane.

A CASA DA FLORESTA

203

Nessa altura no realizei completamente o que ele pretendia de mim , pensou. Era 
nova de mais para saber... ou importar-me. Mas agora estou mais velha e comeo a       
entender. O que deitei eu fora? O pensamento chegou-lhe ento: Deverei viver o resto 
da minha vida sem ser amada... at ser to velha e sem amor como Lhiannon?

A quem podia perguntar? A quem podia contar? Dieda compreenderia, mas, separada 
do seu prprio amado, dificilmente se compadeceria. Caillean, mal tratada e sem amor 
desde to jovem, zangar-se-ia. E se Caillean no a iria compreender, como podia esperar 
que mais algum aqui o fizesse?

No havia ningum a quem ela pudesse descrever a desesperada necessidade do seu 
corao em v-lo, nem que fosse apenas mais uma vez, mesmo que depois disso nunca 
mais lhe pusesse os olhos em cima. Na manh seguinte, enquanto estava a cortar po e 
queijo para Senara, perguntou:

- Lembras-te de alguma coisa sobre os teus parentes na cidade romana?

- Eles no esto na cidade, Eilan. Penso que o irmo da minha me era uma espcie de 
funcionrio romano; ele escrevia cartas para o Prefeito do Campo, e outras coisas assim.

- De facto? - Eilan olhou para ela. Decerto os deuses estavam a sorrir, pois este homem 
devia ser o secretrio do prprio pai de Gaius.

Pensou por um momento em confiar o seu segredo  criana mas, depois de uns 
instantes de reflexo, decidiu-se a no o fazer. Se uma sacerdotisa da Casa da Floresta 
fosse descoberta na companhia dum romano, no interessa o inocentes queffossem os 
seus motivos, significaria sarilho para todos os envolvidos. E seriam assim to 
inocentes?

DOZE

Nesse mesmo dia, Valerius, que era secretrio do pai de Gaius, tinha chegado 
esbaforido e parecendo abalado.

- Soube agora mesmo da morte da minha irm - disse a Gaius.

- Fala-me sobre isso - sugeriu Gaius, enquanto atravessavam a parada em direco aos 
escritrios do seu pai.

-  uma longa histria - replicou Valerius. - Perdi o contacto com ela quando se casou; 
desde essa altura no a vi uma dzia de vezes.

- Ela mudou-se para longe?

Valerius deu uma pequena gargalhada.

- To longe quanto Deva, mas casou com um homem das tribos e o meu pai renegou-a.

Gaius acenou com a cabea. j era suficientemente mau um romano casar com uma 
mulher duma casa real. Ele sabia bem de mais como a sociedade romana encararia uma 
filha que fugisse com um amante nativo.

- Uma velha mulher, que foi a ama da minha irm e minha, mandou-me a notcia da sua 
morte - continuou Valerius -, e eu descobri, ao fazer algumas perguntas, o sarilho em 
que o seu marido est metido. S o vi uma ou duas vezes, mas ele tem um irmo 
adoptivo, que est nos auxiliares, e que me disse que Hadron  um dos Ravens e foi 
proscrito. O que se passa  que ela deixou uma filha pequena e eu no sei o que 
aconteceu com a criana. No conheceis alguns dos Ravens?

- Conheci alguns deles, sim - disse Gaius, pensando em Cynric. Considerando as 
circunstncias do nascimento de Cynric, no se admirava que ele tivesse aderido a uma 
sociedade secreta

206

MARION ZIMMER BRADLEY

dedicada  vingana. Em circunstncias idnticas, pensou, bem podia ter sentido o 
mesmo.

- Dum modo ou de outro devo encontrar a filha da minha irm. O irmo adoptivo de 
Hadron  um dos auxiliares, como disse, e no tem nenhuma mulher a quem possa 
consignar uma criana do sexo feminino, o que me torna no parente mais prximo da 
rapariga. Conseguis pensar em mim como o guardio duma rapariguinha? No vejo a 
rapariga desde que ela andava de fraldas; suponho que deve ter oito anos, ou  volta 
disso.

- Primeiro tens que a encontrar... - disse vagarosamente Gaius. Pode ser que Cynric 
saiba para onde Hadron foi com a sua filha. E no processo, Cynric, que sabia o que era 
estar separado da sua amada, podia ser capaz de o ajudar a ver Eilan.

- Podes realmente ajudar-me? - Valerius abrandou o passo. j estavam quase a chegar 
aos escritrios do Prefeito, e o secretrio estava bem ciente da desaprovao de 
Macellius em relao a qualquer contacto do filho com o povo da me.

- Talvez... - disse Gaius cautelosamente. - Talvez conhea algum que possa perguntar.

Tinha ouvido dizer que Cynric tinha sido mandado para o Sul com os legionrios que 
tinham sido enviados para punir os assaltantes que tinham incendiado a casa de 
Bendeigid. Na altura tinha-o espantado, mas a vingana fazia estranhos companheiros 
de cama. Dizia-se agora que Cynric: estava a trabalhar, com os auxiliares, como guia e 
intrprete. Gaius pensou se ele teria mudado de ideias ou se ainda pertencia aos Ravens.

Se tentasse contactar com Cynric atravs dos canais do exrcito o pai sab-lo-ia, mas ele 
estava destinado a ver o jovem breto, mais cedo ou mais tarde, numa das tabernas que 
serviam a fortaleza.

- Que a Bona Dea vos abenoe! - Valerius estendeu os braos para apertar a mo a 
Gaius. Ento a porta abriu-se e ambos os homens se perfilaram em posio de sentido.

Apenas uns poucos de dias mais tarde, Gaius, ao passar pelo apinhado mercado de 
Deva, viu Cynric ali parado, cabea e

A CASA DA FLORESTA

207

ombros acima da multido. os seus caracis estavam um pouco mais escuros e a sua 
face mostrava os comeos duma barba. Gaius gritou, viu Cynric franzir a testa, decidir 
que aquele jovem oficial no era ningum que ele conhecesse e preparar-se para se ir 
embora.

Gaius praguejou e atirou-se pelo meio da multido para o enfrentar.

- Espera, homem... no me reconheces? - Parou, endireitando-se quando o azul olhar 
desceu sobre ele e escureceu. Decerto que o rapaz no lhe levaria ainda a mal o seu 
logro, quando tambm ele servia Roma! - Penso que ainda te devo uma bebida por me 
teres tirado daquela armadilha - disse amigavelmente. - H aqui uma taberna; 
experimentemos o que tem para nos oferecer.

Gaius suspirou de alvio quando a carranca de Cynric se transformou num sorriso 
magoado.

- Agora j me lembro de ti - disse, acrescentando -, mas suponho que o teu nome no 
seja Gawen. O que chamas a ti prprio, Tribuno?

- Com efeito - disse Gaius -, a minha me chamava-me Gawen e foi assim que me 
chamou at ao dia em que morreu. Contei-te a verdade at onde me atrevi. Mas na 
cidade romana uso o nome do meu pai: Gaius Macellius Severus. A minha me era uma 
mulher dos Silures; uso o apelido Siluricus por causa dela.

- Se tivesse sabido disso na altura tinha-te morto - admitiu Cynrc. - Mas muita coisa 
aconteceu desde ento. Beberei contigo, romano, ou o que quer que seja que possas ser.

Na escurido poeirenta da taberna, Gaius disse:

- Tive pena quando soube do incndio da vossa casa; dificilmente ficaria mais 
desgostoso se os meus prprios parentes tivessem sido mortos por esses bastardos dos 
hibrnicos. Fico contente que o teu pai no tenha sido ferido e mais pesaroso que o que 
sou capaz de exprimir que a tua me tenha morrido.

- Ela era a minha me adoptiva - notou Cynric -, mas agradeo-te em seu nome. Temos 
um ditado no Norte que diz que o sangue nos vincula por trs geraes e a adopo por 
sete. E, na verdade, a mulher do meu pai adoptivo era to boa para mim como se eu 
tivesse sido gerado por ela.

208

MARION ZIMMER BRADLEY

- Era uma gentil senhora, na verdade - concordou Gaius.
- E por tua causa lamento-a. - Se ele se tivesse casado com Eilan teria dado as boas-
vindas a este homem como seu irmo. E, no entanto, por acidente de nascimento ele e 
Cynric tinham estado, at agora, em campos opostos desta luta. Pelo menos, outros que 
no apenas os romanos cometiam ultrajes, pensou.
- Vi as cinzas da tua casa, mas o meu pai mandou-me para o Norte imediatamente a 
seguir. Talvez eu tenha desferido um golpe ou dois em nome dela contra esses 
Calednios. Fiquei contente por ouvir que esses assaltantes da Hibernia tinham sido 
castigados.

- Pelo menos eu tambm dei um golpe por eles. Foi a primeira vez na minha vida que 
no tive vergonha do sangue romano que me corre nas veias. - Cynric continuou. - 
Creio que nesse Beltane, quando te hospedaste connosco, foi a ltima vez que fomos 
todos felizes juntos. Todos os que sobreviveram esto agora dispersos.

- Estive na Colina das Donzelas neste ltimo Beltane disse Gaius cuidadosamente. - Vi 
l Dieda e tambm a tua irm adoptiva, Eilan. Fiquei contente em saber que ela tinha 
sobrevivido.

- Sim - disse Cynric sinteticamente. - Ela est na Casa da Floresta, uma sacerdotisa da 
Grande Deusa. Quanto a Dieda, ela  parenta de Eilan, mas no me  nada. Nem  
provvel que o venha a ser, se l continuar!

- Tenho um amigo nas         legies- - disse ento Gaius. Cynric riu-se.

- Bem, isso no me surpreende... Gaius abanou a cabea,

- A irm dele casou com um breto e foi rejeitada pelos seus parentes. Eles tinham uma 
filha, mas a irm agora morreu e dizem que o seu marido est em fuga. O meu amigo 
quer encontrar a rapariguinha.

- Em fuga... - disse pensativamente Cynric. - Por que me ests a perguntar a mim?

- Porque dizem que ele  um daqueles que voam  meia-noite...

- Muitos pssaros voam  meia-noite. - Cynric olhou para o seu vinho. - Qual era o 
nome do homem?

A CASA DA FLORESTA

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- Hadron - disse Gaius. - A sua mulher chamava-se Valeria.

- Sei pouco sobre pssaros - disse Cynric -, mas posso perguntar por a.

- Podero ter levado a criana para a Casa da Floresta? As tuas parentas sab-lo-lam?

- Posso perguntar - respondeu Cynric.

Preferia perguntar-lhe eu , pensou Gaius, mas no sabia como o dizer. E como sabia 
ele que Eilan queria, sequer, v-lo novamente? Se ela estava feliz na Casa da Floresta, 
no estaria ele apenas a quebrar a sua paz ao tentar v-la a? j tinha cumprido com o 
seu dever para com Valerius. Devia inventar alguma desculpa e desaparecer agora?

Percebeu que tinha estado calado durante muito tempo quando Cynric voltou a encher a 
sua taa do jarro de vinho e o empurrou de novo para ele.

- H mais qualquer coisa que uma simples criana perdida      disse o breto. - O que 
querias dizer na realidade?
 Tenho que ver Eilan outra vez - explodiu Gaius subi-

tamente. - juro que no tenho qualquer m inteno. Apenas quero saber se ela  feliz l.

Por um momento Cynric olhou fixamente para ele, depois atirou a cabea para trs com 
uma estrepitosa gargalhada que fez virar as cabeas em toda a sala.

- Ests apaixonado! - riu novamente. - Devia ter reconhecido os sintomas. No est a 
minha prpria rapariga fechada atrs daquelas mesmas paredes?

- Mas tu s um parente - disse Gaius seriamente. - Deixar-te-o falar com ela. 
Consegues arranjar alguma coisa para mim?
- Por que no? - sorriu maliciosamente Cynric. - Nunca

vi nenhuma razo para manter as sacerdotisas completamente engaioladas. Isso parece-
se com uma coisa que vocs romanos fariam. Dieda no me viu ou falou comigo desde 
que para l foi, mas a minha irm adoptiva no  nenhuma prisioneira. Verei o que 
posso fazer por ti. - Ele esvaziou a sua taa de vinho.
- Est na beira do caminho que conduz  Casa da Floresta daqui a trs dias, uma hora 
depois do meio-dia.

210

MARION ZIMMER BRADLEY

Enquanto Eilan esperava nos bosques perto do Bosque Sagrado, na pouco habitual luminosidade da matinal luz do 
Sol de Vero, ficou surpreendida por ver que estava a tremer. Primeiro, quando Cynric lhe tinha falado dum encontro 
com Gaius, tinha parecido como a resposta a uma orao invulgarmente fervorosa. Mas cedo percebeu que a coisa 
mais perigosa do mundo  uma prece atendida. As suas hipteses de manter o encontro secreto eram, na verdade, 
exguas. E ningum acreditaria nela se fossem descobertos.

Finalmente tinha ido ter com Caillean. para pedir um conselho.

- No h nada que possas fazer, uma vez que o chamaste aqui, a no ser encontrares-te com ele tal como combinado 
tinha replicado Caillean. - Mas eu vou estar sempre ao alcance do ouvido; para que, se mais tarde me perguntarem, 
possa jurar que os dois no trocaram nenhuma palavra que no pudesse ser dita na presena dos pais de qualquer um 
de vocs. Aceitas assim? 

Eilan tinha inclinado a cabea e virado para sair. Na verdade, at estava um pouco aliviada. Se devia falar com ele na 
presena da sacerdotisa ento no haveria qualquer possibilidade de ele lhe perguntar algo... perigoso.

- Espera! - tinha dito Caillean. - Por que trouxeste isto at mim? Decerto no imaginavas que eu iria aprovar!

- No estou a fazer nada que traia os meus votos. - Eilan encarou directamente a outra mulher. - Mas sei como as 
lnguas desocupadas podem enfeitar uma histria. Acredito que me aconselharieis o que penssseis ser certo, o que 
quer que pudsseis sentir! - E tinha-se, ento, virado de novo e partido. Mas lembrava-se com alguma satisfao do 
avermelhar de rubor que tinha manchado as faces da outra mulher.

E, assim, esperava, sabendo que com a implacvel observadora nada teria a temer. Se antes disto lhe tivessem 
perguntado se tinha medo de Gaiusteria respondido sem hesitao que no; mas,  medida que as sombras diminuam, 
comeou por ficar assustada, depois aterrorizada.

- Oh, Caillean. - Virou-se para a outra mulher, que estava sentada numa pedra na orla da clareira a trabalhar numa 
pea de bordado. - O que  que eu lhe vou dizer?

A CASA DA FLORESTA

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Por que me perguntas a mim? Dificilmente sou a pessoa indicada para aconselhar uma donzela nos seus negcios 
com um homem - respondeu Caillean com um sorriso sardnico.

Eilan suspirou.  medida que o tempo passava percebeu que ele levaria algum tempo a percorrer todo o caminho 
desde Deva. Mas, enquanto esperava, descobriu a sua mo enfiando-se na de Caillean.

Estava ela a misturar-se num assunto que no era, afinal de contas, nada que lhe dissesse respeito? No, disse 
firmemente a si prpria. Era claramente o seu dever descobrir tudo o que pudesse sobre os parentes da rapariga que 
ainda estavam vivos. Assim fortificada, ela esperou; e o seu corao comeou a bater quando por fim viu a sombra 
dele no caminho.

Era a primeira vez que via Gaius com o uniforme e o capacete da Legio romana; foi atingida pelo bem que lhe 
ficava. Ele parecia mais alto debaixo do carmesim capacete emplumado e a cor fazia realar os seus olhos escuros. 
Ele entrou na clareira e deteve-se. Se ficou surpreendido por ver duas mulheres em vez de uma apenas o demonstrou 
pelo momentneo pestanejar dos olhos. Saudando-as, tirou o capacete da cabea e p-lo debaixo dum brao.

Eilan encontrou-se a olhar fixamente. Nunca antes tinha tido mais que um olhar passageiro para um oficial romano 
em uniforme completo; e isso acentuava as diferenas entre eles. E no entanto , pensou, pelas leis deles somos 
todos romanos. Para ela foi como uma revelao.

Ele olhou para ela e sorriu; subitamente todas as coisas que ela tinha tencionado dizer-lhe varreram-se-lhe do esprito. 
Gaius virou o seu olhar de Eilan para a sacerdotisa mais

velha, pensando o que raio devia dizer. Nunca tinha previsto que o seu encontro fosse observado por uma terceira 
pessoa. No se tinha arriscado a enfurecer o seu pai e arriscado  ira do dela apenas para trocar algumas cuidadosas 
observaes na presena dum verdadeiro drago.

Mas quando encontrou o divertido olhar de Caillean a sua ira esfriou. Se Eilan era uma Virgem Vestal, ou a coisa 
mais perto disso que podia ser encontrada em todas as Ilhas Britnicas, dificilmente podia levar-lhe a mal por querer 
uma testemunha que confirmasse no ter quebrado os seus votos. Pensou como podia

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tornar claro que, para ele, ela era to sacrossanta como uma Virgem no templo de Vesta. 
Lembrou-se o quanto tinha ficado subjugado com a confiana dela quando se tinha 
sentado a seu lado nas fogueiras de Beltane, quo tocado pela sua inocncia.

Caillean, claro, era outro assunto; ele podia dizer sem precisar de pensar que a mulher 
mais velha no teria confiado nele - ou em ambos - longe da sua vista, e, por causa de 
Eilan, sentiu-se indignado. Mas, supunha, as sacerdotisas deviam ter sido educadas em 
histrias de ultrajes romanos. Para as mulheres da Casa da Floresta o simples facto de 
ele ser romano, e homem, era mais que suficiente.

E a verdade era que se Caillean ali no estivesse ele poderia ter beijado Eilan; ela estava 
muito sedutora no vestido de plido linho que realava o dourado do seu cabelo. Ele 
pensou que este traje devia ser uma espcie de vestido padro entre as sacerdotisas, pois 
Caillean estava a usar o mesmo tipo de roupagens, se bem que as dela fossem azuis-
escuras e lhe ficassem mal. Ambas tinham pequenas adagas curvas penduradas nos 
cintos.

Passado um instante, Eilan comeou a contar-lhe sobre a rapariga que estava na Casa da 
Floresta, no muito coerentemente, mas ele percebeu logo que ela devia ser a filha da 
irm de Valerius.

- Mas isto  extraordinrio - exclamou. - Penso que ela deve ser a mesma rapariga sobre 
a qual vim aqui para falar contigo, a sobrinha do secretrio do meu pai. Que idade tem 
ela?

- De facto, a Deusa deve estar a guiar-nos - disse Eilan.
- Penso que no tenha passado o seu dcimo aniversrio.
- Oh, bem, ela no  suficientemente velha para ser casa-

doura - disse ele, pois a lei romana no o autorizava a uma rapariga com menos de doze 
anos. Ele acrescentou alegremente:
- Isso  bom; de outro modo Valerius sentir-se-ia provavelmente obrigado pela sua 
honra a fazer algum arranjo. Agora apenas ter de se casar com algum para arranjar um 
lar para ela.

- Isso no  necessrio - disse Eilan. - A rapariga est bem e feliz onde est e podes 
dizer-lho.

Gaius franziu as sobrancelhas, sabia que para Valerius, que descendia duma boa e 
antiga famlia, no seria considerado

A CASA DA FLORESTA

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adequado que uma parenta vivesse fora da proteco da famlia. Mas Valerius no tinha 
qualquer outra famlia, agora, para tomar conta da rapariga, e talvez a insistncia de 
Eilan em como seria ela a cuidar pessoalmente da sade e segurana da criana fosse 
suficiente para ele.

Afinal de contas, em Roma, para uma rapariguinha, a maior honra possvel era a de ser 
levada para o templo de Vesta. Enquanto ela conservasse o seu estatuto ritual, era, no 
mnimo, tratada como uma rainha ou uma imperatriz. Arranjaria alguma maneira de 
Valerius o compreender.

Tinha a conscincia de que estava ainda a fazer vs observaes sobre a rapariguinha, a 
qual no tinha sequer visto nunca, quando viu Caillean a olhar para ele. j tinham dito 
tudo o que legitimamente podiam dizer um ao outro, e estavam a comear a repetir-se. 
Era altura de se despedirem,

Ele deteve-se, olhando para Eilan ansiosamente. Supunha que nunca mais teria outra 
oportunidade de falar com ela, mesmo com este gnero de privacidade. Teria gostado de 
se ter despedido como devia ser, mas certamente que no o faria sob o olhar de Caillean. 
E, de qualquer modo, seria provavelmente melhor que ele prprio no se expusesse a 
uma tentao desse gnero. Mas Eilan ainda estava a olhar para ele, uma pergunta nos 
seus olhos.

- Eilan... - gaguejou, pois Caillean tambm estava a olhar.
- Sabes o que eu te diria... - Ele estendeu a mo, no se atrevendo a tocar-lhe, e ento, 
como Caillean tossiu, transformou o gesto numa saudao formal de despedida. Mas leu 
a resposta de Eilan no seu sorriso.

Depois de ele se ter retirado, Eilan correu para Caillean.
- Ento  este o romano que te tem mantido a sonhar acordada at ao ponto de 
dificilmente se poder confiar em ti, at mesmo para encher um colcho com fetos. No 
consigo perceber; a mim no me parece que ele tenha nada de especial.

- Bem, no supus que visseis a gostar particularmente dele   protestou Eilan -, mas ele 
 bem parecido, no ?
 No vejo que o seja mais que qualquer outro romano -
notou Caillean. - Ou, j que falamos nisso, que qualquer outro homem. Para mim, o teu 
irmo adoptivo, Cynric,  muito mais

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m parecido. Tem uma face mais gentil e no parece acreditar que o mundo deve girar  
sua volta.

Eilan pensou que no podia haveruma medida para o gosto; ela prpria no pensava que 
Cynric fosse particularmente atraente, mas Dieda certamente que achava. Mas Gaius era 
uma coisa diferente; para ela ele no parecia de modo nenhum tipicamente romano. 
Nem o prprio Gaius parecia pensar na sua ascendncia romana como se isso fosse uma 
coisa muito especial. Certamente que no o podia fazer se, durante algum tempo, 
esteve a pensar em abandon-la para casar comigo , disse ela para consigo mesma.

No tinha, nunca, por um instante posto a hiptese de casar com qualquer outro homem; 
e quanto a homens, o mundo estava cheio deles. Ela mal calculava o quanto o pensar em 
Gaius se tinha intrometido entre a sua antiga vida e o que agora lhe parecia natural.

- Eilan, ests a sonhar em p outra vez - notou Caillean asperamente. - Vai procurar 
Senara e diz-lhe o que descobriste; e depois vai ter com Latis para a tua lio. Se 
conseguires prestar ateno pode ser que algum dia sejas to capaz na tradio das ervas 
como Miellyn.

Assim admoestada, Eilan partiu para os seus deveres: mas no conseguia resistir a 
repassar obsessivamente, uma e outra vez, cada palavra que tinha dito a Gaius e cada 
palavra que ele lhe tinha dito. No podia acreditar que nunca mais o veria ou falaria 
com ele; parecia que ele fazia j parte da sua vida, mesmo depois da sua despedida 
formal.

Nessa noite, quando entrou no seu turno para servir Lhiannon, a mulher mais velha 
olhou para ela consternada.

- O que  que ouvi dizer? Que estiveste fora do templo para te encontrares com um 
homem? No  esse o comportamento que se espera duma sacerdotisa da Casa da 
Floresta. Estou desapontada contigo - ralhou-lhe ela.

Eilan corou, zangada. Mas,    afinal de contas, tinha sido exactamente por causa disto 
que tinha pedido a Caillean para testemunhar o seu encontro.

- No lhe disse nem uma palavra que no pudesse ter sido dita na presena de todas vs.

Lhiannon suspirou.

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- No disse que o tenhas feito, mas o que  facto  que  no foi dita na presena de todas 
ns e haver falatrio. A Deusa seja louvada, Caillean estava l; mas ela devia saber que 
no podemos dar-nos ao luxo de ter nem que seja a suspeita dum escndalo, de modo 
que  ela e no tu que ir ser punida por isto. Mas antes que faas de novo algo do 
gnero, imploro-te que penses que fizeste com que um castigo casse sobre a cabea de 
outra. Tu s jovem, Eilan, e os jovens so sempre irreflectidos.

- Castigada? Mas isso no  justo! O que ireis vs fazer-lhe?    perguntou 
apreensivamente Eilan.

No lhe baterei, se  nisso que ests a pensar - disse Lhiannon sorrindo. - Mesmo 
quando ela era uma criana pequena nunca lhe bati; talvez o devesse ter feito. Quanto ao 
seu castigo,  com ela o dizer-te se o quiser.

- Mas, Me - protestou Eilan -, fostes vs que me dissestes para indagar se a criana 
tinha alguma famlia.

- No disse que devias indagar entre os romanos - disse irritadamente Lhiannon.
 Eilan pensou como  que se podia esperar que ela encontrasse os familiares de uma 
criana romana de outra maneira.

Mais tarde, entre as sacerdotisas, Eilan encontrou uma oportunidade de falar com 
Caillean.

- Lhiannon disse-me que tinha de te castigar. Podes perdoar-me? Ser muito mau? Ela 
disse que no te bateria.

- No o far - disse Caillean. - H uma casa na floresta para onde ela provavelmente me 
mandar passar algum tempo a meditar nos meus pecados enquanto limpo os arbustos e 
as ervas daninhas que a rodeiam e ponho o stio em ordem. No  um grande castigo; 
provavelmente Lhiannon no se d conta que para mim, na verdade,  um luxo estar 
sozinha com a minha msica e os meus pensamentos. Sendo assim, no deves pensar 
que estou a ser maltratada.

- Sozinha na floresta? Mas no ters medo?

- O que  que me assustaria? Ursos? Lobos? Vagabundos? Os ltimos ursos vistos nesta 
parte do mundo foram apanhados h mais de trinta anos. E quanto tempo  que j se 
passou desde que viste nem que fosse apenas um tapete de pele de lobo no mercado? E 
quanto aos homens, tens boas razes para saber

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MARION ZIMMER BRADLEY

que posso assustar qualquer homem ao cimo da terra. No, eu no tenho medo.

- Eu ficaria aterrorizada - disse Eilan sombriamente,

- Estou certa que sim; mas eu no tenho medo da minha prpria companhia. E, sem ter uma lio ou uma 
tarefa a interromper-me, posso pensar na minha msica o tempo que me apetecer. Assim, ficarei feliz - 
assegurou-lhe Cailian. - No h nada neste castigo, se  ela assim que lhe chama, que me preocupe.

Eilan no disse mais nada, e sabia que, pelo menos quando se tratasse do que respeitava a cuidar de 
Lhiannon, ela e Dieda partilhariam de boa vontade as tarefas de Caillean entre si. Bem, isso no era 
nenhum sofrimento; ela amava Lhiannon apesar dos seus defeitos e sabia que a sua parenta tambm 
gostava dela. Iria, contudo, sentir a falta de Caillean.

Ocorria-lhe, agora, que se Lhiannon fosse um tipo de pessoa diferente, ela prpria poderia ter sido 
sovada ou severamente punida. o que quer que Caillean pensasse do seu castigo, tinha sido Eilan que o 
tinha trazido para cima da mulher mais velha. Sentia-se culpada por isso, mas no o suficiente para 
lamentar o seu encontro com Gaius. Desejava, apenas, ter sido capaz de dizer metade do que tinha 
querido, se bem que o que isso era no o pudesse nomear.

Quando Caillean partiu da Casa da Floresta, Eilan percebeu que a mulher mais velha no era, na 
verdade, muito popular entre as outras mulheres. Apenas Miellyn e Eilidh pareciam ser 
verdadeiramente suas amigas - e, claro, Lhiannon.

O tempo mudou enquanto o Vero se aproximava do Outono.  medida que o equincio se aproximava 
comeou a chover, e, j no final duma tarde, enquanto as mulheres na Casa das Donzelas se Sentavam  
roda do fogo, Eilan encontrou-se a pensar em Caillean no seu exlio, Pingaria o tecto da cabana? Como 
reagiria ela  solido e ao silncio da floresta?

As mulheres tinham estado a inventar charadas e, finalmente cansadas desse passatempo, pediram a 
Dieda para cantar ou para lhes contar uma histria.

Dieda aquiesceu.

A CASA DA FLORESTA

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- O que querem que lhes conte?

- Conta-nos uma histria do Outro Mundo - disse Miellyn,
- Conta-nos como Bran, filho de Febal, viajou para as terras do ocidente. Todos os bardos aprendem essa.

E assim Dieda, meio contou, meio cantou, a histria de Bran e do seu encontro com o deus do mar, 
Manannan, Senhor da Iluso, que transformou o mar numa florescente floresta de rvores, os peixes em 
pssaros a voar no ar, as ondas em floridos arbustos e as criaturas do mar em carneiros; assim parecia 
como se estivessem a velejar no meio dum florido bosque, E quando Manannan caiu do barco abaixo as 
ondas vieram a correr at ele, de tal modo que o deus do mar foi depositado na praia e todos os outros 
homens se afogaram.

Quando acabou elas pediram outra histria, como se fossem criancinhas que estivessem sentadas com 
um encantamento.
- Conta a histria do Rei e das Trs Bruxas - sugeriu uma

das mulheres, e Dieda comeou-a tal como todas as histrias eram comeadas.

- H muito tempo, os tempos eram melhores que agora e havia mais portes entre o Outro Mundo e 
este, e se eu l tivesse estado no estaria aqui agora... Bem, ento, h mais tempo que aquele que o mais 
velho dos avs se pode lembrar, numa casa na fronteira com o Mundo Subterrneo, vivia um rei e a sua 
rainha...

E foi na vspera de Samaine, quando os portes entre os mundos esto abertos, e no tempo entre os 
tempos, entre a meia-noite de um dia e a alvorada do dia seguinte, que chegaram trs bruxas  sua porta. 
A primeira tinha um focinho como o de um porco e o seu lbio inferior pendia-lhe at aos joelhos e 
escondia o seu traje; a segunda tinha ambos os lbios dum dos lados da cabea e uma barba pendurada 
que lhe ocultava os seios; e a terceira era uma criatura horrenda, com um brao e uma perna. Debaixo 
do brao transportava um porco que era to mais bem parecido que ela que era como se o porco fosse 
uma princesa.

Nesta altura j todas as mulheres estavam a rir. A prpria Dieda sorriu um pouco e continuou.

- As trs bruxas entraram e sentaram-se em trs bancos ao p do fogo, de modo que no havia lugares 
perto do fogo para
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MARION ZIMMER BRADLEY

o Rei e para a sua rainha, que se viram forados a se sentar perto
da porta.

Ento, a primeira delas, a do grande lbio, disse: Estou
com fome; o que tens para comer? E eles apressaram-se a  fazer-lhe uma panela de 
papa de aveia; e ela comeu o panelo de papa de aveia, que chegava para uma dzia de 
homens, e gritou: Vs sois mesquinhos, ainda tenho fome.

Ora nesta noite nenhum pedido dum hspede pode ser recusado; e assim a Rainha e as 
suas serviais prepararam-se para fazer mais papa de aveia para os seus hspedes e 
puseram alguns bolinhos de aveia a cozer na lareira. Mas no importava quanta comida 
punham  frente da convidada que ela resmungava, Ainda tenho fome.

Ento, a segunda, a barbada, queixou-se, Tenho sede. Quando trouxeram um barril 
de cerveja, ela bebeu-o todo dum s gole e queixou-se que ainda estava seca. E quando 
comearam a recear que as bruxas fossem comer todas as provises para o Inverno que 
se aproximava, a Rainha e o Rei saram e conferenciaram sobre o que deveriam fazer 
com as suas hspedes. E ento, um dos do Povo Alegre apareceu-lhes vindo de trs dum 
morro e deu os bons-dias  Rainha.

- Que todos os deuses vos guardem, boa senhora; porque estais a chorar? - E a Rainha 
contou-lhe sobre as trs horrendas bruxas e do medo que tinha que as criaturas 
tencionassem comer tudo o que tinham e, depois, comer o Rei e a Rainha. E a fada 
disse-lhes o que deviam fazer.

- Assim, a Rainha entrou e sentou-se a tricotar; e, finalmente, a primeira bruxa 
perguntou, O que ests a fazer, Avzinha?
- E a Rainha replicou, A tricotar uma mortalha, cara Tiazinha.

- E a segunda bruxa perguntou, atravs da sua barba. Para quem  a mortalha, 
Avzinha?

- Oh, Para quem quer que eu encontre que esteja sem ter onde dormir esta noite, cara 
Tiazinha .

- E, passados uns instantes, a terceira perguntou, beijando o seu porco, E quando  que 
irs usar a mortalha, Avzinha?

- E nesse preciso momento o Rei entrou disparado e gritou, A montanha negra e o cu 
sobre ela esto a arder.

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- E quando ouviram isto, as trs bruxas gritaram, ALAS, ALAS, o nosso pai foi-se , e 
saram pela porta fora, e nunca mais foram vistas nesse pas por nenhum ser vivo; ou se 
o foram, ento no ouvi nada sobre isso.

Dieda calou-se. Depois de uma longa pausa, enquanto o vento gemia ruidosamente  
volta do edifcio, Miellyn disse:
-  Ouvi Caillean contar uma histria muito parecida com

essa h muito tempo; aprendeste-a com ela?

-  No - disse Dieda. - Ouvi o meu pai cont-la uma vez quando era muito pequena.

-  Suponho que  muito antiga - disse Miellyn - e, claro, ele  um dos maiores bardos. 
Mas tu contaste-a to bem como qualquer druida. Tu ou Caillean podiam chefiar a 
escola to bem como ele.

- Oh, sem dvida - zombou Dieda. - E por que no fazer de ns juizas, tambm?

Por que no, de facto?, pensou Eilan. Caillean teria tido uma resposta para isso, mas 
Caillean no estava aqui.

TREZE

Depois de Gaius ter tranquilizado Valerius transmitindo-lhe que a sua parenta estava a 
salvo ao cuidado de Eilan, na Casa da Floresta, fez planos para partir outra vez antes do 
seu pai o comear a importunar sobre o casamento. Desde que tinha visto Eilan estava 
ainda mais determinado a no deixar que o casassem com qualquer rapariga romana, 
Desde a morte do Imperador Tito, e da ascenso ao trono de Domiciano, a insegurana 
era geral e Gaius sabia que o pai estava a tentar procurar alianas.

Passado algum tempo foi  cidade. A manh tinha estado opressivamente quente e 
hmida, mas nesta altura estavam-se a formar grandes nuvens a Oeste e sentiu o cabelo 
agitado por um vento frio. Uma vez, um velho centurio tinha-lhe dito que neste pas 
havia duas maneiras de descrever o tempo: se se conseguia ver as montanhas, estava 
para chover; se no, j estava a chover. O homem tinha suspirado, ento, com saudades 
dos claros cus azuis de Itlia, mas Gaius deu um agradecido alento do vento hmido. 
Quando caiu a primeira gota de chuva os romanos comearam a correr  procura de 
abrigo. Mas havia um homem que permaneceu imvel, tal como ele, de cara voltada 
para o cu.

Sem grande surpresa, Gaius reconheceu Cynric.

- Acompanhas-me numa taa de vinho? - E fez um gesto na direco da taberna onde se 
tinham encontrado antes. Cynric abanou a cabea.

- obrigado; penso que  melhor no. Preferia que pudesses dizer que no me viste. Para 
dizer a verdade, seria muito melhor para ti se pudesses dizer que no sabes muito sobre 
as minhas idas e vindas. Desse modo no terei de te pedir que mintas.

222

MARION ZIMMER BRADLEY

Gaius levantou uma sobrancelha.
- Ests a brincar?

- Quem me dera que estivesse. Eu nem devia estar aqui a falar contigo desta maneira; se bem 
que tu possas honestamente dizer que me encontraste por acaso.

- No te preocupes - disse Gaius, olhando  sua volta. Uma rajada de vento fez com que gotas 
de chuva cassem na estrada, levantando pequenos montes de poeira ao cair.

- Todos os bons romanos esto a salvo abrigados e no querem saber de dois malucos parados  
chuva! Ouve, Cynric, preciso de falar contigo sobre Eilan...

Cynric fez uma careta.

- Imploro-te, no fales sobre isso. Esse deve ter sido o maior erro que fiz este ano; Lhiannon 
ficou furiosa comigo. No foi feito nenhum verdadeiro mal, mas no tentes ver a minha irm 
adoptiva outra vez. - Ele olhou nervosamente  sua volta. - Mesmo que possas dar-te a esse 
luxo, eu no devo ser visto a falar com um oficial das legies em uniforme completo. De facto, 
o melhor  mesmo fazeres de conta que no me conheces se por acaso nos encontrarmos de 
novo.

E acrescentou:

- No me ofenderei. Algum finalmente percebeu que eu ainda estava a trabalhar para os 
Ravens e ocorreu-lhes que o estar a servir nos auxiliares me colocava numa posio ideal para 
provocar sarilhos quando chegasse a ocasio. Assim, proscreveram-me, e se for avistado a 
menos de vinte milhas da cidade romana posso ser condenado para as minas, ou a algo pior, se  
que h alguma coisa pior. Felicidades! - Cynric virou-se.

Gaius pestanejou, percebendo subitamente que Cynric j no usava a insgnia de Roma. Devia 
ser por isso que ele estava disposto a falar to sinceramente. Estava ainda a tentar pensar 
nalguma coisa para dizer quando o amigo se meteu por uma rua lateral e desapareceu, deixando-
o sozinho  chuva. Gaius avaliou o impulso de segui-lo. Se Cynric era verdadeiramente um 
inimigo de Roma, at uma morte rpida era prefervel a mand-lo para as minas de chumbo de 
Mendip.

No tentes ver a minha irm adoptiva outra vez.

As palavras de Cynric ecoaram-lhe na cabea. Era este, ento, o fim da sua esperana de 
contacto com Eilan? Sem dvida que

A CASA DA FLORESTA

223

Cynric e o seu pai tinham razo. Quando puxou as vermelhas escuras dobras do seu capote 
militar para cima da cabea e comeou a descer a rua, a humidade nas suas faces no era 
inteiramente da chuva.

Caillean parou na soleira da porta do salo principal, estremecendo quando a tagarelice lhe 
atingiu os ouvidos. Depois de mais de duas luas sozinha, tinha-se esquecido da quantidade de 
barulho que as mulheres eram capazes de fazer quando estavam todas engaioladas juntas. Por 
um momento o seu desejo foi virar-se e fugir para a solido da sua cabana na floresta.

- Ento ests de volta - comentou Dieda, reparando finalmente nela. - Admiro-me porqu, 
depois do modo como Lhiannon te tratou. Tendo-te visto livre de ns, pensava que terias 
continuado a ir!

- E por que ests tu ainda aqui? - replicou Caillean excitada. - O homem que amaste est l 
longe, no Norte, com as aguias a persegui-lo. No ser o teu lugar, ento, a seu lado?

Durante um instante a raiva brilhou na cara da mulher mais nova, para ser rapidamente 
substituda por algo parecido com desespero.

- Pensas que eu no teria fugido daqui nesse mesmo instante se ele mo tivesse pedido? - 
perguntou ela com amargura. - Mas a sua lealdade est entregue  Senhora dos Ravens e se no 
posso ser a primeira para o homem que amo prefiro tomar os votos finais duma sacerdotisa e 
no ter nenhum de todo!
- A voz falhou-lhe quando as outras mulheres se viraram e Caillean olhou para ela com uma 
piedade relutante, grata por nunca ter sido tentada a amar.

- Caillean... - Eilidh apressou-se     na sua direco. - Tinha a esperana que voltasses hoje. 
Lhiannon  est nos seus alojamentos. Vai ter com ela j. Ela nunca se\queixa mas eu sei que tem 
sentido a tua falta.

E bem que pode , pensou Caillean enquanto atravessava o ptio, puxando o xale por cima da 
cabea para afastar a chuva, uma vez que foi ela que me mandou embora!

Como sempre depois de uma ausncia, Caillean sentiu-se chocada com a fragilidade de 
Lhiannon. Ela no far ossos

224

MARION ZIMMER BRADLEY

Velhos , pensou, olhando para ela. No havia nenhum sinal aparente de doena, apenas 
uma cada vez maior transparncia, mas um instinto aguado por anos de sacerdotisa 
disse-lhe que a mulher mais velha estava a ser consumida a partir do seu interior.

- Me, estou aqui - disse suavemente. - Quereis ver-me? Lhiannon voltou-se e Caillean 
viu que os seus lnguidos olhos brilhavam com lgrimas.

- Tenho estado  tua espera - disse suavemente. - Perdoar-me-s o ter-te mandado 
embora?

Caillean abanou a cabea, sentindo a sua prpria garganta a apertar-se e atravessou 
rapidamente o quarto para se ajoelhar perto da cadeira da Gr Sacerdotisa.

- O que h para perdoar? - perguntou debilmente, pousando a cabea nos joelhos da 
mulher mais velha. Sentiu as suas prprias lgrimas comearem a cair quando Lhiannon 
lhe tocou no cabelo. - Nunca me devia ter tornado numa sacerdotisa, tal o problema que 
tenho sido para vs! - Subitamente, graas quele terno toque na sua testa, uma barreira 
que tinha comeado a abrir fendas quando abriu o corao a Eilan, h tanto tempo, foi 
completamente varrida.

- Nunca vos consegui dizer - murmurou. - Primeiro no compreendia, depois tive 
vergonha. No sou uma donzela pura. Em Eriu, antes de me terdes encontrado, fui usada 
por um homem... - A voz embargou-se. Houve um silncio e, depois, os finos dedos 
comearam de novo a acariciar-lhe o cabelo.

-  Ah, pequenina,  isso que te tem perturbado? Eu sabia que havia qualquer coisa, mas 
no quis perguntar. No eras ainda sequer uma mulher quando te trouxe de Eriu. Como 
podias pecar? Se no falamos dessas coisas  apenas porque h aqueles que no 
compreenderiam. Devemos manter as aparncias. Mas ouve Caillean, minha querida... o 
que quer que te tenha acontecido antes de teres vindo para c no tem importncia, no 
para a Deusa, e certamente no para mim, desde que enquanto tu viveres na Sua Casa a 
sirvas bem e fielmente!

Ainda a chorar, Caillean estendeu as mos para apertar as da mulher mais velha. Apesar 
de exasperos ocasionais, compreendeu ento que o que sentia por Lhiannon era decerto 
to profundo

A CASA DA FLORESTA

225

como qualquer amor que pudesse ter sentido por qualquer homem, se bem que de um 
gnero diferente. E tambm amava Eilan, cuja compreenso lhe tinha primeiro 
permitido enfrentar essas memrias. Mas, pelo menos, nenhum destes amores entraria, 
nunca, em conflito com os seus votos como sacerdotisa.

Houve momentos, durante os dias do exlio de Caillean, em que as gotas de chuva que 
caram dos beirais da Casa da Floresta tinham parecido enraizar-se no corao de Eilan. 
Gaius tinha partido, e ela no o veria novamente; isso tinha-lhe sido tornado claro. Foi 
um alvio ver esses pensamentos interrompidos quando Caillean mandou chamar por 
ela.

- Estais de volta! - exclamou quando passou pelas cortinas de l penduradas na porta do 
quarto de Caillean. - Ningum me tinha dito! H quanto tempo estais c?

- Um dia apenas - disse a sacerdotisa. - Estive com Lhiannon.

Eilan abraou-a e chegou-se para trs, para olhar para Caillean de cima a baixo.

- No te fez nenhum mal, em qualquer caso. - Ela parecia bronzeada e saudvel, e a 
pequena ruga que por vezes marcava o crescente azul tatuado entre as suas sobrancelhas 
tinha-se desvanecido. - Eles j te perdoaram pelo meu crime?

Caillean sorriu.

- Est esquecido. E  por isso, criana, que eu te mandei chamar. j aqui ests h trs 
anos e tens-te portado bem nos teus estudos. Chegou a altura de decidires se te queres 
tornar verdadeiramente numa de ns e tomar os teus votos.

- j se passou tanto tempo? - Era difcil de acreditar que afilha de Mairi era ja uma 
vicejante criana com    trs anos de idade, e que o seu filho mais velho estava quase 
com  cinco. E no entanto, ao mesmo tempo, parecia a Eilan que tinha estado aqui desde 
sempre, A sua antiga vida estava esquecida, e quando sonhava com Gaius era sempre 
com os braos dele  sua volta, a voz a murmurar-lhe ao ouvido. No conseguia 
imaginar-se a viver com ele no mundo romano.

- A Dieda tambm ir tomar votos agora? - Estavam todas conscientes da amargura de 
Dieda em relao ao que ela via como

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MARION ZIMMER BRADLEY

a desero de Cynric, e agora, que ele estava proscrito, quem podia dizer quando seria 
seguro para ele    voltar? O seu
empenhamento num treino de guerreiro e a sua vingana ainda comandavam a sua 
primeira lealdade. Como a lealdade que prende Gaius ao mundo do seu pai , pensou 
Eilan.

- Isso  entre ela e a Deusa - disse severamente Caillean.
- Agora estamos a falar de ti.  ainda o teu desejo continuar entre ns, pequenina?

Dieda tomar os seus votos, e tambm eu o farei , pensou Eilan. Por que no, 
quando nenhuma de ns pode jamais vir a ter o homem que ama?

- Sim, . Pelo menos... - hesitou - se a Deusa ainda me quiser, sabendo que o meu amor 
foi primeiro dado a um homem.

- Isso no importa - Caillean sorriu radiante. - A Deusa no toma em considerao nada 
que te tenha acontecido antes de teres tomado os teus votos. Finalmente contei a 
Lhiannon o que me tinha acontecido e ela assegurou-me que assim .  a ti que devo 
essa bno, e fico feliz de poder transmitir-ta!

- H alguns que no o veriam desse modo - disse Eilan com amargura.

- No deves deixar que eles te perturbem. - Caillean colocou-lhe as mos nos ombros e 
fitou-a nos olhos, e pareceu a Eilan que os escuros olhos da sacerdotisa eram como o 
lago sagrado, no qual passado e futuro podiam ser vistos.

- Ouve, irmzinha, e dir-te-ei a verdade que existe no corao dos mistrios. Todos os 
deuses, e tambm todas as deusas, so um, quer lhe chamemos Arianrhod, ou 
Cathubodva, ou Don. A Luz da Verdade  Uma, mas ns vemo-la como a luz que se 
reflecte atravs de cristais ou prismas, em muitas cores. Cada um dos modos pelo qual 
homens e mulheres vem os seus deuses, ou as suas deusas, contm uma parte dessa 
verdade. Ns, que vivemos na Casa da Floresta, somos privilegiadas por vermos a 
Deusa de muitas maneiras, e por cham-la por muitos nomes, mas conhecemos este 
primeiro e maior de todos os segredos, e que  que os deuses, como quer que lhes 
chamem, so todos um.

- Ento isto significa que os deuses dos romanos so os mesmos deuses e deusas que 
ns servimos?

A CASA DA FLORESTA

227

- De facto...  por isso que eles esculpem as suas imagens com os atributos de ambos, 
quando aqui constroem os seus altares votivos. Mas  verdade que, enquanto ns na 
Casa da Floresta conhecemos a identidade de todos os deuses por qualquer nome que 
lhes possamos chamar, acreditamos que servimos a Deusa naquela que , talvez, a mais 
pura das Suas formas, a da divindade presente em todas as mulheres. E assim ns 
comprometemo-nos a servi-la como Me, Irm e Filha.  por isto que, por vezes, 
dizemos que vemos a Face da Deusa na face de todas as mulheres.

Por um momento, a exaltao nas palavras de Caillean avassalou-a, depois sentiu um 
sbito acesso de clera. Por que  que tinham ficado todos to zangados devido ao seu 
interesse por um romano, se os seus deuses eram todos os mesmos? Caillean tinha 
estado presente quando ela tinha falado com Gaius, e sabia o que ela sentia por ele. 
Como  que ela podia dizer que esses sentimentos j no teriam importncia quando ela 
tivesse tomado os votos? Eles eram uma parte dela, to sagrados como o xtase que ela 
por vezes sentia quando a presena da Deusa a inundava como a luz do luar a brilhar no 
lago sagrado.

- O que ser exigido de mim?

- Fars o voto de permanecer casta para sempre, a no ser que  sejas escolhida pelo 
deus. E comprometer-te-s a no falar disparatadamente dos segredos do templo com os 
no ajuramentados, e que te esforars sempre para cumprir a vontade da Deusa e de 
quem quer que legitimamente te d ordens em qualquer dos

seus nomes.

Caillean fez uma pausa, observando-a, e Eilan reflectiu no quanto a amava e tinha 
acabado por amar as outras mulheres e a vida que aqui levavam. Enfrentou o escuro 
olhar da sacerdotisa.

- jurarei de boa vontade tudo isso...

- E demonstrars que s senhora das artes que te ensinmos e que a Deusa est disposta 
a aceitar-te? Compreenders que no to posso descrever... na realidade, dizem que para 
cada candidata o ordlio  diferente, de modo que, mesmo que o meu juramento o no 
proibisse, no te podia dizer mais nada.

228

MARION ZIMMER BRADLEY

Eilan reprimiu um arrepio de ansiedade. Vivendo na Casa da
Floresta, tinha ouvido rumores de candidatas que tinham falhado e sido mandadas 
embora, ou, pior ainda, desaparecido.

- Eu compreendo, e estou disposta - disse calmamente.
- Ento, assim seja - disse Caillean - em Seu nome dou-te agora as boas-vindas como 
candidata a sacerdotisa. - Ela beijou Eilan na face, e esta lembrou-se de que uma das 
sacerdotisas mais jovens lhe tinha feito o mesmo quando chegou  Casa da Floresta pela 
primeira vez. Durante uns instantes os dois beijos confundiram-se; pestanejou, 
entontecida pela sensao de estar a repetir um momento que j tinha vivido muitas 
vezes antes.

- Ento, tomars os teus votos na lua cheia antes de Samaine, na presena das 
sacerdotisas. Lhiannon e o teu av ficaro muito satisfeitos.

Eilan olhou fixamente para ela. Decerto ela no estava a fazer isto por causa deles! 
Caillean tinha-lhe pedido para escolher, mas no teria a sua deciso sido, de facto, 
influenciada pelas expectativas da sua famlia e, talvez, por outras foras obscuramente 
pairando nas sombras para l da percepo?

- Caillean... - murmurou, estendendo os braos para a sacerdotisa. - Se eu me consagrar 
 Deusa no ser porque sou filha e neta de Druidas, ou at porque nunca mais vou ver 
Gaius? Tem que haver algo mais.

Caillean olhou para ela.

- Quando nos encontrmos pela primeira vez pareceu-me que tinhas um destino entre 
ns - disse devagar. - Sinto-o ainda com mais fora agora. Mas no posso garantir que 
sejas feliz, criana.

- No espero ser... - a respirao de Eilan prendeu-se num soluo. - Desde que haja 
alguma razo, alguma finalidade, nisto tudo!

Caillean suspirou e estendeu os braos, e Eilan encostou-se a ela, sentindo o aperto na 
sua garganta aliviar-se quando a outra mulher lhe acariciou o cabelo.

- H sempre uma razo, minha querida, se bem que se possa passar muito tempo antes 
que a percebamos...  este todo o conforto que te posso oferecer. Se a Deusa no sabe o 
que Ela est a fazer, qual o significado, ento, do mundo?

A CASA DA FLORESTA

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-  suficiente - murmurou Eilan, ouvindo o corao da outra mulher a bater, regular e 
vagarosamente, por baixo do seu ouvido. - Se tambm tiver o teu amor.

- Tens... - A voz de Caillean era to baixa que mal podia ser ouvida. - Amo-te como 
Lhiannon me tem amado a mim...

A Lua cheia olhava para baixo dos cus como um vigilante olho, como se Arianrhod 
tivesse decidido observar pessoalmente as cerimnias. Quando o cntico das 
sacerdotisas que a tinham trazido at aqui se tinha desvanecido at um total silncio, um 
frio interior percorreu os braos de Eilan apesar de a noite estar quente. Teria ela estado 
 espera que chovesse? No teria feito nenhuma diferena; se os druidas tivessem 
deixado que o tempo afectasse os seus rituais, seria porque a sua religio no era grande 
coisa. Sabia que devia estar grata por os cus terem decidido abenoar a sua iniciao, 
mas o luar fazia-a sentir-se inquieta.

Pelo menos a luminosidade tornaria mais fcil seguir o caminho, e tudo o que as 
sacerdotisas tinham pedido era que ela atravessasse a floresta de volta ao templo, o que 
no parecia um grande ordlio. Desejosa de ver tudo acabado, Eilan apressou-se pelo 
meio das sombras por baixo das rvores, longe do implacvel olhar da Lua.

Tinha andado apenas o tempo que leva a fiar uma jarda de fio quando se apercebeu de 
que estava perdida.

Controlando a respirao, Eilan voltou-se. Isto, supunha ela, deve ser o primeiro teste ao 
seu treino, para ver se ela conseguia usar os seus sentidos interiores para encontrar o 
caminho. Ela atraiu a si o imutvel poder da terra por baixo dela - isso, pelo menos, no 
tinha mudado. As energias da Lua e das estrelas cantavam l no alto e, enquanto se abria 
para se tornar o pilar que unia essas foras, expirando e inspirando num ritmo regular 
at saber que se encontrava no centro do universo, o medo desapareceu.

Abriu os olhos uma vez mais. O pnico tinha desaparecido, mas o luar que se filtrava 
atravs das folhas parecia vir de todos os lados ao mesmo tempo, e ela no fazia a 
mnima ideia em que direco estava o templo. Apesar disso, se escolhesse uma direc-

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MARION ZIMMER BRADLEY

o qualquer, e a seguisse, eventualmente conseguiria atravessar a floresta. Houve uma 
altura, tinham-lhe dito , em que toda esta <

ilha tinha estado coberta de rvores, mas agora a terra estava salpicada com estradas, 
pastagens e campos. Certamente no teria de caminhar muito tempo antes de encontrar 
algum que lhe pudesse indicar o caminho.

Cantando suavemente com os lbios fechados, Eilan continuou o seu caminho em frente 
e s mais tarde se apercebeu de que o que tinha estado a cantar era a cano que as 
sacerdotisas cantavam quando da ascenso da Lua.

Enquanto andava, a salpicada luminosidade da Lua transformou o mundo e ela percebeu 
porque a tinha assustado. Cada galho estava delineado em prata; as folhas brilhavam, e a 
luz danava e tremeluzia em cada pedra... mas, agora, Eilan percebeu que estava a ver 
algo mais que o luar. Cada ser vivo na floresta tinha o seu prprio brilho - uma radiao 
que aumentava at ela poder ver quase to distintamente como via  luz do dia. Mas no 
era dia, pois esta luz no provocava sombras, uma iluminao difusa na qual as cores da 
floresta brilhavam como mudas jias. Com um pequeno arrepio percebeu que tinha 
ultrapassado a fronteira que separa os campos do homem do Outro Mundo.

Era, verdadeiramente, como as suas professoras lhe tinham dito; a Terra dos Vivos e o 
mundo do homem dispunham-se como as dobras dum manto, e, onde se tocavam, 
podia-se passar facilmente de um para o outro. Ou talvez fosse s s vezes que os 
mundos se juntavam tanto - em alturas como esta, quando as sacerdotisas tinham 
cantado as canes sagradas.

O bosque em que tinha entrado estava cheio com carvalhos e aveleiras e espinheiros 
como nenhum outro. Algumas das rvores que estava a ver eram familiares, mas outras 
no eram de nenhuma espcie que conhecesse. Perto dum vicejante carvalho entreviu 
uma rvore com uma casca de prata e pequenas flores de ouro. Uma sorveira brava 
estava carregada de flores e frutos vermelhos, simultaneamente, se bem que no mundo 
humano o tempo de florao j tivesse passado e os frutos no estivessem ainda a 
romper nas ramagens.

Flores enchiam o ar com um perfume estonteante. Agora que podia ver o caminho 
andava com mais confiana, o deleite

A CASA DA FLORESTA

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que sentia quase a fazendo esquecer o que a tinha trazido aqui. Sombriamente, realizou 
que esta seduo dos sentidos poderia ser o maior dos perigos, e tentou lembrar-se do 
seu objectivo. Um vacilante sentido do dever, mais que qualquer outra emoo, f-la 
deter-se numa pequena clareira onde vidoeiros prateados e sorveiras bravas sussurravam 
na fragrante brisa como donzelas assistindo a um festival. Fechou os olhos.

- Senhora, ajudai-me! Poderes que viveis neste local, eu vos glorifico... - disse 
suavemente. - Peo-vos o favor, mostrai-me por onde devo ir...

Quando olhou de novo, ela entreviu no meio das rvores uma avenida ladeada por 
toscas pedras. Deslocou-se ao longo dela, andando com o gracioso e compassado passo 
que as donzelas tinham sido ensinadas a usar nas cerimnias. Nesta altura, a estrada 
passava entre dois grandes pilares esculpidos com espirais e chaveires. Por trs deles, 
Eilan viu um lago cujas guas brilhavam como que reflectindo a luz da escondida Lua.

Mal se atrevendo a respirar, Eilan passou entre as duas grandes pedras e olhou para o 
lago. isto, pelo menos, tinha feito parte do seu treino, pois uma das primeiras artes que 
tinha aprendido foi a de consultar na bacia. Um vento repentino agitou levemente as 
guas e, quando elas se acalmaram, viu que a bacia tinha sido como uma vela ao p do 
Sol, quando comparada com o poder do lago.

Nas suas profundezas Eilan viu o mar, resplandecente de esmeralda e safira, por baixo 
dum cu como translcido vidro azul. Enquanto olhava fixamente, lago, floresta e 
pedras, tudo desapareceu, e ela flutuou como um pssaro a voar por cima das ondas. 
Abraada por essas guas encontrava-se uma ilha cintada por penhascos de arenito 
vermelho, coroada por brancos templos construdos entre bosques de rvores escuras. 
Na colina mais alta erguia-se um templo maior que todos os outros, cujo telhado 
brilhava como ouro.

Eilan desceu mais baixo e viu uma mulher vestida de branco a andar ao longo do 
parapeito, olhando para o mar. Havia ouro no pescoo e nos pulsos da mulher, ouro 
rodeava-lhe a testa, e o seu cabelo era como uma chama, mas os seus olhos eram os de 
Caillean. Um homem novo saiu do templo e ajoelhou-se  sua frente, encostando a 
cabea ao seu ventre. Quando a

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MARION ZIMMER BRADLEY

sacerdotisa o abenoou, Eilan viu os drages tatuados enrolando-se pelos braos dele 
acima. E pareceu-lhe que uma voz como gotas de chuva a cair cantou...

Ai da terra para l das ondas...

Ai da terra que ningum podia salvar...

O perdido conhecimento que Deuses uma vez concederam ... 

Na altura mesmo em que o canto desapareceu, o cenrio mudou. Ela teve a sensao de 
que muitos anos se tinham passado. De sbito, o centro da ilha explodiu num enorme 
cogumelo de rubro fulgor e as guas levantaram-se como uma parede de vidro verde, e 
engoliram rvores, e templos, e tudo o resto. Na altura exacta em que a ilha se afundava, 
uma frota de barcos fugiu dela, lanando-se pela gua como gaivotas assustadas. Ela 
seguiu um deles, com um drago pintado na vela, enquanto ele atravessava rapidamente 
a gua, velejando em direco ao Norte, at que brumas prateadas encobriram a 
radincia do Sol e o mar se tornou cinzento e verde como as guas que ela conhecia.

Agora, ela via terra uma vez mais, brancas falsias e altas colinas relvadas. Passou as 
colinas voando a grande altitude e chegou a uma elevada, extensa plancie, onde longas 
filas de homens trabalhavam arduamente, puxando cordas que arrastavam grandes 
blocos de pedra. Parte da construo estava j no seu lugar e ela conseguia visionar o 
que faltava. Tinha ouvido a Dana dos Gigantes descrita vezes suficientes para 
reconhecer o grande crculo de pedras. O homem que estava a dirigir os trabalhos 
parecia-se com o seu pai, mas submetia-se a outro, que lhe recordava Gaius, mais 
pequeno e escuro, como um homem da tribo dos Silures, mas vibrante de poder. O 
segundo homem fez um gesto na direco da construo e ela viu os drages que lhe 
tinham sido tatuados nos antebraos ondularem quando os msculos se moviam.

Um vento agitou a erva alta da plancie, e, quando passou, o cenrio tinha mudado outra 
vez. Fascinada, Eilan olhou enquanto uma imagem se seguia  outra. Coloraes e tipos 
de feies mudavam cada vez que nova gente desembarcava nesta terra. Mas, uma e 
outra vez, ela reconheceu uma expresso ou

A CASA DA FLORESTA

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gesto que lhe era familiar - o toque do seu av numa harpa; a rgia graa de Lhiannon; e 
at ela prpria, viajando num coche, como uma rainha. Um homem alto viajava a seu 
lado, e ela soube que era aquele cujo toque lhe tinha dado acesso ao seu prprio poder.

Tudo o que tem sido s-lo- sempre; o Drago ergue-se do mar;

Apenas os sbios so verdadeiramente livres ... 

chegou  aquela clara voz do outro lado do mundo.

A ltima imagem foi a de uma colina de nodoso granito, onde crescia a urze prpura. 
Ventos gelados sopraram para Leste vindos do mar, percorrendo os ondulantes campos. 
Neste local batido pelo vento, verdadeiras rvores cresciam apenas ao longo do estreito 
onde a ilha enfrentava a austera massa do continente. No prprio instante em que 
percebeu que estava a ver Mona, o cenrio mudou, e Eilan viu homens da sua propria 
raa vestidos de branco, e mulheres em vestidos azul meia-noite, as suas faces rigidas 
enquanto empilhavam madeira em grandes piras.

Por um momento no percebeu. Ento, um raio de luz ondulou ao longo da praia oposta. 
Pestanejou, reconhecendo armaduras de Roma. O povo de Mona tambm o viu, e, 
subitamente, as piras comearam a arder furiosamente. As sacerdotisas danaram em 
frente delas, as suas sombras contorcendo-se enquanto gritavam os seus feitios. 
Durante algum tempo os Romanos imobilizaram-se, os seus chefes a falar-lhes; depois, 
a primeira fileira lanou-se para dentro da gua. O estreito espumou quando a legio o 
atravessou. Saram dele a pingar, mas as suas espadas tinham um brilho vermelho  luz 
do fogo. Com rgida preciso perseguiram os druidas e as suas espadas pingaram com 
um escarlate mais brilhante quando massacraram todos aqueles que encontraram.

Por um momento, ento, tudo ficou em silncio. Uma cada vez mais tnue luz de 
fogueiras deu lugar ao frio cinzento da madrugada. Corvos estavam j atarefados nos 
corpos. Enquanto Eilan olhava, eles levantaram subitamente voo, as suas asas 
escurecendo o cu, gritando.

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MARION ZIMMER BRADLEY

Enquanto guias devoram, o Drago dorme, Quando Corvos voam, a Senhora chora,

o que o dio semeou a compaixo colhe ... 

Ao ouvir a cano Eilan sentiu o corao trespassado pela dor e a viso esbateu-se 
quando lgrimas lhe encheram os olhos. Quando conseguiu ver de novo, estava outra 
vez para o lado do lago. Mas j no estava sozinha. Espelhada na gua viu uma figura, 
e, ao olhar para cima, viu que se tratava de um homem envolvido numa pele dum touro 
mosqueada, com um ornamento na cabea com asas de falco dos lados e encimado 
com os chifres dum grande veado. os seus olhos arregalaram-se, pois este era um hbito 
usado pelos druidas apenas nas suas cerimnias mais sagradas.

- Lorde... - ela fez-lhe a saudao devida ao seu estatuto - quem sois vs? - Por um 
momento tinha-lhe lembrado o av, mas viu agora que era mais novo, apesar do 
prateado na barba, e de nos seus olhos brilhar uma sabedoria e poder que ela no tinha 
seno entrevisto em qualquer homem mortal.

Era isto que Ardanos estava destinado a ser!, pensou ento, como a grande 
sacerdotisa que tinha por vezes entrevisto a brilhar atravs de Lhiannon nos rituais. Isto 
era a realidade.

Ele sorriu e a ela pareceu-lhe que a luz  volta deles se tinha tornado mais luminosa at 
o lago resplandecer.

- Tenho tido muitas formas, e tido muitos nomes, Fui o Falco do Sol e o Alazo 
Branco, o Veado de Ouro e o javali Negro. Mas aqui e agora sou o Merlin da Bretanha.

Eilan engoliu em seco. Tinha ouvido algo sobre isto nos seus estudos, pois o Merlin era 
um ttulo que tinha sido usado pelo Arquidruida em anos idos. Mas a alma ao qual ele 
pertencia no encarnava em todas as geraes e dizia-se que apenas os maiores de todos 
os druidas o tinham encontrado no Outro Mundo.

Ela lambeu os lbios.

-   o que quereis de    mim?

-   Filha da Ilha Sagrada, servirs o teu povo e os teus deuses?

A CASA DA FLORESTA

235

- Eu sirvo a Senhora da Vida - respondeu Eilan firmemente. - E farei a Sua vontade.

- Esta  uma hora de pressgio, na qual muitos caminhos se podem encontrar, mas 
apenas com o teu consentimento, pois o caminho que se abre  tua frente requer que 
entregues tudo, e se o seguires encontrars escassa compreenso ou recompensa. - Ele 
moveu-se  volta da orla do lago.

- E para o que  que os pressgios dizem esta hora ser propcia? - Ao perto, a realidade 
da sua presena era subjugante. Eilan sentia-se contente por as velhas histrias a terem 
ensinado a responder.

- Dizem que  propcia para a criao de uma sacerdotisa segundo os antigos rituais - 
disse ele suavemente. - Foi-te dito que uma sacerdotisa deve ser fisicamente virgem mas 
no  assim. Uma sacerdotisa da Deusa entrega-se na altura e estao proprias, e, depois 
de o poder passar atravs dela, reassume a sua autoridade. Ela d mas nunca  tornada. 
 ela a iniciadora que santifica o Rei Sagrado, para que ele possa transmitir a bno  
sua rainha e a vida se possa renovar na Terra.

- E  isso que quereis de mim? - Eilan sentiu que estava a tremer. - Como o posso fazer? 
No sei como!

- No tu, mas a Deusa que est em ti... - Eilan suspendeu a respirao quando ele sorriu. 
- E  o meu trabalho despert-La.

Ele abriu a pele e quando as suas duras pregas se afastaram ela viu que ele estava nu, o 
seu corpo a imagem do potente deus. Ele afastou o cabelo que se encaracolava para trs 
das tmporas e ela teve a impresso que teria cado sem o apoio daquelas fortes mos. 
Ento ele inclinou-se para a beijar na testa.

Deusa! gritou o seu esprito, e a sua conscincia inflamou-se por uma chama branca 
que foi descendo quando ele lhe beijou os lbios, os seios e se ajoelhou para abenoar o 
seu ventre. Nesse momento ela sentia-se consciente da sua prpria essncia como nunca 
antes tinha sentido e, contudo, ao mesmo tempo, todo a sua individualidade estava 
imersa em Outra, e quer a Presena fosse uma parte dela ou ela dele, ou Dela, Eilan no 
o podia dizer. O que ela sabia, para l de qualquer dvida, era que, num certo sentido, 
isto ultrapassava mesmo o conforto dos braos de Gaius em seu redor, que ela j no se 
encontrava s.

236

MARION ZIMMER BRADLEY

Eilan ardia e no era consumida e parecia-lhe que a voz que tinha ouvido cantava em 
tons de paixo...

O inimigo que conquistarias, deves amar... lei que cumpririas, deves desafiar..

coisa que guardarias, deves agora dar... Assim obters a vitria...

filha de druidas, atravs de ti o Drago renascer.

A sua percepo iluminou-se com imagens de sangue e esplendor, batalhas e cidades de 
pedra e um verde rochedo encimando um mar interior, fogo e espada e, finalmente, um 
homem de cabelo loiro com os olhos de Gaius que partia para a guerra com a imagem 
da Senhora no seu escudo.

- F-lo-ei! - veio a sua resposta. -        Mas no me deixeis sozinha...

- Filha, eu estou sempre aqui - veio a resposta. - Vs sois Minha, por todos os tempos, 
enquanto o Tempo perdurar. Ela sabia que tinha ouvido estas palavras antes, que isto 
era

apenas o renovar dum antigo lao, mas o amor que a envolvia estava a tornar-se num 
mar no qual se afogava, uma luz na qual toda a conscincia era consumida.

O pensamento consciente de Eilan que se seguiu foi o de estar a flutuar em gua fria. 
Sentiu rvores escuras  sua volta, a luz da Lua, e, no momento seguinte, muitas mos 
tinham-na agarrado e estavam a pux-la para a praia. Ela pestanejou assombrada quando 
percebeu que estava deitada junto do pego do rio onde se banhavam, um pouco abaixo 
da Casa das Donzelas.

Eilan tentou falar e viu que no era capaz. Percebeu ento que o que lhe tinha 
acontecido era um mistrio profundo de mais para que pudesse ser contado, mesmo 
aqui. E, contudo, espantava-se que elas no o pudessem ver, pois o Calor Divino ainda 
ardia dentro de si, de tal modo que a sua pele secou mal elas a ajudaram a sair do lago. 
Em silncio, as outras mulheres vestiram-na num vestido de linho, novo, tingido do 
azul-escuro que as sacerdotisas consagradas usavam.

- Viajaste entre os mundos; viste a luz que no tem sombra; foste purificada... - disse 
uma voz que Eilan reconheceu como

A CASA DA FLORESTA

237

sendo a de Caillean. Olhou para cima, mas era a mulher que na sua viso tinha visto no 
parapeito, que parecia estar ali parada.
- Filha da Deusa, levanta-te, para que as tuas irms te possam dar as boas-vindas...

As sacerdotisas ajudaram-na a pr-se de p e formaram atrs dela quando seguiu 
Caillean ao longo do caminho que conduzia at ao Bosque Sagrado.

 luz dos archotes que tremeluzia por entre as rvores, Eilan viu que Lhiannon estava  
espera, assistida por Eilidh. Atrs dela encontrava-se Dieda, com os olhos to abertos e 
espantados como Eilan sabia que os seus deviam estar, e os cabelos colados  testa 
como hmidas gavinhas. O que  que , pensou Eilan, lhe aconteceu? Os seus olhos 
encontraram-se, e todas as barreiras que os anos anteriores tinham construdo entre elas 
evaporaram-se; apenas se lembraram que agora eram irms.

Fico contente por irmos tomar os nossos votos juntas ... , pensou. O teste era sempre 
o mesmo, mas cada sacerdotisa recebia a viso que os deuses queriam. Dieda, supunha 
ela, devia ter encontrado msica. Olhou para a outra rapariga, e pareceu-lhe que a Deusa 
lhe sorria desde os olhos de Dieda.

Eilan olhou  sua volta e viu que elas estavam todas aqui - Miellyn e   Eilidh e as outras 
que tinham sido suas professoras durante os    ltimos trs anos. Mas em todas as faces 
das mulheres ela viu    um reflexo da luz do Outro Mundo, e, nalgumas delas, algo     
mais, um lampejo das faces que tinha visto nas suas vises, mudando constantemente e, 
no entanto, sempre

as mesmas.

Por que  que os homens temem a morte se viveremos de novo?, pensou Eilan nessa 
altura. Os druidas ensinavam que a alma podia tomar muitas formas ao longo dos 
circulantes anos e ela tinha pensado sempre que acreditava nisso, s que agora sabia que 
era verdade.

Compreendeu, por fim, a serenidade de Caillean e a santidade que, apesar da sua 
fragilidade e falibilidade, sentia em Lhiannon. Tambm elas tinham estado onde ela 
tinha ido, e nenhum acidente mortal podia alterar essa verdade.

Ouviu as palavras da cerimnia como num sonho e tomou os seus votos sem hesitao, 
pois a promessa mais importante,

238

MARION ZIMMER BRADLEY

aquela que inclua e comandava todas as outras, j tinha sido feita  Deusa, no Outro 
Mundo.

Com o sangue ainda a cantar-lhe nas veias e a luz da Senhora nos olhos, mal sentiu a 
picada do espinho quando o crescente azul que a proclamava sacerdotisa foi desenhado 
entre as suas sobrancelhas.

CATORZE

Era tradio na Casa da Floresta que depois de as sacerdotisas terem tomado votos 
tivessem de passar por um perodo de isolamento. Eilan sentia-se grata. Nos dias que se 
seguiram  sua iniciao sentiu-se to exausta como Lhiannon depois de dar um 
Orculo e, mesmo depois de recuperar fisicamente, quando tentava perceber o que se 
tinha passado via a sua ateno focar-se no seu interior.

Por vezes, as palavras do druida pareciam-lhe impossveis um sonho demente nascido 
do seu frustrado amor por Gaius. Mas quando as sacerdotisas se juntavam na glida 
escurido para saudar a Lua de Inverno, Eilan sentia o seu esprito suspender-se quando 
as vozes das mulheres se elevavam. Nessas alturas, quando o luar a enchia como uma 
chama prateada, ela sabia que o que tinha experimentado no tinha sido um sonho.

Por vezes via Caillean a observ-la com alguma curiosidade, mas nem mesmo quando 
as sacerdotisas mais idosas lhes ensinaram os segredos dos sbios que tinham vindo do 
outro lado do mar - a tradio que s as sacerdotisas ajuramentadas tinham autorizao 
de saber - Eilan se sentiu livre para falar sobre o Merlin e sobre o destino que, 
acreditava, ele lhe tinha oferecido. Porque, gradualmente, ela tinha comeado a realizar 
que quaisquer que fossem os xtases que as outras sacerdotisas tinham experimentado 
nas suas iniciaes, este mistrio tinha sido apenas para ela. E assim passaram os 
escuros dias do Inverno, alongando-se at  Primavera, e a marca da Deusa sarou na 
testa de Eilan.

Gaius estava indolentemente sentado num banco do escritrio do seu pai em Deva, 
respirando profundamente a brisa que

240

MARION ZIMMER BRADLEY

entrava pela janela aberta e pensando quando  que se poderia ir embora. H um ano 
que estava destacado ao pessoal do pai e j estava cansado de muros de fortalezas, A 
Primavera estava a submergir os campos e as florestas. Podia sentir o cheiro a flores de 
macieira nessa brisa e isso fazia-o recordar Eilan.

- A maioria dos homens tiraro licena para a Floralia, mas no me agrada a ideia de ter 
muitos dos meus oficiais fora ao mesmo tempo. - A voz do pai parecia vir de muito 
longe.
- Quando tiveres autorizao para ires de licena, para onde irs?

- Ainda no pensei nisso - deixou escapar Gaius. Alguns dos oficiais usavam o tempo 
de folga para ir  caa, mas matar animais por desporto era uma coisa que j no lhe 
interessava particularmente. Na verdade, no havia nenhum stio para onde lhe 
apetecesse ir.

- Podias ir ver o Procurador - sugeriu o pai. - Ainda no conheceste a filha dele.

- E se os Deuses forem bondosos comigo nunca o farei Gaius voltou abruptamente  
realidade, e sentou-se. O seu pai parecia desgostado.

- V l, que mal te faria - inquiriu Macellius, obviamente a tentar manter-se calmo - 
apenas ver a rapariga? Penso que ela j tem quinze anos.

- Pai, eu sei que ela  casadoura. Afinal de contas, at que ponto  que pensais que sou 
estpido?

O pai apenas sorriu.

- No disse uma palavra sobre casares com ela.

- Nem precisais - disse Gaius mal humorado. Se no podia ter Eilan, maldito fosse se 
casasse com qualquer mulher na Bretanha - muito menos uma sugerida pelo seu pai.

- No precisas de ser malcriado - disse-lhe o pai, - Por acaso estava a pensar passar as 
frias em Londinium e...

- Bem, mas eu no estava - disse Gaius, sem se importar j com o que o pai pensava dos 
seus modos. No sabia para onde iria, mas de certeza que seria para o mais longe de 
Londinium que fosse capaz.

- Espero que no estejas a pensar ainda naquela rapariga bret - comentou Macellius, 
quase, pensou Gaius, como se estivesse a ler os seus pensamentos. Se ao menos tivesse 
ficado por ali. Mas Macellius continuou, dizendo: - Tenho a certeza

A CASA DA FLORESTA

241

que tiveste o bom senso de a tirar da cabea duma vez por todas.

E isso decidiu-o.

- De facto - disse deliberadamente -, estava a pensar em ir visitar Clotinus. - Afinal de 
contas, tinha sido depois de ter estado com o Lorde breto que primeiro tinha 
encontrado Eilan e podia, pelo menos, gozar as recordaes.

Gaius apreciou a viagem para o Sul, pensando em Eilan. e em Cynric, que poderia ter 
sido seu amigo e estava perdido para ele, se bem que no por culpa de nenhum deles. A 
Primavera avanava como um exrcito conquistador e o tempo estava lindo: manhs 
frias e claras, fazendo-o ficar contente por estar bem agasalhado, e dias quentes, 
luminosos e quase secos, excepto alguns suaves chuviscos ao entardecer. Clotinus 
saudou-o alegremente e deu-lhe as boas-vindas e, se bem que Gaius soubesse que era 
em grande parte devido a que Clotinus se queria manter nas melhores relaes com os 
poderosos romanos, no deixou de o apreciar. Gwenna tinha partido para se casar, pelo 
que no havia ningum para o incomodar.

Chegou  concluso de que a propriedade de Clotinus no era, de modo nenhum, um 
mau lugar para passar umas frias. A comida era boa, e at mesmo a filha de Clotinus 
que l estava, com mais ou menos doze anos de idade, era uma boa companhia, e foi 
bastante compreensiva quando ele lhe contou que o pai lhe tinha tentado arranjar um 
casamento com uma desconhecida. Podia ser que ela se estivesse a oferecer para o 
consolar a um nvel mais subtil, mas Gaius lembrou-se - no demasiado tarde - do que o 
seu pai lhe tinha dito sobre o envolver-se com uma mulher nativa. Se a rapariga lhe 
estava a enviar quaisquer sinais sem palavras ele fez de conta que no os percebeu.

Mas, se no fosse,por meio de oraes sombriamente feitas a Vnus, no conseguia 
pensar em nenhuma outra maneira de se aproximar de Eilan. Enquanto dormia debatia-
se com os seus cobertores, gemendo, e quando acordava sabia que era com Eilan que 
tinha sonhado.

Amo-a, pensava com pena de si prprio, quando o desespero da sua situao o 
invadia. No  como se quisesse tentar seduzir a rapariga para depois a abandonar. 
Ficaria feliz em casar com ela se conseguisse obter a autorizao de toda a gente que

242

MARION ZIMMER BRADLEY

parecia ter tomado da sua conta controlar as nossas vidas. Afinal, ele j tinha vinte e 
trs anos e era um oficial - se bem que muito subalterno - na sua legio. Se isto no o 
tornava suficientemente velho para se poder casar de acordo com a sua vontade, ento 
que idade  que seria preciso ter para poder faz-lo?

Um dia, quando estava a passear a cavalo com a desculpa de caar, viu-se a passar pelas 
paredes queimadas que      uma vez tinham sido a casa de Bendeigid, e reparou que 
devia estar na vizinhana da Casa da Floresta. A sua perna doeu-lhe um pouco quando 
se lembrou da armadilha para os javalis - pareceu-lhe que tinha sido h muito tempo -, e 
da primeira vez em que tinha posto os olhos em Eilan.

No posso continuar aqui , pensou de sbito. Cada rvore e cada pedra traro de volta 
memrias dolorosas. Tinha pensado que o conseguiria suportar. Era certo que ver o 
velho Ardanos, de tempos a tempos, em Deva, no lhe perturbava a paz de esprito. 
Talvez devesse viajar para Sul, visitar o povo da sua me. Isso no iria agradar a 
Macellius, mas, nesta altura, ele no estava muito interessado em agradar ao pai.

Nessa noite, em frente  lareira, falou nisso a Clotinus que o instou a ficar mais um ou 
dois dias.

- Vai haver muita gente na estrada at ao festival - referiu Clotinus. - Devias ficar pelo 
menos at ele acabar, para depois poderes viajar  vontade.

- As pessoas no me incomodaro, mas talvez eu no deva viajar uniformizado. Levarei 
menos tempo e atrairei menos a ateno se vestir a roupa normal dum breto.

- Isso  verdade - Clotinus sorriu acidamente. - Tu s, de certo modo, um dos nossos. 
Suponho que consigo arranjar alguma coisa que te sirva.

Na manh seguinte, o seu camareiro forneceu roupas que serviam a Gaius bastante bem: 
calas marrom e uma tnica tingida a verde, num tecido novo, lavado e decente, mas 
no particularmente luxuoso e, com eles, um volumoso manto castanho-escuro de 
pesada l.

- As noites ainda esto frias, rapaz - disse Clotinus. - Vais precisar dele quando a noite 
cair.

Quando Gaius o vestiu a sua identidade romana pareceu evaporar-se.

A CASA DA FLORESTA

243

- Nesse traje j no s mais Gaius Macellius Severus.
- O velho olhou para ele estranhamente. Gaius sorriu maliciosamente.

- Como penso ja vos ter dito, a minha me, enquanto viveu, chamava-me Gawen; agora 
 o que pareo e devo usar apenas

esse nome.

Clotinus foi rpido a afirmar o bem que a roupa lhe ficava, contudo, de algum modo, 
Gaius sabia que o homem lamentava a partida do seu importante hspede romano.

- Se eu for ao festival serei apenas mais um breto - continuou Gaius. - Talvez deva 
pedir-vos que envieis uma mensagem a Macellius dizendo-lhe que estou a viajar 
disfarado!
- Suspeitava que o pai no iria ficar muito contente e a desculpa de tentar obter 
informaes podia ser que justificasse esta escapadela.

Quando Eilan acordou na manh de Beltane teve o estranho pressentimento de que 
Gaius se encontrava ali por perto. Talvez , pensou, ele esteja a pensar em mim. 
Afinal de contas era Beltane, e todos os seus encontros mais significativos tinham 
acontecido durante este festival. Era natural, em qualquer caso, que os seus 
pensamentos se virassem para ele nesse dia, quando, atravs de toda a terra, os coraes 
dos homens e das donzelas se viravam para o amor.

Aqui, no casto Santurio da Casa das Donzelas, ela no devia estar a pensar nessas 
coisas ou, se o fizesse, devia olhar para elas com o desinteressado desprendimento de 
algum que existia muito para l de tais necessidades carnais. Durante o Inverno isso 
tinha sido fcil. Parecia-lhe que a paixo com que o druida da sua viso a tinha tocado 
se tinha refinado at se tornar numa radincia to pura como uma chama dum altar, e os 
seus votos de castidade um sacrifcio no muito pesado.

Mas agora, quando a seiva corria nas rvores e todos os botes se abriam em flor, ela 
comeava a ter dvidas. Quando pensava na viso que tinha tido, o seu corpo 
inflamava-se e, durante a noite, sonhava sobre fazer amor com um amante, umas vezes 
o druida, umas vezes Gaius, e, por vezes, um estranho com os olhos de um rei. O meu 
corpo ainda est intocado , pensou

244

MARION ZIMMER BRADLEY

subitamente, mas o meu esprito j no  virgem. Deusa, como irei eu suportar este 
doce sofrimento?

- Eilan, ests a ajudar Lhiannon a preparar-se para o ritual desta noite? - A voz de 
Miellyn trouxe-a de volta ao mundo e ela abanou a cabea numa negativa.

- Ento por que no vens com todas ns esta manh divertires-te no festival? Far-te- 
bem apanhar algum ar fresco. Com todas ns , acabou por incluir Senara, que ficou

-   Perfeitamente deliciada por se ver fora de portas. Estava um fresco, luminoso dia e 
nas sebes os espinheiros brilhavam como se a luz do Sol tivesse resolvido enfeitar os 
galhos. A aglomerao de pessoas era tal que fez Eilan tremer, habituada como estava  
paz e sossego depois dos seus meses de isolamento. Quo rapidamente ela se tinha 
acostumado ao silncio e  paz, ou talvez tivesse sido a sua iniciao que a tinha 
modificado. Sempre se tinha sentido um pouco desconfortvel no meio de multides, 
mas agora sentia-se como se estivesse a andar de um lado para o outro completamente 
despida.

Mas Senara ia muito animada no meio delas. Sentia-se fascinada com tudo: um balco 
com queijos redondos; uma mesa onde um vendedor de pulseiras de vidro tinha 
expostas as suas reluzentes mercadorias; e, por todo o lado, as flores.

Eilan no tinha voltado a ver tanta gente junta desde o ltimo Beltane em que tinha 
encontrado Gaius de novo. Parecia-lhe que toda a gente da Bretanha, ou das ilhas, devia 
estar aqui, acotovelando-se, rindo, bebendo, danando, e tambm todos os ofcios, desde 
fazedores de bolos at danarinos de corda.

- Lhiannon vir durante o dia? - perguntou Senara. Miellyn assentiu.

- Ardanos escolt-la-. Faz parte do seu dever mostrar-se s multides durante os 
festivais. - Miellyn fez uma pausa e acrescentou: - E no a parte mais agradvel. C para 
ns, penso que ela est muito cansada. Todos os anos penso se no ser este o seu 
ltimo festival.

Ao ver Eilan empalidecer acrescentou:

- Isso assusta-te? A morte faz tanto parte da vida como o nascimento; sendo uma 
sacerdotisa devias sab-lo.

Mas as multides eram to densas que ela mal conseguia ouvir o que Miellyn estava a 
dizer. Um grupo de pessoas estava

A CASA DA FLORESTA

245

a ver um homem com um urso danarino; Senara gritou que queria ir ver e elas 
chegaram-se para a frente para poderem observar melhor. Quando as pessoas repararam 
nos vestidos azuis de linho das sacerdotisas da Casa da Floresta afastaram-se  sua 
passagem at que elas se encontraram na primeira fila a ver o animal danar - ou, pelo 
menos, a cambalear pesadamente em crculsobre as patas, o que, supunha ela, era o mais 
parecido com danar que um animal daqueles podia fazer. O focinho do urso estava 
fortemente apertado com uma corda; ela pensou que o aspecto dele era miservel.

- Pobre coisa - disse, e Miellyn suspirou.

- Por vezes ocorre-me que Lhiannon se parece com aquele urso - replicou a outra 
sacerdotisa. - Sempre em exposio, nunca falando as suas prprias palavras. - Eilan 
engasgou-se  ideia de comparar a Gr Sacerdotisa com um animal treinado.

- E quem  que a conduz? - gargalhou Senara.
 - Miellyn no devias dizer essas coisas.

- Por que no? Falar a verdade  normalmente considerado uma virtude - disse Miellyn 
resolutamente, e Eilan lembrou-se de Caillean. O tratamento que o seu av dava s 
sacerdotisas      tinha muito pouco a ver com a autoridade que o druida da sua viso 
tinha proclamado.

- Falo a verdade como a vejo; e quando vejo Lhiannon a enfraquecer tanto, penso...

Miellyn no acabou o que estava a dizer porque nesse instante o urso deixou-se cair 
sobre as quatro patas e veio a cambalear directamente para elas. Senara guinchou e deu 
um salto para longe, mas a multido empurrava-as por todos os lados. Eilan recuou, 
pisando o vestido duma estranha e ouvindo-o rasgar-se.

- V onde pes os ps! - disse irritadamente a estranha. Eilan desculpou-se, tentando 
tornar-se mais pequena, e nesse instante o urso avanou de novo, a corda que o segurava 
soltando-se, o que fez com que algum gritasse assustado. Todas as pessoas tentaram 
fugir para trs, e quando Eilan recuperou o equilbrio Miellyn e senara tinham 
desaparecido na esmagadora multido. Era a primeira vez em muitos anos que Eilan se 
via sozinha.

Tinha crescido habituada  constante tutela da Casa da Floresta. ocorria-lhe, agora, que 
a superviso tinha outro propsito que

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MARION ZIMMER BRADLEY

no o do bom comportamento; a presena das irms tinha-a ajudado a manter as pessoas 
afastadas, tanto fsica como psicologicamente. Sozinha, o tumulto dos pensamentos e 
emoes estranhas aoitaram-na como um forte vento. Tentou retirar fora da terra para 
se proteger, mas as caras desconhecidas  sua volta enchiam-na de confuso. Como 
podia Lhiannon aguentar andar no meio de toda esta gente quando estava j num meio 
transe e aberta ao poder dos deuses? Ela estava to cercada pela multido e pelos 
empurres de estranhos que no conseguia ver nada familiar; nem mesmo a- avenida de 
rvores que conduzia em direco  Casa da   Floresta, ou o morro no qual elas davam 
os Orculos.

Uma vez, entreviu atravs da multido o que lhe pareceu um familiar vestido azul; mas 
quando se aproximou viu que era o manto dum completo estranho. Outra vez pensou ter 
avistado um grupo de sacerdotisas; mas eram quatro, e quando lhe ocorreu que as suas 
companheiras se podiam ter encontrado com outras da Casa da Floresta, e que podiam 
estar todas  sua procura, j tinham desaparecido de novo no meio dos estranhos.
O temporrio terreno ajardinado da feira parecia-lhe to estranho como o Outro Mundo. 
Isto  ridculo... escudar-me das emoes das outras pessoas foi a primeira coisa que 
nos ensinaram! Devia simplesmente perguntar a algum , repetia para si prpria, mas, 
vulnervel como estava, no se atrevia a falar com um desconhecido; o que pensariam 
eles duma sacerdotisa que no conseguia achar o caminho de volta  sua prpria casa?

Ela moveu-se pelo meio das multides, tentando manter o irracional terror sob controlo. 
Se ao menos conseguisse restaurar as suas defesas perguntaria a algum qual a direco 
da Casa da Floresta. Chegaria um dia em que, sem dvida, seria capaz de olhar para 
trs, para este dia, divertida, como uma aventura. S que, neste momento, no podia 
haver dvidas que estava tanto perdida como aterrorizada.

Um sbito movimento da multido quase a virou de pernas para o ar; perdeu o 
equilbrio e chocou com um homem num manto escuro. Ele murmurou qualquer coisa e 
depois comeou a dizer.

- Eilan! s mesmo tu? - Fortes mos seguraram-lhe nos cotovelos e uma voz familiar 
perguntou - Donde  que apareceste?

A CASA DA FLORESTA

247

E Eilan olhou para cima, para o rosto, que de todos os rostos do mundo, era o que 
menos esperava ver; o rosto de Gaius Macellius.

Sem palavras, ela agarrou-se a ele. Ele sentiu-a tremer e puxou-a mais para si. 
Repentinamente, a confuso  sua volta foi silenciada. pelo crculo dos seus braos.
 - Eilan... - repetiu ele. - No ousava sonhar que te encontraria aqui!

Mas eu sim , pensou Eilan sombriamente. Quando acordei esta manh o meu 
primeiro pensamento foi que estavas perto; por que no confiei nele?

os braos dele apertaram-se  sua volta; e, nesse momento, ela esqueceu-se de todas as 
palavras de aviso de Caillean, de todos os seus pressentimentos e receios. Sabia apenas 
que se sentia feliz. Ela riu a tremer um pouco.

- Receio que me tenha perdido; estava a tentar voltar para a Casa da Floresta, ou, pelo 
menos, para junto das outras sacerdotisas que vieram ao festival, mas no tinha a certeza 
para que lado devia ir.

- A estrada  ali - comeou ele, e depois, quando notou o movimento involuntrio que 
ela fez, desabafou - Tens mesmo de ir j? Eu vim para esta... esta parte do mundo 
apenas na esperana de te ver...

Ela podia ouvir, to claramente como se ele o tivesse pronunciado, No suporto deix-
la partir agora!

- Se fores pode ser que nunca mais nos vejamos - exclamou, a voz a tremer enquanto 
falava. - Penso que no poderia aguentar perder-te outra vez, Eilan... - os seus lbios 
hesitaram ao som do seu nome, como numa carcia; ela sentiu-o como um banho de 
fogo frio que lhe percorresse a pele. - No me podes deixar... - murmurou para o vu 
dela. - Foi o Destino que te trouxe para aqui, sozinha...

No precisamente sozinha!, pensou ela, sorrindo para as vagas de pessoas em seu 
redor. Mas era verdade; apenas o Destino, ou a Deusa, a podiam ter trazido aqui, para os 
seus braos. Deliberadamente, ela ps de lado o treino que requeria que uma sacerdotisa 
ajuramentada, na companhia de um homem que no fosse o pai, av ou irmo, 
mantivesse os olhos modestamente em baixo, e olhou para ele.

248

MARION ZIMMER BRADLEY

E o que tinha ela pensado que ia ver? O que lhe podiam os olhos dizer, pensou, vendo 
quo fortemente o seu cabelo ainda lhe encaracolava na fronte, a teimosa salincia do 
queixo por baixo da curta barba que ele tinha comeado a deixar crescer depois da sua 
ltima campanha, e o visvel desejo nos seus olhos escuros, que o seu corao no 
soubesse j? A viso interior e a exterior uniram-se subitamente e ela viu imediatamente 
a atormentada face do rapaz que tinha tratado h quatro anos, as duras feies do 
homem em que se estava a tornar e algo mais, um rosto quebrado pela experincia e 
pelo descontentamento, a sua jovem promessa sido erodida pelos anos.

Meu pobre amor ... , pensou,  nisto que te tornars?
- Tens mesmo que ir? - repetiu ele, e ela murmurou:
- No.

Gaius engoliu em seco e puxou-lhe o vu para trs da testa. Ela sentiu-o enrijecer e 
percebeu que ele tinha reparado pela primeira vez no crescente azul desenhado entre as 
suas sobrancelhas.

- Sou uma sacerdotisa - disse suavemente e sentiu-o encolher-se em compreenso. Mas 
no a deixou partir e ela no se afastou.

O simples pensamento de poder no voltar a v-lo de novo estava a comear a fazer 
escurecer a luz do cu. Sem dvida, Caillean ter-lhe-ia dito para o deixar 
imediatamente; mas, por uma vez, ela no faria o que a sacerdotisa mais velha pensava 
ser o mais sensato, e sim o que ela queria fazer. E o que quer que pudesse sair disto, 
desta vez, pelo menos, Caillean no poderia ser castigada por isso.

Nessa altura dois condutores de gado chocaram com eles e recuaram, olhando 
estranhamente para eles quando repararam nas vestes azuis de Caillean. Gaius franziu o 
sobrolho e enrolou o seu prprio manto castanho  volta dela, puxando-lhe o vu para 
cima, para esconder o seu brilhante cabelo.

- De todos os modos, vamo-nos ver livres desta multido - murmurou ele. O brao dele 
estava            ainda  sua volta, forte e seguro, e,  medida que iam andando,       
nenhum sabia bem para onde, apenas que estavam juntos e que         era para longe das 
multides.

- Diz-me, como vieste aqui parar? No fazia a mnima ideia que estavas nesta parte do 
mundo.

A CASA DA FLORESTA

249

- Penso que vim para te ver - comeou, e Eilan encostou-se a ele, a ouvir.

- Foi o Destino, ou talvez o meu pai. Pelo menos estava a ir no sentido oposto ao que ele 
queria que eu fosse! A pequena Valeria est bem?

- Senara...  assim que lhe chamamos na Casa da Floresta. Na verdade, ela est 
perfeitamente bem e feliz.

- Fico contente de o ouvir - respondeu ele, mas ela conseguiu perceber que Senara j 
tinha sido esquecida.
 - Cynric foi proscrito, sabias? - disse ento Gaius. - Encontrei-o antes de ele partir e ele 
disse-me para me manter afastado de ti...

A voz falhou-lhe. O que  que ele queria ouvir dela?, pensou Eilan. Talvez apenas o 
som da sua voz, saber que ela estava a pensar nele. No o conseguiria ele perceber? Ela 
estava consciente dele com todos os sentidos do seu corpo, com cada centmetro da sua 
pele.

- Talvez ele tenha razo. Meteu-se na cabea do meu pai que eu devia casar com uma 
rapariga romana qualquer, a filha do Procurador em Londinium...

- Obedecer-lhe-s? - perguntou cuidadosamente Eilan, o sangue a correr com mais 
fora. Casamento! Por que  que ele lho tinha contado? Ela sabia que isso no ia 
modificar nada, mas por que lhe provocava esse pensamento tanta dor?

De algum modo tinham atingido a orla dos terrenos da feira. Outro passo lev-los-ia 
para o abrigo das aveleiras. Na noite anterior, homens e raparigas tinham vagueado 
nestes bosques para apanhar verdura e flores, e fazer amor uns com os outros na relva 
jovem. A floresta ainda se lembrava; Eilan conseguia sentir a memria dessas paixes 
como um eco  sua volta, colidindo com o tumulto da feira.

Ele virou a cara para ela.

- Sabes que nunca casarei com ningum seno contigo!
- Eu no posso casar-me - respondeu-lhe. - A minha vida est prometida aos deuses...

- Ento nunca casarei com ninguem - disse ele firmemente.

Mas casars... Mesmo enquanto a irracional vaga de felicidade a avassalou, a sua 
prescincia soou tristemente na conscincia de Eilan. Uma imagem da mulher que viria 
a ser a mulher dele

250

MARION ZIMMER BRADLEY

adejou na sua mente. E por que deveria Eilan guardar-lhe rancor? Era ela to egosta 
que queria ver Gaius sozinho para sempre? Ou teria ela querido que ele a levasse 
embora, que movesse cus e terras para a libertar dos seus votos? Que palavras dos 
homens podiam apagar o crescente colocado entre as suas sobrancelhas?

Ela tropeou na raiz duma rvore e Gaius estendeu os braos para a segurar. 
Pestanejando, ela percebeu que tinham entrado na floresta. O rudo das multides foi 
subitamente abafado pela distncia, como se se tivessem afastado milhas, como se 
tivessem entrado no Outro Mundo. Grandes rvores escondiam-nos sob a sombra das 
suas folhas. O Sol tinha-se escondido atrs duma nuvem e estava a comear a soprar um 
vento frio. Iria comear a chover? Como numa resposta umas gotas caram-lhes em 
cima, os comeos da chuva, ou talvez humidade das folhas mais altas.

- Eilan... - murmurou ele, e apertou-a com mais fora.
- Por favor... Eilan!

Ao virar-se, ela sentiu a fora do seu desejo por ela e o mundo pareceu parar. Desde o 
momento em que a multido a tinha afastado de Miellyn at agora, pensou Eilan, tinha 
vagueado num sonho. Mas agora estava acordada e conseguia ver tanto o passado como 
o futuro com uma terrvel clareza. Talvez o Destino os tivesse trazido at aqui, mas o 
que ela decidisse neste momento determinaria o futuro dele e o dela - e talvez tambm o 
de outras vidas. A sua capacidade de previso virou-se para fora, abraando outras 
pocas num crculo cada vez maior, at que viu de novo o guerreiro de cabelo brilhante 
que tinha feito parte da sua viso, com os Drages nos pulsos e o olhar de guia, que ela 
tinha aprendido a amar em Gaius, nos olhos.

Agora era ele que estava a tremer. Com dedos desajeitados, Gaius afastou o vu e a sua 
mo, tombando, roou-lhe a face, deteve-se a por um momento, e depois, como se uma 
irresistivel fora a tivesse puxado para baixo, deslizou ao longo da suavidade do seu 
pescoo e deteve-se sobre a salincia dos seus seios, por baixo da abertura do vestido. O 
relvado estendia-se suave e verde  frente deles. Ela ouviu, como num eco, A Deusa 
no  adorada num templo feito por mos humanas...

Mas era proibido - ainda no h seis meses ela tinha jurado oferecer a sua virgindade 
apenas ao Rei Sagrado. E, como numa resposta, a certeza chegou at ela. Deste homem 
de dois sangues

A CASA DA FLORESTA

251

nascer o Rei que est para vir... Foi para isto que o Merlin a tinha iniciado. Era este o 
seu destino.

Quando se tinham encontrado pela primeira vez ela devia ter parecido a Gaius uma 
criana mas, agora, sabia-se incomensuravelmente mais velha. Como num eco, a voz do 
Merlin chegou-lhe:

Uma sacerdotisa da Deusa entrega-se na altura e estao prprias, e quando o poder 
tiver passado atravs dela reassume a sua autoridade.

-   No nos podemos casar pelos ritos dos homens -disse ela suavemente. - Queres 
tomar-me como tua mulher segundo os antigos costumes, como as sacerdotisas se 
uniam com os homens de famlia real, perante os deuses?

Ele gemeu quando a mo se curvou  volta do seu seio e ela sentiu o mamilo a 
endurecer contra a sua palma.

- At  morte e depois, por Mithras e pela Me - sussurrou ele. - Eilan, oh, Eilan!

Quando o Merlin lhe tinha tocado o fogo tinha explodido desde a ponta dos cabelos at 
aos ps; mas este fogo parecia subir a partir da terra, queimando todos os outros 
pensamentos.

Ela tocou-lhe na face e ele estendeu os braos para ela. Uma desajeitada mo enredou-
se-lhe no cabelo e o vu caiu despercebido para o cho. Ento os seus lbios 
reclamaram os dela, no j suaves mas exigentes, como um esfomeado. Durante um 
instante a surpresa imobilizou-a dentro dos seus braos; depois tornou-se consciente do 
seu prprio desejo e os seus lbios abriram-se, dando-lhe as boas-vindas.

Enquanto se beijavam os seus braos rodearam o pescoo dele; o seu cabelo, liberto dos 
seus cuidadosos anis, caiu-lhe pelas costas abaixo com ganchos espalhados pela relva. 
Gaius gemeu e puxou-a para si. Agora ela podia sentir a rude fora do seu corpo e a 
urgncia da sua necessidade. As mos dele deslocaram-se dos seus ombros pelas costas 
abaixo, moldando-lhe o corpo ao dele.

Eilan sentiu a fora fugir-lhe dos joelhos. Agarrou-se a ele e o seu peso f-los cair a 
ambos para a verde relva. Os lbios dele moveram-se para a sua face, para as suas 
pestanas e para a suave pele do seu pescoo como se a quisesse devorar, e ela arqueou-
se de encontro a ele, tremendo.

252

MARION ZIMMER BRADLEY

As saias tinham-se levantado quando caram; uma mo exploradora desceu pelo seu 
corpo, parou um instante quando encontrou a suave pele e depois subiu de novo, por 
baixo da roupa, at se deter no lugar sagrado entre as suas coxas.

Gaius ficou subitamente rgido, respirando pesadamente, Depois afastou-se, os olhos 
abertos e ofuscados, como se tivessem olhado para uma luz muito forte.

- Senhora - murmurou. Ela podia ver o tremor que o abalava, mas ele estava, de algum 
modo, a conseguir encontrar o controlo para agir deliberadamente, lidando com as 
roupas dos dois, venerando o corpo dela com uma autoridade que cresceu at a luz 
tambm o encher e ela perceber que ele j no era inteiramente Gaius.

- Meu Rei! - murmurou quando a chama que ele tinha acendido se espalhou por todos 
os nervos, - Vem at mim! Ento ele suspirou, mergulhando no seu abrao como o Sol

no mar, submetendo-se-lhe mesmo enquanto ela se lhe entregava. Ela conseguia ouvir 
gritos,  distncia, como se viessem de outro mundo, e soube que os sacerdotes tinham 
acendido as fogueiras de Beltane.

Mas um fogo maior estava a arder dentro dela, e nessa altura, mesmo que Caillean e 
todas as mulheres da Casa da Floresta estivessem em fila a olhar para eles, Eilan nunca 
se teria apercebido nem se teria importado.

O dia j ia muito adiantado e o Sol estava a pr-se quando Gaius finalmente se mexeu. 
Eilan afastou-se relutantemente e ele estendeu os braos para ela, mais uma vez, e 
beijou-a com fora.

- Devo voltar para a Casa da Floresta - disse ela muito suavemente. - Devem estar  
minha procura. - Na realidade, Miellyn devia estar fora de si com a preocupao. Mas se 
Eilan conseguisse, de algum modo, voltar para o recinto sem ser vista, podia ser que 
elas acreditassem que as multides as tinham mantido afastadas e que ela tinha 
arranjado uma maneira de encontrar o caminho de volta por si prpria.

Nem mesmo agora, quando a paixo j se tinha esgotado e que conseguia pensar de 
novo com mais clareza, Eilan lamentava

A CASA DA FLORESTA

253

ter quebrado os votos; a Deusa tinha sabido e no tinha intervido, o que era prova 
bastante de que ela tinha servido uma lei maior. Parte da doutrina secreta que Caillean 
tinha revelado, nos meses que se passaram desde a iniciao de Eilan, era que, antes da 
chegada dos Romanos, as sacerdotisas tinham tomado amantes quando queriam, ou at 
casado. Foi apenas desde a chegada dos Romanos que os homens tinham tido a 
arrogncia de controlar as vidas privadas das suas mulheres. Caillean nunca tinha 
encontrado o homem que a tivesse tentado a quebrar os seus votos, mas talvez 
compreendesse. Por outro lado, ela no concordaria com a escolha do amante de Eilan, 
por isso, apesar de tudo, talvez fosse melhor ela no dizer nada  sacerdotisa mais velha.

- Eilan, no voltes para l. - Gaius apoiou-se num cotovelo para olhar para ela. - Tenho 
medo por ti.

- Eu sou a neta do Arquidruida; o que  que pensas que me fariam? - replicou ela.

o pai dela tinha dito uma vez que a mataria com as suas prprias mos se ela permitisse 
o que Gaius tinha acabado de fazer, mas este no era o momento para o mencionar. 
Agora ela era uma mulher e uma sacerdotisa ajuramentada, prestando contas apenas s 
suas irms e aos deuses.

- Se eu estivesse l para te proteger, no interessava o que elas tentassem - disse ele 
sombriamente.

- E eu ficaria assim to segura se fugssemos? Para onde poderamos ir? As tribos 
selvagens do Norte talvez me aceitassem, mas tu estarias em perigo, e para onde 
poderamos fugir para longe do alcance de Roma? Tu s um soldado, Gaius, to ligado 
por juramentos como eu. Quebrei um voto para cumprir um ainda maior, mas isso no 
me liberta. Ainda perteno  Deusa e devo confiar nela para cuidar de mim...

- Isso  mais do que eu posso fazer... - disse ele ento, esfregando os olhos.

- Disparate. Se tu voltares para o servio activo de certeza que estars em mais perigo 
do que eu. - Eilan agarrou-se a ele de novo ao pensamento de ao frio trespassando o 
corao que agora batia contra o seu e, quando ele a beijou outra vez, todos os 
pensamentos sobre o futuro foram esquecidos. Por algum tempo.

QUINZE

Fazer amor com um homem no tinha, apesar das especulaes que Eilan se lembrava 
de ouvir murmuradas na Casa da Floresta, destrudo a sua capacidade para a magia. Pelo 
menos o feitio de proteco que ela murmurou quando se escapuliu pela porta da 
cozinha e ao longo do caminho at  Casa das Sacerdotisas pareceu evitar que as poucas 
pessoas que ali se encontravam reparassem nela quando passou.

No seu quarto, despiu o vestido e lavou-se, escondendo a roupa suja at que tivesse 
tempo de lavar a mancha de sangue virginal. Feito isto, vestiu o seu traje de dormir e 
acendeu o fogo, percebendo que estava meia morta de frio e faminta. j passava da hora 
da refeio do pr do Sol. Tinha de ir at s cozinhas e encontrar alguma coisa para 
comer; mas precisava de tempo para pensar no que lhe tinha acontecido, a ela e a Gaius. 
Ou talvez, pensou com uma autozombaria pouco habitual nela, apenas quisesse fechar 
os olhos e reviver de novo a sua noite de amor.

Ela podia ter contado que Gaius estivesse ansioso mas no que fosse to terno, 
aguentando-se at tremer como um arco esticado com medo de ser rpido de mais e de a 
magoar. E nos momentos finais, quando o xtase se tornou quase grande de mais para 
que qualquer mortal o pudesse tolerar, tinha-lhe parecido, uma vez mais, que a Deusa a 
tinha cingido e recebido a ddiva do Deus.

Ela suspirou, reparando na sua pouco habitual sensibilidade e na doce lassido que lhe 
invadia os membros. Ser que a Deusa me fulminar por ter quebrado o meu 
juramento , pensou, ou o meu castigo ser chorar durante a noite, lembrando aquilo 
que nunca mais terei? No ser isso melhor que nunca o ter conhecido de todo? Senta 
piedade de Caillean, maculada
256

MARION ZIMMER BRADLEY

desde a infncia pela sua nica experincia daquilo a que os homens chamam amor.

 medida que os dias se seguiam uns aos outros, um certo equilbrio comeou a 
afirmar-se. Eilan assistiu Lhiannon no ritual da Lua Cheia e nenhum raio a fulminou. O 
treino avanado que se seguia  iniciao continuou, tanto em artes como em tradies, 
e, quando os dias se iam tornando maiores, encontravam-se com as sacerdotisas mais 
velhas, quando o tempo o permitia, num dos jardins ou no Bosque Sagrado.

Havia a treze carvalhos sagrados, doze formando um crculo e o mais antigo no centro, 
lanando a sua sombra sobre o altar de pedra. Para Eilan, olhando para cima, para eles, 
parecia que at mesmo no modorrento calor da tarde, as rvores ainda mantinham 
alguma coisa da magia com a qual a Lua as tinha investido h algumas noites atrs. A 
voz de Caillean retrocedeu at se tornar num murmrio de fundo quando Eilan olhou 
para cima. De certeza que a luz que brilhava nas suas folhas no era apenas a luz do Sol. 
Todos os seus sentidos pareciam intensificados desde Beltane.

A voz da sacerdotisa chamou-a de novo  realidade.

- Nos velhos dias havia uma irmandade de nove grs sacerdotisas, uma para cada regio 
desta terra. Elas permaneciam por trs da rainha de cada tribo, aconselhando-a e 
apoiando-a.

Eilan encostou-se para trs, de encontro ao vigoroso tronco do carvalho, unindo-se  sua 
estvel fora e tentou manter os olhos abertos.

- Elas prprias no eram rainhas? - perguntou Dieda.
- O seu papel era menos pblico, se bem que fossem muitas vezes de linhagem real. 
Mas eram as iniciadoras de reis, pois quando um rei se lhes dirigia para a sua 
santificao, era a sacerdotisa que se tornava no canal pelo qual a Deusa aceitava o seu 
servio, conferindo-lhe um poder que ele, por sua vez, passava para a sua rainha.

- Elas no eram virgens - disse acidamente Miellyn, e Eilan sentiu-se subitamente 
desperta, recordando-se das palavras do Merlin. Tinha ela sido a Deusa para Gaius? 
Qual era ento o destino dele?

- As sacerdotisas faziam amor com homens quando o servio da Senhora o requeria - 
respondeu Caillean num tom neutral.

A CASA DA FLORESTA

257

- Mas no se casavam, e s geravam crianas quando era a nica maneira de preservar 
uma linha real. Elas permaneciam livres,

- Na Casa da Floresta no casamos, mas eu no diria que somos livres - observou Dieda, 
franzindo as sobrancelhas. Se bem que a Sacerdotisa do Orculo escolha a sua 
sucessora, o Conselho dos Druidas tem que aprovar a sua escolha.

- Por que  que as coisas mudaram? - perguntou Eilan, a necessidade acrescentando 
intensidade ao seu tom de voz.    Foi por causa de Mona?

Os druidas dizem que o nosso actual isolamento  para nossa prpria proteco       
respondeu Caillean com a mesma cuidadosa neutralidade.     Dizem que s se nos 
mantivermos puras como Vestais seremos respeitadas por Roma.

Eilan olhou fixamente para ela. Ento o que eu fiz com Gaius no foi escarnecer a Lei 
da Senhora, mas apenas as regras dos druidas!

- Mas teremos de viver para sempre desta maneira? - perguntou Miellyn avidamente. - 
No h nenhum lugar onde possamos falar a verdade e servir a Deusa sem a 
interferncia dos homens?

Os olhos de Caillean fecharam-se. Por um momento pareceu a Eilan que at as prprias 
rvores se imobilizaram, esperando para ouvir o que a sacerdotisa ia dizer.

- Apenas num local fora do tempo... - murmurou Caillean.
- Protegido do mundo por uma bruma de magia. - E, nessa altura, por um instante, 
pareceu a Eilan que via o que a mulher mais velha estava a ver - a bruma flutuando 
como um vu sobre as guas prateadas, e cisnes brancos cantando quando levantavam 
voo.

Depois Caillean sentiu um sobressalto e abriu os olhos, olhando confusamente  sua 
volta, e atravs das rvores ouviram o gongue a cham-las para a refeio da tarde.

Durante algum tempo as ansiedades de Eilan foram apaziguadas, mas  medida que os 
dias passavam e caminhavam para o solestcio de Vero, comeou a pensar porque  
que a Deusa no a teria fulminado logo. Primeiro, quando chegou a altura habitual para 
que ela se retirasse para purificao, de acordo com

258

MARION ZIMMER BRADLEY

os costumes da Casa da Floresta, e no havia sinal das regras, no se preocupou; nunca 
tinha sido regular, Mas quando o segundo ms chegou, e se foi, ficou certa de que a 
magia da fertilidade de Beltane tinha funcionado nela bem de mais,

A sua primeira e instintiva reaco de alegria cedo se transformou em horror. O que 
diria Bendeigid? Ou faria? Chorou ento, desejando poder voltar atrs no tempo e 
procurar o conforto dos braos da sua me. Depois,  medida que os dias passavam, 
pensou se em vez de uma gravidez no seria alguma doena sria que lhe teria sido 
imposta em castigo pelo seu sacrilgio,

Tinha sido saudvel e forte toda a sua vida, mas, agora, ficava enjoada cada vez que 
tentava comer ou beber qualquer coisa; arrepios atormentavam-na todos os dias e no 
tinha apetite. Ansiava pela poca das colheitas e pensava com avidez nos seus frutos, 
como se eles fossem a nica coisa susceptvel de no a enjoar tanto. Quase tudo o que 
ela conseguia engolir sem vomitar era o mais aguado e mais cido leitelho. Decerto que 
as gravidezes da sua irm Mairi no a tinham atormentado deste modo, pelo que isto 
dificilmente podia ser um sintoma prematuro. At as guas do Poo Sagrado, quando as 
sacerdotisas se juntavam no dia mais comprido para beber delas, e ver o futuro, lhe 
provocavam gelados arrepios.

De tempos a tempos sentia Caillean a observ-la, mas a mulher mais velha tambm 
estava doente; Eilan, que era talvez a que estava mais prxima dela, no sabia o que a 
afligia. Quando lho perguntaram, Caillean disse que era o seu ciclo lunar que estava 
perturbado, mas a doena da mulher mais velha apenas enchia Eilan com um medo 
ainda maior. Decerto que Caillean no podia estar grvida! Eilan pensava, por vezes, se 
o seu pecado no teria amaldioado toda a Casa da Floresta, se a sua doena se 
espalharia, primeiro a Caillean e, a seguir, as mataria a todas. No se atrevia a 
perguntar.

Caffican colheu algumas folhas de tomilho do canteiro que Latis tinha a crescer no ptio 
interior e esfregou-as entre os dedos, respirando profundamente quando o doce aroma se 
espalhou no hmido ar da manh. O tomilho era bom para as dores de cabea e talvez 
lhe fizesse passar as suas. Hoje, finalmente, o seu ventre

A CASA DA FLORESTA

259

tinha cessado o intermitente e doloroso sangrar que a tinha flagelado durante todo o 
Vero e talvez este contacto com a terra pudesse aliviar a importuna sensao de terror 
que tambm a tinha perseguido.

Conseguia ouvir, vindos das latrinas do outro lado da parede, o barulho de algum a 
vomitar. Aguardou, pensando quem teria acordado a uma hora to matinal. Depressa viu 
uma figura numa roupa branca a deslizar pela arcada como se tivesse medo de ser vista. 
Pela primeira vez em semanas os seus sentidos interiores despertaram, e ela soube quem 
devia ser, e, com uma sbita certeza, o que se passava de errado com ela.

- Eilan, vem c! - Era a voz de comando de sacerdotisa e a rapariga estava bem treinada 
de mais para no obedecer. Com lentos passos, Eilan voltou atrs e Caillean notou as 
atormentadas faces e o novo volume dos seios da rapariga. Os seus prprios problemas 
devem ter sido mais distractivos que o que tinha imaginado, pensou amargamente.

- H quanto tempo ests assim? Desde Beltane? - perguntou. Eilan olhou para ela, a sua 
face contorcendo-se. - Minha pobre criana! - Caillean estendeu os braos e, 
subitamente, Eilan agarrou-se a ela a soluar.

- Oh, Caillean, Caillean! Eu pensei que estava doente... pensei que ia morrer!

Caillean acariciou-lhe o cabelo.

- Tens tido as tuas regras durante este tempo?
  Eilan abanou  a cabea.
 - Ento  vida, no morte, o que trazes contigo - disse ela, e sentiu o revelador aliviar 
da tenso no corpo magro por baixo das suas mos.

Os seus prprios olhos encheram-se de lgrimas. Isto era uma coisa horrvel, 
certamente, e, no entanto, no conseguia evitar sentir uma desesperada inveja, 
lembrando-se de como o seu prprio corpo a estava agora a trair e no sabendo se o que 
lhe tinha acontecido era apenas o final da fertilidade de que nunca tinha feito uso ou, na 
verdade, o fim da sua vida.

- Quem te fez isto, minha querida? - murmurou para o suave cabelo da rapariga. - No 
admira que tenhas estado to calada. No podes ter pensado que eu no compreenderia!

Eilan olhou para cima, com os olhos vermelhos e Caillean lembrou-se de que esta 
rapariga no mentia.

260

MARION ZIMMER BRADLEY

- No foi violao... Caillean suspirou.

- Ento suponho que foi aquele rapaz romano. - No era uma pergunta e Eilan assentiu 
sem palavras. Caillean suspirou de novo e olhou para o espao. - Pobre criana - disse 
finalmente. - Se eu tivesse sabido logo poder-se-ia ter planeado alguma coisa, mas j 
ests de trs meses. Sabes que vamos ter de dizer a Lhiannon.

- O que  que ela me far? - Eilan estremeceu.

- No sei - disse Caillean. - Nada de especial, suponho.
- Havia uma lei antiga que exigia a morte para uma sacerdotisa que quebrasse os seus 
votos, mas seguramente nunca a aplicariam

- a Eilan. - Provavelmente sers apenas mandada embora... estavas preparada para isso, 
suponho. Mas estou certa que isso ser o pior que pode acontecer - acrescentou.

E se eles tentarem castigar-te com mais dureza , pensou Caillean com um assomo da 
sua antiga energia, tero que se haver comigo!

- Sua miservel, seu pequeno e sujo animal! - gritou Lhiannon. Uma sbita cor prpura 
invadiu as faces da Gr Sacerdotisa e Eilan retraiu-se, - Quem te fez isto?

Eilan abanou a cabea, os olhos a arder.

- Fizeste isto de propsito... no gritaste? Traidora! A tua inteno foi envergonhar-nos 
a todas ou simplesmente no pensaste? Excitada como um animal com o cio, depois de 
todo o nosso cuidado contigo... - Lhiannon engoliu a respirao, ofegando 
horrivelmente.

Caillean suspeitava que ia haver uma cena quando dissessem  Gr Sacerdotisa, mas 
isto estava a ser pior do que tinha esperado. A sade e o gnio de Lhiannon tinham-se 
tornado cada vez mais precrios, e Caillean podia ver que este era um dos seus dias 
maus. Mas nessa altura j era tarde de mais. Subitamente ela esbofeteou a rapariga, 
gritando:

- Pensaste que era uma paixo sagrada? No s melhor que uma prostituta!

- Lhiannon... - Caillean passou um brao  volta dos ombros da idosa mulher e sentiu 
alguma da tenso abrandar.

A CASA DA FLORESTA

261

- Isto no  bom para vs. Acalmai-vos, Me; deixai-me dar-vos um ch. - Passou a 
mo pela testa da mulher mais velha e Lhiannon tombou-lhe nos braos. Com uma mo 
Caillean deitou algum ch dum frasco para uma caneca e levou-a aos lbios de 
Lhiannon. Uma fragrncia a hortel espalhou-se pelo quarto. A Gr Sacerdotisa bebeu, 
depois deixou escapar a respirao, num longo, tremente suspiro.

Eilan mantinha-se entorpecida e sem lgrimas  sua frente. Tinha-lhe sido necessria 
toda a sua fora para vir at aqui.
O que acontecesse depois estava nas mos do destino e, neste momento, ainda 
estarrecida com a fria de Lhiannon, obviamente achava difcil importar-se. Quando 
Lhiannon recuperou parecia ter esquecido a sua fria.

- Senta-te! - disse queixosamente. - Magoa-me o pescoo olhar para cima.

Caillean apontou um banco de trs pernas e Eilan, ainda ressentida, obedeceu.

- Muito bem - disse Lhiannon num tom j parecido com o seu normal. - O que se pode 
fazer agora? Tenho pena de te ter batido, mas isto contraria planos... - Ela parou, 
enrugando as sobrancelhas. - Bem, temos que arranjar alguma coisa. Suponho que o 
melhor seja contar a Ardanos.

- Pelo amor de deus, no vejo o que  que ele tenha a ver com isto - disse Caillean. A 
no ser , pensou, que tenham sido os seus planos a serem contrariados pela vergonha 
de Eilan!
- No  como se ela tenha sido a primeira a parir por causa das fogueiras de Beltane, 
nem ser a ltima, tenho a certeza. Seria mais fcil se Eilan fosse filha de outro homem. 
Mas Ardanos e Bendeigid tero simplesmente que se habituar  ideia! Com certeza que 
o destino duma sacerdotisa de Vernemeton  um assunto que nos diz respeito. Quereis 
dizer que no somos capazes de achar o que devemos fazer?

- No foi isso que eu disse - respondeu Lhiannon irascvelmente -, mas Ardanos deve 
ser informado.

- Por qu? Que lei  que o requer, excepto a lei romana que torna as mulheres numa 
simples propriedade dos seus homens? - Caillean comeou a ficar zangada. - Tendes 
realmente tanto respeito pela sua sabedoria?

Lhiannon passou a mo pelos olhos.

262

MARION ZIMMER BRADLEY

- Por que  que a tua voz tem de ser to spera, Caillean? Vais fazer com que apanhe 
uma dor de cabea. j devias saber que  no  uma questo de sabedoria mas de poder. 
Pelo tratado que protege este local, tudo o que diz respeito  Casa da Floresta est a seu 
cargo.

- Sim, tanto pior - disse Caillean com amargura. - Dizei-me, quem o escolheu para ser o 
deus?

Lhiannon esfregou o brao esquerdo como se ele lhe             doesse.

- Em qualquer dos casos, ele  um dos poucos                 parentes vivos de Eilan e  de 
simples justia inform-lo - disse ela cansadamente.

Caillean sentiu uma indesejada pontada de piedade. Era bvio que Lhiannon estava 
desejosa de descarregar o problema para cima dos ombros doutra pessoa. Em vista da 
sua fraca sade talvez isto no constitusse de todo uma surpresa.

Eilan permanecia ainda em silncio, como se esta confisso lhe tivesse tirado todas as 
foras. O seu olhar estava virado para dentro, como se o que elas tinham dito no tivesse 
nada a ver com ela ou j no se importasse.

Diz alguma coisa, criana! Caillean fitou-a.  o teu destino que estamos a decidir! 
Caillean sabia que Ardanos no lhe podia fazer nada a ela; ele tinha tentado, mas 
Lhiannon era afeioada  sua protegida e eles tinham conseguido chegar a um certo 
compromisso, fingindo cuidadosamente que Caillean no existia. Ela, por seu lado, 
tentava evitar chamar a sua ateno, ou opor-se-lhe; mas, por causa de Eilan, sentia que 
at seria capaz de tentar enfrentar o velho druida.

- Muito bem, mandai ento chamar Ardanos - disse em voz alta. - Mas pensai duas 
vezes antes de a colocar sob o seu poder.

- Bem? - Ardanos franziu o sobrolho para as trs mulheres que o esperavam no 
alojamento da Gr Sacerdotisa. - O que aconteceu de to importante que tiveram de me 
mandar chamar?
- Lhiannon parecia frgil e cansada, e Caillean pairava como uma sombra atrs dela. 
Seria a sua sade? pensou ele com uma sbita punhalada de alarme quando reparou em 
Eilan sentada perto da janela. T-lo-iam mandado chamar porque a Gr Sacerdotisa

A CASA DA FLORESTA

263

estava a morrer? Ela no parecia doente a esse ponto e decerto no teriam j dito a 
Eilan...

- Sejamos claros sobre isto - disse Caillean claramente.
- Eu no vos mandei chamar. E se fosse o meu ltimo sopro negaria ainda que tivsseis 
qualquer autoridade sobre as sacerdotisas.

- Mulher! - trovejou Ardanos. - O que...

- E no me digais Mulher! nesse tom de voz, como se elas no tivessem nada a ver 
convosco, como se a vossa prpria me no tivesse sido uma - retorquiu Caillean 
furiosamente.
- os homens que no receiam a Deusa... quem so eles para falar em Seu nome?

Ardanos fez uma careta e voltou-se para Lhiannon.

- Bem,  melhor que me digas o que  que se passa disse, no muito suavemente. - De 
certeza que no o ouvirei de Caillean.

Esta altura no era a melhor para deixar Deva, pensou ele irritado. Com o Governador 
fora, lutando na Calednia, alguns dos oficiais locais tinham comeado a abusar dos 
seus prprios poderes. Precisava de estar de volta ao local onde os seus agentes o 
podiam manter informado e, se necessrio, poder usar os seus contactos entre os 
romanos para evitar problemas.

Lhiannon fez um estranho som estrangulado, tossiu e tentou de novo.

- Eilan est grvida do filho do Prefeito e ns no sabemos o que fazer.

Ardanos olhou para ela espantado e depois o seu olhar viajou at Eilan.

- Isto  verdade?

Eilan disse numa voz baixa:
- Eu digo sempre a verdade.

- Sim - resmungou Ardanos, a mente rodopiando-lhe em conjecturas. - Concedo-te isso; 
no s nenhuma mentirosa, rapariga.

Ela tinha o aspecto de quem teria preferido muito mais no lhe ter dito o que quer que 
fosse. Caillean foi para o lado dela e pegou-lhe na mo, protectoramente. Ele sentiu a 
fria a subir. Estas estpidas galinhas faro alguma ideia do devastador que isto 
poderia ser? A prpria sobrevivncia da Casa da Floresta

264

MARION ZIMMER BRADLEY

dependia da manuteno do mito da sua pureza! Ele tinha de as fazer perceber isso!

- Por que mo perguntais? - As suas palavras soaram com todo o poder do treino bardo. - 
Sabeis o castigo to bem como eu. Para uma sacerdotisa ajuramentada que faa amor 
com qualquer homem excepto com o Rei Sagrado  a morte.

Morte. A palavra provocou um silncio, mesmo na quietude
do quarto. Depois, Lhiannon gemeu e Caillean             correu rapidamente para a 
apanhar nos braos.

- Velho cruel e sem corao! - explodiu. - E pensar que foi ela que insistiu em vos expor 
o problema! - Agarrou a mulher mais velha de encontro a si,  procura da pulsao no 
pescoo. - Deusa! O seu corao est a pular como um cavalo assustado! Mas ainda no 
a matastes, ainda no foi desta vez. - Endireitou-se quando Lhiannon gemeu e se mexeu. 
- Sabeis que o seu corao est fraco. Quereis tentar de novo?

Ardanos inclinou-se para ela. Disse suavemente:

- Foi apenas um desmaio; vai recuperar. - Sentiu-se mais abalado que o que tinha 
esperado. - No sabia que isto a iria afectar tanto.

Ajudou Caillean a levantar a anci, surpreendido com o leve que ela era por baixo das 
roupas, e a deit-la na cama, um pouco levantada nas almofadas para que pudesse 
respirar. Caillean deitou umas gotas de uma poo num copo de gua e levou-o aos 
lbios da Gr Sacerdotisa. Ardanos viu os msculos da garganta de Lhiannon 
contrarem-se enquanto engolia, e, passados poucos momentos, as suas pestanas 
abriram-se de novo.

Os seus olhos ainda so belos, pensou Ardanos surpreendido, mesmo agora, quando 
esto enevoados pela dor. Lamentaria quando a morte a levasse, mas no podia deixar 
que esse conhecimento interferisse com o que tinha que fazer.

- A morte no - murmurou ela. - No h outra soluo? Ardanos olhou de relance para 
Eilan, que estava sentada encolhida no seu banco com os ns dos dedos encostados aos 
lbios, o olhar fixo em Lhiannon.

- Teria dito o mesmo nem que fosse a minha prpria filha Dieda. Primeiro pensei que 
fosse ela...

- Dieda no interessa... - disse Lhiannon com mais fora. - No podemos deixar que 
faam mal a Eilan!

A CASA DA FLORESTA

265

- Claro que no! - disse Caillean acalmando-a. - Ardanos sabe to bem como vs ou eu 
que essa penalidade nunca foi exigida. Afinal de contas, no  como se isto fosse uma 
novidade.

- Bem - perguntou cautelosamente Ardanos -, o que sugeris que faamos? - Deu-lhe 
uma satisfao perversa ver Caillean domesticada daquela maneira. Talvez ela fosse 
menos incmoda a partir de agora.

o filho de Miellyn foi gerado pelo Rei do Ano, e, de qualquer modo ela abortou, pelo 
que o problema no se ps. Mas h cinco ou seis anos tivemos um problema semelhante 
e a rapariga foi calmamente mandada embora.

- Isso  verdade - disse Ardanos. - Mas a rapariga em questo no era filha de um druida 
importante...

- Nem neta doutro - disse rispidamente Caillean. - E assim chegamos ao fulcro da 
questo; tendes medo que isto se reflicta sobre vs!

- Est calada, Caillean - disse Lhiannon. - Como podes sentar-te aqui a discutir com 
Ardanos enquanto esta pobre criana
- olhou de relance para Eilan - est a ouvir, sem saber se dever morrer ou viver.

Ardanos olhou para a neta; no podia ver nada pela sua expresso. Estava ela a ser 
teimosa ou, na verdade, no se importava? Abanou a cabea exasperado. O trabalho que 
aqui tinham feito no podia ser posto em perigo por uma rapariga tonta.

-  sabido entre as outras? - perguntou, e Caillean abanou a cabea. - Arranjai maneira 
de isso se manter assim e talvez consigamos achar uma maneira...

- Oh, que amabilidade! - disse Caillean          sarcasticamente. Fazer pela vossa neta o 
que fareis por qualquer estranha...
- Est calada, filha - repetiu cansadamente Lhiannon.

No devias falar desse modo ao Arquidruida. Tenho a certeza que ele est a tentar fazer 
o melhor que pode por Eilan... e por ns todas.

Caillean pareceu cptica, mas acalmou-se.

- De qualquer modo, no sois as nicas interessadas disse severamente Ardanos. A 
violao de uma sacerdotisa sagrada, pois era assim que ele lhe chamava, dissesse Eilan 
o que dissesse, era um rastilho que podia pr toda a Bretanha em

266

MARION ZIMMER BRADLEY

chamas. Havia um romano, pelo menos, que iria ficar to ansioso como ele por ver este 
assunto ser tratado discretamente.

- Irei at Deva e falarei com Macellius; talvez at me encontre tambm com o jovem 
romano.

Durante o ms que se seguiu os enjoos de Eilan pararam, e durante a maior parte do 
tempo ela sentiu-se to bem como sempre. Os seus vestidos soltos esconderam as 
mudanas nos seus seios e, sendo um primeiro filho, ainda se passaria algum tempo 
antes que qualquer volume fosse visvel no seu ventre.

Perguntava-se o que Gaius teria pensado quando soube da sua gravidez. No estava 
arrependida de ter feito amor com ele, mas via agora o poder das foras     levantadas 
contra ela, e parecia-lhe que tinha sido uma idiota    em ter pensado que as coisas 
podiam mudar. As suas vises de      se tornar numa grande sacerdotisa  maneira antiga 
estavam      a desvanecer-se. Nesta altura apenas queria ser a me do filho     de Gaius. 
Mas mesmo ento, apesar das palavras de despedida     de Ardanos, no se atrevia a 
acreditar que a deixassem casar com ele.

Pelo menos, Caillean e Lhiannon no pareciam acreditar que o seu estado a 
desqualificava para participar nos rituais. A maior parte do seu tempo passou-o a 
decorar a cerimnia da Lua Cheia, juntamente com as outras sacerdotisas 
ajuramentadas.

Tinha-se tornado numa questo de orgulho para ela o provar que a perda da virgindade 
no tinha afectado a sua capacidade como sacerdotisa, de modo que ela se disps a 
memorizar as mincias dos rituais. Quando eram crianas tinham lutado para fazerem o 
melhor fio de l, ou o mais esmerado dos bordados, e assim ganhar os elogios de Rheis. 
Nesses dias Eilan tinha tido pena da sua parenta, porque a me de Dieda j tinha 
morrido enquanto ela prpria tinha tido sempre o carinho duma me, pelo que se tinha 
abstido da competio. Dieda tinha necessidade de ser a primeira; Eilan no. Mas agora 
ela tinha uma razo para se superar.

Eilan tinha um bom intelecto e, incitada por Dieda, usou-o at ao seu limite. A memria 
de Dieda era mais precisa e, claro, ningum conseguia competir com o seu canto; mas, 
das duas, Eilan provou muitas vezes ter a melhor capacidade de compreenso.

A CASA DA FLORESTA

267

Quando Lhiannon falava com elas, Eilan via-se suspensa de cada uma das suas palavras. 
A Gr Sacerdotisa tinha-se tornado to frgil que se lhe tornava difcil lembrar-se que 
Lhiannon ainda tinha apenas  volta de sessenta anos.

Eilan pensava algumas vezes em quem lhe sucederia. Deveria ser Caillean, mas a 
irlandesa tinha dito que os sacerdotes nunca a aceitariam. Miellyn estava franca e 
amarga de mais desde a perda da sua criana e Eilidh era demasiado introvertida. Podia 
ser Dieda, pensou ela ento, e tentou imaginar o que seria viver sob o domnio da sua 
parenta.

Na altura em que a Lua estava cheia novamente, Lhiannon pareceu muito melhor mas,  
medida que o ritual progredia, podiam ouvir a sua voz tornar-se cada vez mais dbil. Ela 
completou a cerimnia, mas era claro para todas o quanto lhe tinha custado. No dia 
seguinte teve um colapso e, desta vez, quando foi levada para a cama no encontrou 
foras para de l voltar a sair.

DEZASSEIS

Ardanos pode ter sentido uma certa satisfao em dizer a Macellius Severus o que o seu 
filho tinha feito, mas, o que quer que tivesse esperado, tinha encontrado no Prefeito 
algum  sua altura. Macellius ouviu-o com grande cortesia, e depois informou-o 
calmamente de que Gaius tinha partido para Londinium a fim de se casar. E assim que o 
Arquidruida se foi embora tratou de fazer que isso acontecesse.

Macellius no tinha nenhuma dvida de que Ardanos lhe estava dizer a verdade. A 
nica surpresa era como ele se podia ter iludido si prprio sobre a paixo do filho. 
Havia um trao de teimosia no rapaz herdado dele e um trao romntico que era a 
herana da me. Macellius esfregou os olhos. Moruah tinha desafiado o desagrado de 
todos os seus conhecimentos para casar com ele. No devia ter subestimado a fora 
desse selvagem sangue celta.

Com um cavalo ou um escravo to desobedientes saberia tomar medidas mais duras. 
Talvez fosse mais difcil para ele disciplinar Gaius, pois tantas vezes via Moruadh a 
olhar para ele atravs dos olhos do filho. Mas o casamento com uma boa rapariga 
romana faria o rapaz assentar. Quando os passos do druida desapareceram no corredor 
de ladrilhos, Macellius chamou o seu secretrio.

A viso da tempestuosa face do seu patro impediu o jovem Valerius de dizer uma das 
suas habituais piadas. Saudou disciplinadamente e saiu  procura de Gaius. Encontrou-o 
na biblioteca, lendo o relato das guerras gaulesas de Csar.

- Vou imediatamente. - Gaius pousou o rolo. - Fazes alguma ideia do que o meu pai 
quer?

270

MARION ZIMMER BRADLEY

- No. Nenhuma. Mas ele est furioso - avisou Valerius. Esta manh teve a visita do 
velho druida Ardanos e ele saiu de l como um trovo, Senhor Gaius.

- Sim? Imagino o que quereria o velhote? - perguntou Gaius, sentindo um pequeno 
arrepio a comear a subir-lhe pela espinha acima. Ardanos tinha entrado e sado daquele 
lugar, desde que ele era uma criana, para tratar de algum problema relacionado com os 
nativos ou qualquer outro. As pessoas estavam sempre a aparecer com solicitaes, 
legtimas ou no, e quando elas se mostravam demasiadamente pouco razoveis o mais 
provvel era o pai ficar de muito mau humor. No havia qualquer razo para que esta 
convocatria tivesse algo a ver com o facto de Ardanos ser o av de Eilan, mas 
enquanto percorria o corredor ladrilhado no conseguia deixar de se sentir preocupado.

0 Severus mais velho estava a segurar num rolo de ordens militares.

- Vais partir para Londinium imediatamente - rosnou.
 Gaius olhou para ele espantado. Abriu a boca para perguntar porqu, e percebeu que o 
seu pai estava com uma fria monumental.

-  Tinha-te dito para deixares aquela rapariga em paz!

A compreenso comeou a nascer. Ardanos deve ter dito ao Prefeito que ele tinha 
estado com Eilan. Algum os teria visto? De certeza que Eilan no tinha contado a 
ningum. Gaius teria ficado feliz em proclamar o seu amor aos quatro ventos; tinha sido 
ela a insistir no secretismo.

- Com todo o respeito, senhor, no penso...

- No, tu no pensas. Isso  metade do problema - rosnou Macellius. - Suponho que 
sabes que dificilmente podias ter feito algo pior, mesmo que tivesses procurado por toda 
a Bretanha, a no ser que tivesses violado a sua Gr Sacerdotisa em plena luz do dia, em 
cima do seu Altar principal, ou cortado o carvalho sagrado deles. Queres ver-nos todos 
massacrados?

Macellius no esperou por uma resposta.

- As pessoas aqui no precisam duma desculpa para comearem um tumulto. No, nem 
uma palavra - disse ele com um gesto peremptrio quando Gaius quis falar. - Confiei 
uma vez na tua palavra... nunca mais. No penso, nem por um momento,

A CASA DA FLORESTA

271

que tenhas violado a rapariga mas consigo acreditar, bem facilmente, que a 
engravidaste. No tenho a mnima das dvidas que ela seja uma boa rapariga, ao seu 
modo, e que merece mais de ti que isto. Uma virgem ajuramentada e a neta do 
Arquidruida!

A boca de Gaius fechou-se outra vez lentamente. Eilan grvida! Eilan transportando o 
filho dele! Recordou-se da doura da sua boca e da suavidade do corpo dela por baixo 
do seu e engoliu em seco, mal ouvindo as palavras que o pai disse a seguir.

- No te perdoarei teres-me colocado numa posio em que no podemos sequer fazer 
qualquer compensao honrosa, mas, como as coisas esto agora por aqui, nem sequer 
posso mandar que cases com ela.

- Mas eu quero... - comeou Gaius.
 Macellius abanou a cabea.

- O Sul explodiria como h vinte anos se o povo ouvisse tal coisa, um facto de que o 
velho est bem consciente. Ele j me arrancou uma concesso sobre as levas de mo-de-
obra, e atrevo-me a dizer que no se vai ficar por aqui. Mas pelo menos no te usar 
contra mim. Disse a Ardanos que estavas em Londinium e  para a, meu rapaz, que 
irs. Dar-te-ei uma carta para Licinius e, com alguma sorte, no te verei antes de estares 
casado como deve ser.

Gaius ouviu-o incrdulo.

- Casado? Mas isso  impossvel!

- Veremos - disparou o pai. - Consegues pensar noutra maneira qualquer de desfazer a 
tua loucura? Ardanos prometeu que no fariam qualquer mal  rapariga desde que te 
mantenhas afastado dela, e eu no consigo pensar em nenhuma outra maneira de ter a 
certeza que nunca mais te aproximas dela. Sabes que Licinius e eu falmos sobre isto, 
de modo que o dote e os preparativos no sero problema. Se ela ainda te quiser depois 
disto, casars com a rapariga.

Gaius abanou a cabea, tentando encontrar palavras para protestar e o seu pai fitou-o.

- Casars - ordenou suavemente, mas com tanta fria contida que Gaius no se atreveu a 
protestar. - Tive trabalho de mais para te salvar da tua prpria estupidez para agora 
deixar que te destruas a ti prprio. Partes dentro de meia hora. - o pai escrevinhou a 
assinatura num rolo de papiro e olhou para cima, para

272

MARION ZIMMER BRADLEY

Gaius. - Se recusares no sei o que faro  rapariga. Podias tentar pensar nela, para 
variar.

Gaius olhou para ele, tentando recordar-se do castigo romano para uma Vestal que 
quebrasse os seus votos; tanto quanto se lembrava, enterravam-nas vivas. 
Consciencializou abruptamente que tudo o que pudesse dizer no seria tomado seno 
como autodefesa. De facto, podia pr em perigo a vida de Eilan. O receio que sentiu por 
ela secou-lhe as palavras na garganta.

Macellius enrolou a carta, selou-a, e entregou-a ao filho.
- Leva isto a Licinius - instruiu. - Capellus, o meu ordenana, ir contigo - acrescentou, 
- j lhe mandei recado para emalar as tuas coisas.

Em menos duma hora Gaius viu-se na estrada para Londinium com a macia figura do 
velho Capellus a seu lado. Todas as suas tentativas de comear uma conversa foram 
polida mas firmemente repelidas. Quando, quase desesperado, ofereceu um suborno ao 
homem - tinha de parar para, de qualquer modo, fazer chegar uma palavra a Eilan - a 
resposta do grande homem foi quase um ronco.

- Sem ofensa senhor, mas o vosso pai disse-me que provavelmente tentareis isso e 
pagou-me bem para ver que vs no fsseis a nenhum lado seno directamente para 
Londinium. E eu trabalho para o vosso pai e no quero ficar sem emprego, percebeis? 
Sendo assim, acalmai-vos senhor e fazei como o Prefeito diz. Quando pensardes sobre 
isso, senhor, vereis que tudo ser pelo melhor, vedes?

A viagem para Londinium levou quase seis dias.  volta do terceiro dia, o optimismo 
natural de Gaius tinha comeado a vir ao de cima, e observou com um interesse cada 
vez maior as bem cuidadas casas que brotavam nos campos. Podia ver o quo bravio 
ainda estava o pas a ocidente. Esta ordenada paisagem era o que o Imprio era suposto 
ser. Ele admirava-a, mas no estava certo de gostar dela.

Aproximava-se a noite quando atravessaram os portes da cidade e chegaram em frente 
da manso do Procurador, localizada entre o Forum, onde se situavam os escritrios do 
departamento de finanas, e o novo palcio que Agricola estava a construir, com

A CASA DA FLORESTA

273

os seus lagos ornamentais. Quando criana tinha vindo diversas vezes a Londinium e, 
tambm, quando assumiu a toga e se tornou oficialmente um homem, mas nunca desde 
que Agricola se tinha tornado no seu governador.

A cidade brilhava graciosamente  luz do crepsculo de Vero e um vento frio vindo do 
rio dissipava a opressiva humidade do dia. As cicatrizes dos incndios de Boudicca 
estavam quase escondidas e os planos de edificao do governador deixavam entrever 
as nobres propores que a cidade viria um dia a ter. Claro que nunca poderia rivalizar 
com Roma mas em comparao com Deva era uma metrpole.

Gaius entregou a carta a um imponente homem liberto que estava no prtico e foi 
convidado a entrar e a sentar-se no ptio central. Aqui ainda fazia calor e sentia-se o 
perfume dos arbustos e flores colocados  volta em vasos. Da fonte vinha um tilintar de 
gua corrente e, algures nos quartos para l do ptio, a msica do riso duma 
rapariguinha. Passado algum tempo apareceu um velho jardineiro que comeou a cortar 
flores, provavelmente para a mesa, mas ele no percebeu, ou fingiu no perceber, 
qualquer das lnguas em que Gaius se lhe dirigiu. Gaius passeou por ali durante algum 
tempo, contente por poder esticar as pernas depois do comprido dia em cima da sela. 
Depois sentou-se num banco de pedra, e, surpreendido pela fadiga da viagem, 
adormeceu.

De algum modo o som do riso da rapariga imiscuiu-se no seu sonho... Gaius acordou 
sobressaltado, olhando  sua volta, mas no havia ningum a vista a no ser um homem 
de meia idade, com uma constituio pesada, de muletas, vestido com uma toga 
cerimonial. Gaius levantou-se num pulo, corando com o embarao.

- Gaius Macellius Severus?
- Sim, senhor...

- Devia t-lo sabido. - O velho sorriu. - o meu nome  Licinius e o teu pai e eu temos 
sido amigos durante quase toda a nossa  vida.  um verdadeiro prazer dar as boas-
vindas ao seu filho. O teu pai est bem?

- Quando o vi pela ltima vez, h alguns dias, estava, senhor.

274

MARION ZIMMER BRADLEY

- Bom. Bom. Bem, jovem, tinha esperado, claro, que ele pudesse escapar-se para me 
visitar mas tu s muito sinceramente bem vindo em seu lugar. Dado a nossa 
combinao, podes imaginar o ansioso que tenho estado para te conhecer.

Todo o caminho desde Deva que Gaius tinha estado a repetir para si prprio que no 
deixaria que o precipitassem para nenhum casamento  pressa, mas no conseguia 
explodir em protesto  frente do velho amigo do seu pai. Tinha concordado COM isto 
devido ao perigo que Eilan corria e sabia que devia estar agradecido por Licinius ser to 
amvel.

- Sim, senhor - disse contemporizando. - O meu pai falou qualquer coisa sobre isso...

- Bem, espero bem que sim - disse Licinius rudemente.
- Como disse, temos pensado nisso desde que nasceste. Por Mithras rapaz, se Macellius 
no te tivesse falado nada sobre isto iria pensar no que  que hoje em dia ele estava a 
usar em vez da cabea. - Apesar da sua rudeza, esta era a primeira voz totalmente 
amigvel que Gaius tinha ouvido desde h muitos dias, e, quase contra a sua vontade, 
sentiu-se confortado por ela. Era agradvel ser-se benvindo. O Procurador tomou como 
certo que ele devia ser tratado como um amigo apreciado e um genro em Perspectiva e j 
se tinha passado muito tempo desde que algum tinha feito Gaius sentir-se parte duma 
famlia. Ele apercebeu-se, com uma sbita pontada de dor, de que a ltima vez que o 
tinham feito sentir assim tinha sido na casa de Bendeigid. Eilan, Cynric, o que iria 
acontecer-lhes? Sab-lo-ia jamais? Tinha-se preocupado com isto todo o caminho at 
Londinium - agora tinha de parar.

- Bem ento, filho - disse Licinius -, deves estar ansioso para conhecer a tua noiva.

Fala , disse Gaius para consigo prprio. Mas no conseguia resolver-se a apagar a 
luz que brilhava nos olhos do velho, e, em vez de o fazer, murmurou algo no 
comprometedor. Eles castigaro Eilan se eu tentar v-la novamente , lembrou-se 
firmemente. O melhor que podia fazer por ela seria seguir em frente com esta cerimnia 
como era esperado dele. Ou , pensou, ser apenas uma desculpa para evitar uma 
confrontao?

Mas Licinius j tinha ordenado a um bem vestido servidor superior.

A CASA DA FLORESTA                         
 275

- Manda chamar a senhora Julia.

Gaius sabia que esta era a altura para dizer que no queria ter nada a ver com esta farsa 
de um casamento combinado - mas, sem esperar pela sua resposta, o Procurador j se 
tinha posto em p.

- Ela vir ter contigo dentro de momentos,        Vou deix-los a vocs jovens sozinhos 
para que se conheam. - Antes que Gaius pudesse encontrar as palavras que        o 
detivessem, j ele partia a coxear.

Julia Licinia tinha zelado pela casa do pai desde a morte da me h trs anos. Filha 
nica, desde a mocidade tinha assumido que se casaria com quem quer que fosse o 
homem que o pai escolhesse. Ele tinha-lhe dito que tinha combinado um casamento 
com o filho de Macellius; pelo         menos isto queria dizer que no seria entregue a 
algum patrcio desconhecido, com o dobro da sua idade, como tinha acontecido a mais 
que uma das suas amigas. Tentando parecer despreocupada, colheu um dos maduros 
figos duma das rvores que cresciam nos vasos do trio colunado quando o seu pai se 
dirigiu a ela.

Ele sorriu abertamente.

- Ele j a est, minha querida, Gaius Macellius o mais jovem, o teu marido prometido, 
Vai e v o que achas dele; afinal de contas s tu que ests para casar com ele. Mas penso 
que se no gostares do aspecto do jovem  porque s difcil de contentar. Julia olhou 
fixamente para o seu pai. Disse:

- No estava  espera disto to cedo.

E, contudo, ocorreu-lhe que no havia qualquer necessidade de o adiar. Estava ansiosa 
por ter qualquer coisa de seu; e, certamente, quando ela tivesse gerado um filho a este 
jovem tribuno, ele a valorizaria acima de todas as coisas. j estava habituada a dirigir 
uma casa, mas queria filhos que a amassem. Estava determinada a no falhar, como 
tinha acontecido com a sua me, em dar um filho ao seu marido.

-   Nem eu - disse bondosamente o pai. - Queria ficar com a minha pequenina um pouco 
mais. Agora, provavelmente terei que me casar com alguma viva velha para me dirigir 
a casa. Mas parece que o jovem se envolve com

276

MARION ZIMMER BRADLEY

alguma nativa e Macellius acha que o casamento o far assentar. E assim...

Uma rapariga nativa? A sobrancelha de Julia levantou-se. Estava ciente que a maioria 
dos pais no falariam to francamente com uma filha, mas ela tinha sido sempre para 
Licinius tanto uma companheira como uma filha.

- E ento?

- E ento o rapaz apareceu  nossa porta e  tempo que vocs, jovens, se conheam. 
Suponho que deves estar ansiosa por conhec-lo?

- Tenho que admitir que estou curiosa. - Que tipo de marido lhe tinha a sorte destinado? 
Uma escapadela podia ser perdoada, mas se ele era do tipo de andar habitualmente atrs 
de mulheres no estava segura de o querer.

- Ento corre, filha - disse-lhe o pai. - Devo dizer, que se ele no gostar de ti  porque 
tambm ele  difcil de contentar. Num sbito pnico Julia lembrou-se de que estava 
vestida

com uma tnica velha e que se tinha penteado muito  pressa.
- Assim? - perguntou. Numa grande atrapalhao, tentou ajustar as pregas do vestido 
para esconder uma ndoa de amoras.

- Tenho a certeza que  a ti que ele quer ver, no o teu gosto para vestidos - admoestou-
a o pai carinhosamente.
- Ests perfeitamente adorvel. Ele sabe que s minha filha e isso  o que 
verdadeiramente importa. Despacha-te e v o que achas dele. No sejas pateta, criana.

Julia sabia que no havia apelo. Licinius era um pai generoso, at mesmo indulgente, 
mas uma vez que tivesse tomado uma deciso no conseguia fazer com que mudasse de 
opinio nem lisonjeando-o.

Uma vez mais Gaius ouviu o suave som de risos femininos e, por qualquer razo, 
pensou em Odisseu, surpreendido na praia por Nauscaa e pelas suas donzelas; apenas 
conseguiu ficar a olhar quando a rapariga apareceu por detrs duma das rvores em flor 
e se dirigiu a ele.

Uma rapariga? Uma criana, pensou Gaius inicialmente; porque embora ele prprio no 
fosse alto, a rapariga que entrou mal lhe chegava ao ombro; tinha uma cabea pequena, 
bem

A CASA DA FLORESTA

277

formada, com espessos caracis escuros, frouxamente presos na nuca. Os seus olhos 
tambm eram escuros, e enfrentaram os seus sem sombra de receio. Tinha, 
evidentemente, estado a comer amoras, pois a sua fina tnica de l branca, e os seus 
lbios, estavam manchados com o cor-de-rosa do seu sumo. O seu pai tinha-lhe dito que 
ela tinha quinze anos, mas dificilmente parecia mais de doze.

- Tu s a Julia Licinia?

- Sou. - Ela olhou para ele de cima a baixo. - O meu pai prometeu-me a um brbaro 
meio romano e vim aqui para lhe dar  uma olhadela. Quem sois vs?

- Receio que seja esse brbaro meio romano - disse ele um   pouco rigidamente.

A rapariga inspeccionou-o friamente e ele sentiu-se como se estivesse  espera dum 
veredicto de inusitada importncia; depois, ela deu uma risadinha.

- Bem, vs pareceis suficientemente romano - disse.
- Estava preparada para um grande brbaro loiro cujos filhos nunca viessem a parecer de 
sangue romano.  verdade que a poltica do nosso Governador de ensinar aos filhos dos 
chefes guerreiros os usos e costumes romanos tem sido bastante bem sucedida - 
acrescentou pensativamente -, mas aqueles de ns com sangue romano no devemos 
esquecer a quem pertence o Imprio. Eu nunca daria  luz nenhuns bebs cujos retratos 
parecessem deslocados entre os dos meus antepassados.

Sangue romano ou toscano? pensou Gaius cinicamente, lembrando-se de que Licinius 
tinha a mesma origem etrusca que o seu prprio pai e que devia a sua ascenso nas 
fileiras ao mrito, no aos antepassados. Essas origens comuns faziam, sem dvida, 
parte do lao que os unia. Gaius pensou em Cynric, que tambm era meio romano, se 
bem que sem o desejar. Pelo menos ele, Gaius Macellius, parecia-se com o que era 
suposto ser e o seu pai no se tinha poupado a trabalhos para que ele fosse aceite como 
tal. Disse secamente:

- Suponho que devo estar grato por ter passado na vossa inspeco.

- Oh, v l - disse ela -, tenho a certeza que quereis que os vossos filhos se paream o 
mais possvel com romanos tanto

como eu.

278

MARION ZIMMER BRADLEY

Com uma sbita pontada de dor pensou, E como ser o filho de Eilan? Seria to loiro 
como a me, ou mostraria a origem paterna no rosto? Obrigou-se a devolver o 
chocarreiro sorriso de Julia,

- Oh, estou mais que certo que todos os vossos filhos sero romanos e destemidos.

Estavam a rir os dois quando Licinius voltou. Ele espreitou para o rosado rosto de Julia, 
como que em confirmao, e disse:
- Est tudo decidido, ento.

Gaius pestanejou quando o seu sogro em perspectiva lhe apertou a mo, sentindo como 
se um grande carro de assalto lhe tivesse passado por cima, Mas a seu lado apenas se 
encontrava Julia, pequena e sorridente. Ela parecia to inofensiva; como uma criana.

Mas ela no o , pensou. Um s encontro foi o suficiente para o convencer. Longe 
disso. Inofensiva seria a ltima palavra que usaria para a descrever.

- Claro - disse o Procurador - que um casamento como este no pode ser organizado 
rapidamente. - Estava a tentar ser jocoso. - As pessoas iriam pensar que Julia se tinha de 
algum modo portado mal se se casasse a qualquer momento com um estranho vindo 
sabe-se l de onde. A sociedade local e a minha famlia tm que ter a oportunidade de te 
conhecer e de te avaliar.

Era exactamente essa a questo deste casamento, pensou Gaius secamente, s que era 
ele quem se tinha portado mal. Mas podia ver que Julia no queria ser apressada para 
um casamento Com - como o Procurador o tinha posto - um estranho vindo sabe-se l 
de onde. Tinha que se lhe dar a hiptese de se casar como um membro respeitvel da 
sua prpria comunidade. E o adiamento dar-lhe-ia, a ele, a oportunidade de recuperar o 
flego e pensar no que fazer. Talvez com um conhecimento mais ntimo a rapariga 
decidisse que afinal de contas no gostava dele e, nesse caso, nem mesmo o seu pai o 
culparia por no casar com ela.

Licinius deu uma pancadinha na carta de Macellius.

- Oficialmente, isto transfere-te para um cargo sob          o meu comando. Podes pensar 
que um jovem oficial no precisa de saber nada sobre finanas, mas quando chegares a 
comandar

A CASA DA FLORESTA

279

uma legio vers o teu trabalho facilitado se souberes algo sobre o sistema que mantm 
os teus homens calados e alimentados! Sem dvida que o achars um trabalho fcil 
depois da fronteira. No  Roma, mas Londinium est a crescer e no ters mos a 
medir com as mulheres, agora que todos os oficiais jovens do pessoal do Governador 
partiram para o Norte.

Fez uma pausa e fitou Gaius com um olhar duro.

- Desnecessrio ser dizer - acrescentou -, que no haver nenhum comportamento 
imprprio enquanto aqui estiveres.--- - O Procurador continuou - vivers com Julia sob 
este tecto como se ela fosse tua irm, embora eu v gradualmente fazendo saber que ela 
 a tua mulher prometida desde a infncia. Mas at depois da cerimnia...

_ Pai - protestou Julia -, acreditas realmente que eu desgraaria desse modo tanto a vs 
como a mim?

Os olhos de Licinius suavizaram-se quando olhou para ela.
- Espero-o bem, rapariga - resmungou. - Apenas o quis tornar claro para este jovem.

- Estou certo que no - murmurou Gaius. Mas o perigo era escasso; achava difcil 
acreditar que Julia alguma vez se deixasse dominar pela emoo. Ela era, com certeza, 
muito diferente de Eilan, que tinha pensado nos interesses dele primeiro que nos dela, e 
estava agora a sofrer as consequncias.

Apress-la-iam, agora, para um casamento de convenincia com  algum mais 
adequado , como estavam a tentar fazer com ele? Subitamente ele visionou-a, sovada 
ou intimidada at  submisso, triste, infeliz, talvez at a chorar. Ela era, afinal de 
contas, de nascimento nobre, tal como os Bretes consideravam essas coisas, e uma 
aliana com a sua famlia podia ser considerada vantajosa - como este casamento com              
Julia seria politicamente vantajoso para o seu pai - e, supunha, tambm para ele.

Mas estou certo que se eles tentarem ela recusar , pensou ento. Ela tem mais 
integridade que eu. Por muito exttica que a sua unio com Eilan tivesse sido, tinha 
havido momentos em que ela quase o tinha assustado. Ou talvez fosse a sua prpria 
resposta que lhe tinha metido medo,

Julia sorriu com uma aparncia de timidez, Era, pensou Gaius, adoptada em beneficio 
do pai; a hora que se tinha passado

280

MARION ZIMMER BRADLEY

tinha-o ensinado que era difcil de imaginar algo menos tmido que Julia - excepto 
talvez um dos elefantes de guerra de Anbal. Mas talvez o pai ainda pensasse nela como 
uma criana tmida; os pais eram sempre os ltimos a saber como  que os seus filhos 
eram na realidade.

Mas isso f-lo pensar de novo em Eilan; o pai dela tinha confiado nele e veja-se o que 
aconteceu; no podia culpar o pai de Julia por ser mais cuidadoso.
Os deveres dum oficial destacado para o pessoal do Procura-
dor acabaram por incluir u certo nmero de tarefas que teriam provavelmente sido 
fceis para Valerius mas que, para Gaius, cujo tutor se tinha aposentado h alguns anos, 
eram to desgastantes para o esprito como as primeiras semanas no exrcito o tinham 
sido para o corpo. Afortunadamente, estas tarefas eram muitas vezes interrompidas por 
nomeaes para servios de escolta a altos dignitrios de visita.

Ele no estava muito habituado a cidades, mas cedo aprendeu a movimentar-se 
suficientemente bem. Gnaeus Julius Agricola, o Governador, tinha comeado um 
programa de construo, do qual Londinium tinha sido o primeiro beneficirio. Os 
Bretes tinham sido um povo pastoril, enquanto a vida romana se centrava  volta da 
cidade, com as suas lojas e banhos, os seus jogos e teatros. Uma ponte ligava 
Londinium com o Sul, e outras estradas estendiam-se para o Norte e para o Ocidente. 
Ao longo destas artrias vinha o comrcio de todos os cantos da provncia e os barcos 
que ancoravam nos molhes carregavam mercadorias de todo o Imprio.

Acompanhar os estrangeiros deu-lhe uma desculpa para explorar e dar-se a conhecer a 
visitantes de elevada situao. Quando Gaius juntou coragem para lhe perguntar, 
Licinius disse que era assim que o tinha planeado.

- Pois porque se este casamento for bem sucedido... disse ele, e deteve-se sem acabar a 
frase. - Sabes, eu no tenho filhos; nenhum filho de todo, excepto Julia, e se as coisas 
correrem como devem, deve-lhe ser permitido suceder-me e talvez at chegar a senador. 
Mas claro que uma mulher, por muito capaz que seja, apenas pode fazer uso do seu 
estatuto por intermdio

A CASA DA FLORESTA

281

do marido.  por isso que me agrada tanto que ela se case com o filho do meu mais 
antigo amigo.

S ento Gaius percebeu o plano de Macellius. Casado com Julia, Gaius podia 
legitimamente aspirar  posio  qual o imprudente casamento do pai o tinha 
desqualificado. No teria sido humano - nem filho de Macellius - se ficasse indiferente 
s possibilidades. o facto de viver em Londinium j lhe tinha alterado as perspectivas, e 
estava a comear a perceber o que teria deitado fora se tivesse fugido com Eilan. Ele 
tinha abusado dela? Apenas podia esperar que ela soubesse que nada na terra - excepo 
feita  vontade do seu pai, ou s ameaas  prpria Eilan - teria podido fazer com que 
ele a abandonasse.

No tinha percebido que Julia estava a par dos seus problemas at ela trazer o assunto  
baila.

- O meu pai contou-me - disse ela depois da refeio da tarde, quando estavam sentados 
no terrao, o pr do Sol de finais do Vero a dourar o zimbrio da baslica - que foste 
enviado para aqui porque tinhas feito uma espcie qualquer de aliana com uma mulher 
nativa, a filha dum homem proscrito. Diz-me qualquer coisa sobre ela. Que idade tinha 
ela?

Gaius sentiu o rosto a arder e tossiu para disfarar a sua confuso. Nunca lhe tinha 
ocorrido que o pai dela lhe tivesse contado; mas talvez fosse melhor tomrnr as coisas 
claras entre eles.

-   Alguns anos mais velha do que tu, penso. - Na verdade, supunha que Julia devia ter 
agora mais ou menos a idade que Eilan tinha quando a conheceu pela primeira vez. Se 
bem que em tudo o resto fossem completamente diferentes, Julia tinha o toque de 
inocncia que primeiro tinha amado em Eilan.

O Procurador tinha-o mantido ocupado, bem como o tinha a sociedade local. Era uma 
experincia inebriante para um jovem rapaz de sangue misto. Uma vez tinha dito ao seu 
pai que no era ambicioso, mas isso tinha sido antes de perceber que recompensas a 
riqueza, e os conhecimentos adequados, podiam proporcionar.

Julia sorriu amavelmente para ele.

- Gostavas muito de te teres casado com ela?

- Pensei que sim. Estava apaixonado. Claro que nessa altura ainda no te tinha 
conhecido - disse rapidamente, pensando no que  que o amor poderia significar para 
Julia.

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MARION ZIMMER BRADLEY

Ela olhou para ele, longa e fixamente.

- Penso que a deves ver outra vez antes de casarmos
- disse -, apenas para termos a certeza de que no irs ansiar por ela depois de estares casado comigo.

- Fao todas as tenes de ser um bom marido- - comeou ele, mas Julia, ou percebeu mal, ou fingiu que o fez. os 
seus olhos estavam muito escuros; ele no conseguia ler neles. Os olhos de Eilan eram claros como um lago duma 
floresta.

- Porque - disse ela francamente - no quero um homem que preferisse estar casado com outra pessoa qualquer. 
Penso, realmente, que a deves ver de novo e descobrir o que queres que seja a tua vida. Ento, quando voltares, 
saberei que o que realmente queres--fazer  casares-te comigo.

Ela soava como o pai dela, pensou sombriamente, quando estava a negociar um contrato; soava como se pensasse que 
o casamento era uma carreira. Mas tambm, tendo sido educada na capital como o foi, era exactamente isso que 
provavelmente se esperava que ela fizesse! E que outra carreira poderia haver para uma mulher romana? O que 
poderia ela saber do sangue que pulsava nas veias quando se ateavam as fogueiras de Beltane ou o desejo que corroa 
o corao como a msica das flautas que os pastores tocavam nas colinas?

Em qualquer dos casos, o seu pai tinha-lhe tornado impossvel o tornar a ver Eilan; sem dvida que at Julia teria 
ficado horrorizada se soubesse que a sua amada era o equivalente local duma Virgem Vestal. Mas Julia estava j a 
fazer planos, e, mais uma vez, Gaius sentiu-se como se estivesse no caminho duma carga de cavalaria.

- O pai vai mandar-te para o Norte com despachos para Agricola...

Gaius levantou uma sobrancelha, pois no tinha ouvido nada sobre isto, mas no se sentiu verdadeiramente 
surpreendido. Julia era a querida de todos os escriturrios no tabularium e quando se considerava uma mudana de 
ordens eles eram sempre os primeiros a saber. E o ltimo a saber  sempre o mais interessado!, pensou.

- Durante a tua viagem podes arranjar algum tempo para veres essa rapariga. Quando voltares estars completamente, 
completamente seguro que preferes casar-te comigo.

A CASA DA FLORESTA

283

Gaius reprimiu UM sorriso, j que ela no sabia tanto como pensava se imaginava que ele iria ter muito tempo para 
excurses paralelas durante um servio do governo.     Mas talvez conseguisse arranjar alguma coisa; o sangue j lhe 
estava a correr mais depressa nas veias ao pensamento de voltar a ver Eilan outra      vez.

Graas fossem dadas a Vnus por Julia no poder saber no que estava a pensar, se bem que houvesse       alturas em 
que ele a acreditasse com os poderes de uma Sibila, ou talvez todas as mulheres tivessem esse tipo de poder. Mas 
Julia j estava a tagarelar sobre o seu vu de noiva, que deveria ser feito dum material fabuloso, trazido por caravana 
dos confins do mundo.

Seria um alvio, pensou, mesmo que tivesse de viajar para as inspitas terras da Calednia, o voltar outra vez para o 
exercito regular.

DEZASSETE

 medida que o Vero caminhava a passos largos em direco a Lughnasad, no parecia 
a Eilan que Lhiannon estivesse
a ficar melhor. Por vezes o corao da velha mulher doa-lhe
e estava sempre cansada. Ardanos vinha todos os dias, e ao princpio ele e a Gr 
Sacerdotisa ainda falavam, mas com o passar dos dias, e como a ateno dela se virava 
cada vez mais para dentro, limitava-se a sentar-se ao lado da sua cama em silncio, e 
quando falava era com Caillean ou consigo prprio. Depois destas sesses, Caillean 
ficava silenciosa e pensativa, mas, tambm, ela tinha sido sempre uma pessoa que pouco 
denunciava as suas intenes.

   Eilan achava estranho que enquanto o seu prprio corpo se estivesse a tornar num 
vaso de vida, Lhiannon estivesse a sofrer uma transformao paralela, preparando-se 
para libertar o esprito - mas em que mundo iria ela renascer ningum o podia dizer. A 
alegria pela nova vida dentro de si abafava a dor de Eilan. Nesses dias a Casa da 
Floresta tornou-se muito silenciosa e todas as mulheres andavam de l para c, nas suas 
tarefas, com uma mistura de excitao e apreenso. Porque ningum tinha ousado, 
ainda, perguntar quem seria a sucessora de Lhiannon.

Era uma felicidade que toda a gente estivesse to distrada com a doena de Lhiannon 
para reparar no que quer que fosse, mas o que iria Eilan fazer quando a barriga j no 
pudesse ser escondida pelos seus vestidos soltos? Nem por um momento Eilan foi 
autorizada a esquecer-se que, no que dizia respeito a Ardanos, se encontrava sob uma 
sentena de morte; ela cismava que at Dieda olhava para ela com um desprezo mal 
escondido.

Miellyn lamentava a perda do seu prprio filho e no podia oferecer qualquer conforto. 
Apenas Caillean nunca mudou em

286

MARION ZIMMER BRADLEY


relao a ela - mas, tambm, Caillean tinha tido sempre uma lei muito prpria; a nica 
coisa que aguentou Eilan quando o medo aumentou foi a certeza do amor da mulher 
mais velha.

No sabia quando, se  que alguma vez, veria Gaius outra vez; mas recordando o 
esprito real que tinha entrevisto quando fizeram amor, sentiu-se certa de que se 
encontrariam novamente. No queria acreditar - como tinha dito o Arquidruida - que ele 
tinha sido casado  pressa com outra pessoa qualquer. At entre os Romanos a- 
solenidade dum casamento devia implicar mais formalidades e tempo     o do que isso.

Passou-se um ms, e Caillean presidiu aos rituais da Lua Cheia. Era agora bvio, por 
mais que a tratassem e se preocupassem, que Lhiannon estava a morrer. Os seus ps 
incharam-lhe de tal modo que j nem conseguia cambalear at s latrinas. Caillean 
tratava dela ternamente; nenhuma me teve jamais uma filha to dedicada. Mas, mesmo 
assim, o fluido enchia-lhe o corpo.

Caillean alimentou-a com infuses de ervas e mencionou hidropisia, e, uma vez, foram 
at muito longe nos campos procurar as flores prpura da dedaleira que Caillean dizia 
serem inexcedveis para um corao cansado. Cuidadosamente, Eilan provou a bebida 
que Caillean fez com elas e achou-a to amarga como o sofrimento.

Mas, apesar de todo a sua ateno, Lhiannon, de dia para dia, ia ficando mais fraca, e 
mais inchada e plida.

- Caillean...

Durante um instante duvidou que tivesse ouvido; a chamada foi como um sopro levado 
pelo vento. Ento a cama rangeu. Rapidamente, Caillean voltou-se. Os olhos de 
Lhiannon estavam abertos. Caillean esfregou o sono dos seus e conseguiu fazer um 
sorriso, A doena tinha consumido a carne do rosto da mulher mais velha, de tal modo 
que a sua ossatura era visvel com uma terrvel clareza. Est quase acabado. A 
indesejada compreenso atingiu-a. Cedo, apenas restar o essencial.

- Tendes sede? Aqui tendes gua fria, ou posso avivar o fogo e dar-vos um pouco de 
ch...

- Algo quente... aliviar-me-ia... - Lhiannon inspirou. - s boa de mais para mim, 
Caillean,

Caillean abanou a cabea. Quando tinha dez anos de idade, e a  meio caminho da morte 
com febre, Lhiannon tinha tratado dela, melhor que a sua me ou o seu pai teriam feito. 
Os seus sentimentos pela mulher mais velha iam para l do amor ou do dio. Como se 
podia pr isso em palavras? Se Lhiannon no os conseguia sentir no sabor duma infuso 
ou no toque dum pano frio na testa, ento nunca o saberia.

- Suponho que haja quem pense que ests a fazer isto para que eu te torne minha 
herdeira... Mulheres engaioladas juntas podem ser muito mesquinhas, e a verdade  que 
tu s uma sacerdotisa maior que todas elas juntas... mas tu sabes mais que isso, no 
sabes?

-  Sei. - Caillean sorriu. - Estou destinada a viver para sempre na sombra, mas apoiarei 
quem quer que dirija, A Deusa seja louvada, ainda demorar algum tempo.

E quem sabe quanto tempo ainda viverei depois de vs?, pensou ento. O seu 
estranho sangrar j tinha acabado, mas a fadiga tinha-se agarrado aos seus membros 
como se eles tivessem sido moldados no chumbo das minas de Mendip.

- Talvez... No tenhas a certeza que sabes tudo, minha filha. Apesar do que o povo 
pensa, a minha Viso no vem apenas ao chamamento do druida. E eu vi-te com os 
ornamentos duma Gr Sacerdotisa e uma bruma que no  deste mundo a soprar em teu 
redor. O caminho duma vida pode ter estranhos desvios e curvas, e ns nem sempre 
acabamos onde tencionvamos ir...

gua a ferver assobiou no pequeno caldeiro e Caillean deitou-lhe uma colher duma 
mistura de mileflio, camomila e salgueiro branco, e colocou-o perto das chamas para 
fazer uma infuso.

- A Deusa sabe que no o fiz! - exclamou subitamente Lhiannon. - Os sonhos que 
tivemos quando ramos jovens, Ardanos e eu... mas ele tornou-se vido de poder... e eu 
no tinha nenhum!

Podeis ter-lhe feito frente , pensou Caillean. reis a Voz da Deusa, e durante vinte 
anos o povo viveu de acordo com as vossas palavras. E nem sequer sabeis o que tendes 
estado a dizer! Se alguma vez vos tivsseis permitido sab-lo tereis tido que agir, pois 
ento teria sido real ... 

288

MARION ZIMMER BRADLEY

Mas ela engoliu as palavras, pois Lhiannon tinha dado mais esperana ao povo sem 
saber, do que Caillean com toda a sua sabedoria consciente, e isso ultrapassava o que 
quer que cnicos como Dieda pudessem dizer.

Com um pouco de mel para afastar o amargor, o ch ficou pronto. Caillean deslizou o 
brao  volta dos frgeis ombros de Lhiannon e levou-lhe a colher aos lbios. A mulher 
doente virou a cabea, inquieta, e as suas faces brilharam com lgrimas.

- Estou cansada, Caillean... - murmurou - to cansada, e com medo...

- V, v, minha querida; estais rodeada por aqueles que vos amam - murmurou. - Agora 
bebei... aliviar-vos-. - Lhiannon engoliu um pouco da agridoce bebida e suspirou.

- Prometi a Ardanos que escolheria a minha sucessora... para servir o seu plano. Ele est 
 espera... - Fez uma careta.
- Como um corvo  espreita dum carneiro doente. Era para ser Eilan, mas ela... deve ser 
mandada embora cedo. Agora ele diz que devo escolher Dieda, mas no o farei, e ela 
no o faria, a no ser que a Deusa... - Um ataque de tosse assaltou-a e, rapidamente, 
Caillean pousou o ch, mantendo Lhiannon direita e batendo-lhe nas costas at ela se 
acalmar.

- At que a Deusa vos indique a Sua vontade - Caillean acabou por ela, e a Gr 
Sacerdotisa de Vernemeton sorriu.

Lhiannon estava a morrer. Era bvio para toda a gente para toda a gente excepto talvez 
para Caillean, que a tratava to devotadamente e com uma ternura to desesperada, 
noite e dia, raramente saindo para fora do quarto onde jazia a mulher doente. Mesmo as 
sacerdotisas que alguma vez tinham desconfiado de Caillean por ela ser uma forasteira 
tinham, agora, que admirar a sua dedicao. Ambas, Dieda e Eilan, adivinharam o que 
se ia passar - mas teria sido necessria uma mulher mais corajosa que qualquer das duas 
para o dizer a Caillean.

- Mas ela  to hbil em curas - disse Dieda enquanto levavam as sujas roupas da cama 
de Lhiannon para o rio. - Ela deve saber.

- Suponho que sabe - disse Eilan -, mas admitindo-o torn-lo-ia real. - Ela olhou para a 
sua parenta com curiosidade.

A CASA DA FLORESTA

289

Para alm de comentar sarcasticamente que a roupa suja duma Gr Sacerdotisa cheirava 
como a de qualquer outra pessoa, e que no percebia porque  que uma sacerdotisa 
ajuramentada devia lav-la, Dieda tinha feito o seu quinho do trabalho sem se queixar.

Parecia estranho que se tivessem tornado to estranhas, agora que eram irms 
sacerdotisas. O trabalhar com Dieda nestas ltimas semanas, quando a ateno de 
Caillean estava presa em Lhiannon, lembrou a Eilan o quo chegadas tinham sido 
enquanto raparigas. Distrada pelos seus pensamentos, tropeou na raiz duma rvore. 
Dieda estendeu uma mo para a segurar.

- Obrigada - disse Eilan surpreendida. A outra mulher olhou para ela.

- Por que ests a olhar para mim? - disse Dieda. - Eu no te odeio.

Eilan sentiu a cor incendiar-lhe as faces, depois desaparecer.
- Ento sabes - murmurou.

- s tu a idiota, no eu - veio a resposta. - Enjaulada contigo e com Caillean durante 
todo este tempo no pude deixar de ouvir alguma coisa. Mas por causa da honra da 
nossa famlia guardei silncio. Se alguma das outras mulheres tem conhecimento do teu 
segredo no foi por mim que o soube. Pelo menos a gravidez parece que se combina 
bem contigo. Sentes-te bem?

Era um alvio para Eilan falar de outra coisa qualquer alm da doena de Lhiannon, e 
parecia-lhe que Dieda tambm o sentia. Na altura em que voltaram  Casa da Floresta 
estavam em melhor harmonia que o que tinham estado em anos.

Mas chegou um dia em que at mesmo Caillean j no o conseguiu negar. Ardanos 
disse que as sacerdotisas deviam ser convocadas para a viglia da morte. O seu aspecto 
era preocupado e triste e Eilan lembrou-se de a sua parenta lhe ter dito, certa vez, que 
havia amor entre eles. Ela pensou que deve ter sido h muito tempo ou ento que era 
uma espcie de amor muito estranha.

Certamente no era, de todo, ao que ela chamaria amor, pensou Eilan, e, seguramente, 
ela era uma perita. Ardanos sentou-se perto da mulher inconsciente e pegou-lhe na mo;

290

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as sacerdotisas deslizavam para dentro e para fora do quarto para a viglia, em grupos de 
duas ou trs, e Caillean impacientava-se no fossem elas perturbar Lhiannon.

- Por que  que ela se preocupa? Penso que nesta altura j nada pode perturbar a Gr 
Sacerdotisa - Eilan murmurou para Dieda, e a outra rapariga assentiu, mas sem palavras.

Aproximava-se o pr do Sol e Ardanos tinha sado para o exterior para respirar um 
pouco de ar fresco, Como todos os quartos de doentes, este tambm estava quente e 
sufocante e Eilan no podia censur-lo nem um pouco por querer fugir-lhe. Se bem que 
se estivesse prximo de Lughnasad a luz ainda se demorava at tarde. O pr do Sol 
lanava um brilho no quarto, mas o ngulo do Sol poente disse a Eilan que cedo ele se 
poria. Tinha atravessado o quarto para acender a lanterna quando percebeu que 
Lhiannon estava acordada e a olhar para ela, em reconhecimento, pela primeira vez em 
muitos dias.
- Onde est Caillean? - murmurou.

- Saiu para vos fazer mais ch, Me - replicou Eilan.
- Quereis que a chame?

- No h tempo - a Gr sacerdotisa tossiu. - Chega aqui... s a Dieda?

- Sou Eilan, mas a Dieda est no jardim, Quereis que a chame?

Ouviu-se um som estranho, estridente e sussurrante, e Eilan percebeu que a mulher 
doente estava a tentar rir,

- Nem mesmo agora consigo distinguir uma da outra murmurou Lhiannon, - No vs a 
mo dos deuses nisto? Eilan pensou se Lhiannon no teria mergulhado no delrio

que, tinha sido avisada, podia chegar antes do fim. A Gr Sacerdotisa disse 
rispidamente:

- Chama Dieda; o meu tempo  curto. No estou a delirar; sei muito bem o que estou a 
fazer e tenho de acabar antes de morrer.

Eilan correu para a porta para chamar Dieda. Quando voltaram, a moribunda sorriu 
enquanto elas se imobilizavam, uma ao lado da outra,

-  verdade o que dizem - murmurou. - Os mortos vem com mais clareza. Dieda, deves 
agora servir de testemunha. Eilan, filha de Rheis, agarra no colar que est junto a mim,..

A CASA DA FLORESTA

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agarra-o! - ela ofegou tentando respirar, e, com mos trementes, Eilan agarrou no aro de 
entranado ouro que estava na almofada.
- E nas pulseiras... agora pe-nas...

- Mas apenas a Gr Sacerdotisa... - comeou Eilan, mas os olhos da velha fixaram-se 
nos dela com uma tal terrvel fixidez que ela se viu a lutar com o colar para o abrir e a 
p-lo. Por um momento pareceu frio, depois ajustou-se  sua delgada garganta, 
aquecendo como se se sentisse grato por se encontrar de novo junto a carne humana.

Dieda soltou um pequeno, estrangulado som, mas o estertorar na garganta de Lhiannon 
era mais alto.

Ento a Gr Sacerdotisa disse com uma voz spera:

- Que assim seja. Donzela e Me, vejo a Deusa em ti... Diz a Caillean... - Ela ficou 
silenciosa por um momento, como que a lutar por ar, e Eilan pensou se a velha mulher 
no estaria a delirar, ou se seria ela que estava. Estendeu a mo uma vez mais para tocar 
no pesado ouro.

- Caillean est acol, Me; devo cham-la? - perguntou Dieda.

- Vai - murmurou Lhiannon com mais fora que anteriormente- Diz-lhe que a amo...

Quando Dieda correu para fora, o olhar da moribunda fixou-se em Eilan.

- Eu sei o que Ardanos queria quando me props que te escolhesse, criana, e em vez 
disso os deuses trouxeram Dieda at mim. Ele estava enganado quanto a ti e, no entanto, 
cumpriu a vontade da Senhora  mesma! - Os seus lbios torceram-se com o que Eilan 
percebeu que era um sorriso. - Lembra-te...  importante! Talvez nem mesmo a prpria 
Deusa pudesse distingui-las uma da outra. Nem os romanos... vejo-o agora... - e calou-
se novamente. Eilan olhou para ela, incapaz de se mexer.

Ela ficou calada durante tanto tempo que Caillean, ao voltar, perguntou:

- Ela est a dormir? Se ela conseguir dormir, ento talvez consiga viver outra lua... - e 
ento, dirigindo-se em bicos de ps at perto de Lhiannon, prendeu a respirao num 
suspiro e murmurou - Ah, nunca mais voltar a dormir...

Caillean ajoelhou-se perto da cama e beijou Lhiannon na testa, e depois, muito 
ternamente, fechou-lhe os olhos. A cada

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MARION ZIMMER BRADLEY

momento que passava mais expresso se desvanecia da face da morta, de tal modo que 
ela j no parecia adormecida; j nem mesmo se parecia com Lhiannon. Eilan apertou 
os braos, e estremeceu quando sentiu o duro metal das pulseiras. Sentia-se entontecida 
e gelada.

Ento Caillean levantou-se e quando o seu olhar se focou nos ornamentos que Eilan 
estava a usar os seus olhos arregalaram-se. Depois sorriu.

- Senhora de Vernemeton, sado-vos em nome da Me de tudo o que !

Ardanos, entrando no quarto atrs de Dieda, inclinou-se para a morta e levantou-se de 
novo.

- Ela partiu - disse num estranho, montono tom de voz, Voltou-se e alguma coisa lhe 
brilhou nos olhos quando, tambm ele, viu os ornamentos dourados que Eilan usava.

As outra sacerdotisas estavam apinhadas  sua volta, mas foi a velha Latis, a senhora 
das ervas, que se chegou  frente e se ajoelhou, dizendo com uma estranha deferncia 
que a aterrorizou:

- Imploro-vos, Voz da Deusa, dizei-nos tudo o que a Senhora Sagrada te disse com o 
seu ltimo suspiro.

- Lhiannon, possa a Deusa t-la em repouso, escolheu uma estao extraordinariamente 
inadequada para morrer - disse Ardanos asperamente. - Temos de ter uma Sacerdotisa 
do Orculo nos ritos de Lughnasad e, obviamente, no podemos usar Eilan! - Ele 
inspeccionou as duas mulheres  sua frente sombriamente.

Os trs dias de luto ritual tinham-se passado e Lhiannon jazia no seu tmulo; Ardanos 
estava surpreendido com o que ainda lhe doa quando olhava  volta deste quarto, onde 
sempre se tinha encontrado com ela, e se lembrava que ela estava morta. Supunha que 
ainda continuaria a sentir a sua falta durante muito tempo, mas no se podia dar ao luxo 
de mostrar agora a sua dor. Caillean estava sentada, a franzir as sobrancelhas, mas Eilan 
fixava-o com Olhos muito abertos, ilegveis. Ele olhou para ela.

- Sabeis to bem como eu que  uma superstio acreditar que apenas uma virgem pode 
servir o santurio, mas seria peri-

A CASA DA FLORESTA

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goso tanto para Eilan como para o seu filho carregar nesta altura o poder da Deusa - 
concordou Caillean.

A abstinncia sexual era necessria durante o desempenho das grandes magias - tal 
como a magia que exigia a completa entrega do corpo e do esprito, necessrios para 
que a Deusa pudesse falar atravs duma mortal.

Pois para que o poder pudesse fluir livremente, o esprito devia estar separado dos 
sentidos. Era, assim, proibido fazer as coisas que Pudessem aumentar a sua atraco e 
lhe obstrussem as vias, tais como comer a carne de alguns animais, beber hidromel ou 
outros licores, ou fazer amor com um homem.

- Lhiannon devia ter pensado nisso quando a escolheu replicou o Arquidruida. - No, 
sabes que no poder ser. j  suficientemente mau que ela ainda aqui esteja. Mas uma 
Gr Sacerdotisa grvida? Impossvel!

- Eu podia tomar o seu lugar no ritual... - comeou Caillean.

- E como explicaramos isso ao Povo? Podamos ter justificado uma substituio 
temporria com o pretexto de Lhiannon estar doente, mas eles sabem que ela morreu. 
As pessoas esto a pensar              se a Gr Sacerdotisa sobreviver ao seu ordlio, e se a 
Deusa ainda vir at eles agora que Lhiannon se foi.

Ele esfregou a testa. Nenhum deles tinha dormido o suficiente h j muito tempo. os 
olhos de Caillean pareciam escuros e perseguidos por memrias, e, apesar do vigor da 
gravidez, Eilan parecia ansiosa e tensa. E bem que podia estar, ocorreu ento a Ardanos. 
Lhiannon tinha-os colocado a todos num dilema quando escolheu a rapariga.

- Digo-vos isto... qualquer que tenha sido a loucura que passou pela cabea de 
Lhiannon, no deixarei que destrua tudo o que ns trabalhmos to duramente para 
construir! - ele suspirou. - No h qualquer hiptese. Temos de escolher novamente. H 
um precedente- a velha Helve tentou passar o Seu poder para, como era o seu nome? 
aquela pobre rapariga que morreu. E ento o conselho escolheu Lhiannon.

- Gostareis disso, no gostareis? - comeou Caillean, mas Eilan, que permanecia 
silenciosa h tanto tempo que o Arquidruida quase se tinha esquecido que ela estava ali, 
ps-se subitamente de p.

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MARION ZIMMER BRADLEY

- Nunca antes do ordlio! - disse alto. Manchas de cor brilharam-lhe nas faces quando 
os outros dois olharam para ela. - Eles nomearam uma nova sacerdotisa depois de a que 
tinha sido escolhida no ter conseguido carregar o poder da Deusa no ritual, no foi? 
Que tipo de falatrio pensam que haver se eu nem mesmo tentar? Toda a gente em 
Vernemeton sabe que Lhiannon me escolheu.

- Mas o perigo! - exclamou Caillean.

- Pensais que a Deusa me ir fulminar? Se o que eu fiz foi um pecado assim to grande, 
ento ser benvinda se o fizer! - exclamou Eilan. - Mas se eu sobreviver, vs sabereis 
que, de facto, Ela me escolheu!

- E o que propes que faamos contigo se viveres? - disse ele acidamente. - O teu estado 
em breve estar  vista de todos e os romanos daro uma bela gargalhada quando virem 
a nossa Gr Sacerdotisa a andar para a com uma barriga como a de uma vaca prenhe!

- Lhiannon pensou numa maneira - disse Eilan. - Foi a ltima coisa que ela me disse. 
Uma vez o ritual terminado, Dieda deve tomar o meu lugar e vs deveis fingir que foi 
ela que teve de ser mandada embora. Nem vs prprio nos conseguis distinguir, av, e 
conheceis-nos a ambas desde que somos bebs!

Ardanos olhou para ela fixamente, o clculo a girar-lhe no crebro. A desgraada 
criana podia, de facto, ter resolvido o problema. Se o ritual a matasse, o que era o mais 
provvel, teriam todo o direito de escolher a sua sucessora, e se Eilan morresse a dar  
luz, Dieda j estaria no seu lugar, pronta para tomar posse dele, sem que mais ningum 
soubesse. Qualquer das raparigas lhes serviria muito bem, disse para si prprio, pois 
nenhuma delas se consideraria completamente segura no seu lugar. Se a Gr 
Sacerdotisa precisasse do apoio dos sacerdotes faria o que lhe mandassem.

- Mas Dieda concordar?

- Deixem-na comigo - replicou Caillean.

Ainda a pensar na convocatria, Dieda enfrentou Caillean no quarto que durante tanto 
tempo tinha sido o de Lhiannon.

A CASA DA FLORESTA

295

- Ardanos concordou em deixar-te substituir Eilan depois do ordlio, do Orculo. 
Dieda... tens que nos ajudar agora - disse Caillean.

Dieda abanou a cabea.

- Por que  que eu me devia importar com o que Ardanos quer quando ele nunca se 
importou comigo? Foi Eilan quem provocou os seus prprios problemas. No 
consentirei nesta farsa e podeis diz-lo ao meu pai!

- Belas palavras, de facto, mas se ests sempre disposta a fazer exactamente o contrrio 
do que Ardanos decreta, ento a vontade dele ainda te domina. Suponho que se te 
tivesse dito que isto era contra a vontade dele terias concordado? - replicou Caillean.

Dieda olhou para a sacerdotisa mais velha sentindo a cabea a girar.

- Ele no gosta, de todo, disto, sabes? - acrescentou Caillean, observando-a 
intencionalmente, - Teria preferido rejeitar Eilan j, e fazer de ti a Gr Sacerdotisa em 
vez dela, Penso que concordou em que sugerssemos a substituio apenas porque 
pensou que a tua reaco seria exactamente esta...

- Gr Sacerdotisa? - exclamou Dieda. - Ento nunca escaparia deste lugar!

- Afinal de contas seria apenas temporrio - reflectiu Caillean. - Mal o beb de Eilan 
tiver nascido ela voltaria para retomar os seus deveres e, ento, de qualquer modo, terias 
que te ir embora...

- Deixar-me-ias ir para o Norte, para me juntar a Cynric? perguntou Dieda 
suspeitosamente.

- Se for esse o teu desejo. Mas ns tnhamos pensado mandar-te para Eriu, para 
receberes um treino avanado nas prticas dum bardo...

- Sabes perfeitamente bem que isso e o que eu sempre mais quis!    exclamou Dieda. 
Caillean olhou para ela firmemente. Ento parece que ainda h alguma coisa que te 
posso

prometer ou recusar. Se fizeres isto por Eilan, e por mim, farei com que sejas autorizada 
a aprender com os maiores poetas e harpistas em Eriu. Se no o fizeres, seguramente 
que Ardanos far de ti Gr Sacerdotisa, e eu assegurar-me-ei que apodreas dentro 
destas paredes.

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MARION ZIMMER BRADLEY

- No o farias - disse Dieda. Mas sentiu um arrepio de medo.

- Vers - respondeu calmamente Caillean, - No h alternativa, Foi a vontade de 
Lhiannon e eu cumprirei a sua vontade como todas sempre o fizemos.

Dieda suspirou. No queria que nada de mal acontecesse a Eilan. Tinha-a amado em 
tempos, mas depois destes ltimos anos achava difcil amar quem quer que fosse. 
Parecia-lhe que a outra rapariga tinha sido uma grande idiota. Tinha tido o tipo de amor 
que lhe tinha sido negado a ela e tinha-o deitado fora. Nem sequer, tambm, conseguia 
perceber porque  que Caillean se devia importar. Contudo, no a atraioaria. Caillean 
podia ser uma boa amiga ou um perigoso inimigo - tanto para ela como possivelmente 
tambm para Cynric. Dieda tinha vivido na Casa da Floresta o tempo suficiente para 
saber at que ponto, com os seus calmos modos, chegava a influncia que a mulher 
irlandesa exercia.

- Ento assim seja - disse. - Eu comprometo-me a substituir Eilan at ela dar  luz, se 
depois te responsabilizares por Me conceder o meu desejo,

- F-lo-ei - Caillean levantou uma mo, - E que a Deusa seja testemunha. E ningum 
vivo pode dizer que eu tenha alguma vez quebrado um juramento.

j se tinha passado meia lua desde a morte de Lhiannon, e elas tinham vindo  festa de 
Lughnasad. Eilan esperou com Caillean no alojamento isolado onde a Gr Sacerdotisa 
tantas Vezes se tinha preparado para os rituais. O ouvido aguado pela ansiedade 
alertou-a para o arranhar de passos de sandlias fora da porta. Esta abriu-se e ela viu a 
figura encapuada, parecendo impossivelmente alta  meia luz, ali parada. Mal 
conseguia perceber as formas dos druidas atrs dele.

- Eilan, filha de Rheis, a Voz da Deusa escolheu-te. Ests preparada para te entregar 
totalmente a Ela? - A voz de Ardanos badalou como um grande sino e Eilan sentiu o 
estmago apertar-se com o medo.

Nesta altura todas as histrias que tinha ouvido na Casa das Donzelas ressuscitaram 
para varrer todo o seu cuidadoso racio-

A CASA DA FLORESTA

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cinar. pouco importava se a Deusa realmente ligava ao que ela tinha feito com Gaius, 
pensou Eilan desesperadamente. Para sobreviver ao ritual sem estragos seria necessrio 
um milagre. Eu apenas quis desafiar os druidas, mas desafiei-a a Ela, sujeitando-me  
Sua fria deste modo. De certeza que a Deusa me vai fulminar! E o que  que isto far 
ao meu filho?, pensou Eilan. Mas se a Deusa punisse uma criana Por nascer pelo que 
a me tinha feito  porque Ela no era a Presena amorosa que Eilan tinha jurado servir.

Ardanos estava  espera duma resposta - eles estavam todos  espera, observando com 
esperana Ou reprovao no olhar e, lentamente, ela acalmou-se. Se a Senhora no me 
quer como eu sou, no quero viver. Respirou fundo, lutando para conseguir atingir de 
novo a deciso  qual tinha chegado durante as noites de insnia desde a morte de 
Lhiannon.

- Estou pronta. - A sua voz tremeu apenas um pouco. Pelo menos o seu pai estava 
algures no Norte, com Cynric. Sentiu-se contente. Pensava que no teria sido capaz de 
enfrentar os seus olhos.

- E declaras-te um recipiente adequado para o Seu poder?
 Eilan engoliu em seco. Seria? Na noite anterior tinha duvidado disso, e chorado no 
ombro de Caillean como uma criana aterrorizada.

Adequado? Quem o ser, se o pes dessa maneira , tinha perguntado Caillean. 
Somos todas simples mortais; mas s tu que foste escolhida. Para que  que te tens 
preparado durante tantos anos?

O Arquidruida estava a        olhar para ela como um  falco 
espera de algum traioeiro farfalhar na relva,  espera que ela perjurasse de modo a ficar 
em seu poder. Ela percebeu, sombriamente, que ele estava a gostar disto,

Lhiannon pensou que eu era adequada , disse para si prpria. Apenas levar isto para a 
frente podia justificar a escolha que Lhiannon tinha feito  beira da morte, e a escolha 
que ela prpria tinha feito quando se entregou a Gaius por baixo das rvores. Tinha-lhe 
parecido, na altura, que estava a ratificar uma lei da Deusa, mais antiga que a que a 
obrigava  castidade. Recusar este teste era admitir que esse acto de amor tinha sido um 
pecado. Levantou o queixo orgulhosamente.

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MARION ZIMMER BRADLEY

- Sou um recipiente adequado e sagrado. Deixai que a terra se levante e me cubra, deixai 
que o cu caia e me esmague e deixai que os deuses pelos quais eu juro me abandonem 
se estou a mentir!

- A candidata foi interrogada e jurou... - disse Ardanos aos druidas que o assistiam. 
Voltou-se para as sacerdotisas. - Que ela agora seja purificada e preparada para o 
ritual...

Por um momento olhou para ela, e piedade, exasperao e satisfao pareceram pairar-
lhe no olhar. Depois rodou nos calcanhares e levou os homens para fora do quarto.

- Eilan, no deves tremer tanto - disse suavemente Caillean.
- No deixes aquele velho desprezvel assustar-te, no h nada
a temer. A Deusa  misericordiosa. Ela  a nossa me, Eilan,
 a Me de todas as mulheres, a criadora de todas as coisas mortais. No o esqueas.

A cortina mexeu-se outra vez e quatro das sacerdotisas mais jovens, entre elas Senara e 
Eilidh, entraram no quarto carregando baldes de gua da Nascente Sagrada. Pararam 
mesmo junto  porta, olhando para ela com reverncia. A mo da Deusa desceu sobre 
mim, pensou ela, e pareceu-lhe ver nos seus rostos alguma daquela mesma maravilha 
com a qual ela prpria tinha olhado sempre para Lhiannon. Eram todas jovens; nem 
uma delas, excepto Eilidh, to velha como ela...

Teve vontade de gritar Nada mudou; ainda sou a Eilan... mas, de facto, tudo tinha 
mudado. Contudo, quando elas lhe despiram o vestido e olhou para baixo, ficou 
espantada por o seu corpo ainda estar to pouco modificado.

Mas elas eram virgens. Assim sendo, no era surpreendente que no conseguissem notar 
as pequenas mudanas que a sua gravidez tinha provocado. Tal como Eilan tinha tantas 
vezes feito a Lhiannon, as raparigas ajudaram-na a banhar-se. Ela deixou-se ficar 
imvel a tiritar no frio quarto, sentindo o gelado toque da lmpida gua no seu corpo 
como, curiosamente, uma purificao; como se, de algum modo, estivesse a dissolver, 
no apenas os ltimos traos do seu contacto com Gaius, mas a totalidade da sua vida 
anterior.

Foi uma Eilan inteiramente nova que as autorizou a vesti-la nos hbitos rituais. Sobre a 
fronte colocaram-lhe a tradicional

A CASA DA FLORESTA

299

grinalda. Quando sentiu as videiras apertarem-se  volta da testa teve uma vertigem e 
pensou se este seria o primeiro, longnquo, toque da Deusa.

Ela sentia-se estranha e frvola, completamente diferente dela prpria; vagamente, 
sentiu fome. As ervas sagradas na poo que lhe foi dada no incio do ritual devem ser 
tomadas de estmago vazio, seno podiam fazer com que ficasse muito doente. Caillean 
tinha dito uma vez que pensava que a fraca sade de Lhiannon era em parte devida ao 
contnuo uso dessas ervas. Eilan pensou se antes que se passasse muito tempo tambm a 
sua sade seria posta em causa. Depois sorriu, pensando que havia tempo suficiente 
para se preocupar com o seu futuro se sobrevivesse a esta noite.

Trouxeram at ela a esculpida taa dourada com a poo mgica da Viso. Ela sabia que 
continha bagas de visco e outras ervas sagradas; mais de uma vez tinha visto Miellyn 
colher essas ervas. A poo sagrada tambm continha vrios cogumelos; o povo comum 
evitava-os, tanto pelo seu carcter sagrado, como pela crena de que eram venenosos e, 
claro, eram inteis como comida. As sacerdotisas sabiam, contudo, que tomados em 
pequenas quantidades, podiam amplificar a clarividncia normal para a qual tinha sido 
treinada.

A tremer, Eilan fez o que tantas vezes tinha visto Lhiannon fazer, e tirou-o, das mos de 
Eilidh. Caillean tinha tido razo, pensou enquanto levou a taa aos lbios. Ela tinha 
assistido a este ritual tantas vezes que sabia o que devia fazer.

E, devido aos seus goles cerimoniais, pensava que tambm sabia o que esperar da 
poo. Mas quando o chegou  boca, percebeu porque se pedia s sacerdotisas que o 
despejassem dum s gole, pois de outro modo ningum teria jamais sido capaz de o 
engolir. Era intensamente amargo e depois de o engolir, comeou a pensar se afinal de 
contas no seria um veneno. Teria sido um bom meio de         Ardanos se livrar dela. 
Mas Caillean tinha-lhe assegurado que seria  ela a preparar as ervas e que no
deixaria mais ningum ter-lhes acesso, e tinha de confiar nela. 
A cabea andou  volta e, durante um momento, sentiu o estmago a revolver-se. 
Talvez o seu castigo estivesse agora a comear, Mas depois de uma curta, aguda luta, 
controlou-se, engoliu uns poucos de goles de gua para limpar a boca do sabor e fechou 
os olhos,  espera.

300

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Agora, a sensao aguda de enjoo j tinha passado. Eilan fechou os olhos lutando contra 
a onda de vertigem, e sentou-se,  espera de recuperar o equilbrio. Lembrava-se, 
vagamente, que tambm isto tinha feito parte do     procedimento com Lhiannon, Nessa 
altura, Eilan tinha pensado    que era a fraqueza da idade. Mas, na realidade, Lhiannon 
no tinha sido assim to velha. Tambm ela envelheceria antes da idade? Bem, o mais 
que podia esperar era ter a oportunidade de envelhecer!

Houve uma ligeira agitao no quarto, e      as raparigas afastaram-se. Eilan percebeu 
que Ardanos estava de p  sua frente. Levantou as pesadas pestanas para olhar para ele, 
e ele enfrentou o seu olhar com uma ateno sem sorrisos.

- Eilan, vejo que j te prepararam. Ests muito bonita, minha querida. O povo ficar 
certo que a Deusa veio at eles...
- As palavras gentis soavam estranhas nos seus lbios.

Ficaro?, pensou confusamente. E o que pensas tu, velho, se  que pensas de todo na 
Deusa? Pelas tuas regras, estas grinaldas deviam estar a murchar na minha testa! Mas 
isso j no interessava; sentia-se como se flutuasse acima de tudo isso, afastando-se para 
mais longe a cada momento que passava.

- A bebida est a apoderar-se dela rapidamente - murmurou ele, e fez um gesto em 
direco s donzelas para que se afastassem. - Ouve, minha filha... Sei que ainda me 
consegues ouvir...
- A sua voz deslizou para a entoao musical do ritual quando continuou.

Eilan sabia que ele estava a dizer alguma coisa de grande importncia, alguma coisa que 
ela tinha de se lembrar... o qu, no tinha a certeza. O tempo passou e ele j no estava 
l. Algo daquilo importava? Sentia-se como se estivesse a flutuar por cima de uma 
escurido esverdeada. As prprias copas das rvores encontravam-se muito l em baixo. 
Estava a ser carregada nalguma coisa - uma liteira - depois eles pousaram-na e 
ajudaram-na a levantar-se. Podia sentir Caillean a seu lado e mais algum, pensou que 
fosse Latis, do outro lado. Elas pegaram-lhe nas mos e conduziram-na at  procisso, 
em direco aos archotes que formavam um anel  volta do monte sagrado.

Eilan estava consciente o suficiente para recuar por um momento quando viu o banco 
com trs pernas. Havia uma razo qualquer para que ela no devesse sentar-se nele; 
algum pecado

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na sua alma. Mas as suas assistentes empurraram-na para a frente e ela pensou que se 
no se conseguia lembrar ento talvez no fizesse qualquer diferena.

j tinham sacrificado o touro sagrado e repartido a sua carne pelo povo. Os sacerdotes 
tinham representado o ritual no qual o novo deus tirava a colheita  fora ao antigo. 
Agora era a altura de procurar pressgios para a poca do outono. A Lua das colheitas j 
se levantava a Leste, dourada como os ornamentos que a sua sacerdotisa usava.                         
- Olhai para mim, Senhora - Eilan lutou para formar a orao. - Guardai-me bem!
Uma das sacerdotisas que a assistiam tinha-lhe colocado na
mo a pequena adaga curva do ritual, Ela levantou a adaga e com um rpido movimento 
mergulhou-a na ponta dum dedo. Sentiu uma dor aguda, e uma pesada gota de sangue 
brilhou  superfcie; manteve-o sobre a taa dourada, deixando cair trs gotas de sangue. 
A taa estava cheia at  borda com gua da Nascente Sagrada e, flutuando  sua 
superfcie, estavam folhas da planta sagrada, o visco. No plantadas por mo humana, e 
crescendo entre o ar e a terra, partilhando da mesma natureza do relmpago que a 
engendrou.

Agora estavam a vir-la; sentiu a dura madeira contra a parte de trs dos joelhos e 
sentou-se. Houve um momento de vertigem quando os sacerdotes a levantaram e 
carregaram para o monte. As sacerdotisas que a assistiam tinham-se retirado.

Quando os sacerdotes comearam a cantar, Eilan sentiu como se estivesse a cair, ou 
talvez a erguer, levada pela cano numa direco que no tinha qualquer relao com a 
realidade normal; sem precisar, ou desejar nada, satisfeita simplesmente por ser ... Um 
claro de archotes agrediu-lhe os olhos; por baixo dela toda a multido reunida pareceu 
dissolver-se num nico rosto. os seus olhos, virados para ela, eram como um peso, uma 
presso fsica positiva, fazendo-a recuar para um lugar que era, e contudo no era, deste 
mundo.                       - A voz de
-   Filhos de Don, porque visteis at aqui?

Ardanos pareceu muito distante.                  replicou uma voz masculina.
- Procuramos a bno da Deusa -



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- Ento chamem por Ela!

As narinas de Eilan tremeram quando o fumo girou  sua volta, pesado com o aroma das ervas sagradas. Inspirou 
involuntariamente e a sua respirao prendeu-se; o mundo rodopiou e ela tentou manter o equilbrio; ouviu uma voz 
chorosa e no percebeu que era a sua. De baixo levantou-se o som de muitas outras vozes, chamando, chamanando:

Negra Caadora... Me Radiosa... Senhora das Flores, ouvi-nos... Vem at ns, Senhora da Roda de prata---

Eu sou Eilan... Eilan... Ela agarrava-se  sua prpria identidade, gritando  medida que a necessidade naquelas vozes 
a agredia at sentir a sua Presso como uma dor fsica. Ao mesmo tempo, outra presso estava a levantar-se atrs 
dela, ou talvez dentro dela, exigindo que ela a deixasse entrar. Espasmos abanaram o seu corpo quando lutou; sentiu 
terror quando o Eu que conhecia foi comprimido entre elas: no conseguia respirar. Ajudai-me!, gritou o seu esprito.

Inclinou-se para a frente, vendo o brilho da gua diante de si, e uma voz que pareceu vir do seu interior, disse nessa 
altura:

- Filha, Eu estou sempre aqui, para Me veres tens apenas de olhar para dentro da Nascente Sagrada.

- Olhai para a gua, Senhora... - ordenou uma voz que estava muito prxima. - Olhai para a taa, e vede!

- Minha filha,   descansa agora. O teu esprito estar a salvo comigo...

Com as palavras veio uma vaga de amor de que Eilan se lembrou e, com a mesma confiana com que se tinha 
entregue a Gaius, pestanejou e deixou-se escorregar para o quente conforto dos braos da Senhora.

Como se a uma muito grande distncia, ela estava consciente de que o seu corpo se endireitava, que estava a retirar o 
vu, levantando as mos para a Lua.

- Olhai, a Senhora da Vida veio at ns! - gritou Caillean com uma voz muito alta. - Dmos-Lhe as boas vindas!

E o som de muitas vozes subiu como uma mar e transportou-a para um local onde ela podia ver maravilhada mas 
sem medo,

o corpo que tinha deixado para trs, mover-se e falar.                                   

A CASA DA FLORESTA

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Quando os vivas se acalmaram, a Gr Sacerdotisa sentou-se de novo no banco, a identidade que a enchia aguardando 
com uma pacincia infinita pela resposta da humanidade.

- H as questes que o povo traz at vs - disse o Arquidruida, e porque ele falou com ela na antiga lngua dos 
Sbios, foi nessa linguagem que a Deusa lhe respondeu.

Depois de cada pergunta o sacerdote virava-se para a multido e dizia alguma coisa na linguagem comum. Desse 
distante domnio em que Eilan estava a ouvir pareceu-lhe estranho que as suas afirmaes, se eram tradues, 
tivessem to pouco a ver com o que a Deusa respondia. isso no parecia certo, mas talvez ela no o tivesse ouvido 
bem, e, neste lugar em que ela tinha encontrado refgio, achava difcil importar-se.

O interrogatrio continuou mas  medida que o tempo passava, ela sentia as suas percepes ficarem cada vez mais 
incoerentes. Pareceu-lhe que, nessa altura, Ardanos franziu as sobrancelhas e se chegou para mais perto dela.

- Senhora, agradecemos-te as vossas palavras.  tempo de deixar este corpo atravs do qual falsteis. Salve, e adeus! - 
Apanhou o ramo de visco da taa dourada e espalhou alguns pingos de gua por cima dela.

Durante um instante Eilan ficou cega, depois o seu corpo teve uma convulso. A dor atravessou-a como uma 
punhalada e caiu  na escurido, num tilintar de sinos de prata.

Quando a conscincia comeou a regressar, Eilan percebeu que as sacerdotisas estavam a cantar. Ela conhecia a 
cano; tinha a impresso de j a ter cantado mas, dorda e entontecida como estava, nesta altura no conseguia 
cantar. Elas tinham-lhe retirado as constrangedoras grinaldas da cabea, e algum estava a molhar-lhe a testa e as 
mos. Deram-lhe gua a beber e uma voz murmurou-lhe ao ouvido. Caillean... Sentiu que a levantavam e colocavam 
na liteira.

- Salve a Senhora - cantaram as mulheres.
- jia da noite! - replicaram os druidas.

- Beleza dos cus... Me das estrelas... Filha do Sol,..
- As sacerdotisas levantaram os seus brancos braos  lua prateada.

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- Majestade das estrelas- - cantaram, e, a cada coro, replicaram as profundas vozes dos 
homens - jia da noite!

Muito tempo depois, parecia, Eilan viu-se de volta  sua prpria cama na Casa da Gr 
Sacerdotisa. A luz dos archotes j no lhe agredia os olhos e os efeitos da bebida 
sagrada deviam estar finalmente a passar, pois sentiu que conseguia pensar claramente 
de novo. Por uma razo qualquer, um fragmento duma antiga balada flutuava na sua 
mente.

- depois de eles lhe terem retirado os seus ornamentos e queimado as suas flores 
sagradas... - Ela no se conseguia lembrar donde tinha vindo, mas sabia que as suas 
grinaldas tinham sido deitadas ao fogo; o seu doce aroma quando tinham ardido tinha 
enchido o ar. Agora vinham-lhe  memria outras coisas - o canto das sacerdotisas, a 
Lua prateada.

Mas, se bem que soubesse que tinha havido perguntas, Eilan viu que no era capaz de se 
lembrar de uma nica palavra das suas respostas. Quaisquer que tenham sido, parece 
que a populaa as achou satisfatrias.

E a Deusa , pensou ento. Afinal de contas ela no me fulminou! Pelo menos ainda 
no, se bem que ainda pudesse vir a desejar que Ela o tivesse feito. O estmago de Eilan 
ainda estava agitado; sentia-se como se lhe tivessem batido com paus, e, sem dvida, 
amanh ainda se sentiria pior. Mas era a sua barriga, no o seu ventre, que lhe doa. 
Tinha enfrentado o seu ordlio e sobrevivido.

- Boa noite, Senhora - disse Eilidh da soleira da porta.
- Que possais descansar bem.

Senhora... pensou Eilan. Ento era verdade. Agora era a Senhora de Vernemeton.

Uns dias mais tarde Caillean chamou Dieda aos aposentos da Gr Sacerdotisa. Eilan 
estava sentada perto da lareira, parecendo plida e tensa.

- Chegou a altura de cumprires a tua palavra. Eilan j est suficientemente bem para 
poder viajar e vamos mand-la esconder-se para ter a criana.

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- Isto  ridculo. Pensam mesmo que ningum reparar na substituio? - perguntou 
Dieda amargamente.

- Desde que ela se tornou na Gr Sacerdotisa tem andado velada tanto tempo que poucas 
mulheres na casa repararo na diferena e, sem dvida, lev-lo-o  conta dos efeitos do 
ritual.

Cynric saberia , pensou Dieda com anelante, desejando que ele aparecesse e a levasse 
embora. Mas j se tinha passado mais de um ano desde que tinha tido notcias dele. 
Mesmo que soubesse, teria ele vindo?

- O teu pai est-te grato - disse Caillean.

Dieda fez uma careta, E bem que pode estar. Se eu tivesse insistido em sair daqui para 
casar com Cynric, o que teria acontecido a esta bela charada?

- Dieda - Pela primeira vez Eilan falou em sua prpria defesa. - Temos sido como irms. 
Por amor ao sangue que partilhamos, e porque tambm tu sabes o que  amar, por favor 
ajuda-me!

- Pelo menos tive mais juzo que entregar-me a um homem que me abandonasse! - disse 
Dieda com mordacidade. - Caillean comprometeu-se a mandar-me para Eriu. E tu, irm, 
o que me prometers tu?

- Se eu ficar Gr Sacerdotisa tentarei ajudar-te a ti e a Cynric. Se falhar nisso tu tens o 
conhecimento suficiente para me destruir. Isso ser suficiente para ti?

-  verdade. - Dieda sorriu estranhamente. E quando ela tivesse acabado de aprender 
com os druidas de Eriu seria capaz de fazer nascer pstulas na pele dum homem com 
uma s palavra, ou encantar qualquer pssaro ou animal com o seu canto; teria 
capacidades com as quais estas idiotas piedosas nem sequer sonhavam. Compreendeu 
de sbito que eram apenas os constrangimentos a que as sacerdotisas estavam sujeitas 
que a aborreciam. Podia aprender a gostar de lidar com o poder.

- Muito bem, ajud-las-ei - disse, e estendeu a mo para agarrar o vu.

DEZOITO

Apesar das histrias que os romanos de Londinium contavam sobre o Norte, viajar 
atravs desta regio da Bretanha, em finais do Vero, no representava nenhuma 
dificuldade para um rapaz jovem e saudvel. No chovia todos os dias e o ar estava 
doce com o cheiro do feno a secar.  medida que Gaius subia ao longo da costa oriental 
da Bretanha, atravs dum campo que se tornava cada vez mais selvagem, observou os 
bosques e colinas com um interesse profissional, pois na sua campanha anterior tinham 
marchado pela costa ocidental, at Lecanum, e a oriental era uma novidade para ele. 
Com Capellus, o ordenana do seu pai uma vez mais a seu lado, os pormenores do 
acampar e tratar dos cavalos foram lidados com eficincia. E a sua prpria lngua bret 
era o suficiente para lhes garantir as boas-vindas quando tinham de procurar abrigo 
numa fazenda nativa.

 medida que Gaius se deslocava mais para norte, a maioria das conversas eram sobre 
as campanhas do Governador Agricola. Soube, por intermdio dum dos veteranos 
recentemente reformados, o qual tinha conseguido uma das estaes de despacho de 
correio, que no ano anterior, o aparecimento de uma armada romana na costa da 
Calednia tinha lanado os nativos num pnico tal, que tinham atacado em desespero e 
sido bem sucedidos em dizimar a j enfraquecida IX Legio, antes de Agricola mandar 
a sua cavalaria de volta para os atacar pela retaguarda.

- Foi mau, meu rapaz, muito mau - admitiu o guarda da estao -, com esses demnios a 
gritar como lobos no meio do nosso acampamento e os homens a tropear nas cordas 
das tendas quando tentavam chegar s suas armas. Mas conseguimos
308

MARION ZIMMER BRADLEY

aguent~los sabe-se l como e nunca me esquecerei do momento em que, subitamente, 
pudemos ver o brilho dos nossos estandartes e percebemos que o dia estava finalmente a 
chegar. - Ele bebeu outro grande      gole do pouco espesso vinho e limpou a boca com 
as costas     da mo.

- Nessa altura, digo~vos, reencontrmos a nossa coragem e quando a Vigsima 
finalmente chegou para nos ajudar, j estvamos prontos para      lhes dizer que tinham 
chegado atrasados para a festa e que podiam ir para casa! Mas o general manteve os 
homens a trabalhar. Se esses demnios pintados no se tivessem refugiado nos seus 
pestilentos bosques e pntanos t-los-la-mos varrido completamente. Mas, suponho, 
tnhamos de deixar alguma coisa para vocs, jovens sedentos de glria, fazerem! - Riu-
se e ofereceu mais vinho a Gaius.

Gaius reprimiu um sorriso. Tinha sabido alguma coisa sobre esta batalha por homens 
que tinham sido enviados para casa, para Deva, mas era interessante ouvir a histria por 
algum que tinha estado mesmo dentro do acampamento quando os Calednios o 
atacaram.

- Ah, o General  um grande homem! Depois do Vero passado, mesmo aqueles que se 
encolhiam e se queixavam do perigo, esto a cantar-lhe louvores. Ele encontrar 
trabalho para ti, no h nenhuma dvida sobre isso, e comears a tua carreira com 
alguns louvores atrs de ti! Quem me dera ir contigo, meu rapaz, quem me dera!

Licinius no tinha dito nada sobre a possibilidade de servir, verdadeiramente, com     o 
Governador, mas Gaius pensou subitamente se as mensagens que levava no seriam, ao 
menos parcialmente, destinadas a fazer com que Agricola reparasse nele. Agricola 
estava a ser pouco comum, para governador provincial, na medida em que se dava 
bastante bem com os seus procuradores. Uma palavra de Licinius podia revelar~se 
muito til.

Na sua campanha anterior Gaius no tinha passado de mais um de uma confuso de 
jovens oficiais, todos sedentos de glria e extremamente dependentes dos seus 
centuries. Tinha ficado muito impressionado com o que tinha visto do seu comandante, 
mas no havia nenhuma razo para o General se lembrar dele. A ambio revoluteou no 
seu interior ao pensamento de ganhar a sua estima.

A CASA DA FLORESTA

309

Nesta altura Gaius estava a deixar para trs os terrenos de caa dos Brigantes e a 
deslocar-se para um terreno ainda mais Selvagem, onde as pessoas falavam um dialecto 
que no conhecia.

Roma podia conquistar estas terras, pensou, enquanto       atravessava urzais e sombrias 
florestas, mas duvidou se alguma vez as conseguiria governar. Apenas a necessidade de 
impedir os selvagens Calednios, e os seus aliados da Hibernia, de dilacerarem os ricos 
campos do Sul - como tinham feito quando destruram a casa de Bendeigid - podia ser 
um princpio de justificao para a presena romana aqui.

o longo crepsculo nortenho estava a escurecer para tons de violeta quando Gaius 
entrou em Pinnata Castra, a fortaleza que a XX Legio estava a construir por cima do 
Firth de Tava, onde a armada tinha feito uma to impressiva demonstrao no Vero 
passado. Paredes de pedra j se estavam a levantar por detrs da slida paliada, e as 
tendas de couro dum acampamento de campanha tinham sido substitudas por casernas 
e estbulos de madeira que davam o aspecto de poder resistir at a um Inverno nestas 
terras selvagens. o local parecia ainda maior porque o seu aspecto era o de estar quase 
vazio.

- Onde est toda a gente? - perguntou quando passou por baixo do javali selvagem dos 
legionrios que ornava o porto, e apresentou as suas ordens ao oficial de servio.

- L para cima. - O homem acenou vagamente para o Norte. - Diz-se que as tribos se 
uniram finalmente sob as ordens de um chefe votadini chamado Calgacus. O velho tem 
estado a persegui-los durante todo o Vero, plantando acampamentos de campanha atrs 
dele como pedras num caminho. Ainda ters outra semana de marcha para o apanhar, 
mas pelo menos hoje  noite podes dormir debaixo dum telhado e enfiar dentro           de 
ti uma refeio quente. De manh, sem dvida, o Prefeito dar-te- uma escolta; seria 
uma pena seres apanhado numa emboscada depois de teres chegado to longe!

Nesta altura Gaius estava mais interessado em ir pr-se de molho no edifcio dos banhos 
dos legionrios que numa refeio quente, mas ficou bastante satisfeito com o jantar, 
uma vez lavado, e o seu anfitrio, que se sentia claramente s e um pouco

310

MARION ZIMMER BRADLEY

nervoso, deixado aqui com a sua pequena unidade, pareceu contente por lhe dar as boas-
vindas aos seus alojamentos e ter algum novo com quem conversar.

- Ouviste falar do motim dos Usipii? - perguntou o Prefeito, quando os restos do 
condimentado galo selvagem que tinham estado a jantar foram retirados.

Gaius pousou a sua taa de vinho - tinha sido um muito bom Falernian - e pareceu ficar 
na expectativa.

- Um grupo de rudes germanos, sabes, acabados de ser retirados dos seus lgubres 
pntanos e enviados para Lenacum como mo-de-obra. Amotinaram-se e roubaram trs 
barcos; acabaram por velejar todo o caminho de Oeste para Leste,  volta da costa da 
Bretanha.

Gaius olhou-o fixamente.

- Ento a Bretanha  uma ilha... - Esta questo tinha sido um assunto de conversa  
mesa das refeies h tanto tempo quanto ele se podia lembrar.

- Parece que sim - acenou com a cabea o homem.
- Eventualmente os Suevi apanharam os sobreviventes e venderam-nos como escravos 
de novo no lado romano do Reno e foi assim que soubemos da histria.

- Extraordinrio! - disse Gaius. O vinho tinha feito o seu trabalho e ele estava a comear 
a sentir-se agradavelmente aquecido. Daria uma boa histria para contar a Julia quando 
voltasse a Londinium. Ficou um pouco surpreso quando reparou que estava a pensar 
naquilo como uma coisa que pudesse partilhar com ela - mas era uma histria cuja 
ironia s podia ser apreciada Por algum do seu prprio mundo. Eilan no teria 
compreendido de todo. Percebeu que pertencia, na verdade, a dois Povos - o romano 
que estava prometido em casamento a Julia, e o breto, que amava Eilan.

No dia seguinte comeou a chuviscar. Gaius fungava e tossia enquanto avanavam pelo 
ensopado terreno, pensando que no admirava que se dissesse que os homens das tribos 
se podiam dissolver na urze  vontade. Tinha a sensao de que as colinas se fundiam 
no cu e os bosques no cho, e ele e o seu cavalo na lama em que andavam com tanta 
dificuldade.

A CASA DA FLORESTA

311

Pelo menos, pensou lugubremente, ia a cavalo. Tinha pena dos  legionrios que tinham 
de lutar contra esta estrada, carregados  com todas as suas armas e equipamento. Por 
vezes viram carneiros numa encosta, ou o pequeno gado negro que os nativos 
pastoreavam, mas, excepto uma seta que passou a rasar pela cabea de Gaius quando 
estavam a passar a vau uma das Correntes, no encontraram sinais de foras hostis em 
qualquer parte.

- Boas notcias para ns, mas talvez ms para o exrcito disse sombriamente o decurio 
que comandava a sua escolta. Se os guerreiros no esto a guardar os seus prprios 
terrenos de caa isso s pode significar que, na realidade, eles finalmente se uniram. 
Ningum pode negar que eles so suficientemente bons guerreiros quando o sangue lhes 
ferve. Se as tribos tivessem sido capazes de unir foras quando Csar c chegou, hoje 
em dia o Imprio ainda acabaria nas costas da Glia.

Gaius acenou com a cabea e puxou o seu manto cor de tijolo mais apertadamente  sua 
volta pensando que destino     teria inspirado Licinius para mandar as suas mensagens, 
talvez precisamente na altura em que a mais formidvel aliana das tribos britnicas 
jamais reunidas estava prestes a atacar o exrcito que Agrcola tinha enviado para o 
Norte...

- Tens notcias de Martus Julius Licinius? Diz-me, ele est bem?

O homem que emergiu da grande tenda de couro era apenas de meia altura e, sem a sua 
armadura, quase esguio, mas, apesar das gotas de chuva que lhe brilhavam no cabelo 
que comeava a pratear, e das sombras  volta dos olhos, projectava uma aura de 
autoridade que o teria identificado mesmo sem o capote, dum vermelho to escuro que 
era quase prpura, que usava.

- Apresenta-se Gaius Macellius Severus Siluricus, senhor!
- Endireitou-se e fez a continncia, ignorando a gua que pingava da borda do seu 
capacete. - O Procurador est bem e envia-vos as suas mais cordiais saudaes. Como 
podeis ler nestas cartas, senhor...

- De facto. - Agricola estendeu a mo para o pacote e sorriu. - E  melhor ler debaixo de 
abrigo antes que se dissolvam

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com a gua. Tu tambm deves estar encharcado, depois da tua viagem. Aqui o Tacitus 
levar-te- at  fogueira dos oficiais e tratar do teu aquartelamento. - Apontou um 
jovem alto, melanclico, que Gaius mais tarde soube tratar-se do seu genro.
- Agora que ests aqui, o melhor  esperares pelo final da luta para que eu possa enviar 
um relatrio para casa outra vez por ti.

Gaius pestanejou quando o Governador se retirou para a sua tenda. Tinha-se esquecido 
do encanto do homem, ou talvez ele nunca se lhe tivesse sido dirigido directamente 
quando era apenas mais um oficial subalterno entre tantos outros. Ento, Tacitus 
agarrou-lhe no brao, e, cambaleando um pouco porque os seus presos msculos das 
pernas protestaram, Gaius seguiu-o.

Era muito bom sentar-se de novo  volta da fogueira dum acampamento com os seus 
camaradas oficiais, comendo guisado quente de lentilhas, po duro e bebendo vinho 
amargo. S agora Gaius se dava conta do quanto tinha sentido a falta desta 
camaradagem. Depois de os outros tribunos terem sido postos ao corrente das 
experincias de campanha que tinha tido, e que ele no era um mero soldado de parada, 
aceitaram-no, e,  medida que o jarro do vinho rodava, at a chuva que ainda brilhava 
como prolas no seu capote no lhe pareceu to fria. A tenso que ele sentia  sua volta 
era a que se podia esperar e o moral parecia alto. As couraas dos homens de servio 
estavam polidas e refulgentes apesar do tempo, e uma pintura nova brilhava nos 
amolgados escudos. Os jovens oficiais com quem estava sentado pareciam srios mas 
no receosos.

- Pensas que o General ser capaz de obrigar Calgacus a dar-lhe batalha? - perguntou.

Um dos homens riu-se.

- O mais provvel  que     acontea o contrrio. No consegues ouvi-los? - Fez um 
gesto    em direco  ventosa escurido.
- Eles esto mesmo ali, a gritar e a pintar-se de azul! Os batedores dizem que esto trinta 
mil homens ali em cima, no Grapius... guerreiros dos Votadini e Selgovae, Novantac e 
Doburini, e todos os outros pequenos cls que temos vindo a perseguir nestes ltimos 
trs anos, e Calednios das tribos do Norte cujos nomes nem eles prprios sabem. 
Calgacus dar-nos- luta, no o duvides; ele tem que o fazer antes que todos se comecem 
a lembrar das

A CASA DA FLORESTA

313

suas inimizades tradicionais e comecem a lutar uns contra os outros em vez disso!

- E quantos - perguntou Gaius cuidadosamente - somos ns?

- Das legies, quinze mil: a XX Valeria Victrix, II Adiutrix e o que resta da Nona - 
disse um dos tribunos, o qual, podia-se ver pela sua insgnia, estava adido  Segunda.

Gaius olhou para ele interessado. O tribuno tinha-se juntado  legio desde que Gaius 
estava em Londinium, mas devia haver aqui outros da legio do seu pai que ele 
conhecesse.

- E oito mil auxiliares de infantaria, na sua maioria batavians e tungri. Alguns 
irregulares brigantes e quatro alas de cavalaria. - Esta informao partiu dum 
comandante de unidade, que pouco depois se despediu para voltar para junto dos seus 
homens.

- Bem, isso no  assim to desigual, pois no? - disse Gaius animadamente, e algum 
riu.

- No constituiria nenhum problema, excepto que eles esto no terreno mais elevado.

Nas ladeiras superiores do pico a que os romanos chamavam Mons Grapius, o vento era 
mais frio. Os Bretes chamavam outros nomes  montanha - a Velha Mulher, antiga e 
duradoura, Portadora da Morte e Fria do Inverno.  medida que a noite se passava, era 
no seu ltimo epteto que Cynric a estava a conhecer. Aqui, as rajadas de chuva que 
caam nos vales transformavam-se em exploses de granizo que lhe ferroavam as faces 
e caam a chiar nas fogueiras.

Os Calednios pareciam no se importar. Sentavam-se  roda das suas fogueiras, 
despejando odres de cerveja e vangloriando-se sobre a vitria do dia seguinte. Cynric 
puxou o seu capote axadrezado por cima da cabea, esperando poder esconder o facto 
de estar a tremer.

- O caador que se elogia alto de mais ao amanhecer pode ver-se com a panela vazia 
quando a noite cai - disse uma voz calma ao seu lado.

Cynric voltou-se e reconheceu Bendeigid, os seus plidos hbitos um fantasmagrico 
borro na escurido.

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- Os nossos guerreiros cantaram sempre assim antes duma batalha; levanta-lhes o 
moral!

Ele voltou-se e olhou para os homens  volta da fogueira. Este grupo era de Novantac, 
do Cl do Cavalo Branco, da costa sudeste da Calednia, onde o esturio do Salmaes 
corria em direco a Luguvalium. Mas na fogueira atrs deles estavam a beber homens 
de Selgovae, seus inimigos hereditrios. O volume subiu e ele viu a   figura     do     seu     
comandante        subitamente         iluminada quando algum atirou outra acha para a 
fogueira. O chefe atirou a cabea para trs, rindo, e a luz resplandeceu de outra maneira 
nos seus olhos plidos e no seu cabelo vermelho.

-   Estamos na nossa terra, rapazes, e a prpria ilha lutar por ns! Os capotes-
vermelhos so levados pela ganncia, que  uma fria conselheira, mas ns ardemos com 
o fogo da liberdade! Como podemos falhar?

Os Novantae, ao ouvir estas palavras, abandonaram a sua prpria fogueira para se 
juntarem  volta dele e, passados instantes, os dois grupos tinham-se tornado numa 
nica massa de homens que gritavam e aplaudiam.

- Ele tem razo - disse Cynric. - Se Calgacus foi capaz de persuadir esta gente a manter-
se unida, como podemos ns falhar?

Bendeigid manteve-se silencioso e, apesar das suas corajosas palavras, Cynric sentiu a 
serpente da ansiedade, que tinha estado a ro-lo desde o cair da noite, comear a mexer-
se uma vez mais,

- O que ? - perguntou. - Tivsteis um pressagio? Bendeigid abanou a cabea.

- Nenhuns pressgios... penso que as hipteses nesta luta esto to uniformemente 
equilibradas que at mesmo os deuses no se atrevero a apostar no seu resultado. Ns 
temos uma vantagem,  verdade, mas Agricola  um formidvel adversrio. Se 
Calgacus, se bem que seja um grande chefe, o subestimar, isso poderia ser fatal.

Cynric deu um longo suspiro. Tinha lutado to arduamente para se provar a estes 
homens das tribos, que tinham comeado por troar dele como sendo o filho de um 
povo derrotado mesmo sem saberem que o seu sangue estava maculado pelo de Roma, 
que a desconfiana se tinha tornado numa segunda natureza. Mas com o seu pai 
adoptivo ele no precisava de fingir.

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- Ouo os cantos, mas no me consigo juntar a eles; bebo, mas a minha barriga continua 
fria. Pai, falhar-me- amanh a coragem quando enfrentarmos o ao romano? - Em 
alturas como esta no podia evitar pensar se no devia ter fugido com Dieda quando 
tinha tido a oportunidade.

Bendeigid virou-se para o poder olhar nos olhos.
                 ainda- No falhars - disse ferozmente. - Estes homens esto a lutar pela 
glria.
 No compreendem o seu inimigo como tu. Mas na batalha o teu desespero ainda te 
tornar mais terrvel. Lembra-te que s um Raven, Cynric, e que o que procurars l em 
baixo amanh no  a glria, mas sim a vingana!

Nessa noite, Gaius deitou-se ouvindo a respirao de outros homens e a pensar porque e 
que o sono custava tanto a vir, Esta cama estava mais seca que qualquer uma em que 
tivesse dormido desde h algum tempo e j antes tinha lutado noutras batalhas. Mas as 
suas outras lutas, reflectiu, tinham sido escaramuas inesperadas que acabavam quase 
antes de terem comeado.

Procurou alguma distraco e viu-se, de repente, a pensar em Eilan. Durante a jornada 
para o Norte foi em Julia que            tinha pensado, imaginando o divertimento dela com 
algum pedao de m-lngua ou histria sobre o exrcito. Mas nunca poderia confessar a 
Julia as coisas que nesta altura de escurido o estavam a perseguir... Rodeado, Por 
todos estes homens sinto-me s... quero apoiar
a cabea no teu seio e sentir os teus braos  minha volta... estou s, Eilan, e tenho 
medo!
       Caiu finalmente num desassossegado sono leve, e nos seus sonhos pareceu-lhe que 
ele e Eilan estavam juntos numa cabana no meio da floresta. Ele beijou-a e percebeu 
que o corpo dela estava a ficar arredondado com o seu filho. Ela sorriu-lhe e apertou o 
vestido   de encontro ao ventre para que ele pudesse ver; ele pousou a mo na dura 
curvatura, sentiu a criana a mexer-se l dentro e pensou que ela nunca tinha estado to 
bonita.

Ela abriu os braos para ele e puxou-o para o seu                    lado, murmurando
palavras de amor.

Ento, Gaius caiu num sono mais profundo. Quando acordou, homens estavam a        
mover-se  sua volta, vestindo as suas

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MARION ZIMMER BRADLEY

tnicas e atrapalhando-se a tentar apertar os cordes das armaduras na sombria e 
acinzentada hora antes da alvorada.

- Por que  que ele no est a colocar as legies na linha de batalha? - perguntou Gaius a 
Tacitus em voz baixa.

Eles imobilizaram os cavalos com o restante squito do General numa pequena colina, 
vendo a infantaria ligeira espalhar-se numa longa linha por baixo da montanha, com a 
cavalaria de cada lado. A plida luz brilhava nos polidos topos dos seus capacetes de 
bronze e nas pontas das lanas e cintilava nas suas armaduras. ngremes pastos subiam 
em direco s ladeiras mais baixas para l deles, onde a seca erva dava lugar a vastas 
faixas do castanho avermelhado dos fetais e  prpura mais clara da urze. Mas muita da 
topografia apenas podia ser adivinhada, pois a parte inferior da montanha estava 
completamente coberta com homens armados.

- Porque elas esto com as foras reduzidas - chegou a resposta. - Lembra-te de que o 
Imperador sugou homens das quatro legies para a sua campanha contra os Germanos. 
Em resultado disso, trs mil homens das nossas tropas de elite esto impacientemente 
sentados  espera, na Germania, enquanto os Chatii e os Sugambri se riem deles, e 
Agricola vai ter de usar todos os truques que conhece para compensar essa falta. Tem as 
legies formadas em frente das trincheiras, onde nos podem apoiar se retirarmos, mas 
ele espera que no cheguemos a isso.

- Mas foi o Imperador que mandou o Governador defender a Calednia do Norte, no 
foi? - perguntou Gaius. - Domiciano  um soldado. No saberia ele...

Tacitus sorriu e, subitamente, Gaius sentiu-se como uma criana.

- Alguns diriam - respondeu suavemente - que ele sabe bem de mais. Tito deu ao nosso 
governador honras de heri pelos seus sucessos na Bretanha, e quando a sua campanha 
acabar, a comisso de Agricola como governador ter chegado ao fim. Talvez o 
imperador sinta que no h lugar em Roma para dois generais vitoriosos.

Gaius olhou na direco do seu comandante, que estava a observar o desdobramento das 
suas tropas com grande ateno.

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A sua armadura, de escamas pendentes sobre uma cota de malha, brilhava  crescente 
luz e o penacho de crina de cavalo do seu capacete ondulava ligeiramente com a brisa. 
Por baixo da armadura, a tnica e os cales eram dum branco de neve, mas na luz 
matinal o seu manto escarlate brilhava funestamente.

Anos mais tarde, numa visita a Roma, Gaius leu a passagem da biografia de Agricola na 
qual Tacitus descreveu este dia. Teve de sorrir com os discursos, que tinham sido 
trabalhados a fim de ganharem efeito literrio, na melhor tradio retrica, pois embora 
tivessem ambos ouvido as palavras do General, o vento apenas lhes trouxe fragmentos 
do discurso de Calgacus, que Gaius, sem dvida, percebeu muito melhor que Tacitus.

Calgacus tinha comeado primeiro; pelo menos podiam ver um homem alto com o 
cabelo da cor da pele duma raposa, a andar para trs e para a frente em frente dos 
inimigos que estavam melhor vestidos, e presumiram que fosse ele. Fazendo eco nas 
colinas atrs dele, frases flutuaram atravs do terreno aberto.

- ... Eles comeram a terra, e atrs de ns apenas resta o mar! - Calgacus fez um gesto na 
direco norte. - ... destruamos estes monstros que venderiam os nossos filhos        como 
escravos! - Os Calednios comearam a urrar em aprovao e as palavras seguintes 
perderam-se. Quando Gaius conseguiu ouvir de novo, o chefe inimigo parecia estar a 
falar da revolta dos Iceni.
- ... fugiram aterrorizados quando Boudicca, uma mulher, levantou os Trinobantes 
contra eles... nem sequer arriscam o seu prprio povo contra ns! Deixem os Gauleses e 
os nossos irmos, os Brigantes, lembrar-se como os Romanos os traram e deixem os 
Batavianos desertar tal como os Usipi fizeram! - Houve um pequeno movimento nas 
fileiras dos auxiliares, entre aqueles que o perceberam, enquanto Calgacus continuava o 
seu apelo aos Calednios para lutarem pela sua liberdade, mas os seus comandantes 
acalmaram-nos.

Os homens das tribos comearam a chegar-se  frente, cantando e abanando as suas 
lanas e Gaius tremeu, ao ouvir essa msica selvagem, uma chamada que acordava 
memrias quase antigas de mais para que ele tivesse palavras para as descrever, 
memrias de canes que tinha ouvido entre os Silures quando era um beb de colo. E o 
lado escondido da sua alma, o lado da me, chorou em resposta, pois Gaius tinha visto 
as minas de

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Mendip e as filas de escravos bretes serem levados para barcos a fim de serem 
vendidos em Roma, e ele sabia que o que Calgacus dizia era a verdade.

Os romanos, percebendo o tom se no as palavras, estavam-se a mexer iradamente. Foi 
nesse momento, quando parecia que a sua disciplina, se no mesmo a sua lealdade, se 
podia quebrar, que Agricola levantou a mo e, com as rdeas, fez o seu cavalo branco 
voltar-se para os enfrentar, e os seus oficiais se chegaram mais para perto para ouvir o 
que ele ia dizer.

O General pareceu falar gentilmente, como um pai acalmando um filho excitado, mas as 
suas palavras arrebataram-nos. Falou da distncia que tinham percorrido, da sua 
coragem em irem para alm das fronteiras do mundo romano e, suavemente, notou os 
perigos de tentar uma retirada atravs duma terra to hostil.

um general ou um exrcito que se retira nunca  seguro... a morte com honra  
prefervel a uma vida na ignomnia... Mesmo o tombar nesta derradeira orla da terra e da 
natureza no pode ser considerada uma sorte inglria.

Quanto aos Calednios, a quem Calgacus tinha chamado os ltimos homens livres na 
Bretanha, na verso de Agricola tornaram-se fugitivos:

- ... o nmero deles que resta consiste apenas nos mais cobardes e sem coragem; esto 
ao alcance da vossa vista, no porque se tenham aguentado no terreno, mas porque 
foram alcanados. - Por um momento, ao ouvir aquela voz calma e amvel destruir os 
sonhos de glria dos Calednios, Gaius quase o odiou. Mas no podia negar a concluso 
do General, a qual era que uma vitria romana hoje podia pr um fim a uma luta que j 
durava h cinquenta anos.

Pareceu a Gaius que via neste homem a essncia do que Macellius considerava um 
romano. Apesar de a famlia de Agricola ser de ascendncia gaulesa, e de ele ter subido 
na vida atravs dum bem sucedido servio pblico, primeiro ao grau de cavaleiro e 
depois a senador, fez lembrar a Gaius os velhos heris da Roma republicana.

Os escriturrios de Licinius tinham estima pelo seu senhor, mas no modo como os 
oficiais de Agricola o olhavam, Gaius sentiu mais alguma coisa, uma intensidade de 
devoo que os

A CASA DA FLORESTA

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mantinha imveis, mesmo quando os selvagens nas montanhas comearam a levantar a 
sua coragem para o calor da batalha com gritos de guerra e batendo nos escudos. 
Aparentemente, este tipo de atitude estendia-se aos homens sob o comando de Agricola, 
e Gaius, ao ver aquele severo perfil e ao ouvir o General a falar to calmamente como se 
estivesse a conversar na sua tenda com um grupo de amigos, pensou subitamente,  
este o tipo de devoo que faz Imperadores. Talvez Domiciano tivesse razo em ter 
medo.

Os Calednios estavam alinhados na colina, as suas fileiras subindo fila aps fila acima 
da plancie. Nesta altura, as suas bigas comearam a descer pela colina abaixo com os 
cavaleiros formados junto a elas, geis pneis galopando a toda a brida, com os seus 
condutores a balanar nas plataformas de vime enquanto os lanceiros que elas 
transportavam abanavam as suas armas e riam.

Para Gaius era uma imagem de beleza e terror. Apercebeu-se de que estava a ver a alma 
guerreira da Bretanha tal como Csar e Frontinus a tinham visto, apercebendo-se que 
depois do que aqui se iria passar ela nunca mais seria vista em toda a sua glria. As 
bigas arremessaram-se para a frente, rodando no ltimo instante quando os seus dardos 
estrondearam nos escudos romanos e os guerreiros correram pelos varais entre os 
cavalos, atirando ao ar as suas relampejantes espadas e apanhando-as de novo. Tinham 
vindo para esta batalha como para um festival e o sol faiscava em colares e pulseiras. 
Alguns tinham armadura e capacete, mas a maioria lutava em brilhantes tnicas 
axadrezadas ou meios nus, a sua pele clara pintada com desenhos azuis espiralados. 
Gaius podia ouvi-los a vangloriar-se por cima do estrpito das rodas das bigas e sentiu, 
no terror, mas uma terrvel dor.

Um dos tribunos protestou audivelmente quando Agricola desmontou e veio um homem 
para lhe levar o cavalo, mas os rostos dos outros fecharam-se rigidamente a esta prova 
que, o que quer que acontecesse ao seu exrcito, Agricola no fugiria. Dariam a vida 
para o proteger , pensou Gaius, e eu , compreendeu subitamente, tambm. Alguns 
dos membros do squito do General estavam a desmontar enquanto calmas ordens 
enviavam outros a meio galope at s linhas. Gaius puxou as rdeas, incerto quanto ao 
que fazer.

320

MARION ZIMMER BRADLEY

- Tu. - O General fez sinal para ele se aproximar. - Vai at aos Tungri e diz-lhes para se 
espalharem mais. Diz-lhes que eu sei que isso vai enfraquecer o centro mas no quero 
que o inimigo nos flanqueie.

Quando esporeou o seu cavalo para um galope, Gaius ouviu o barulho de dardos a bater 
em escudos atrs de si e percebeu que as bigas brets se tinham retirado e a sua primeira 
linha de infantaria estava a avanar. Inclinou-se sobre o pescoo do cavalo e f-lo andar 
mais depressa. O espao entre dois exrcitos que se estavam a aproximar para a 
primeira, devastadora troca de projcteis, no era lugar onde se estivesse. Viu o brilho 
do estandarte dos Tungri  sua frente e a linha abriu-se para o deixar passar; pouco 
depois estava a transmitir a sua mensagem, movendo-se por trs dos homens quando 
estes comearam a fazer presso para os lados e observando pelo canto do olho  
medida que o ataque do inimigo se alargava para os flancos.

Os  guerreiros bretes eram bons, pensou quando os viu a afastar as lanas romanas 
com os seus escudos redondos. As suas grandes espadas eram ainda maiores que as 
spatha romanas, armas cortantes, rombas na ponta mas maldosamente afiadas de lado. 
Os clarins romanos troaram e o centro de Agricola avanou, aproximando-se do 
inimigo.

Gaius sabia que no tinha mais nada a fazer aqui com a infantaria, mas o General no 
lhe tinha dado outras ordens; numa sbita deciso, tocou com os joelhos na sua montada 
para que o levasse pela linha abaixo para se juntar  cavalaria que se encontrava a. Por 
cima das cabeas dos auxiliares viu as linhas de batalha quebrarem-se numa confusa 
luta corpo-a-corpo na qual os Calednios no tinham espao para fazer rodar as suas 
grandes espadas. Este era o tipo de luta preferido dos Batavianos; fizeram presso para a 
frente, golpeando com os seus gldios e esmagando caras de inimigos com as bossas 
dos seus escudos. Houve um grito dos romanos quando a primeira linha do inimigo 
cedeu e o centro de Agricola comeou a subir as colinas inferiores da montanha atrs 
deles.

Mais devagar, a infantaria, de cada lado, tentou segui-los, mas, agora, as bigas dos 
bretes, vendo as suas linhas a adelgaarem-se e sentindo uma fraqueza, mergulharam 
nessa direco,

A CASA DA FLORESTA

321

balanando no acidentado terreno. Mais um momento e estavam no meio da infantaria, 
como lobos num curral de ovelhas, dilacerando os soldados apeados com espadas e 
lanas. Algum gritou aos homens para cerrar fileiras; homens, cavalos e bigas 
rodopiavam em confuso; Gaius viu um guerreiro pintado de azul assomar  sua frente e 
atirou a sua lana.

Nos momentos que se seguiram as coisas aconteceram depressa de mais para que se 
tivesse tempo de pensar. Gaius golpeou e aparou golpes enquanto armas chamejavam  
sua volta. Uma biga mergulhou na sua direco e o seu cavalo rodopiou, atirando-o de 
encontro  armao traseira da sua sela. Sentiu a lana ser-lhe arrancada da mo e 
esquivou-se quando um dardo se dirigiu para ele. O projctil atingiu-lhe o capacete, ficou 
pendurado durante um instante no penacho e caiu. Gaius pestanejou entontecido, 
percebendo agora porque  que apenas os oficiais usavam penachos nos capacetes 
durante uma batalha, mas o cavalo, mais esperto que o seu dono, levava-o j para fora 
de perigo.

Durante uns momentos manteve-se isolado; Gaius puxou a sua spatha da bainha e 
endireitou-se. Podia ver agora que as bigas, tendo falhado na sua tentativa de passar 
atravs das linhas romanas, estavam a ficar enredadas no meio delas.          Uma biga 
balanava em direco a ele no desigual terreno; ouviu-se o som de madeira triturada 
quando uma roda bateu num pedregulho arredondado e ela se virou. Viu o condutor dar 
um pontap nos rastos. Relinchando furiosamente, os cavalos libertaram-se, juntando-se 
aos outros que galopavam em pnico no meio da batalha, derrubando amigos e 
inimigos.

A batalha estava agora completamente unida; as colinas do Grapius espumavam com 
grupos de homens em luta, unido-se e separando-se, e agrupando-se de novo, numa 
tapearia em constante movimento. Mas pareceu a Gaius que, pouco a pouco, os 
romanos estavam a ganhar terreno.

De repente, pareceu como se uma lana tivesse nascido do cho  sua frente, com um 
rugidor rosto atrs dela; o seu cavalo recuou quando ele desviou a lana para o lado com 
a espada e golpeou para baixo. O vermelho cobriu os desenhos azuis quando a lmina 
acertou e, nessa altura, o cavalo deu um salto para a frente fazendo com que a cara 
desaparecesse,

322

MARION ZIMMER BRADLEY

e Gaius viu-se a golpear e a defender-se, sem tempo sequer para pensar.

Quando voltou a ter um momento para se concentrar, estavam j bem acima na 
montanha.  sua esquerda ouviu gritos; os Calednios que tinham estado a observar a 
batalha desde o cume estavam agora a descer, arremessando-se pela colina abaixo com 
uma velocidade espantosa para apanhar os romanos pela retaguarda. Estaria Agricola a 
v-lo? Gaius ouviu uma vez mais o troar dos clarins romanos e fez uma careta quando 
as quatro alas de cavalaria, que o General tinha estado a manter como reserva, entraram 
por fim em aco. Eles flanquearam os bretes e martelaram-nos de encontro  bigorna 
que era a infantaria; o verdadeiro massacre comeou ento.

As foras de Calgacus tinham perdido toda a coeso. Alguns homens ainda lutavam, 
outros tentavam fugir, mas os romanos estavam por todo o lado, matando ou fazendo 
prisioneiros apenas para ter que os massacrar quando mais guerreiros inimigos lhes 
saam ao caminho. Gaius viu um relampejar de branco ali perto e viu Agricola no meio 
da batalha com apenas dois tribunos e um par de legionrios a defend-lo. Virou a sua 
montada nessa direco.

Quando se estava a aproximar, um dos tribunos gritou. Trs bretes, com o vesturio 
empapado em sangue e armados apenas com facas e pedras, carregavam na direco 
deles. Gaius esporeou o cavalo com fora. Rodou e a sua lmina abriu um corte 
vermelho no peito do primeiro homem. Ento, o seu cavalo tropeou nalguma coisa 
mole; Gaius sentiu-se a cair, libertou o escudo e libertou-se com um puxo violento 
quando o animal se abateu. Viu o brilho repentino duma faca e sentiu a dor a rasgar-lhe 
a coxa; o cavalo lutou para tentar pr-se de p e a faca brilhou outra vez, espetando-se-
lhe no pescoo; o animal teve um espasmo e voltou a cair.

Gaius levantou-se apoiado num ombro, espetou a sua prpria adaga no peito do breto 
usando-a, depois, para cortar a garganta do cavalo moribundo.

Depois, fazendo uma careta quando a coxa lhe comeou a latejar, comeou a levantar-
se, olhando  sua volta  procura do seu escudo e da espada.

- Ests bem, rapaz? - Agricola estava a olhar para baixo, para ele



A CASA DA FLORESTA

323

- Sim, senhor! - comeou a fazer a continncia, reparou que  ainda tinha a adaga na 
mo, e embainhou-a outra vez.

- Continua, ento - disse o General. - Ainda temos trabalho a fazer.

- Sim... - comeou Gaius, mas Agricola estava j a virar-se para dar uma ordem a outra 
pessoa qualquer. Um dos tribunos ajudou-o a pr-se de p e ele tentou recuperar o 
flego.

Sangue tinha manchado o fetal a seus ps de um vermelho ainda mais carregado. O 
campo assemelhava-se a uma massa de homens e armas quebrados, e os inimigos ainda 
vivos estavam a dispersar-se, perseguidos pela cavalaria. Os romanos apeados seguiam 
mais lentamente, enquanto os Calednios fugiam em direco  floresta no outro lado 
da montanha. Agricola deu ordem a alguns homens para desmontarem e bater pelo meio 
do bosque enquanto os outros o cercavam por detrs.

Foi na orla do bosque, quando o crepsculo estava a cair, que Gaius rodopiou para 
enfrentar um homem que saltou como uma mola para cima dele. Rodou instintivamente, 
mas estava cansado e a lmina girou-lhe na mo, apanhando o guerreiro de lado na 
cabea e deitando-o ao cho. Puxou pela sua adaga e inclinou-se para o homem para 
acabar com ele e praguejou quando uma mo ensanguentada lhe agarrou o brao: 
perdeu o equilbrio e caiu em cima do inimigo; os dois rolaram um por cima do outro, 
lutando pela posse da lmina.

o brao de Gaius comeou a tremer quando os msculos, que nunca tinham recuperado 
completamente da velha ferida onde a estaca para os javalis lhe tinha trespassado o 
ombro, comearam a ceder. O pnico puxou pelas suas ltimas reservas de energia e os 
seus dedos cerraram-se na garganta do outro homem. ofegaram durante uns instantes, a 
adaga batendo inutilmente na sua armadura. Depois, toda a capacidade de luta do outro 
homem desapareceu e ele deixou-se ficar imvel.

Tremendo, Gaius ps-se de p e tirou a arma dos enfraquecidos dedos do seu inimigo. 
Inclinou-se para acabar o trabalho que tinha comeado e viu-se     a olhar para os 
entontecidos olhos de Cynric.

- No te mexas! - disse em breto e o outro imobilizou-se, Gaius olhou rapidamente  
sua volta. - Posso salvar-te... esto a comear a fazer refns. Rendes-te a mim?

324

MARION ZIMMER BRADLEY

- Romano. - Cuspiu Cynric, mas fracamente. - Devia ter-te deixado no fosso dos javalis! - Foi ento que Gaius 
percebeu que o outro homem tambm o tinha reconhecido. - Teria sido melhor para mim... e para Eilan!

- Tens tanto sangue romano como eu! - O sentimento de culpa acrescentou veneno  resposta de Gaius.

- A tua me vendeu a honra! A minha morreu!

Gaius viu-se a baixar a lmina e, no ltimo instante, realizou que isso era o que Cynric queria que ele fizesse.

- Salvaste uma vez a minha vida. Agora ofereo-te a tua, e que Hades leve o teu maldito orgulho breto! Rende-te e 
poders lutar comigo noutra ocasio. - Sabia que isto era loucura; mesmo jazendo no meio do seu sangue Cynric 
parecia perigoso. Mas salv-lo era a nica coisa que podia fazer por Eilan.

- Tu ganhas... - A cabea de Cynric caiu para trs com a exausto e Gaius viu mais sangue a correr dos cortes nos 
seus braos e coxas - ... hoje... - Os seus olhos encontraram-se e Gaius viu o dio ainda a arder nos dele. - Mas um dia 
pagars...
- e caiu em silncio enquanto o vago que estava a recolher os feridos chiava em direco a eles.

Gaius viu dois legionrios esgotados carreg-lo juntamente com os outros, a sua satisfao pela vitria romana 
dissipando-se quando compreendeu que tinha perdido o amigo to seguramente como se tivesse visto Cynric morrer 
diante dos seus prprios olhos.

Quando a escurido comeou a cair Agricola mandou parar a perseguio, no querendo arriscar os seus homens num 
terreno desconhecido. Mas, para os Calednios que sobreviveram, ainda no estava acabado. Pela noite dentro os 
romanos puderam ouvir mulheres a chamar enquanto percorriam o campo de batalha. Nos dias que se seguiram, os 
batedores que voltavam relataram um cada vez maior crculo de devastao. A terra que outrora tinha sustentado um 
florescente povo era agora um mundo de silncio, no qual os corpos de mulheres e crianas, mortas pelos seus 
prprios homens para os salvar da escravatura, olhavam inexpressivamente para os cus, e o fumo de propriedades 
queimadas escurecia o lacrimejante cu.

A CASA DA FLORESTA

325

Quando os nmeros foram finalmente contados, estimou-se que feridos ou mortos em batalha pelo lado do inimigo 
tinham sido dez mil; enquanto romanos tinham morrido apenas trezentos e sessenta.

Enquanto viajava com a coluna de homens marchando para sul em direco ao aquartelamento de Inverno, Gaius 
lembrou-se das palavras da Calgacus: Devastar, massacrar, usurpar sob falsos pretextos a que eles chamam Imprio; 
e onde fazem um deserto, chamam-lhe paz.

Era certo que o Norte agora estava em paz, as derradeiras esperanas de liberdade to mortas como os homens que as 
tinham defendido. Foi isto, mais que o facto dos despachos de que era portador inclurem uma muito elogiosa 
descrio da sua prpria conduta no campo de batalha, que fez Gaius perceber que agora tinha de se tornar 
inteiramente romano.

DEZANOVE

Apesar das esperanas de Agrcola, a pacificao do Norte no deveria ser claramente 
conseguida com uma nica batalha. E se bem que o povo de Roma tivesse danado nas 
ruas quando foi proclamado o relato triunfal de Mons Grapius, muito havia ainda a ser 
feito para assegurar a vitria. Os despachos que Gaius levou para o Sul incluam uma 
ordem para ele voltar assim que as suas feridas tivessem sarado, pois o Governador no 
se sentia inclinado a deixar um jovem to til desperdiar-se em Londinium.

Uma das misses de Gaius foi visitar o recinto onde guardavam os prisioneiros mais 
importantes. Cynric ainda l estava, ferido e amargurado, mas vivo, e sombriamente 
triunfante por Calgacus no ter sido capturado para adornar o triunfo de Agrcola em 
Roma. De facto, ningum parecia saber o que tinha acontecido ao chefe breto. Corriam 
rumores de que o druida Bendeigid estava escondido nas montanhas.

- Eu fui preso em armas e no espero nenhuma piedade
- disse Cynric num amolecimento momentneo -, mas se o teu general tem qualquer 
considerao por ti pede-lhe que perdoe ao velho. Fui eu que te tirei do fosso dos 
javalis, mas ele  que te salvou a vida. Penso que lhe deves alguma coisa por isso, no 
achas?

E Gaius tinha concordado. Na verdade, a sua dvida era maior que o que Cynric pensava 
e, como no se podia provar que Bendeigid tinha lutado contra Roma, Agrcola estava 
disposto a deixar circular pelo Norte a palavra que o druida podia voltar a casa em 
segurana.

Em todo o caso, no foi seno quando o prprio Governador se dirigiu para sul para 
preparar a sua ida para Roma, que foi dada autorizao a Gaius para fazer o mesmo. E 
assim, foi j

328

MARION ZIMMER BRADLEY

no final do Inverno que ele se viu a caminho, para visitar o pai em Deva, finalmente 
livre para seguir as instrues que Julia lhe tinha dado meses atrs para fazer as pazes 
com Eilan.

O Inverno no Norte tinha sido negro e frio, com amargos ventos e noites que pareciam 
no ter fim. Mesmo to a          Sul o ar estava fresco, se bem que os primeiros botes 
estivessem a tingir as extremidades dos ramos de verde, e Gaius sentiu-se satisfeito por 
ter o seu capote de pele de lobo. Na Bretanha, at mesmo o deificado Jlio tinha, por 
vezes, usado trs tnicas umas sobre as outras, para se proteger do frio.

Era uma sensao estranha viajar num pas que estava em paz. Parecia a Gaius que 
estava tudo mudado desde que o tinha visto pela ltima vez, como se tivesse partido h 
anos. Mas  medida que se aproximava de Deva, o spero vento que soprava vindo do 
esturio era o mesmo, e as escuras montanhas que se viam no horizonte a Ocidente 
ainda eram as mesmas assustadoras sombras que o tinham perseguido desde que era 
uma criana. Atravessou os poderosos aterros da fortaleza at ao porto principal, e 
encontrou a paliada de madeira que os coroavam apenas um pouco mais gasta pelo 
tempo que o que se recordava. Ele prprio  que tinha mudado.

Os seus passos soaram no pavimento de pedra do praetorium quando se dirigiu em 
direco ao escritrio do pai. Valerius olhou para cima quando ele entrou, franzindo o 
sobrolho durante um momento quando Gaius comeou a despir os seus agasalhos. 
Depois sorriu. Mas foi quando Macellius saiu do gabinete interior que Gaius viu que 
no tinha sido ele o nico a envelhecer.

- Bem, meu rapaz! s realmente tu? Tnhamos comeado a recear que o Governador te 
levasse para Roma com ele. Ele escreveu muito favoravelmente sobre o teu trabalho por 
l, meu rapaz, mesmo muito favoravelmente. - Macellius estendeu os braos
e abraou apertadamente Gaius, muito rapidamente, como se
o homem mais velho receasse trair-se se agarrasse o filho tempo de mais.

Mas Gaius tinha sentido como os dedos do pai o tinham apertado, como se ele tivesse 
necessidade de se assegurar que o filho estava ali em carne e osso, vivo. No tinha 
nenhuma necessidade de perguntar se Macellius se tinha preocupado; tinha

A CASA DA FLORESTA

329

a certeza de que no tinha sido a resoluo de triviais disputas de homens em 
aquartelamentos de Inverno e controlar armazns, que tinha colocado o novo cinzento 
no cabelo do Prefeito do Campo.                                                        - Ento durante 
quanto tempo teremos o prazer da tua
companhia antes que precisem de ti de regresso a Londinium?
- Tenho algumas semanas de licena, senhor. - Gaius forou um sorriso. - Pensei que era 
altura de voltar a casa

- Com uma pontada reparou que Macellius durante algum tempo.
no tinha pronunciado uma nica palavra sobre o seu casamento.
 Finalmente o velho deve ter chegado  concluso de que eu cresci! 
Mas Macellius j no precisava de fazer quaisquer perguntas. Desde a batalha de Mons 
Grapius que Gaius tinha, de algum modo, comeado a tomar o seu casamento com Julia 
como certo. Mas agora, que as familiares colinas de Deva estavam a trazer de volta 
velhas memrias, ele comeava a duvidar. Podia, na realidade, seguir em frente com 
aquilo, e se no, o que faria?

Mas Gaius tinha descoberto uma coisa sobre si prprio nestes ltimos meses; que, afinal 
de contas, era ambicioso. Agricola era um grande homem e tinha sido um excelente 
governador mas quem podia dizer quem  que Domiciano ia enviar depois dele? E havia 
coisas sobre esta terra que nem Agricola conseguiu compreender nunca. A velha 
Bretanha das tribos estava morta. As suas gentes teriam de mudar e tornar-se romanas, 
mas como poderia qualquer gauls, ou espanhol, perceb-las? Tornar este pas na jia 
do imprio poderia requerer a chefia de algum que fosse, ao mesmo tempo, romano e 
breto. Algum como ele, se a partir de agora fizesse as jogadas certas.

- ... convidar alguns dos oficiais mais importantes para jantarem connosco - estava o pai 
a dizer. - Se no estiveres muito cansado?
                                                       - Estou bem - Gaius sorriu. - Depois das estradas da
Calednia, foi um prazer viajar aqui.
Macellius acenou com a cabea, e Gaius pde ver o orgulho a irradiar dele como o calor 
duma fogueira. Engoliu em seco, constatando de sbito que Macellius nunca antes lhe 
tinha mostrado uma tal ilimitada aprovao - e o quanto ele necessitava de ver aquele 
brilho nos olhos do pai.

330

MARION ZIMMER BRADLEY

Era habitual que a Gr Sacerdotisa passasse algum tempo em isolamento depois dos 
grandes festivais, para recuperar do ritual. As mulheres da Casa da Floresta tinham-se 
habituado a isto quando Lhiannon as chefiava, e ningum achou estranho que depois da 
primeira apario de Eilan como Gr Sacerdotisa a sua recuperao tivesse sido 
prolongada.

E quando ela j estava recuperada, podem ter ficado desapontadas por ela no participar 
muito na vida da sua comunidade, e por andar tantas vezes com o vu, mas no ficaram 
surpreendidas. Lhiannon tinha sido a nica Gr Sacerdotisa que a maioria delas tinha 
jamais conhecido e durante os seus ltimos anos tinha-se mantido a maior parte do 
tempo nos seus aposentos, servida por Caillean ou pelas sacerdotisas por ela escolhidas. 
Em qualquer caso, um perodo de retiro era exigido para que a nova Senhora do Orculo 
pudesse comungar com os deuses.

E o recolhimento da sua nova Gr Sacerdotisa era um tpico de falatrio muito menos 
intrigante que o desaparecimento de Dieda. Umas estavam certas de que ela se tinha ido 
embora voluntariamente, zangada por no ter sido escolhida para Gr Sacerdotisa. 
Outras sugeriram que ela tinha fugido para se juntar a Cynric, que algumas delas tinham 
visto quando ele visitou a Casa da Floresta na companhia de Bendeigid.

Mas quando algum ouviu dizer a um madeireiro que uma mulher grvida estava a viver 
na cabana da floresta, a soluo para o mistrio tornou-se espantosamente bvia. Dieda 
devia estar grvida; ela tinha sido mandada viver no isolamento da floresta at que se 
libertasse da sua vergonha.

A verdade, claro, era to impossvel que ningum a adivinhou. O papel de Dieda no 
logro nem sequer era muito exigente, j que depois da batalha de Mons Grapius o 
governador tinha proibido todas as reunies pblicas, no fossem elas provocar 
agitao. To longe aqui para o Sul, tinham ouvido apenas rumores da destruio; para a 
maioria das pessoas, juntar comida para o Inverno era uma preocupao muito mais 
premente. No festival de Samaine as pessoas tiveram de se contentar com as pequenas 
adivinhaes de mas e nozes e com as fogueiras, pois no houve nem feira, nem 
festival, nem Orculo.

A CASA DA FLORESTA

331

Quanto a Eilan, ela passou o Inverno abrigada na cabana redonda da floresta, visitada de 
tempos a tempos por Caillean e assistida por uma velha mulher que no sabia o seu 
nome. Construiu um pequeno altar  Deusa, no seu papel de Me, junto  lareira e,  
medida que via o seu ventre a crescer, flutuava entre a alegria pela nova vida que 
crescia dentro dela e a angstia por no saber se alguma vez veria novamente o pai do 
seu filho.

Mas era o curso natural das coisas que at o mais duro dos Invernos desse um dia o 
lugar  Primavera, Se bem que tivesse havido alturas em que Eilan tivesse sentido que 
ficaria grvida para sempre, o festival de Brigantia estava a aproximar-se e era nessa 
altura que a sua criana devia nascer. Alguns dias antes do festival, Caillean apareceu na 
soleira da porta, e, se bem que nesses dias ela chorasse ou risse com facilidade, Eilan    
sentiu-se to feliz por a ver que pensou que ia chorar.

- H algum po de aveia fresco que eu cozi hoje de manh - disse. - Senta-te aqui e faz-
me companhia na minha refeio do meio-dia... - Hesitou. - A no ser que sintas que eu 
te contamino pela minha presena perjura?

Caillean riu.

- Nunca - replicou. - Se no tivessem sido os neves j teria vindo antes.

- E como esto as coisas pela Casa da Floresta? - perguntou Eilan. - Como se est a 
portar Dieda no meu lugar? Conta-me tudo; estou muito aborrecida aqui; pareo um 
vegetal!

- Decerto que no. - Caillean sorriu. - Talvez uma rvore de fruto que tivesse chegado  
altura da colheita na Primavera e no no Outono. Quanto a Vernemeton, Dieda executa 
os teus deveres fielmente, embora talvez no to bem como tu o terias feito. Prometo-te 
que virei c quando o teu filho estiver para nascer. Manda-me um recado pela velha 
quando chegar a altura.
- Como  que saberei?

Caillean riu-se, no sem alguma rudeza.

- Estavas presente quando o segundo filho da tua irm nasceu. De que  que te lembras?

- Desse dia o que lembro  dos assaltantes e como tu agarraste no fogo - disse Eilan 
humildemente.

Caillean sorriu.

332

MARION ZIMMER BRADLEY

- Bem, penso que agora j no deve faltar muito tempo.
 Talvez tu ds  luz nas Festas das Donzelas... j que as tuas mos estiveram  ocupadas 
hoje de manh e um desassossego desse gnero    normalmente observado quando uma 
criana se agita preparada para nascer. E trouxe-te um presente, uma grinalda de galhos 
de vidoeiro branco, que so sagrados para a Me. V... vou pendur-la por cima da tua 
cama para que te possa trazer boa sorte s Suas mos. - Ela levantou-se e retirou a 
grinalda do saco que trazia.

- Nesta altura pode-te parecer que os deuses que os homens adoram se afastam de ti, 
mas a Deusa cuida de todas as suas filhas que se encontram na mesma situao em que 
tu te encontras agora. Depois do festival passarei outra vez por c, se bem que no v 
ser nenhum prazer ver Dieda no teu lugar.

- Como estou encantada por ouvir a tua opinio - disse algum da porta, a doura da voz 
intensificando o veneno das suas palavras. - Mas se no gostas de mim no papel de Gr 
Sacerdotisa, decerto  um pouco tarde de mais para o dizer!

Uma figura, pesadamente velada de azul-escuro, estava parada a. Os olhos de Eilan 
abriram-se e Caillean corou furiosa.
- Por que  que vieste aqui?

- Por que no? - perguntou Dieda. - No achas que  bondoso da parte da Gr 
Sacerdotisa visitar a sua parenta em desgraa? Todas as nossas queridas irms tm 
conhecimento que est aqui algum a viver, sabes, e chegaram  concluso que sou eu, 
No terei um fragmento de reputao em p quando eventualmente voltar ,

A voz de Eilan tremeu.

- Vieste apenas para te   regozijares com a minha vergonha, Dieda?

-  Por estranho que parea, no - Dieda puxou o seu vu para trs. - Eilan, apesar de 
tudo o que se tem passado entre ns desejo o teu bem. No s a nica que est s. No 
tenho notcias do Cynric desde que ele foi para o Norte, e ele no me mandou qualquer 
notcia. Ele no se interessa com nada a no ser com o destino dos Ravens. Talvez 
quando este logro acabar eu deva ir para o Norte e tornar-me numa das mulheres 
guerreiras que servem a deusa das batalhas.

A CASA DA FLORESTA

333

- Que disparate - disse rudemente Caillean. - Darias uma pssima guerreira, ao passo 
que tens imensos dotes para bardo.

Dieda encolheu os ombros desamparadamente.

- Talvez deva achar uma maneira qualquer de expiar por colaborar na traio de 
Ardanos.

- Chamas-lhe mesmo isso? - perguntou Eilan. - Eu no. Tenho tido tempo para pensar, a 
viver aqui, e parece-me que a Senhora deixou que isto acontecesse  Sua sacerdotisa 
para que ela pudesse perceber a necessidade de proteger todas as crianas desta terra.  
pela paz, no pela guerra, que trabalharei quando regressar.

Dieda olhou para Eilan e disse lentamente:

- Nunca desejei muito ter um filho, feito por Cynric ou por qualquer outro homem. E, 
no entanto, penso que se estivesse a gerar um filho de Cynric, poderia sentir como tu. - 
Os olhos brilhavam-lhe com lgrimas e ela afastou-as, zangada. - Devo voltar antes que 
lnguas atarefadas tenham tempo de tecer histrias de mais. Vim apenas para te desejar 
boa sorte; mas parece que mesmo nisto Caillean se me antecipou.

Voltou-se, puxando de novo o vu sobre a cara e, antes que qualquer delas pudesse 
encontrar palavras para lhe responder, tinha-se ido embora.

Todos os dias, parecia, a luz durava um pouco mais de tempo. Os ramos das rvores 
avermelhavam-se com a regressada seiva e os cisnes comearam a cortejar nos brejos. 
Se bem que ainda pudessem vir algumas tempestades de Inverno para aoitar a terra, 
havia uma sensao de que a Primavera estava a comear. Os homens que trabalhavam 
a terra tiraram as suas relhas dos arados das vigas em que estavam penduradas, os 
pescadores comearam a calafetar as suas embarcaes e os pastores permaneciam toda 
a noite nas frias encostas com os cordeirinhos recm-nascidos.

Gaius viajou, ouvindo os sons da nova vida que o cercava e contou os dias. Tinha sido 
durante Beltane que ele e Eilan tinham feito amor os dois e, desde ento, tinham-se 
passado nove luas. Ela devia estar quase a dar  luz. As mulheres, por vezes,

334

MARION ZIMMER BRADLEY


morriam de parto. Ele olhou as regressadas aves aquticas que desemaranhavam nos 
cus e soube que, quer se casasse com Julia quer no, tinha de ver Eilan uma vez mais.

Quanto mais subisse entre os Romanos, mais poderia fazer por Eilan e pelo filho de 
ambos. Se fosse um rapaz talvez Eilan o deixasse educ-lo. Ela, certamente, no o 
poderia manter na Casa da Floresta. Isso no lhe parecia assim to improvvel; o povo 
da sua me tinha estado disposto a abdicar completamente dele nas mos do seu pai.

 medida que se aproximava da fortaleza, os seus pensamentos rodopiavam-lhe na 
cabea. Seria difcil dizer-lhe que no se podiam casar, pelo menos para j. Se Julia no 
lhe desse um filho, bem, j por vezes tinha pensado que no mundo romano os casais 
divorciados eram mais comuns que os casados. Quando
a sua posio estivesse consolidada talvez eles pudessem Casar
-se; ao menos podia proporcionar ao seu filho um bom comeo na vida. Acreditaria ela 
nisto? Perdoar-lho-ia? Mordeu o lbio, pensando no que lhe iria dizer.

Mas, acima de tudo, o seu corao batia-lhe com mais fora simplesmente ao 
pensamento de voltar a ver Eilan de novo, mesmo  distncia; apenas para saber que 
tudo estava bem com ela,

Claro, havia ainda o problema de como ele havia de fazer para a ver. Finalmente, 
pensou que teria de confiar nos deuses para o ajudarem,

O legado que comandava a 11 Legio Adiutrix tinha-se aposentado no Inverno passado 
e foi nesta precisa altura que chegou o seu substituto. Gaius sabia que o seu pai teria 
mais que fazer a ajudar o novo comandante a instalar-se. Quando anunciou que ia partir 
por uns dias para caar, Macellius mal teve tempo para se despedir.

Foi no festival da deusa a que os Bretes chamavam Briganta, que celebrava o final do 
Inverno, que Gaius viajou uma vez mais para l da Colina das Donzelas, na altura em 
que os homens mais novos se vestiam em roupas de palha e transportavam uma imagem 
da Senhora de casa em casa para que Ela as abenoasse a troco de bolos e cerveja. Ele 
tinha ouvido dizer que nesta festa a sacerdotisa que era a Voz da Deusa saa para 
proclamar ao povo a chegada da Primavera. No bosque fora da aldeia
A CASA DA FLORESTA

335

vestiu-se com as roupas brets que tinha trazido consigo. Depois, juntou-se aos outros 
que se estavam a reunir para esperar as sacerdotisas. Pelas conversas que ouvia em seu 
redor foi informado que este ano a multido era maior que o habitual.

- A antiga sacerdotisa morreu no Outono passado - disse-lhe uma das mulheres. - E 
dizem que a nova  jovem e muito bonita.

- Quem  ela? - perguntou, com o corao a bater-lhe com fora no peito.

- A neta do Arquidruida, disseram-me, e alguns murmuram que houve mais que sorte na 
sua escolha. Mas, digo eu, o sangue antigo  o melhor para os velhos costumes e quem 
estaria melhor preparada para tal tarefa que algum cujos antepassados serviram os 
deuses?

Eilan! pensou. Como podia ser? Teria perdido o filho que
esperava? Se era ela realmente a Gr Sacerdotisa, como poderia ele v-la outra vez? 
Esperou pelo cair da noite, com mal disfarada impacincia, e calou-se com os outros        
quando viram sair
do porto da Casa da Floresta a procisso de don-
zelas vestidas de branco a comear a dirigir-se na sua direco ao longo da avenida.  
sua frente vinha uma esbelta mulher com um manto escarlate sobre o seu vestido 
branco. Por baixo do fino vu ele pde aperceber-se dum lampejo de cabelo dourado. 
Ela chegou, coroada de luz e acompanhada por msica de harpa, Eilan ... , gritou o 
seu corao. Consegues sentir-me perto de ti, Eilan?

- Da escurido do Inverno eu vim... - disse ela, e a sua voz era como msica. Parecida 
de mais com msica, pensou Gaius; a voz de Eilan tinha sido doce para ele, mas no 
tinha esta ressonncia. Chegou-se mais para a frente, tentando ver. A voz desta mulher 
soava como a de uma cantora treinada.

- Portadora da luz eu sou, e tambm portadora de bnos; eis que chega a mar da 
Primavera; novas folhas cedo brotaro e tambm as multicolores flores, Possam os 
vossos animais parir com abundncia; boa sorte para as vossas lavras. Tomem agora a 
luz, meus filhos, e com ela a minha proteco.

A sacerdotisa inclinou-se e tiraram-lhe da cabea a coroa de velas. Quando elas a 
baixaram para o cho,  frente dela, Gaius viu o seu rosto pela primeira vez 
completamente iluminado.

336

MARION ZIMMER BRADLEY

Era o rosto com o qual tinha sonhado, e, no entanto, mesmo num pequeno momento de 
iluminao, percebeu que ela no era Eilan. Lembrava-se, agora, quo 
maravilhosamente Dieda tinha cantado. Quo maravilhosamente Dieda cantava.

Afastou-se tremendo. Teria a mulher percebido mal ou estaria Eilan a ser vtima dum 
terrvel logro?

- Salve a Senhora! - gritou o povo. - Salve a Noiva Sagrada! - Aos gritos, os homens 
ainda jovens tocaram com os seus archotes na coroa de velas e comearam a formar a 
procisso que levaria a luz a cada cabana e a cada quinta. De certeza que era Dieda, e 
ela devia saber onde estava Eilan. Mas ele no podia aproximar-se dela agora.

Virou-se, e reconheceu outro rosto na multido. Para ele, nesta altura, o perigo no tinha 
nenhum significado.

- Caillean - murmurou asperamente. - Tenho que falar convosco! Por piedade... onde 
est Eilan?

 meia luz ele sentiu olhos penetrantes postos nele; ouviu uma voz dizer num sussurro:

- O que ests a dizer? - Um forte aperto cerrou-se na sua mo. - Afasta-te desta 
multido; no podemos falar aqui.

Ele seguiu-a sem resistir. Parecia-lhe que se a morte descesse sobre ele isso no seria 
mais que o que merecia. Mas quando j estavam longe da multido parou e virou-se 
para a sacerdotisa. A sua voz era pesada e rouca.

- Senhora Caillean, sei como Eilan vos amava. Em nome de qualquer deus que vs 
estimeis, dizei-me... onde est ela agora?
 Caillean apontou para a plataforma onde as mulheres veladas de branco presidiam s 
festividades.

- Gritai e denunciai-me se o desejardes, mas no me mentis. - Gaius olhou-a fixamente 
nos olhos. - Se bem que todos os homens aqui pudessem jurar que  Eilan, eu no sou 
estpido. Dizei-me se ela est viva e bem!

Caillean olhou para ele com os olhos arregalados, nos quais ele conseguiu ler espanto, 
ira e medo. Depois, ela deixou sair o ar num explosivo suspiro e puxou-o para que a 
seguisse, mais para longe do crculo de archotes onde Dieda levantava as mos para 
abenoar a multido. Quando seguiu Caillean para as sombras, Gaius disse para consigo 
que o n que sentia na garganta era apenas devido ao fumo das fogueiras.

A CASA DA FLORESTA

337

- Eu devia dizer-lhes quem tu s e deixar que te matassem - disse finalmente. - Mas, 
tambm eu amo Eilan e ela j sofreu o bastante.

- Ela est viva? - a voz de Gaius falhou-lhe.

- No graas a ti - retorquiu Caillean. - Ardanos t-la-ia matado quando soube o que 
tinhas feito! Mas persuadiram-no a poup-la e ela contou-me tudo. Por que  que nunca 
vieste por ela?  verdade que casaste com outra como nos foi dito?

- O meu pai mandou-me embora...

- Para Londinium - confirmou ela. - Ento o dizer que te tinhas casado com uma 
rapariga romana qualquer foi uma das mentiras do Arquidruida?

- Ainda no - disse ele. - Mas tenho estado em misso e no estava livre para vir c. Se 
Eilan no foi castigada por que no a vejo aqui?

Caillean olhou para ele com desprezo; e Gaius sentiu-o a paralis-lo. Finalmente ela 
disse:

- Esperarias que ela estivesse aqui a danar quando acabou de dar  luz o teu filho?

Gaius ficou sem flego.

- Ela est viva? A criana tambm? - Estava escuro aqui, longe das fogueiras, mas 
pareceu-lhe que a severa expresso de Caillean se adoou.

- Ela est viva, mas fraca, pois o parto foi difcil; tenho tido muito medo por ela. Tu no 
me pareces muito merecedor que se morra por ti, mas o ver-te pode ser o remdio que 
ela precisa. os deuses sabem que eu no sou nenhum juiz. No me interessa nada o que 
Ardanos possa dizer. Vem comigo.

Caillean era apenas uma sombra escura na noite quando o conduzia, rodeando a 
multido, e ao longo da estrada, para longe da Casa da Floresta e da Colina das 
Donzelas. Quando j no conseguiam ver a luz dos archotes, Gaius perguntou:

- Para onde me estais a levar?

- Eilan, agora, no est na Casa da Floresta; desde que a criana comeou a ser visvel 
que ela tem estado a viver numa pequena casa na parte mais escondida dos bosques. Por 
vezes as mulheres ficam muito tristes depois de darem  luz e os deuses sabem que 
Eilan tem razes mais que suficientes para se sentir

338

MARION ZIMMER BRADLEY

infeliz; talvez quando ela vir que tu no a abandonaste recupere mais rapidamente.

- Eles disseram-me que se eu no tentasse v-la ela no seria maltratada... - protestou 
Gaius.

Caillean riu, um breve, amargo som.

- Ardanos ficou furioso, claro, o miservel velho tirano. Ele  est convencido de que s 
se vocs os Romanos pensarem  nas nossas sacerdotisas como Vestais  que as 
protegero. Mas  a escolha da Deusa caiu em Eilan e ele no pde dizer que no  
quando Lhiannon, quase com o seu ltimo suspiro, props este logro.

Caillean no falou mais. Depois de um certo tempo Gaius viu, no meio das rvores, um 
pequeno brilho de luz contra uma maior escurido.

- Ali est a casa.

A voz de Caillean chegou-lhe suave ao ouvido.

- Espera nas sombras enquanto me vejo livre da velha.
- Ela abriu a porta.

- A bno da Senhora para ti, Eilan; vim para te fazer companhia. Annis, eu tomarei 
conta dela agora. Por que no sais e vais gozar o festival?

Da a pouco ele viu a velha a sair, bem embrulhada em xales, e, quando ela passou pelo 
caminho, recuou para o meio das rvores. Caillean mantinha-se na soleira da porta 
aberta atrs de si, enquadrada pela luz. Ela fez um gesto e, quando ele avanou, o 
corao a bater como uma carga de cavalaria, disse suavemente para o brilho dourado 
atrs dela:

- Trouxe-te uma visita, Eilan. - Ele ouviu-a partir, para ficar de guarda atrs dele.

Por um momento os olhos de Gaius ficaram encandeados pela luz. Quando conseguiu 
focar de novo, viu Eilan deitada numa estreita cama, com a trouxa, que ele sabia ser a 
criana, a seu lado.

Eilan forou os olhos a abrirem-se. Achava que era simptico da parte de Caillean vir 
visit-la, mas por que tinha de trazer um visitante? No queria ver ningum excepto 
Caillean, mas tinha pensado que a sacerdotisa mais velha iria estar ocupada com o 
festival. Com uma tnue curiosidade a agitar-se dentro de si, abriu os olhos.

A CASA DA FLORESTA

339

A figura dum homem estava parada entre ela e a luz. Agarrou com mais fora na 
criana, com um alarme instintivo, e o beb soltou um pequeno e agudo som de 
protesto. Ao ouvi-lo, o homem deu um rpido passo em frente e, quando a luz lhe caiu 
em cheio no rosto, reconheceu-o finalmente.

- Gaius! - exclamou, e imediatamente irrompeu em lgrimas. Viu-o ficar vermelho, 
mudando desconfortavelmente de p para p, incapaz de enfrentar os seus olhos.

- Fui mandado para Londinium; no tive escolha - disse.
- Quis vir para perto de ti.

- Lamento... - disse ela, embora no soubesse muito bem do que  que se estava a 
desculpar. - Hoje em dia parece que choro com muita facilidade.

O olhar dele esvoaou rapidamente para ela e, depois, para o beb.

- Este  o meu filho?

- De mais ningum - disse ela -, ou pensas realmente que  talvez porque... - subitamente 
comeou a chorar tanto que mal  conseguia falar - que por me ter entregue a ti, me 
deitaria com qualquer outro homem que aparecesse?

- Eilan! - Na expresso do seu rosto ela pde ver que o pensamento nunca lhe tinha 
ocorrido e que no sabia se havia de ficar lisonjeado ou indignado. As suas mos 
abriam-se e fechavam-se. - Por favor! Deixa-me pegar no meu filho.

Eilan sentiu as lgrimas pararem to abruptamente como tinham comeado. Olhou para 
Gaius, vendo-o realmente pela primeira vez, quando este se ajoelhou a seu lado e ergueu 
o beb nos braos. Ele parecia mais velho e mais soturno, o rosto cerzido pela fadiga e 
com uma sombra nos olhos, como se tambm ele tivesse sofrido; na sua face havia uma 
nova cicatriz. Mas quando ele agarrou no filho viu o seu rosto comear a mudar.

- O meu filho... - murmurou ele, olhando para as enrugadas feies - o meu filho 
primognito... - mesmo que ele levasse por diante o casamento com a rapariga romana, 
pensou Eilan, este momento seria sempre dela.

Quando os vagabundeantes olhos azuis-claros do beb encontraram os do pai e 
pareceram fixar-se nele, os braos de Gaius apertaram-se protectoramente  sua volta. 
Nesta altura j toda a dureza tinha desaparecido das suas feies; o seu interesse estava

340

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inteiramente focado no beb, como se estivesse preparado para fazer o que quer que 
fosse para proteger esta criana que jazia to confiante e desprotegidamente nos seus 
braos. Pareceu a Eilan que nunca o tinha visto parecer to contente, nem mesmo 
quando tinha feito amor com ela, Reconheceu o rosto de Pai, do Deus.

- Que espcie de mundo ser o teu, pequenino? - murmurou Gaius com a voz a falhar-
lhe. - Como te poderei proteger, dar-te um lar que seja seguro? - Por um longo 
momento, ele e a criana pareceram perdidos numa contemplao mtua; ento, o beb 
arrotou subitamente e comeou a chuchar no dedo.

O olhar de Gaius voltou para Eilan, e quando ele colocou a criana outra vez na curva 
do seu brao ela percebeu que, por muito cansada e exausta que pudesse estar, para ele 
tambm ela representava a Deusa.

- Ento, como o achas, meu querido? - disse ela suavemente. - Chamei-lhe Gawen, o 
nome que a tua me te deu.
- Penso que ele  lindo, Eilan - a sua voz tremia. - Como te poderei alguma vez 
agradecer esta enorme ddiva?

Foge comigo!, gritou o corao dela. Leva-nos a ambos para uma terra qualquer 
onde possamos viver todos juntos e ser livres! Mas a luz da lamparina brilhou 
agoirentamente no anel de sinete que ele usava e ela soube que no havia tal terra, longe 
do alcance de Roma.

- Constri um mundo que seja seguro para ele - disse ela como num eco s prprias 
palavras dele. Recordou-se da sua viso; nesta criana o sangue do Drago e o da guia 
tinham-se misturado com a antiga linhagem dos Sbios; os salvadores da Bretanha 
sairiam desta linhagem. Mas para que isso acontecesse ele tinha de viver at se tornar 
num homem.

- Por vezes penso se isso ser possvel. - O seu olhar virou-se para dentro e ela viu a 
lgubre sombra de novo nos olhos dele.

- Estiveste a lutar desde que te vi - disse ela com suavidade -, no fizeste essa cicatriz 
em Londinium... Conta-me.
- Ouviste falar da batalha de Mons Grapius? - A voz de

Gaius tornou-se mais dura. - Bem, eu estive l. - Enquanto ele despejava o relato, numa 
sucesso de imagens, ela ia-se encolhendo, sentindo horror, piedade, medo,

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- Sabia que tinha acontecido qualquer coisa - disse em voz baixa quando ele acabou. - 
Houve uma noite, uma lua depois de Lughnasad, em que senti que corrias um grande 
perigo. Passei o dia seguinte aterrorizada, mas a sensao desapareceu depois do 
anoitecer. Pensei ento que talvez tivesses estado a lutar, mas, se bem que no tivesse 
podido sentir nada mais, tive a certeza que tinhas sobrevivido! Fazes parte de mim, meu 
amado! Se tivesses morrido decerto o saberia!

Gaius estendeu os braos cegamente e pegou-lhe na mo.
-  verdade. Eu sonhei que estava nos teus braos. Nunca nenhuma outra mulher viver 
no meu corao como tu vives, Eilan! Nenhuma outra mulher me pode dar o meu filho 
primognito! Mas... - a sua voz falhou-lhe - no o posso reconhecer. No posso casar 
contigo!

Com o rosto a contrair-se olhou para a criana.

- Quando no consegui descobrir o que te tinha acontecido, no parei de repetir para 
mim prprio que devamos ter fugido juntos quando tivemos a oportunidade. Teria 
podido aguentar uma vida em fuga se estivssemos juntos... mas que tipo de vida seria 
essa para ti, e que vida para ele? - Estendeu uma mo e tocou no rosto do beb.

- Ele  to pequeno, to fofo - disse ele Pensativamente,
- Se algum tentasse fazer-lhe algum mal nesta altura penso que o mataria com as 
minhas mos nuas! - O olhar de Gaius voou da criana para Eilan e avermelhou-se, 
como que envergonhado pela sua prpria emoo.

- Tu disseste para tornar o mundo seguro para ele - continuou em voz baixa. - Como as 
coisas esto agora s consigo pensar numa maneira de o fazer. Mas tu irs precisar de 
tanta coragem como uma antiga matrona romana do tempo da Repblica. - Nesse 
momento nenhum deles achou estranho que, apesar dos seus grandes imperadores, os 
Romanos, quando queriam chamar uma grande virtude  cabea, invocassem sempre os 
dias da Repblica.

- Ests a tentar dizer-me que vais casar com a tua rapariga romana. - disse Eilan com 
dureza. Estava outra vez a chorar.

- Tenho de o fazer! - exclamou ele. - No o vs? Mons Grapius foi a derradeira 
resistncia das tribos. Agora a nica

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MARION ZIMMER BRADLEY


esperana de piedade para o teu povo reside em chefes que sejam tanto romanos como 
bretes, como eu, mas a minha nica hiptese de ganhar poder no mundo romano  
atravs duma aliana com uma famlia importante. No chores - implorou 
lamentosamente. - Nunca fui capaz de suportar as tuas lgrimas, minha pequenina. 
Pensa nele. - Fez um gesto na direco do beb adormecido. - Por causa dele decerto 
que podemos aguentar o que for preciso.

Tu no ters que aguentar o mesmo que eu , ela lutava contra as lgrimas, o que eu 
j aguentei!

- No ficars sozinha para sempre, prometo-to - disse ele. - Reclamar-te-ei assim que 
puder. E - acrescentou maliciosamente -, decerto sabes que entre o meu povo um 
casamento no  indissolvel.

- Sim, j ouvi isso - disse acidamente Eilan, certa de que se ele se ia casar dentro duma 
famlia nobre, ento a unio seria to apertada quanto os parentes da rapariga a 
conseguissem tornar. - Mas como  ela, essa rapariga romana?  bonita?

- No tem metade da tua beleza, minha querida.  uma coisinha pequena - acrescentou -
, mas muito determinada. H alturas em que parece que fui atirado desarmado para a 
arena para enfrentar um elefante de guerra, ou um animal selvagem, como ouvi dizer 
que fazem aos criminosos em Roma.

Ento ela nunca o largar , pensou Eilan, mas conseguiu formar um sorriso.

- Ento tu no... gostas realmente dela?

- Querida - disse ele ajoelhando-se a      seu lado, e o alvio que sentiu na voz dele deu-
lhe vontade de rir -, se no fosse porque o pai dela  o Procurador, dou-te a minha 
palavra que nunca teria olhado duas vezes para ela. Com    a ajuda dele posso, um dia, 
vir a ser senador, at Governador da   Bretanha. Pensa no que posso fazer, ento, por ti e 
pelo beb!

Gaius inclinou-se para a criana e, uma vez mais, aquela feroz proteco perpassou-lhe 
pelos olhos. Depois, sentindo que Eilan o estava a observar olhou para cima de novo.

Eilan continuou a olhar para ele at que o viu comear a ficar inquieto outra vez. 
Caillean tinha razo , pensou ela com uma amarga resignao, ele apaixonou-se por 
uma iluso e persuadiu-se a si prprio de que  a realidade... tal como qualquer outro
A CASA DA FLORESTA

343

homem! Bem, isto tornava mais fcil dizer-lhe o que ela tinha para lhe dizer.                      
- comeou -, mas deves
- Gaius,   sabes que eu te amo

acreditar que mesmo que estivesses livre para me oferecer casamento no te poderia 
aceitar. - Suspirou, vendo a confuso brilhar-lhe nos olhos. - Eu sou a Gr Sacerdotisa 
de Vernemeton, a voz da Deusa, no to disseram? Aquilo em que tu      esperas tornar-te 
entre os romanos, Gaius, j eu o sou entre o meu povo! Arrisquei a vida para provar que 
era merecedora e o ordlio foi exactamente to perigoso como a tua batalha. Posso tanto 
desistir dessa vitria como tu podes deitar fora as honras que conquistaste!

Ele franziu o sobrolho, tentando aceit-lo, e Eilan percebeu que eram ambos muito mais 
semelhantes que o que ele imaginava. Mas a ela parecia-lhe que ele era movido pela 
ambio, enquanto ela - se  que tudo no passava tambm duma iluso - estava a 
obedecer  vontade dos Deuses.

- Sendo assim, se bem que mais ningum o saiba, trabalharemos juntos... - disse Gaius 
finalmente, o seu olhar voltando  criana. - E com um Governador e uma Gr 
Sacerdotisa como pais, quem sabe o que este pequenino no poder vir a fazer? Quem 
sabe; talvez venha um dia a ser imperador,

Nesse ponto, o beb abriu os olhos, considerando-os a ambos imparcialmente com o seu 
vago olhar. Gaius pegou nele outra vez, embalando-o desajeitadamente.

- Est sossegado, Senhor do Mundo - murmurou quando o beb se contorceu -, e deixa-
me pegar em ti.

A esse pensamento - que uma coisa to pequena e cor-de-rosa pudesse alguma vez 
crescer at se tornar num Imperador - os pais riram-se.

VINTE

Gaius voltou a Londinium numa espcie de agridoce estado de pasmo. Tinha 
encontrado Eilan e tinha-a perdido. Tinha sido forado a deixar o filho que ela lhe tinha 
dado e, contudo, tinha um filho! Por vezes,  medida que a capital e Julia se 
aproximavam, a sua vontade era virar o cavalo e voltar a galope para Eilan, mas no 
conseguia descobrir nenhuma maneira em que pudessem ficar juntos como uma famlia. 
E lembrou-se da severidade do seu rosto quando lhe disse o que significava para ela ser 
Gr Sacerdotisa. Por uns instantes no se tinha parecido de todo com a sua Eilan. 
Gelava-o pensar no risco que ela tinha corrido para provar que era merecedora e como 
tinha arriscado o seu filho!

E, apesar disso, ela tinha chorado quando se separaram.
Como, para ser verdadeiro, tambm ele tinha chorado. Se Eilan pensava que ele tinha 
algum prazer com a ideia de se casar com Julia Licinia, estava muito enganada. Quando 
ele atacou a ltima colina e viu os telhados de tijolo da cidade, aquecendo-se ao sol da 
tarde, forou-se a lembrar-se que fazia isto por causa dela e pelo filho deles.

Era a hora do crepsculo quando chegou a casa de Licinius.
O Procurador ainda no tinha voltado do tabularum, mas Gaius encontrou Julia no trio 
das mulheres. Os olhos dela iluminaram-se quando o viram, tornando-a mais bonita que 
o que ele jamais a vira. No, claro, to bonita como Eilan; mas, tambm, ningum podia 
ser to bela como Eilan tinha ficado. Apesar disso, com o tempo, Julia podia vir a ficar 
muito bonita.

Ela saudou-o afectadamente.

- Ento j voltaste do Ocidente do pas, Gaius.

- Como estou parado  tua frente, o que acharias se eu te dissesse que ainda estou no 
Norte?

346

MARION ZIMMER BRADLEY

Ela deu uma pequena risadinha.

- Bem, ouvi dizer que os espritos dos mortos aparecem por vezes queles que deixam 
para trs. - Subitamente ela ficou assustada e a jovialidade desapareceu-lhe da voz. - 
Gaius, diz-me que ests apenas a brincar comigo e que eu te estou mesmo a ver aqui, 
vivo e bem! - Ele reparou abruptamente quo nova ela era.

- Sou eu, de carne e osso - disse cansadamente. Mas, desde que aqui tinha estado pela 
ltima vez, tinha visto a morte e lidado com ela. Antes tinha sido um rapaz. Agora era 
um homem, e tinha aprendido a pensar como tal. No admirava que Julia se sentisse 
confusa com a mudana.

Julia chegou-se  frente e tocou-lhe no brao.

- Sim... tu ests vivo - disse mais firmemente. - E viste a tua rapariga bret? - Ela olhou 
para cima, na direco dele.
- Estive com ela... - comeou, procurando uma maneira

de lhe contar o que tinha acontecido. Julia tinha o direito de saber que espcie de marido 
ia arranjar se casasse com ele.

Mas, antes que conseguisse pronunciar as palavras, ouviu os passos de Licinius a 
deterem-se no cho de mosaicos e o momento perdeu-se.

- Ento ests de volta, meu caro amigo. - Licinius parecia genuinamente contente por 
v-lo. - Suponho que isto significa que vamos ter aqui um casamento em breve.

- Espero que sim, senhor - disse Gaius, e desejou que eles tivessem pensado que a sua 
hesitao tinha sido provocada pelo embarao. Talvez fosse melhor assim, pois se Julia 
se tivesse recusado a casar com ele, que esperana lhe restava de poder cumprir as suas 
promessas de proteger Eilan e o filho deles?

Julia sorriu radiosamente. Talvez estar casado com ela tivesse as suas compensaes. 
Ela reparou no seu olhar e corou.

- Anda ver o meu vu de casamento - disse ela convidativamente. - H meses que tenho 
estado a trabalhar no bordado. Est certo mostr-lo agora a Gaius, no est, Pai? - 
perguntou ela.

- Sim, minha querida, claro, mas ainda penso que te devias ter contentado com um vu 
de linho. Era suficientemente bom para uma mulher romana nos tempos da Repblica, e 
devia ter sido suficientemente bom tambm para ti - resmungou Licinius.

A CASA DA FLORESTA

347

- E olha o que aconteceu  tua Repblica - disse Julia com impertinncia. - Eu quis o 
vu mais elegante que podia ter... e penso que tu tambm!

O vu era realmente bonito, de difana seda cor de fogo, que Julia estava a bordar com 
frutos e flores em fio de ouro. Quando ela os deixou, Licinius puxou Gaius calmamente 
para um canto.

- j marquei a data do noivado oficial para o final deste ms, antes dos infelizes dias do 
princpio de Maro. O teu pai no pode estar presente, mas o Legado deve poder passar 
sem ele durante algum tempo em Abril, data em que os meus ugures encontraram um 
dia favorvel para o casamento.  um bocado rpido, mas penso que podemos ter tudo 
pronto. De outro modo teramos de esperar pela segunda metade de junho para que a 
estao fosse de novo auspiciosa, e, enquanto tu estiveste por fora a ganhar honras entre        
os Calednios, a minha filha teve de esperar um ano mais para se casar. - Ele sorriu 
benignamente. - Se estiveres de acordo, meu rapaz?

- Oh sim, claro... - disse Gaius frouxamente. E o que fariam todos se ele dissesse que      
no estava? Pensou porque  que Licinius se teria incomodado      de todo em consult-
lo.

Ento Julia voltou a entrar      no quarto e, quando ela se aproximou, ele chegou  
concluso de que no podia trair a confiana que via naqueles olhos escuros. Ele e Eilan 
nunca tinham tido verdadeiramente uma hiptese; podia ser que, pelo menos, fosse 
capaz de oferecer alguma felicidade a esta rapariga romana.

Uma hmida luz do Sol entrava pela porta da cabana na floresta, pois tinha estado a 
chover mais cedo. Eilan andava dum lado para o outro, vagarosamente, no seu interior. 
Ao vestir-se, parte da sua ateno voltou-se para os pequenos rudos que o beb fazia no 
seu sono. As suas foras tinham-lhe voltado mais depressa depois da visita de Gaius, 
mas ainda lhe custava mexer-se. Ela tinha sido muito rasgada pelo nascimento e 
cansava-se com facilidade.

O beb mexeu-se no seu cesto, embrulhado num velho xale. Eilan parou por um 
momento para o admirar. Para ela, Gawen

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MARION ZIMMER BRADLEY

era ainda mais bonito, pois achava que podia ver um vago reflexo do seu pai na sua cana 
do nariz e nos escuros cabelos das suas sobrancelhas.

Sentou-se durante uns instantes contemplando o rosto do filho. Gawen ... , pensou, 
meu pequeno Rei! O que pensaria disto Macellius - supondo que ele viria alguma vez 
a ouvir falar do seu neto? Ela queria pegar nele, mas tinha tantas outras coisas para 
fazer, e ele estava a dormir to pacificamente. To pacificamente, de facto, que ela se 
inclinou, aproximando-se para ouvir o fraco rudo da sua respirao. Acalmada, 
endireitou-se de novo.

Uma pea de roupa de cada vez, com longos perodos de descanso entre cada uma delas, 
conseguiu vestir-se e pentear e entranar o seu comprido cabelo. Normalmente Annis 
t-la-ia ajudado, mas ela tinha sido mandada  aldeia para reabastecer as suas reservas 
de comida. Tendo preservado o seu segredo durante tanto tempo, seria um erro ter a 
velha mulher presente quando Ardanos chegasse.

Eilan enrolou a trana  roda da cabea num estilo matronal que era novo nela. Talvez o 
pudesse enfrentar com mais confiana se ele a visse como uma mulher madura em vez 
de uma criana assustada.

O que quer que o velho quisesse, a razo dizia-lhe que ele vinha para a mandar de volta 
para a Casa da Floresta, mas, uma e outra vez, teve de reprimir um arrepio de medo. 
Fazia ele tenes de a mandar embora no fim de tudo?

Pensou loucamente em seguir Gaius, se ele ainda no se tivesse casado. Ou Mairi podia 
abrig-la, a no ser que o pai delas as proibissem. Caillean tinha-lhe dito que Bendeigid 
estava de volta do Norte, esqueltico como um lobo de Inverno e muito mais 
amargurado pela runa da sua causa. Mas enquanto ele vivesse calmamente na 
propriedade da sua filha mais velha, no parecia que os Romanos o fossem incomodar.

Uma vez que Eilan tivesse recuperado as foras, podia cuidar dela e do filho 
empregando-se nalguma quinta. Um rapaz saudvel podia sempre ganhar o seu sustento. 
Poderia ser mais sensato, no entanto, no dizer quem era o pai dele. Ela prpria era 
hbil em todos os gneros de trabalhos domsticos, fiao e tecelagem, ordenha e 
batedura de manteiga; se tivesse de se

A CASA DA FLORESTA

349

sustentar, e ao filho, certamente que o podia fazer. Suspirou e sentou-se na cama, 
sabendo que tudo isto eram apenas fantasias.

Tinha ouvido dizer que as Vestais romanas podiam deixar o templo quando chegavam 
aos trinta anos de idade, mas, aqui, a nica libertao para uma Gr Sacerdotisa era a 
pira funerria. Recordou-se que a primeira reaco de Ardanos  sua gravidez tinha sido 
a de a sentenciar e ao seu filho ainda por nascer  morte, e havia ainda a ameaa de 
Bendeigid de a estrangular com as suas prprias mos. Mas de certeza que se a inteno 
deles fosse mesmo mat-la, j facilmente o poderiam ter feito.

Na altura em que a sombra do Arquidruida atravessou a soleira da porta ela tinha-se 
forado para um estado de entorpecida apreenso.

- Fico contente por ver que ests melhor - disse ele num tom  de voz neutro, olhando 
para ela.

-  Oh, sim, sinto-me bastante bem, Av. Ele fez uma carranca.

-  Sou de facto o teu av, e fars bem em te lembrares disso! Ele foi at ao cesto, olhou 
para a criana durante um momento, depois levantou-o nos braos.

- Mas tu fizeste a tua cama e agora temos todos que nos deitar nela. Esta mascarada j 
durou tempo de mais. Trs dias devem chegar para o teu leite secar e, depois, voltars 
para a Casa da Floresta para te preparares para os rituais da Primavera. Quanto ao teu 
filho, ele ser adoptado noutro stio. - Voltou-se e comeou a andar em direco  porta.

- Parai! - gritou Eilan. - Para onde o levais? - Sentiu a angstia a inchar-lhe na garganta 
e recordou-se de como a sua cadela tinha uivado quando Bendeigid levou os seus 
cachorrinhos para serem afogados porque ela tinha cruzado mal com um terrier de uns 
vizinhos.

Ele olhou para ela sem pestanejar.

- Acredita em mim,  melhor que no o saibas. Asseguro-te que ele ficar perfeitamente 
bem e em segurana. Talvez, se fizeres tudo o que te mandarem, te deixemos v-lo de 
tempos a tempos.

Eilan pensou como nunca tinha reparado antes no cruel que Ardanos parecia quando 
sorria, e em como eram grandes e afiados os seus dentes.

350

MARION ZIMMER BRADLEY

- No podeis - gritou. - Eu tratarei dele. No deveis afast-lo de mim. Oh, por favor, 
imploro-vos...

As espessas sobrancelhas de Ardanos juntaram-se.

- Por qu tal surpresa? - perguntou com apertado controlo. - Supunhas que podias cuidar 
do teu filho em frente de todas as sacerdotisas da Casa das Donzelas? S razovel.

- Dai-mo - gritou ela. - No podeis lev-lo. - Atirou-se  trouxa que estava nos braos 
do av e o beb, acordando, comeou a gritar.

- Pequena idiota, larga-o.

As pernas de Eilan j no a aguentavam e ela caiu de joelhos.
- Imploro-vos, imploro-vos, Av! No podeis - ela j estava a tartamudear - no podeis 
tirar-me o meu filho...

- Devo e f-lo-ei - disse Ardanos ferozmente, dando uma joelhada e libertando o seu 
hbito. Quando ela se abateu levou a chorosa criana para fora, atravs da porta aberta.

E, em seguida, apenas se via a luz do Sol, to inocentemente trocista como o sorriso de 
um beb.

-  esta a tua vingana, monstro? - Caillean atirou com a porta atrs dela e entrou pelo 
quarto dentro, zangada de mais para reparar no facto de que nos seus alojamentos na 
cidade romana o Arquidruida tinha uma porta para se atirar. Pelos padres romanos a 
casa teria parecido modesta e pequena; as suas lisas paredes estucadas e os seus cantos 
aguados pareciam pouco amigveis a olhos bretes.

Ardanos olhou para cima da sua refeio, boquiaberto, e ela largou as palavras que tinha 
vindo a acumular durante a sua viagem desde Vernemeton.

- Velho maldoso e cruel! Prometi a Lhiannon antes de ela morrer ajudar-te. Mas isso 
no me torna tua escrava ou uma torturadora em teu nome!

Ele abriu a boca para falar mas ela continuou a descomp~lo.

- Como pudeste tratar Eilan... a filha da tua prpria filha... daquela maneira? Digo-te, 
no tomarei parte nisto; deixa-a ficar com o seu filho ou... - ela inspirou - ou eu apelarei 
directamente para o povo e deixarei a Deusa julgar entre ns.

A CASA DA FLORESTA

351

- No o farias... - comeou Ardanos.

- Experimenta-me! - retorquiu implacavelmente Caillean.
- Presumo que tenhas algum uso para ela ou no a terias deixado sobreviver - continuou 
mais moderadamente. - Bem, digo-te, a no ser que seja permitido a Eilan ter o seu filho 
com ela, ela morrer.

- Suponho que no  surpreendente que a rapariga seja to idiota, mas no o esperava de 
ti - disse ele quando ela finalmente o deixou pronunciar uma palavra. - Deixa-te de 
exageros. As mulheres no morrem com essa facilidade.

- No? Eilan estava a sangrar outra vez quando a encontrei. Quase a perdeste, velho, e o 
que seria ento de todos os teus planos? Acreditas realmente que Dieda seria to flexvel 
 tua vontade?

- Em nome da Deusa, o que queres de mim, mulher?
- No te atrevas a falar da Deusa; j me mostraste repetidas   vezes que no sabes nada 
sobre Ela - disse Caillean zangadamente. - Por causa de Lhiannon que, os Deuses sabem 
porqu, te amava e acreditava nos teus planos, ajudei-te at agora.

Mas no me podes intimidar nem assustar-me como fizeste a Lhiannon; tenho muito 
pouco a perder. Estou disposta a ir at aos sacerdotes e deix-los julgar entre ns. Fazer 
acordos com os Romanos e interferir nos Orculos  um assunto torpe, ou pelo menos 
eles consider-lo-iam assim, no entendendo - ela parou para fungar - o teu elevado 
propsito.

- Por que  que ests a fazer isto? Eilan no  tua parente.
- Ardanos estava a olhar para ela como se, na realidade, no percebesse.

Caillean suspirou. Tinha amado Lhiannon como a uma me, mas estava a comear a 
dar-se conta de que Eilan era como uma   irm, ou como a filha que nunca teve... e 
nunca teria, agora que   as suas regras tinham acabado de fluir. Infecunda como era, e 
dum modo que teria sido impensvel quando era mais nova, conseguia perceber a 
apaixonada necessidade de Eilan de manter o filho dela.

- Deveria ser suficiente saberes que no me podes deter. Sugiro que acredites nisso, 
Ardanos, pois tens mais a perder do que eu. Pensas que os outros sacerdotes da tua 
ordem no perguntariam porque  que esta criana deve sequer viver? Tens uma

352

MARION ZIMMER BRADLEY

influncia sobre Eilan enquanto ela souber que lhe podes tirar a criana; tu tens... graas 
a todos os deuses duma s vez... nenhum sobre mim.

O Arquidruida pareceu ficar pensativo, mas mesmo quando comeou a ficar com a 
esperana de estar a convenc-lo, Caillean percebeu que o que tinha dito no era 
estritamente verdade. Ardanos ameaava-a ao ameaar Eilan.

- Traz o beb de volta, Ardanos. - Caillean, que nos anos que tinha passado com 
Lhiannon tinha aprendido tudo sobre compromissos, adoou a voz. - Mesmo que Eilan 
tenha o beb com ela ainda esto em teu poder. Pensas que  uma coisa de somenos ter a 
Sacerdotisa do Orculo na palma da mo?

- Talvez tenha agido um pouco apressadamente... - disse ele por fim. - Mas o que eu 
disse  rapariga era verdade. Se ela pavonear o filho pela Casa da Floresta mais valia 
proclamar a sua vergonha ao mundo. Como sugeres que mantenhamos o logro se eu a 
deixar ficar com ele l?

Os ombros de Caillean abateram-se quando percebeu que tinha vencido.

- Pensei numa maneira...

O dia marcado para o casamento de Gaius amanheceu limpo e luminoso. Gaius acordou 
quando a luz do Sol da Primavera entrou pela sua janela, e pestanejou quando ela 
brilhou ofuscantemente na brancura da toga arrumada em cima da cadeira. No ano que 
se tinha passado tinha-lhe sido exigido que usasse o traje nas reunies sociais e 
diplomticas em que tinha acompanhado o seu futuro sogro e tinha-se habituado um 
pouco mais a lidar os seus drapejamentos, mas ainda a achava embaraosa. Agricola 
vangloriava-se de que tinha ensinado os filhos dos chefes bretes a usar a toga, mas 
Gaius duvidava, Tinha sido educado como um romano, mas ainda se sentia mais 
confortvel num uniforme, ou na tnica e nas calas axadrezadas das tribos.

Sentou-se, olhando para o traje com desnimo. O seu pai, que tinha vindo de Deva no 
dia anterior, e estava a dormir no mesmo quarto, virou-se e ergueu uma sobrancelha.

A CASA DA FLORESTA

353

- Penso mesmo que eles podiam ter inventado um traje de cerimnia melhor - 
resmungou Gaius -, ou pelo menos alguma coisa mais prtica.

- A toga  mais que um traje - disse Macellius. -  um smbolo. - Sentou-se e, para 
espanto do filho, que nunca estava no seu melhor logo pela manh, comeou a discursar 
sobre a honrosa histria da toga.

No entanto, pouco depois, Gaius comeou a perceber. Mesmo aqui, ou talvez 
especialmente aqui, nos confins do Imprio, o direito de usar a toga branca dum cidado 
era um meio de distinguir entre os senhores do mundo e aqueles que eles tinham 
conquistado, e a estreita faixa prpura do eques que lhe marcava a tnica uma honra 
duramente ganha. E isso era muito importante para homens como o seu pai. Comparado 
com isso, o conforto do traje era irrelevante.

Por muito que tivesse gostado de atirar a ofensiva pea de vesturio pela janela fora, ela 
era apenas uma das coisas que tinha de aceitar quando resolveu participar da sorte de 
Roma. Pelo menos a toga era de l, bem como o era a tnica que iria usar por baixo 
dela. Se bem que o vento de Abril estivesse a soprar frio e chuvoso, ele no gelaria.

Suspirando, deixou que o seu homem liberto o lavasse e barbeasse, enfiou-se na sua 
tnica e sandlias e depois deitou-se ao trabalho tentando descobrir como drapejar 
aquela coisa. Depois de alguns instantes, o seu pai, o rosto to fechado que Gaius teve a 
certeza de que ele estava a suprimir um sorriso, tirou-lhe a toga das mos. Destramente, 
arranjou as dobras de l branca para que estas cassem na parte da frente do ombro 
esquerdo, ajustou o drapejado  volta das costas e por baixo do brao direito do filho, e, 
depois, fez subir o restante cuidadosamente atravs do seu peito e por cima do ombro 
esquerdo, na direco oposta, de modo a que as dobras lhe cassem graciosamente sobre 
o brao.

- j est. - Deu um passo  retaguarda e inspeccionou o filho com indulgncia. - Se te 
endireitasses um pouco mais podias posar para uma esttua.

- Sinto-me como se fosse uma - resmungou Gaius, com medo de se mexer no fosse 
todo o arranjo desfazer-se. Desta vez o pai riu-se mesmo.

354

MARION ZIMMER BRADLEY

- No te importes;  natural para um noivo estar nervoso. Sentir-te-s melhor quando 
tudo tiver acabado.

- Vs tivsteis? - perguntou Gaius abruptamente. - Quando cassteis com a minha me 
tivsteis medo?

Macellius imobilizou-se, e durante um instante os seus olhos enevoaram-se com a dor 
da recordao.

- Senti alegria quando ela veio at mim e todos os dias das nossas vidas em conjunto at 
ela se ter ido... - murmurou. Como eu senti quando Eilan esteve nos meus braos ... ,

pensou Gaius com amargura, Mas consenti nesta farsa e agora no tenho outra escolha 
seno lev-la at ao fim.

A viso do arspice que tinha sido chamado para dar os auspcios para o casamento no 
contribuiu em nada para melhorar a sua disposio.  luz do Sol do meio-dia, a 
vermelha careca do homem e as suas compridas pernas esquelticas faziam-no parecer 
com uma das suas prprias galinhas, e Gaius estava cinicamente certo que quaisquer 
que fossem as marcas que ele encontrasse nas entranhas da infeliz ave, estas indicariam 
que era um dia auspicioso, Com a maioria dos dignitrios de Londinium a assistir seria 
extremamente inconveniente cancelar as festividades. Em qualquer caso, os augrios j 
tinham sido consultados h semanas para escolher o dia conveniente.

O trio, os seus pilares entrelaados com verdura, estava apinhado com o que parecia 
um espantoso nmero de pessoas; ele reconheceu um casal de idosas vivas, com 
enrugadas caras de ameixa seca, que tinha encontrado em casa de Licinius por diversas 
vezes nos ltimos meses; notou que elas estavam mesmo a sorrir, se no 
verdadeiramente para ele, pelo menos algures na sua direco. Talvez estivessem felizes 
por Julia; se soubessem o infeliz negcio que ela estava a fazer franziriam o sobrolho!

Na devida altura o sacrificador declarou que aquele era um ptimo dia para um 
casamento e deu os parabns. Nenhum dia em que Julia tivesse decidido casar-se se 
atreveria a ser desfavorvel,

Houve um pequeno murmrio quando os restos do sacrifcio foram limpos e a noiva 
entrou pelo brao do pai. Gaius pouco mais podia ver que a bainha da sua tnica branca 
por baixo da

A CASA DA FLORESTA

355

flamma escarlate, o famoso vu. Um dos secretrios de Licinius desenrolou o contrato 
de casamento e comeou a ler num montono tom anasalado. A sua maior parte tinha 
sido acordada quando da cerimnia do noivado: o valor do coemptio que Gaius oferecia 
e a soma que Julia traria para o casamento, o facto de que ela continuaria nas mos  
do seu pai como parte legal da sua famlia e manteria as suas prprias propriedades. 
Tinha-lhe sido explicado que nos dias que corriam este tipo de contrato era o mais 
usual, e que ningum pensaria mal dele. Havia uma clusula que estipulava no se podia 
divorciar de Julia excepto por conduta imprpria grave , a qual devia ser atestada pelo 
menos por duas matronas nobres. Gaius teria rido se nesta altura alguma coisa o tivesse 
podido fazer rir; no conseguia imaginar ningum menos susceptvel de se conduzir 
impropriamente que a digna Julia e ela j tinha tornado bem claro o quanto queria este 
casamento para o vir a pr em causa. Mesmo o seu sbrio comportamento de hoje no 
conseguia esconder o triunfo nos seus olhos.

- Gaius Macellius Severus Siluricus, concordas com os termos  deste contrato, e ests 
disposto a tomar esta mulher como tua esposa de acordo com a lei? - perguntou-lhe 
ento o seu pai. Gaius percebeu que estavam todos a olhar para ele, mas pareceu-lhe que 
se passou um tempo infinito antes que pudesse dizer as palavras.

- Estou disposto...

- Julia Licinia? - O pai dela voltou-se para a rapariga e repetiu a pergunta. O seu 
assentimento veio bem mais rapidamente. O secretrio apresentou o documento a cada 
um deles para que assinassem e depois levou-o para ser registado nos arquivos.

Gaius sentiu como se a liberdade se estivesse a ir com ele, mas a gravidade romana que 
estava associada  toga no lhe permitia que sorrisse. Uma senhora com uma face doce, 
identificada como sendo a filha de Agricola, chegou-se para a frente, pegou na mo de 
Julia e conduziu-a at Gaius. Este sentiu uma pontada de culpa quando os pequenos 
dedos se apertaram

nos seus.

Fizeram-se depois as oraes, uma grande parte delas, pareceu, invocando Juno, Jpiter, 
Vesta e a toda e qualquer outra

356

MARION ZIMMER BRADLEY

deidade que se pudesse assumir poder estar associada  preservao da lareira e do lar. 
Foi-lhes entregue, a Julia e a ele, uma tigela de gro e uma jarra de leo para oferecer ao 
fogo que ardia no altar. Enquanto crepitava nas chamas chegou do salo das refeies 
do trio um aroma de comida cozinhada, misturando-se duma maneira enjoativa com o 
incenso que tinha sido queimado. A cerimnia estava quase terminada. Julia voltou a 
pr o vu. Ele pegou no bolo de grosseiro trigo de espelta - esperava que houvesse algo 
melhor para comer na festa que se ia seguir -, partiu-o e colocou um pedao entre os 
lbios de Julia. Ela repetiu o gesto, dizendo as palavras estipuladas que os tornavam 
legalmente num s. O ritual tinha adquirido o seu prprio ritmo e daqui em diante ele 
tinha apenas de seguir o seu impulso.

Passou toda a festa do casamento sentado no salo de jantar, que estava o mais enfeitada 
que a bolsa de Licinius e o orgulho de Julia tinham conseguido, numa espcie de torpor. 
Estava consciente de que as mesas se encontravam carregadas com uma extraordinria 
variedade de coisas. As pessoas falavam-lhe; aceitou as felicitaes dum velho amigo 
de Licinius e concordou que sim, que era verdadeiramente feliz por ter ganho uma 
esplndida rapariga. O velho senador demorou-se, insistindo em contar-lhe anedotas de 
Julia do tempo em que esta era uma criana; tinha-a conhecido toda a vida. Algures por 
perto, dois magistrados discutiam em voz baixa a prxima campanha do Imperador na 
Germania.

Escravos, murmurando felicitaes, serviam-lhes, no a carne dos sacrifcios, mas sim 
tenros frangos assados, porco assado e delicados rolos de fino po branco. E havia uma 
generosa quantidade de vinho; o qual, Gaius, que bebia tudo o que lhe era posto  
frente, cedo decidiu que era melhor do que tinha pensado. Uma corrente sem fim de 
convidados no parava de lhe vir dar os parabns; poucas vezes tinha visto Macellius 
parecer to feliz.

Enquanto a festa decorria, Gaius sacou de todas as suas reservas de cortesia e 
autocontrolo, enquanto, no fundo do seu pensamento, imaginava o que pensaria Eilan de 
todo este absurdo, ou se ela jamais saberia, ou apreciaria, o que ele estava a fazer por ela 
e pelo filho deles.

A CASA DA FLORESTA

357

julia ria com as pesadas piadas dos charlates que os entretinham, mas ele no estava 
seguro que os estivesse realmente a perceber. A razo desta parte da cerimnia era, 
segundo a tradio, para encorajar a procriao; os palhaos pareciam muito ansiosos de 
se assegurar que ningum perdesse o ponto. A vista da comida estava a comear a 
repugnar-lhe. mas continuou a fingir que comia e concordou, pela nonagsima vez, que 
Julia era uma rapariga amorosa e ele um homem com           muita sorte.

Julia estava a comear a parecer ensonada; tinha aceitado um segundo e depois um 
terceiro copo de vinho, e, visto este ser consideravelmente mais forte que o que Licinius 
servia todos os dias  sua mesa, a sua vivacidade normal estava um pouco embotada. 
Gaius teve inveja do estado em que ela estava; infelizmente, ele estava ainda bastante 
consciente.

Estava a escurecer. ouviu gritos vindos do exterior e sorriu apatetadamente quando o 
mestre de cerimnias anunciou que tinha chegado a hora da procisso nupcial. Tudo isto 
era realmente bastante ridculo j que Macellius no tinha casa na cidade, pelo que o 
novo casal se estava apenas a mudar para a ala mais afastada da manso de Licinius, 
mas Julia estava, aparentemente determinada a no falhar uma nica tradio neste seu 
grande dia.

Ainda bem que no se esperava que ele carregasse com a noiva, pensou Gaius quando 
agarrou Julia pelo pulso, com simulada dureza, e a puxou atrs de si. No seu actual 
estado de insegurana poderia ter sido deitado ao cho por uma mulher velha e por um 
co coxo.

o mestre de cerimnias entregou-lhe um saco cheio de nozes douradas e pequenas 
moedas de cobre; disse a Gaius que este devia espalh-las pelos pedintes que estavam 
no exterior, e que frequentavam os casamentos apenas para isto. julia tinha um saco 
parecido, que condizia com o seu vu escarlate. os portadores da liteira levaram-nos 
cerimoniosamente para o exterior da casa de Licinius, pela avenida abaixo at ao frum, 
passando pelo novo palcio do Governador e pelo tabularium, precedidos por tocadores 
de flauta e cantores, e rodeados por archotes, finalmente fazendo meia-volta at  
entrada do novo apartamento que tinha sido preparado para eles. Gaius reprimiu um 
desejo de rir. Espalhou moedas e ouviu as bnos da multido. J s mais um 
bocadinho...

358

MARION ZIMMER BRADLEY

O archote de espinheiro branco lanou uma tremeluzente luz atravs da soleira da porta, 
banindo sombras e magia malfica. Gaius, cuja cabea tinha de algum modo sido 
clareada pelo ar frio, desejou que tambm pudesse banir as memrias. Algum entregou 
a Julia uma tigela de leo para que untasse os batentes das portas e os cordes de 
madeira branca que os adornavam.

As idosas vivas beijaram Julia, murmurando-lhe desejos de felicidade e, depois duns 
momentos de hesitao, tambm beijaram Gaius; isto provocou uma verdadeira 
tempestade de abraos, beijos e felicitaes. Macellius, um tudo nada bbedo - a 
primeira vez que Gaius via o pai afectado mesmo que apenas um pouco pelo vinho - 
abraou-os a ambos; Licinius beijou Julia e Gaius, e disse que tinha sido um casamento 
esplndido.

Depois Gaius levantou-a, maravilhando-se uma vez mais com
O leve que ela era nos seus braos, transportou-a atravs do limiar
e fechou a porta atrs de si com um pontap.

Podia sentir o cheiro de tinta fresca nas paredes, competindo com o do incenso e com o 
aroma das flores de Julia. Ela mantinha-se imvel  sua frente e, com mais ternura que o 
que tinha pensado que iria poder reunir, puxou a flamma para o lado.

A grinalda dela estava a emurchecer; as seis mechas de cabelo que a sua criada tinha to 
cuidadosamente encaracolado estavam a desfazer-se  volta da gola do vestido; ela 
parecia nova de mais para se casar. Antes que ele pudesse falar ela dirigiu-se at ao altar 
no centro do atrium deles e ficou  espera, na expectativa.

Ele puxou a ponta da toga para lhe cobrir a cabea e saudou as pequenas estatuetas de 
terracota que representavam os deuses da famlia.

- Pelo fogo e pela gua dou-te as boas-vindas como minha mulher e sacerdotisa do meu 
lar... - disse com voz rouca. Deitou gua por cima das mos dela e estendeu-lhe a toalha 
para que as secasse; depois entregou-lhe o crio para acender o fogo.

- Possam os deuses abenoar-nos na cama e na mesa; e conceder que eu d  luz muitos 
filhos - respondeu-lhe ela.
O leito nupcial tinha sido feito junto  parede. Ele levou-a

na sua direco e lutou para desfazer o singular n com o qual o seu cinto de l estava 
preso, pensando em quantos noivos ansiosos no teriam perdido a pacincia e, pura e 
simplesmente,

A CASA DA FLORESTA

359

cortado aquela coisa. Pelo menos agora ele podia ver-se livre da sua toga.

Julia estava deitada na grande cama com os cobertores puxados at ao queixo, a 
observ-lo. De manh, os lenis sujos de sangue seriam cerimoniosamente 
apresentados s vivas como prova da consumao; mas Gaius nem sequer teria de estar 
presente. E, de qualquer modo, ele no duvidava que Julia sempre prtica - se tinha 
provido dum pequeno saco com sangue de galinha, isto para o caso de ele estar to 
bbedo que no fosse capaz de actuar. Quase todas as noivas tinham juzo suficiente 
para o fazer, tinham-lhe dito.

Mas ele no estava bbedo a esse ponto e, se cumpriu a sua obrigao com mais 
eficincia que paixo, pelo menos foi gentil e Julia era inocente de mais para esperar 
mais.

VINTE E UM

Eilan no voltou para Vernemeton seno em Maro, pois, apesar da promessa de Caillean de lhe trazer o filho de 
volta, levou algum tempo a recuperar do choque de o perder. Depois de ter chorado at  exausto chegou  
concluso de que, mesmo quando ele lhe fosse devolvido, j no seria a mesma coisa.

Depois de alguns dias os seios deixaram de lhe doer e soube que agora teria de ser outra mulher a alimentar o seu 
pequenino. Seria outra mulher a pegar nele apertadamente durante as longas horas da noite, a dar-lhe pancadinhas 
para o fazer arrotar e a confort-lo, a ter o doce trabalho de dar banho quele firme corpinho. Outra pessoa que se 
inclinaria sobre o seu bero e cantaria as canes de embalar que a sua me lhe tinha ensinado. Ela no poderia - no 
deveria faz-lo - ou tudo que tinha sofrido para conseguir estaria perdido.

Foi anunciado que a Gr Sacerdotisa estava doente, para cobrir o perodo de transio, e, tarde numa noite, Eilan foi 
trazida de volta  Casa da Floresta e dado sumio a Dieda, como que por magia, destinada a um adicional treino 
brdico, conforme tinha sido prometido. Na altura em que ela voltasse, esperavam que toda a gente j tivesse 
esquecido que alguma vez tinha havido duas donzelas em Vernemeton que pareciam quase iguais. Com Cynric ainda 
prisioneiro, era claramente impossvel para Dieda ir ter com ele, mesmo que o tivesse querido. Finalmente, Dieda 
pareceu reconciliada com a perspectiva de aprender com os bardos duma terra que nunca tinha sido tocada por Roma.

S agora, quando retomou os seus deveres como Sacerdotisa do Orculo,  que Eilan realizou quo isolada estaria 
daqui em diante. Parte disto era o resultado do isolamento forado de

362

MARION ZIMMER BRADLEY

Dieda como parte da farsa, mas era, tambm, um resultado da sua mudana de estatuto. 
Como era seu direito, Eilan honrou Caillean, Miellyn e a jovem Senara ao escolh-las 
para serem as suas assistentes principais, mas pouco via as outras sacerdotisas, excepto 
nas cerimnias.

De tempos a tempos, no passado, a Casa da Floresta tinha abrigado mulheres ou 
crianas, como Senara, que tinham necessidade de ateno. Era por conseguinte pouco 
habitual, mas no uma novidade, admitir a jovem mulher chamada Lia e a criana que o 
Arquidruida lhe tinha entregue para amamentar, e instal-los na casa redonda perto dos 
telheiros das ervas, onde ficavam habitualmente os visitantes. Nem era mesmo muito 
surpreendente que Caillean estivesse permanentemente a levar o beb  Gr Sacerdotisa, 
dizendo que esta podia ser alegrada por pegar numa criancinha.

Depois do jubiloso primeiro encontro, Eilan chorou copiosamente; parecia-lhe que 
Gawen, estando ao cuidado de Lia, se tinha quase tornado mais filho da outra mulher 
que dela prpria. Apesar disso, parecia-lhe um milagre que Ardanos, mesmo sob 
coaco, tivesse cumprido a sua palavra. Pensava, por vezes, em como teria Caillean 
conseguido persuadi-lo, mas no se atrevia a perguntar.

Naturalmente, a parcialidade que mostrava pela criana provocou falatrio. Mas 
Caillean tomou a precauo de confiar  velha Latis - em estrita confidncia - que a 
criana pertencia  irm de Eilan, Mairi, nascida de pai desconhecido, e que tinha sido 
enviada para aqui porque Mairi estava a pensar casar-se novamente. Como tinham 
esperado, passada uma semana a histria j corria por toda a Vernemeton. Mas, embora 
houvesse algumas que pensavam que a criana era de Dieda, ningum pareceu suspeitar 
que era de Eilan. E, para a maioria das mulheres, o rapaz cedo se tornou num brinquedo,

Eilan experimentou um sentimento de culpa pelo dano provocado s reputaes da irm 
e da rapariga que tinha sido como uma irm para ela. Mas, afinal de contas, elas tinham 
concordado, se bem que relutantemente. Pior era o tormento de no lhe ser possvel 
reconhecer o filho. Mas ela no o devia fazer - no o faria - e,  medida que as semanas 
se iam passando, a confisso tornou-se cada vez menos possvel.

A CASA DA FLORESTA

363

Parecia a Eilan que o tempo se passava muito vagarosamente sob esta inquietante 
moratria; Ardanos tinha voltado de Deva, e, quase a vangloriar-se, anunciou que o 
filho de Macellius se tinha casado com a filha do Procurador, em Londinium. Ela sabia 
que isto tinha de acontecer, mas foi com dificuldade que conseguiu impedir-se de 
chorar, ainda que tivesse resolvido no o fazer na presena de Ardanos.

Tinha de acreditar que Gaius e ela tinham tomado a deciso certa, mas no conseguia 
deixar de pensar sobre a mulher que se lhe tornava impossvel no considerar como a 
sua rival. Era ela bonita? Dir-lhe-ia ele palavras de amor, de tempos a tempos? Eilan era 
a me do seu primeiro filho; isso no importava para nada? Ou ela estava esquecida? E, 
se estivesse, como o poderia ela saber jamais?

Mas o tempo passou-se - como sempre acontece no importa que artifcios sejam 
tomados para impedir a sua passagem - e o festival de Beltane chegou at ela, altura em 
que ela devia servir outra vez como a voz do Orculo.   Eilan tinha pensado ter 
esclarecido todas as suas dvidas
quando se tinha tornado na Gr Sacerdotisa. Talvez estivessem agora a voltar por causa 
da criana. Durante as escuras horas da noite pensava se seria desta vez que seria punida 
pela sua blasfmia, embora  luz do dia raciocinasse que se tinha sobrevivido na 
primeira vez, era improvvel que a Deusa se fosse sentir insultada agora. Se o Poder que 
tinha sentido durante a sua iniciao foi uma iluso, ento tinha desistido de Gaius para 
nada. Mas se Ardanos no acreditava realmente na Deusa que servia, ento era ele, no 
ela, que cometia uma blasfmia. Se ela fazia teno de continuar com este papel, era 
essencial aprender se era a interpretao do Arquidruida se a prpria Deusa que era uma 
mentira.                                         Quando Eilan se estava a preparar e a purificar, 
ocorreu-lhe que beber da bacia dourada seria mais dramtico se fosse feito  vista das 
pessoas e resolveu falar disto a Ardanos quando o visse novamente. Ele concordou 
prontamente com a mudana, como se tivesse ficado surpreendido com o facto de ela ter 
sequer pensado no assunto.

Desta vez, a prpria Eilan preparou a mistura das ervas que iria beber e fez algumas 
substituies, deixando ficar as

364

MARION ZIMMER BRADLEY

que aumentariam a viso e retirando as que separavam os sentidos da vontade. Em 
resultado disso, ela estava vividamente consciente do enorme silncio que desceu sobre 
a multido ali reunida. Dum ponto de vista    puramente popular ela podia entend-lo. 
Sabia que o pblico reagia  sua beleza como nunca tinha reagido ao esmaecido encanto 
de Lhiannon. Mas deve ter havido uma altura em que       tambm Lhiannon tinha sido 
nova e muito bonita. Nunca teria sido mais que isto - um drama encenado pelos 
sacerdotes,     dos quais o seu av era o principal? Seguramente, a primeira vez que se 
tinha sentado na cadeira do Orculo o Poder que falou atravs dela tinha sido bem real.

Eilan bebeu e sentiu o familiar mergulho e suspenso do estado de  transe Tom-la. 
Lembrando-se de como a poo a tinha afectado antes, deixou-se cair na cadeira com as 
pestanas meio fechadas para que Ardanos no pudesse ver a inteligncia nos seus olhos. 
E, desta vez, quando o Arquidruida comeou o seu encantamento ela estava consciente 
que instrues estavam a ser intercaladas no feitio. Era claro o que se desejava - e 
porqu.

Agora percebia porque Ardanos queria uma Sacerdotisa dos Orculos que no confiasse 
na inspirao. j o tinha ouvido falar de todos os benefcios que adviriam  Bretanha da 
influncia civilizadora dos Romanos, Lembrava-se, de facto, de ele ter dito algo 
parecido naquela tarde em casa do seu pai, antes de ela saber quem Gaius era na 
realidade. Bem, pelo menos o Arquidruida no podia ser acusado de inconsistncia.

No seu ltimo encontro com Gaius tinha aprendido o suficiente para concordar que - por 
agora - Ardanos at podia estar com a razo. Usado sensatamente, o Orculo podia ser 
um instrumento poderoso para trazer a paz  Bretanha. Enquanto Ardanos fosse o 
Arquidruida, e enquanto as suas polticas seguissem o rumo da sabedoria, talvez o que 
estivessem a fazer at nem fosse um to grande pecado. Mas, se Eilan quisesse ser mais 
que um instrumento nas mos de Ardanos, teria de compreender o que se passava no 
mundo fora das suas paredes. Potencialmente, a Gr Sacerdotisa de Vernemeton podia 
exercer uma influncia que ultrapassava em muito o seu papel como Orculo. Ao tomar 
conhecimento do que o seu av estava a fazer,

A CASA DA FLORESTA

365

tambm tinha assumido a responsabilidade de decidir, ou no, se cooperaria, e at que 
ponto.

Eilan acreditava que, da outra vez, alguma coisa mais que a sua prpria vontade 
escondida tinha falado atravs dela. Mas nenhum ser humano podia carregar sozinho o 
poder total duma deusa. Quando um esprito divino possua um corpo, no s se tornava 
acessvel como adquiria algumas das limitaes desse corpo; tinha de trabalhar com o 
material disponvel.

Deusa, ajudai-me!, gritou o seu esprito. Se Vs estais aqui, Senhora, e no apenas a 
minha iluso, mostrai-me como fazer a Vossa vontade!

A invocao de Ardanos acabou, mas a expectativa da multido que os rodeava 
aumentava.  medida que os fumos das ervas sagradas se elevavam das fogueiras, Eilan 
sentiu uma Presena a crescer dentro dela.

Senhora, encontro-me nas Vossas mos. Com um suspiro, Eilan deixou que o seu 
controlo a abandonasse. Tinha a sensao de que suaves braos a estavam a segurar, 
mas, ao mesmo tempo, sabia que o seu corpo estava sentado, e que Aquela cujo poder 
agora flua atravs de si fixava Ardanos com um sorriso radioso.

Av , pensou, tende cuidado! No podeis ver Quem veio at vs agora? Mas ele 
tinha-se virado para o povo e estava a conduzi-los na invocao, e ela percebeu que ele 
no podia ver. A sua conscincia virou-se ento para o interior. Deusa, tende 
piedade!, gritou o seu esprito. Ele trabalha para o bem deste povo - concedei-lhe a 
sabedoria para fazer o que estiver certo - por causa de todos ns!

E, no silncio do lugar onde se tinha refugiado, pareceu-lhe que houve uma resposta.

Filha, Eu cuido de todos os meus filhos, mesmo quando eles brigam; e em todos os 
tempos, no apenas aquele que ests a viver. A minha Luz pode ser a tua escurido; e o 
teu Inverno o preldio da Minha Primavera. Aceitars isto... que um bem maior possa 
vir?

Aceitarei, mas no me abandoneis, pois Vs sois tudo o que eu tenho , respondeu, e, 
uma vez mais, a Voz falou dentro dela. Como te poderia abandonar - no sabes que te 
amo como tu amas o teu filho?

366

MARION ZIMMER BRADLEY

O amor da Senhora rodeou-a. Eilan deixou-se mergulhar nele como nos braos da sua 
me. Como que a uma grande distncia ouvia as perguntas de Ardanos. Lembrou-se das 
respostas que ele lhe tinha dito para dar, mas elas j no pareciam importantes.
O conhecimento atingiu-a; sabia o que estava a responder, e, no entanto, o eu que dizia 
essas palavras, desta vez na linguagem do povo, no era a Eilan que ela conhecia.

Eilan no pde dizer por quanto tempo isto durou. No estado em que ela se encontrava 
agora no havia passagem de tempo, Chegou, no entanto, uma altura em que ouviu 
chamarem pelo seu nome. Gemeu e tentou virar-se, Por que devia ela regressar? No 
entanto, o ar frio com que a estavam a refrescar e as gotas de gua que atingiram o seu 
rosto e mos no podiam ser ignorados. Eles trouxeram-na de volta ao seu corpo uma 
vez mais.

Ela estremeceu e ofegou e, subitamente, era ela prpria de novo, Eilan, a olhar para as 
reverentes caras das pessoas  sua volta, que a olhavam com os olhos arregalados.

Ardanos estava a dizer ao povo para partir em paz. Havia quase um indcio de 
complacncia na satisfao        que lhe enchia o sorriso.

Ele no percebe , pensou ento Eilan. Ele pensa que foi tudo feito por ele ...  Mas, 
se o Arquidruida no    compreende o poder da Deusa que dizia servir, no lhe cabia a 
ela esclarec-lo. Apenas podia esperar que a Deusa soubesse da sua vida e continuasse 
a tomar conta deles.

Gaius passou os primeiros meses do seu casamento a lutar contra a convico que este 
era baseado numa mentira. Suspeitava que Jula estava mais enamorada da ideia de estar 
casada do que propriamente enamorada dele, mas ela era alegre e afectuosa, e desde que 
ele fosse razoavelmente atencioso, ela parecia satisfeita com a sua companhia. S podia 
agradecer aos deuses pela sua inocncia, ou talvez pela sua falta de profundidade 
emocional,
o que a impedia de perceber que uma relao entre um homem
e uma mulher devia ser uma coisa muito maior.

Licinius, que acreditava que um casal jovem no devia ser separado no primeiro ano do 
casamento, tinha conseguido que Gaius servisse como aedile, encarregado dos edifcios 
governa-

A CASA DA FLORESTA

367

mentais em Londinium, o que lhe daria alguma da experincia no servio pblico 
necessria para fazer progredir a sua carreira. No comeo ele tinha protestado a sua falta 
de experincia, e pensado se o seu sogro no lhe teria arranjado o lugar apenas para 
que Julia pudesse continuar a dirigir-lhe a casa, mas descobriu que, embora o trabalho 
pudesse ser executado pelo seu pessoal de escravos e homens libertos, estes 
necessitavam da autoridade de um homem de posio para lidar com a restante 
administrao. Pouco tempo depois, compreendeu que uma infncia passada a ouvir o 
seu pai a lidar com os problemas da manuteno duma importante fortaleza o tinha 
preparado bastante bem para as suas novas responsabilidades.

- D o devido valor ao tempo que passas agora com a Julia, meu rapaz - diria Licinius, 
dando-lhe palmadas no ombro -, pois sero separados muitas vezes no futuro, 
especialmente se te nomearem para misses na Dcia ou nalgum outro posto de 
fronteira... - Sabiam ambos que o caminho da promoo conduzia por todo o imprio; 
um posto provincial de longa durao, como Prefeito de Campo, ou Procurador, era 
concedido apenas no final duma carreira.

Estes eram os anos cruciais, aqueles em que o nome - e os contactos - que um jovem 
construa para si prprio determinavam at que ponto chegaria. Cedo Gaius teria de 
passar algum tempo em Roma; achou-se a desejar que isso acontecesse. Entretanto, 
aplicava-se a perceber os meandros do governo no plido reflexo da capital em que 
Londinium se tinha tornado.

Mais rapidamente que o que poderia ter imaginado, passou-se um ano. De tempos a 
tempos chegavam de Roma notcias preocupantes. o imperador tinha-se feito eleger para 
o cargo de Cnsul durante os prximos dez anos, e censor vitalcio, a acrescentar aos 
poderes que j detinha, Os patrcios resmungavam sombriamente que era uma 
conspirao para ganhar controlo sobre o Senado, mas pouco mais fizeram, pois nesta 
altura o exrcito estava bastante satisfeito com o seu imperador, que lhes tinha 
aumentado o soldo em um tero. como oficial, Gaius no podia objectar a isso, mas era 
claro de que lado sopravam os ventos. Ainda mais que os seus predecessores, 
Domiciano parecia olhar para as instituies democrticas de Roma que ainda restavam 
como estando ultrapassadas e, certamente, inconvenientes.

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MARION ZIMMER BRADLEY

Alguns meses depois do casamento, Licinius tinha contratado um tutor - principalmente 
para Julia, tinha dito - para que ela pudesse aprender a falar melhor o grego e um latim 
mais refinado, e Gaius, para seu enfado, foi incitado a partilhar essas lies.

- Porque se tu fores a Roma ser necessrio que fales um bom grego; e um latim mais 
aristocrtico - ele notou.

Excitado, Gaius tinha protestado. Macellius tinha insistido, desde a sua mais tenra 
infncia, que fossem contratados tutores e que ele se tornasse to fluente no latim como 
na linguagem tribal cltica dos parentes da sua me.

- Para mim  suficiente o latim normal - protestou.

- Sem dvida que  mais que suficiente para um aquartelamento do exrcito - 
argumentou Julia -, mas acredita em mim, seria melhor falar ao Senado em cltico do 
que nesse inculto dialecto de Deva.

Gaius sentiu-se tentado a dizer que o seu latim no era pior que o de Macellius; mas a 
verdade era que Macellius nunca tinha tido de falar aos senadores de Roma. E no lhe 
faria mal nenhum aprender a lngua dos homens educados de todo o mundo, a qual seria 
sempre o grego. As lies no se prolongaram, no entanto, por muito tempo. No final do 
Vero Julia j se encontrava grvida, e to nauseada durante a maior parte do tempo, 
que o tutor foi despedido,

Mas nesta altura j Gaius conversava com os escravos gregos da casa sempre que tinha 
a oportunidade, incluso com Chars, a criada de quarto de Julia, que tinha nascido na 
prpria ilha de Apolo, Mytilene. Um dos homens libertos que trabalhava para ele tinha 
originalmente vindo para a Bretanha como secretrio dum antigo governador, e ficou 
muito satisfeito por poder ganhar uns sestrcios extra corrigindo o acento de Gaius e por 
faz-lo copiar os discursos de Ccero para melhorar o estilo do seu latim.

Estava resolvido a que quando o filho de Julia tivesse nascido e ela se sentisse 
suficientemente bem para retomar as lies - se alguma vez se sentisse - ele a tivesse 
ultrapassado em muito.

E assim se passou o Inverno. Na altura do seu primeiro aniversrio, os enjoos de Julia 
tinham-lhe passado. Ela no pro~

A CASA DA FLORESTA

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testou quando o seu pai props que Gaius se juntasse a um grupo que ia  caa do javali 
nos bosques a norte de Londinium, escoltando um rico senador com interesses no 
comrcio de vinho, que dizia ter empreendido a arriscada viagem at aqui pelo prazer da 
caa. Licinius no tinha em grande considerao a habilidade do homem, mas 
reconhecia o seu poder poltico, e lisonjeou-o ao destacar o seu prprio genro para o 
servio de escolta.

Julia, longe de se ressentir com a sua ausncia, sentiu-se um pouco aliviada por ele se 
encontrar fora de casa. Como grande parte dos homens, Gaius parecia sentir que 
qualquer admisso de dificuldade era um pedido de ajuda. Visto ele no poder ajud-la, 
e, na verdade, ser a causa do seu estado, tendia a reagir com enfado se ela se referia a 
m sade ou a ansiedade. O pai dela no era muito melhor, e ela tinha orgulho de mais 
para desabafar com os escravos.

E assim, na manh em que Gaius partiu para ir caar, Julia foi at ao templo de Juno. A 
sua criada, Charis, queixou-se de ter de andar todo o caminho mas, apesar do 
desajeitada que se tinha tornado, Julia tinha a certeza de que os solavancos duma 
carruagem ou a oscilao duma liteira a fariam enjoar de novo.

Nem se importou quando o eunuco que tomava conta da porta lhe disse que tinha de 
esperar at que a sacerdotisa tivesse tempo para ela, pois o interior do templo estava 
sombrio e fresco depois da claridade e poeira do exterior, e ficou bastante satisfeita por 
se sentar durante algum tempo, a olhar para cima, para a esttua pintada.

Domina Dea ... , rezou, pensei que seria to fcil. Mas, quando pensam que no os 
estou a ouvir, os escravos tagarelam sobre mulheres que morreram ao dar  luz. No 
tenho medo disso, Deusa, mas se o meu beb morrer? E se eu for como a minha me, 
que apenas deu  luz um filho que no viveu mais de um ano? O meu pai tem poder 
poltico e Gaius pode lutar em batalhas. Mas a nica coisa que eu posso fazer  dar-lhes 
um herdeiro legtimo. Puxou o vu para a cara para que ningum pudesse ver que 
estava a chorar. Ajudai-me a dar  luz um filho saudvel... por favor, Deusa, por 
favor!

Sobressaltou-se quando o eunuco lhe tocou no ombro, limpou as lgrimas e seguiu-o 
para o quarto interior, ignorando a importuna dor no fundo das costas.

370

MARION ZIMMER BRADLEY

A Gr Sacerdotisa de Juno era uma mulher de meia idade, o rosto pintado de modo a 
parecer mais nova e cujos olhos silenciosos avaliaram as jias e o vestido de Julia. Mas 
saudou Julia com uma quente efuso que fez faiscar uma viva cautela na rapariga.

- Ests preocupada com o nascimento. - A mulher deu-lhe uma pancadinha no brao. - E 
 o teu primeiro, pelo que  natural que estejas receosa...

Julia recuou um pouco, olhando para ela atentamente. No perceberia a mulher que no 
era por ela que tinha medo?
- Quero um filho - comeou, e tossiu com a onda de per-

fume que a atingiu quando a sacerdotisa se inclinou para ela.
- Claro que queres. E se fizeres uma oferenda, a Deusa ajudar-te-.

- Que espcie de animal devo comprar para o sacrifcio?
- Bem, querida... - A mulher olhou para os anis de Julia.
- Na realidade j temos que chegue desse tipo de coisas. Mas, eles esto a construir um 
generoso templo a Isis junto aos molhes e seria uma pena que Juno fosse deixada ficar a 
parecer-se uma parente pobre. De certeza que ela te dar o que pretendes se fizeres uma 
oferta generosa para o seu santurio.

Julia olhou-a fixamente, percebendo bem de mais, e levantou-se pesadamente.

- De facto - disse secamente. - Agora devo-me ir embora, mas agradeo-vos o vosso 
bom conselho.

Virou-se nos calcanhares, desejando ter altura para fazer uma sada impressiva, e saiu 
do quarto com um passo pomposo, deixando a sacerdotisa boquiaberta atrs dela. Ao 
cruzar a ombreira a dor nas costas tornou-se numa punhalada que, por momentos, lhe 
tirou a respirao.

Minha senhora... - Charis aproximou-se para a ajudar. Vai arranjar-me uma cadeira - 
disse-lhe Julia, encostando-se a um pilar. - Afinal de contas acho que vou de transporte 
para casa.

Gaius no voltou a Londinium seno j ao anoitecer, tendo-se assegurado de que o 
distinto convidado obtivesse o trofu que queria, e deixando-o com um certo alvio. 
Quando entrou em casa

A CASA DA FLORESTA

371

descobriu tudo num caos; durante a sua ausncia Julia tinha tido um parto prematuro e 
dado  luz uma filha. Recebeu as notcias de Licinius, que lhe disse tudo ter acabado j 
h uma ou duas horas e que Julia estava a dormir.

Era tempo de brindar ao seu primeiro filho, disse Licinius, segurando um poeirento 
frasco com um selo grego. Era bem evidente, pensou Gaius, que o seu sogro j tinha 
estado a celebrar.

- No sei como te agradecer esta enorme ddiva - disse ele um pouco ebriamente. - 
Sempre quis ser av; e se a criana  apenas uma filha, bem, no me importo; Julia tem 
sido uma filha to boa para mim como quarenta filhos, e trouxe-te a ti para a nossa 
famlia. Sem dvida que o vosso prximo filho ser um rapaz.

- Espero sinceramente que tenhais razo - disse Gaius. No seria por sua culpa se ela o 
no fizesse, uma vez que ele j tinha procriado um rapaz.

- Pus este vinho de lado quando Julia nasceu, para me embebedar quando nascesse o 
meu primeiro neto - disse Licinius, removendo o selo. - Bebe comigo, meu filho; e no 
o estragues pondo-lhe gua de mais.

Gaius no tinha comido nada  ceia e teria preferido mil vezes beber um copo de cerveja 
com uma tigela de feijes ou uma ave assada, mas com a casa numa tal confuso teria 
sorte se conseguisse algum po e carne fria, e isto se pudesse encostar a um canto um 
dos escravos da casa. Resignou-se  ideia de ir para a cama meio bbedo e juntou-se a 
Licinius.

-  tua filha - disse Licinius. - Possa ela ser to boa para ti como Julia o foi para mim.

Gaius bebeu e depois o ancio props um brinde ao filho dele. Gaius pestanejou e 
cuspiu o vinho, mas o seu sogro acrescentou:

- Decerto que ters um filho no prximo ano.
- Oh, sim, claro.

Mas, enquanto Gaius levantava a sua taa, era em Eilan e no filho que j tinha em que 
estava a pensar. Nesta altura o rapaz j devia ter um ano. j andaria? Ter-se-ia a 
penugem de cabelo escuro transformado em ouro?

E depois, claro, tiveram de beber  sade de Julia; se a servial no tivesse entrado mais 
ou menos nesta altura para dizer

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MARION ZIMMER BRADLEY

que ele a podia ir ver, Gaius teria ficado verdadeiramente muito bbedo. Grato pela 
interrupo, seguiu a mulher para o quarto de dormir.

Julia pareceu muito pequena e plida ao marido. Enfiada nos seus braos estava a 
minscula forma da criana.

Julia olhou para ele e comeou a chorar.

- Tenho tanta pena. Queria tanto dar-te um filho... estava to segura...

Tornado generoso pelo pensamento do           filho de Eilan, l longe a Oeste, inclinou-
se e beijou-a.

- No chores - disse. - Da prxima vez teremos um rapaz, se os deuses o quiserem.

- Ento aceita-la?

A escrava pegou na criana, estendeu-a na sua direco e ficaram todas a olhar para ele, 
na expectativa. Depois de um momento Gaius percebeu o que era suposto ele fazer e 
agarrou no beb, bastante desajeitadamente. Olhou para as enrugadas feies,  espera 
da vaga de ternura que o tinha inundado quando pegou no filho. Mas a sua nica 
emoo foi de espanto, pois parecia-lhe impossvel que uma coisa to pequena pudesse 
ser real. Suspirou.

- Em nome dos meus antepassados reclamo esta criana como minha filha - disse Gaius 
em voz alta. - O seu nome ser Macellia Severina.

Logo a seguir ao festival de Beltane, Bendeigid solicitou uma audincia  Senhora de 
Vernemeton. Nesta altura j Eilan se tinha habituado ao seu papel de Gr Sacerdotisa, 
mas ainda lhe parecia estranho que o seu prprio pai, um poderoso druida, tivesse de 
pedir autorizao para a visitar. Contudo, enviou uma resposta igualmente formal em 
como o receberia de boavontade e quando nessa tarde ele apareceu na sua cmara 
exterior, ela preparou-se para lhe dar uma cordial boa-vinda.

A verdade seja dita, Eilan no se sentia cordial de todo. No conseguia deixar de se 
lembrar que      tinha sido a recusa do seu pai, at mesmo em considerar o seu       
casamento com Gaius, que a tinha colocado numa posio na qual, se bem que tivesse 
conforto e honras, tambm a tinha tornado numa estranha para

A CASA DA FLORESTA

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o seu prprio filho. Assegurou-se que Gawen estaria fora da vista e do ouvido durante a 
tarde. Bendeigid sabia que Mairi no tinha tido outro filho, e Gawen estava-se a parecer 
cada vez mais com o pai dele.

Levantou um cntaro de gua fresca, acabada de tirar da Nascente Sagrada por Senara, e 
indicou a Huw que podia deixar entrar o visitante. Dava-lhe uma certa satisfao ter o 
seu guarda-costas a assomar sobre eles. O seu volume fazia o pai, que era um homem 
grande, parecer pequeno. Tinha pensado que ser o recipiente de uma devoo de tal 
modo canina a faria sentir-se desconfortvel, pois Huw tinha agradecidamente 
transferido para ela a sua lealdade mal ela tinha sado do ritual de recluso e comeado a 
andar para c e para l de novo, mas ele nunca se intrometia. Estava simplesmente ali, e 
ela, gradualmente, acabou por apreciar a sua utilidade em ver-se livre de visitantes, ou, 
como agora, para os intimidar.

- O que posso fazer por vs, meu pai? - disse friamente, deixando-se ficar sentada. O 
seu tom era o mesmo que teria usado com qualquer druida altamente colocado. De 
facto, o tempo que tinha passado no Norte tinha-o modificado. Era ainda um homem 
poderoso, mas a confortvel solidez de que ela se lembrava tinha sido desgastada at ele 
ser todo tendes e osso.

Bendeigid imobilizou-se, a olhar estranhamente para ela.
O que estaria ele a ver, pensou ela? Certamente no a filha de que se lembrava. O rosto 
que ela tinha visto quando tinha olhado para o Lago Sagrado tinha perdido a sua 
redondez infantil, e o sofrimento e as responsabilidades tinham dado um certo ar 
vigilante aos seus sombreados olhos. Mas talvez esses subtis sinais de maturidade 
fossem menos evidentes que os seus ornamentos dourados e o crescente entre as 
sobrancelhas.

Se bem que tivesse afastado do rosto o difano vu de fino linho azul-escuro, as suas 
dobras estavam drapejadas sobre a cabea e ombros. Tinha continuado a usar o vu, da 
mesma maneira que Dieda tinha adoptado, para ajudar na farsa; e na altura em que podia 
ser seguro andar sem ele, j se tinha habituado  sua proteco. Parecia emprestar um ar 
de autoridade; emprestava-o, certamente, ao seu mistrio.

- Quis apenas prestar-te os meus respeitos, minha filha... ou devia dizer Senhora - 
replicou o druida. - j h muito tempo

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que no nos vamos. Queria ter a certeza de que tudo estava bem...

Levou-te bastante tempo , pensou ela sombriamente. Mas podia ver que os recentes 
anos tambm no tinham sido fceis para ele. No era apenas o volume de Huw que o 
fazia parecer mais pequeno; o seu cabelo tinha-se tornado completamente cinzento e 
havia novas rugas  volta da boca e na testa. Tinha sido sempre inflexvel mas, agora, a 
determinao ardia-lhe nos olhos como uma escura chama.

Bendeigid aceitou a taa de madeira decorada a prata que ela lhe estendeu e sentou-se 
num banco. Eilan sentou-se na grande cadeira esculpida.

- Com certeza que essa no  a nica razo por que vieste aqui, meu pai - disse 
calmamente.

- Lhiannon estava velha. - Ele olhou para a sua taa e depois novamente para ela. - No 
me custa a entender que ela no quisesse o seu pas dilacerado pela guerra... e talvez 
fosse por isso que a Deusa tenha aconselhado a paz nestes ltimos anos. Mas agora  
um novo tempo e h uma nova sacerdotisa. No soubeste da batalha a que os Romanos 
chamam de Mons Grapius? Soubeste como as terras dos Votadini se tornaram num 
deserto, no qual uns poucos de sobreviventes lutam pela vida onde uma vez houve uma 
florescente tribo?

Eilan baixou o olhar para fugir ao dele. Tinha, de facto, ouvido falar da batalha por 
algum que nela tinha lutado, e Gaius tinha-lhe contado como nesse Inverno os 
sobreviventes famintos tinham vindo at s muralhas da fortaleza para serem 
alimentados. Era verdade que os Romanos eram os invasores, mas ela sabia que tinham 
sido os homens das tribos que, em desespero, tinham incendiado as suas prprias aldeias 
e massacrado os seus animais para os afastar das mos romanas.

- Voz da Deusa, dizei-me... as lgrimas das mulheres cativas caem como chuva e o 
sangue dos nossos guerreiros mortos grita no cho, porque no os ouve Ela? Por que 
no respondeu a Deusa s nossas oraes, e por que nos aconselha ainda o Orculo a 
manter esta desgraada paz?

Ps-se repentinamente de p, estendendo as mos em direco a ela, e Huw deu um 
grande passo para dentro do quarto. Eilan respirou fundo para esconder o seu espanto e 
fez um gesto

A CASA DA FLORESTA

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para que ele se afastasse. Tinha sempre assumido que o pai estava totalmente a par dos 
conselhos do Arquidruida. Seria possvel que ele no soubesse como Ardanos tinha 
manipulado o Orculo durante todos estes anos?

- Seguramente o meu pai sabe que eu falo apenas os Orculos como me so dados - 
disse tentando acalm-lo. Se ele o sabe, ento disse-lhe a verdade... se no sabe, ento 
no lhe disse nada que no soubesse j.

De facto, o que tinha dito era uma verdade ainda maior que o que Ardanos pensava, 
pois, embora Ardanos traduzisse as respostas dela s suas perguntas como achava 
conveniente, quando a Deusa a enchia, e ela falava directamente ao povo, era a Deusa 
que concordava ou discordava com as polticas do Arquidruida  Sua vontade. At 
agora, pelo menos, os Seus conselhos tinham sido suficientemente pacificadores para 
ele no os questionar.

Bendeigid levantou-se e comeou a andar nervosamente pelo quarto. Disse:

- Devo, ento, rogar-te que rezes  Deusa para que nos vingue. Os espritos das 
mulheres de Mona ainda gritam por vingana.

Ela franziu as sobrancelhas.

- Foi Cynric quem vos enviou para me dizeres isso? - Ela sabia que Gaius o tinha feito 
prisioneiro, e salvo a sua vida e liberdade ao torn-lo num dos refns, mas no sabia o 
que lhe tinha acontecido depois disso.

- Ele foi capturado - resmungou o seu pai. - Iam mand-lo para Roma para divertir o 
Imperador, mas ele matou os guardas e fugiu.

- Onde est ele? - perguntou com algum alarme. Se os romanos o apanhassem agora, 
uma morte rpida era o melhor destino que podia esperar deles.

- No   sei - disse o Druida evasivamente. - Mas h uma grande raiva  a crescer no 
Norte, minha filha. Os Romanos esto a recuar. Os Ravens no foram todos mortos 
nessa batalha e as suas feridas esto a sarar. Se a Deusa no levantar a terra contra os 
Romanos podes ficar certa de que Cynric o far.

- Mas eu apenas falo para os que assistem aos festivais na Colina das Donzelas - disse 
Eilan desconfortavelmente. - Principalmente os Cornovii e os Ordovices, alguns 
Demetae e Silures

376

MARION ZIMMER BRADLEY

e algumas das pessoas mais selvagens das montanhas. O que temos ns a ver com a 
Calednia?

- Ser possvel que no vejas a tua influncia? - olhou directamente para ela, - Os 
Romanos tiraram-nos as nossas terras, subverteram os nossos chefes e proibiram a 
maioria dos nossos ritos religiosos. O Orculo, aqui em Vernemeton,  uma das poucas 
coisas que nos restam, e se pensas que as palavras da Deusa no so repetidas duma 
ponta  outra da Bretanha s uma louca!

Ele no sabe que Ardanos influencia o Orculo , pensou Eilan, mas suspeita. 
Enquanto ela fingisse ignorncia ele no podia pedir abertamente o seu apoio para uma 
insurreio. Mas, eventualmente, os assuntos chegariam ao seu ponto culminante.

- Tenho estado muito isolada... - disse suavemente.
- Mas h peregrinos que vm fazer as suas oraes na Nascente Sagrada. Deixai que 
aqueles que tm notcias venham beber as guas na lua nova de cada ms e se a 
sacerdotisa velada que os atender falar de corvos, deixai que eles falem com ela nesse 
local,

- Ah, Filha! Sabia que no trairias a tua educao! - exclamou, o seu olhar como 
chamas. - Direi a Cynric...

- Dizei-lhe que no fao promessas - interrompeu - mas se desejais que ore  Deusa pela 
Sua ajuda, devo saber o que pedir! No vos posso dar quaisquer garantias em como Ela 
responder...

Bendeigid teria de se contentar com isso. Depois de ele partir Eilan deixou-se ficar 
sentada durante muito tempo a pensar. Era claro que Cynric estava a fazer o que podia 
para comear uma rebelio e que, sem o seu apoio, certamente falharia.

Mas o druida tambm tinha, aparentemente, percebido que ela j era uma mulher adulta 
e que tomaria as suas prprias decises. Quase que valia a pena tudo o que tinha sofrido 
s para poder olhar para ele duma tal posio de poder. Mas, com esse poder, vinha uma 
responsabilidade  qual no podia fugir, no quando podia chegar o dia em que o seu 
pai e o seu irmo adoptivo enfrentassem o pai do seu filho num campo     de batalha.

E se isso acontecer, o que farei? Eilan fechou Os Olhos angustiada.  Querida Deusa, 
o que farei eu?

A CASA DA FLORESTA

377

 medida que a filha de Julia crescia   habituaram-se a cham-la Cella , pois parecia 
ridculo referir-se a uma coisa to pequena por um nome to comprido. Mas Gaius 
esperou em vo pelo vinculo que tinha sentido com o pequeno Gawen quando o viu pela 
primeira vez nos braos de Eilan. Seria, ento, uma coisa que s acontecia entre um 
homem e o seu filho primognito? Ou era porque ele no tinha um vnculo desse tipo 
com a me da criana?

Ao menos Julia no parecia achar estranho que ele mostrasse pouco interesse por uma 
filha. E Cella era um beb sossegado, que cedo prometeu vir a ser bonita, e era a delcia 
do corao do seu av. Julia passava a maior parte do seu tempo com a criana, a vesti-
la com roupas belamente bordadas, o que parecia a Gaius uma perda de tempo, e, na 
altura em que a rapariga tinha um ano de idade, Julia estava outra vez grvida. Desta 
vez ela estava absolutamente certa que seria o filho to desejado. Uma vidente, 
consultada por ordem de Julia, garantiu que era um filho que aguardava o nascimento, 
mas Gaius no estava to certo.

Finalmente, contudo, ele no teve de sofrer com a sua mulher ao longo desta gravidez. 
As guerras na Dcia estavam a correr mal. Gaius sentiu uma pancada de dor quando 
ouviu que a II Legio estava para ser evacuada e a fortaleza que tinham construdo no 
Norte destruda. Admitia que se tinha tornado evidente que o Norte no podia ser 
mantido sem um muito maior investimento em homens e material que o que o Imprio 
podia dispor. Muitas vidas podiam ter sido poupadas, pensou Gaius sombriamente, se 
tivessem tido o bom senso de o ter visto h trs anos!

Habituou-se a passar o seu tempo livre no posto do exrcito, a ouvir as notcias. 
Cumprindo ordens do Imperador, o novo governador, Sallustius LucuIlus, tinha 
ordenado que todas as fortalezas mais a norte fossem abandonadas, os seus muros 
deitados abaixo e os edifcios de madeira queimados, para que nada restasse que 
pudesse ser til ao inimigo. A vigsima desceu do Norte e instalou-se no seu antigo 
aquartelamento em Glevunl, mas ningum sabia por quanto tempo.

378

MARION ZIMMER BRADLEY

Foi a II Legio, contudo, que recebeu ordens de partir de Deva para Dcia. Macellius, 
anunciando que estava velho de mais para andar a arrastar-se pelo Imprio, decidiu que 
era tempo de se aposentar e comeou a planear uma nova casa em Deva. Gaius, no 
entanto, ficou surpreendido com um convite do novo comandante dos legionrios para 
se juntar ao seu pessoal e velejar com eles. O que o espantou quase tanto foi o facto de 
at Licinius no objectar quando ele revelou que gostaria de aceitar a oferta.

- Sentiremos a tua falta, rapaz - disse o ancio -, mas chegou a altura de pensares na tua 
carreira agora que j comeaste a tua famlia. No tenho eu estado a cantar os teus 
louvores por toda a Londinium exactamente por essa razo?  uma pena que no estejas 
aqui para o nascimento do teu segundo filho, mas era de esperar. No te preocupes com 
Julia... eu cuidarei dela. Tu, cumpre o teu dever e volta coberto de glria!

VINTE E DOIS

Dieda voltou  Casa da Floresta em meados de Maio, um pouco mais de quatro anos 
depois de ter partido para o seu exlio em Eriu. Para esta ocasio o dia estava ensolarado 
e Eilan recebeu-a no jardim, na esperana de que o seu encontro pudesse ser facilitado 
por um ambiente mais informal, mas, mesmo assim, pediu a Caillean que ficasse junto 
dela.

- Dieda, minha filha,  bom ver-te. j se passou tempo de mais... - Abraaram-se 
cerimoniosamente, encostando a face uma  outra.

Dieda vestia um vestido solto de linho branco ao estilo irlands, maravilhosamente 
bordado, com um manto de bardo azul-celeste, orlado por uma franja dourada e seguro 
por um alfinete de ouro. O seu cabelo, preso por uma faixa bordada, caa em pequenos 
anis mas, apesar do traje festivo, os seus modos pareciam forados.

- Ah, j me tinha esquecido da paz deste lugar... - disse Dieda, olhando  sua volta para 
os canteiros de hortel dum brilhante verde e para a prateada folhagem da alfazema, 
onde abelhas zumbiam entre as flores prpura.

- Receio que nos vs achar bastante sossegadas depois de todos os reis e prncipes de 
Eriu. - Eilan reencontrou a voz.
-  uma bela terra, decerto, e que aprecia muito os cantores

e poetas, e todos os tipos de fazedores de msica, mas depois dum certo tempo 
comeamos a ter saudades do nosso prprio pas.
- Bem, minha filha, o que  certo  que tens a cadncia

exacta de Eriu na tua voz - observou Caillean. -  bom ouvir essa msica de novo!

Decerto, ningum que a ouvisse falar nos confundiria agora , pensou Eilan. No era 
apenas uma questo de acento, mas de

380

MARION ZIMMER BRADLEY

profundidade de timbre. A voz de Dieda tinha sido sempre agradvel, mas agora usava-
a como um instrumento bem afinado. Mesmo palavras desagradveis ditas numa voz to 
bonita podiam ser mais facilmente perdoadas.

- Tive tempo suficiente para a adquirir - disse Dieda. O seu olhar voltou-se para Eilan. - 
Parece que estive fora quase metade duma vida.

Eilan assentiu. Ela prpria tambm se sentia um sculo mais velha do que a rapariga que 
Lhiannon tinha escolhido para sua sucessora h cinco anos. Havia, no entanto, uma 
curva de petulncia na boca de Dieda. Ainda se ressentiria de ter sido mandada embora?

- Foi o tempo suficiente para que uma meia dzia de novas raparigas viessem at ns - 
disse simplesmente. - Um grupo prometedor... penso que a maioria eventualmente 
tomar os seus votos.

Dieda olhou para ela.

- E o que tens em mente para mim?

- Ensina essas raparigas o mais que puderes sobre as habilidades que aprendeste! - Eilan 
inclinou-se para a frente. - No me refiro apenas aos hinos para tornar os nossos rituais 
mais belos, mas tambm ao saber antigo, s tradies dos deuses e dos heris.
- Os sacerdotes no vo gostar disso.

- No podero dizer nada - disse Eilan. Os olhos de Dieda abriram-se. - Hoje em dia os 
chefes das tribos compram tutores de latim para os filhos, e ensinam-lhes a recitar 
Virglio e a apreciar vinhos italianos. Esto a tentar o melhor que podem para 
transformar os nossos homens em romanos, mas no se importam com o que as 
mulheres fazem. O derradeiro santurio da velha sabedoria do nosso povo pode ser que 
esteja aqui, em Vernemeton, e eu no deixarei que se perca!

- Realmente, as coisas mudaram mesmo desde que parti.
- Pela primeira vez, Dieda sorriu. Depois, os seus olhos fixaram-se em algo para l de 
Eilan e a sua expresso mudou.

Gawen estava a correr na direco delas, com a ama a arrastar-se atrs dele. As mos de 
Eilan torceram-se nas dobras do seu vu quando lutou contra a vontade de estender os 
braos e abra-lo.

- Senhora da Lua! Senhora da Lua! - gritou, depois parou e perscrutou a face de Dieda. - 
Tu no s a Senhora da Lua!
- disse desaprovadoramente.
A CASA DA FLORESTA

381

- j no - disse Dieda com um estranho sorriso.

- Esta senhora  a nossa parenta Dieda - disse Eilan com os lbios rgidos. - Ela canta 
to bem como qualquer pssaro. Durante uns instantes o rapaz olhou duma para a outra, 
com

o sobrolho franzido. Os seus olhos eram da mesma mutvel cor de avel dos de Eilan, 
mas o seu cabelo era escuro e encaracolado como o do pai, e teria a mesma testa ampla 
quando fosse homem.

- Desculpai, minha Senhora - disse Lia ofegante, apanhando-o e agarrando-lhe na mo. - 
Ele fugiu-me!

O lbio inferior de Gawen comeou a tremer e Eilan, reconhecendo o sinal, fez um 
gesto  ama para o deixar ficar. Suponho que o estragmos, pensou, mas ele  to 
pequeno, e vamos perd-lo to depressa!

- Querias ver-me, meu filho do corao? - perguntou suavemente. - Agora no posso 
brincar, mas se vieres ter comigo ao pr do Sol iremos l abaixo dar de comer ao salmo 
no Lago Sagrado. isso far-te- ficar feliz?

Solenemente Gawen assentiu. Ela estendeu a mo para lhe tocar na face, e prendeu a 
respirao quando ele franziu as sobrancelhas e lhe apareceram subitamente covinhas 
nas faces. E depois, to rapidamente como tinha chegado, atirou-se para a ama e deixou-
a lev-lo. O dia pareceu escurecer depois de ele se ter ido embora.

-  esta a criana? - perguntou Dieda no silncio que se seguiu  sua partida. Quando 
Eilan fez que sim com a cabea, a fria chamejou nos seus olhos azuis. - s louca em 
mant-lo aqui! Se ele for descoberto estamos todas perdidas! Terei eu passado quatro 
anos no exlio para que tu pudesses gozar os prazeres da maternidade assim como a 
honra de ser a Gr Sacerdotisa?

- Ele no sabe que eu sou me dele - murmurou Eilan gaguejando.

- Mas podes v-lo! Eles no o mataram... nem a ti! Deves-me isso, Oh, sagrada Senhora 
da Lua de Vernemeton! - Dieda comeou a andar para trs e para a frente, vibrando 
como uma das cordas da sua harpa.

- Tem um pouco de piedade, Dieda - disse severamente Caillean - o rapaz ser adoptado 
dentro de um ou dois anos e ningum sabe de nada.

382

MARION ZIMMER BRADLEY

- Ento de quem  que se pensa que ele  filho? - cuspiu Dieda por cima do ombro. - Da 
pobre da Mairi, ou talvez de mim? - Pde ver a resposta nas suas faces. - Bem. Agora 
que acabei o teu exlio, tenho tambm que suportar a tua vergonha. Bom, quando me 
virem com o rapaz talvez esse rumor morra. Pois, devo avis-las, no gosto nem um 
pouco de crianas!

- Mas ficars, e calar-te-s? - perguntou rudemente Caillean.
- F-lo-ei - disse Dieda depois de algum tempo -, pois acredito no trabalho que aqui 
esto a fazer. Mas, Eilan, ouve-me bem, pois j to disse antes quando concordei com a 
substituio... se alguma vez trares o teu povo, ento acautela-te, pois eu serei a tua 
perdio!

A lua nova ia j alta no cu do pr do Sol, dando um brilho prateado s opalescentes 
guas do Lago Sagrado. O salmo tinha vindo quando chamado e tirado o bolo que 
Gawen lhe ofereceu, quase da mo do rapaz. Eilan esperou at conseguir ouvir o seu 
tagarelar morrer no silncio do entardecer, depois puxou o vu sobre o rosto e tomou o 
caminho que levava at ao santurio que tinham construdo  volta da nascente que 
alimentava o lago.

As suas donzelas pensavam que era uma grande bondade a sua Gr Sacerdotisa tomar a 
sua vez para atender aqueles que vinham  Casa da Floresta para se aconselharem. E 
muitas vezes era isso o que Eilan fazia, servindo como um compassivo ouvido para os 
sofredores, ou encaminhando os que tinham problemas mais tangveis para uma das 
mulheres de feitios ou s herboristas. Mas, desde que teve conhecimento dos planos de 
Cynric para uma insurreio, subia este caminho com um pequeno tremor, temendo as 
noites em que aquele que aguardava murmurasse sobre corvos e rebelio.

Estava frio no santurio; Eilan enrolou o manto com mais fora  sua volta, deixando 
que o murmrio da gua corrente a acalmasse. A gua saa duma fissura na rocha, com a 
figura esculpida da Senhora colocada num nicho por cima dela, e corria para o canal que 
levava ao poo e ao Lago Sagrado.

Fonte da vida  rezou, inclinando-se para apanhar alguma gua gelada na mo, e tocar 
com ela nos lbios e na testa. Agua sagrada, nascendo para todo o sempre, enchei-me 
com a vossa

A CASA DA FLORESTA

383

serenidade. Depois, acendeu a lamparina por baixo da imagem, e preparou-se para 
esperar.

A Lua ia alta no cu quando ouviu os passos arrastados de algum que, ou estava doente 
ou exausto, a esforarem-se pelo caminho acima. A sua garganta apertou-se quando a 
escura figura apareceu na soleira da porta. Era um homem, enrolado num grosseiro 
casaco que podia pertencer a qualquer lavrador, mas por baixo do velho manto sangue 
manchava as suas calas axadrezadas. Quando a viu, alguma da tenso desapareceu dele 
com um longo suspiro.

- Descansa, bebe, recebe a paz da Senhora- - murmurou ela. Ele deixou-se cair de 
joelhos e apanhou com as mos alguma gua do canal, visivelmente a fazer um esforo 
por se controlar.

- Tenho estado a lutar... os corvos voaram sobre o campo de batalha - sussurrou ele, 
olhando para ela.

- Os corvos tambm voam  meia-noite - respondeu.
- O que tens para me dizer?

- O levantamento... estava marcado para o Solestcio de Vero. Os capotes vermelhos 
descobriram-no de qualquer maneira, atacaram--nos... - Passou a mo pelos olhos. - Na 
noite antes da de ontem.

- Onde est Cynric? - perguntou ela, a voz baixa e rpida.
O seu irmo adoptivo estava ainda entre os vivos? - O que quer ele de ns aqui?

O homem encolheu os ombros desamparadamente.

- Cynric? Em fuga, provavelmente. Pode ser que haja mais como eu a vir at aqui, 
necessitando dum lugar onde lamber as suas feridas,

Eilan assentiu.

- Por trs das nossas cozinhas h um caminho que leva at  floresta. Conduz a uma 
cabana que as nossas mulheres usam por vezes para meditarem. Podes dormir a, e 
algum ir at l com comida. - Os ombros dele abateram-se, e ela pensou se ele teria 
foras para chegar to longe.

- Abenoada seja a Senhora           murmurou ele - e uma bno para vs, por me 
ajudardes.       Conseguiu pr-se de p, saudou a imagem e depois, mais silenciosamente 
que ela pensaria ser possvel, partiu.

384

MARION ZIMMER BRADLEY

Mas Eilan deixou-se ficar sentada durante muito tempo depois de ele a ter deixado, a 
ouvir o chapinhar da gua e a observar o hipntico tremeluzir da lamparina na parede.

Deusa , rezou, tende piedade de todos os fugitivos... tende piedade de todos ns! 
Dentro de um ms ser o solestcio de Vero; Ardanos querer que eu diga ao povo para 
aceitar este ltimo golpe e o meu pai querer que eles se levantem para vingar os 
Ravens a ferro e fogo. O que lhes deverei dizer? Como poderemos trazer a paz a esta 
terra?

Esperou o que pareceu um longo tempo, mas a nica viso que lhe chegou foi a da gua 
continuamente a nascer da rocha e a  correr pela colina abaixo.

Gaius estava sentado a escrever nos seus aposentos, no forte em Colonia Aggripensis, a 
ouvir a chuva. Tinha a impresso de que a Germania Inferior no era verdadeiramente 
melhor que a Bretanha, mas a Primavera tinha sido chuvosa. Por vezes, os dois anos que 
se tinham passado desde que tinha partido, primeiro nas terras a norte e a oeste da Itlia, 
depois aqui, onde a garganta do Reno acabava e ele comeava as suas deambulaes 
atravs de planos brejos em direco aos mares do Norte, pareciam apenas semanas. 
Mas hoje sentia-se como se estivesse longe de casa h sculos.

Mergulhou a pena no tinteiro e comeou a formar as letras da frase seguinte, da carta 
que estava a escrever a Licinius. Dois anos de correspondncia regular, reflectiu 
contorcidamente, tinham-no tornado num escrivo quase to destro como o seu escravo 
secretrio; ao princpio tinha sido duro, mas ele tinha acabado por apreciar o valor da 
correspondncia particular.

... os ltimos dos legionrios que no ano passado seguiram Satuminus na rebelio 
acabaram de ser julgados e, na sua maioria, divididos e integrados noutras legies , 
escreveu cuidadosamente. A nova ordem do Imperador de manter apenas uma legio 
em cada campo est a causar alguns inconvenientes, e uma grande quantidade de 
trabalho aos engenheiros. No sei se isso desencorajar a conspirao, mas pode ser 
uma boa coisa ter as nossas foras espalhadas duma maneira mais dispersa ao longo da 
fronteira. A ordem foi implementada na Bretanha?

A CASA DA FLORESTA

385

Fez uma pausa durante uns instantes, ouvindo o barulho das sandlias ferradas na pedra 
quando a sentinela passou, depois inclinou-se de novo para o seu trabalho.

As notcias aqui so que os Marcomanni e os Quadi esto de novo desassossegados e 
que Domiciano teve de fazer uma pausa na sua campanha contra a Dcia para tratar 
deles. O meu conselho seria tornar o Rei Decebalus num aliado, se possvel, e usar os 
Dacianos para lidarem com os Marcomanni. O Imperador, contudo, ainda no me 
incluiu entre o selecto crculo dos seus conselheiros, por isso quem sabe o que ir 
fazer?

Sorriu, sabendo que Licinius perceberia o seu humor. Tinha estado na presena do 
Imperador por diversas vezes antes de ter sido transferido da II Legio, na Dcia, para 
um posto de comando de cavalaria na Germania, mas duvidava de que Domiciano 
tivesse sequer reparado na sua existncia.

O treino com a minha ala de cavalaria est a correr bem. Os brigantes aqui colocados 
so cavaleiros destemidos e muito gratos por terem um comandante que lhes pode falar 
na sua lngua. Os desgraados devem ter tantas saudades de casa como eu. Da o meu 
amor a Julia e s crianas. Suponho que nesta altura j Cella esteja uma grande rapariga 
e  dificil acreditar que Secunda j tenha mais de um ano.

Penso na Bretanha como um cu de paz quando comparada com a fronteira da 
Germania , continuou, mas suponho que  uma iluso. Ouvi um dos homens no meu 
comando a falar sobre corvos e subitamente fiquei a pensar sobre a sociedade secreta de 
que costumvamos ouvir falar em anos passados ... 

Mais uma vez fez uma pausa, dizendo a si prprio que a ansiedade que o tinha 
subitamente invadido era apenas a reaco  chuva; mas antes que pudesse voltar  sua 
escrita, algum bateu  porta com a mensagem que o Legado queria v-lo, pelo que 
vestiu o seu capote e deixou os aposentos, pensando o que poderia ser.

- So novas ordens, tribuno - disse o seu comandante. E devo dizer que lamento perder-
te, pois estavas a inserir-te bem aqui...

- A ala vai ser transferida? - Gaius olhou para ele com alguma confuso, pois uma 
notcia deste tipo era geralmente precedida por uma onda de boatos no campo.

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MARION ZIMMER BRADLEY

- Apenas tu, rapaz, o que ainda  pior. Vais ser transferido para o pessoal do 
Governador da Bretanha. Parece que houve uma espcie de luta local e eles precisam 
dum homem com a tua experincia local l.

Os Ravens ...  pensou Gaius, e veio-lhe  memria a face de Cynric, tal como a tinha 
visto da ltima vez, sombria com o dio. Daqui em diante prestarei mais ateno s 
minhas premonies. Podia ver a mo de Licinius nesta convocao. Como um oficial 
no meio de muitos outros, na fronteira, apenas a maior das boas sortes faria com que 
algum que lhe pudesse oferecer um apadrinhamento til reparasse nele. Mas se 
conseguisse evitar uma rebelio...

Sem dvida que Licinius se devia estar a felicitar por ter encontrado um meio de o 
genro cumprir o seu dever e, ao mesmo tempo, fazer avanar a sua carreira. Apenas 
Gaius saberia, ou se importaria, que para o fazer iria ter de destruir um homem que tinha 
sido seu amigo. Deu uma resposta polida qualquer ao seu comandante, mal ouvindo a 
resposta, e voltou aos seus alojamentos para emalar o seu equipamento.

 medida que se aproximava o solestcio de Vero, murmrios do destino da rebelio 
dos Ravens circularam pelo pas. Eilan tinha esperado que o governador proibisse as 
reunies pblicas em resposta ao levantamento, mas parecia que a linha oficial era a de 
desencorajar o apoio popular, ao recusar-se a admitir que algo estava mal. Mas, pelos 
refugiados, Eilan soube que Cynric tinha voltado para os seus amigos do Norte e 
levantado uma fora com os sobreviventes de Mons Grapius, com homens dos Ravens a 
chefi-los. Isso tornou-se bastante simples pois os romanos tinham-se pura e 
simplesmente retirado do deserto que tinham criado, deixando o povo sem nada para os 
sustentar a no ser o seu dio.

Mas depois tinha tentado levantar a Brigantia, onde  severidade com que a rebelio de 
Venutius tinha sido reprimida se tinham seguido algumas tentativas para reconstruir a 
provncia. Foi provavelmente algum homem dos Brigantes, pensou Eilan, ou talvez, 
lembrando~se de Cartimandua, uma mulher que os traiu, por ter decidido que uma 
prosperidade limitada era prefervel  espada romana.

A CASA DA FLORESTA

387

isolados, ou em grupos de dois, os Ravens caminharam para Sul, angustiados pela dor 
ou sombrios com o desespero. Eram tratados pelas mulheres de mais confiana de Eilan, 
recebiam novos nomes e roupas e mandados embora. Eles informaram-na de que Cynric 
ainda estava no Norte com um remanescente de homens no feridos, sendo perseguido 
por um destacamento especial das legies. Os Calednios tinham-se dissolvido de novo 
nas suas montanhas, mas os Ravens eram homens sem cl e no tinham casas para onde 
fugir quando no podiam lutar mais.

Os que vieram at  Casa da Floresta eram da idade de Cynric, mas o sofrimento tinha-
os transformado em velhos. Eilan olhava para eles com angstia, pois alguns, como o 
seu Gawen, mostravam o seu sangue romano nas faces. Na sua viso, tinha visto que era 
preciso que o sangue de Roma e o das tribos se misturassem. Mas o Merlin no tinha 
dito se isso seria feito em amizade, ou por gerao aps gerao, nas quais os homens 
plantassem a sua semente e morressem, deixando mulheres a lamentar-se para 
prosseguirem.

Ardanos e Lhiannon, recordando a violao de Mona, tinham escolhido uma poltica de 
acomodao como sendo o menor dos males; o seu pai e Cynric pareciam sentir que a 
morte era prefervel  escravatura. Ao ver Gawen crescer, Eilan sabia que s ela 
protegeria o seu filho.

E assim os dias cada vez mais compridos trouxeram-nos finalmente at ao Solestcio de 
Vero, e as sacerdotisas da Casa da Floresta saram para a Colina das Donzelas para 
executar o ritual.

j da avenida, Eilan conseguiu ver o brilho das fogueiras em   cima do monte e os arcos 
de chamas que os archotes traavam de encontro ao escuro cu. Os tambores pulsavam 
com uma pesada insistncia, o seu bater tornando-se cada vez mais profundo at se 
transformar num ribombar, enquanto os jovens do pas competiam a ver quem atirava os 
seus archotes mais alto. Reis e armadas podiam vir e partir novamente, mas a verdadeira 
luta
- por vezes parecia a Eilan a nica luta que interessava - era a que os homens tinham 
todos os anos para proteger os seus campos e cuidar das novas colheitas.

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Podia ouvir,  distncia, o mugir do gado que j tinha sido protegido por ter sido levado 
pelo meio das fogueiras sagradas; cheirou o cheiro do fumo e comida cozinhada, e a 
picante fragrncia de flor-de-diana e hiperico da sua grinalda.

- Oh, olhai - disse Senara, a seu lado. - Vede a altura a que eles atiram os archotes; 
parecem estrelas cadentes!

- Possam as colheitas crescer to alto como os archotes sobem! - respondeu-lhe 
Caillean.

Tinham trazido um banco para Eilan se sentar at ser altura do rito do Orculo; 
aconchegou-se ali, agradecida, deixando a murmurada conversa das outras mulheres 
redemoinhar  sua volta, No eram apenas as colheitas que cresciam, pensou, ao ouvir o 
comentrio de Senara. A assustada criana de oito anos de idade que tinha sido deixada 
ao seu cuidado h cinco anos estava-se a tornar numa donzela de pernas altas e com 
uma promessa de beleza nos seus compridos ossos e cabelo ambarino.

Houve um ltimo crescendo no monte e as fogueiras pareceram explodir para todos os 
lados quando rapazes lhes arrancaram ramos em fogo e correram pelo monte abaixo, em 
todas as direces, para levar o seu protector poder solar para os campos.
O rufar dos tambores estabilizou-se num hipntico ritmo e Eilan sentiu a familiar 
vibrao do transe que se aproximava.

J falta pouco agora, pensou, e depois, o que quer que advenha do trabalho desta noite, 
j estar feito. Pela primeira vez em anos tinha misturado as mais poderosas ervas de 
transe na poo, com receio que os seus prprios medos pudessem impedir a Deusa de 
se revelar. Sabia que Ardanos tambm estava ansioso, se bem que a sua face no o 
mostrasse. Ele era como uma imagem esculpida, pensou, uma concha na qual o esprito 
tremulava ainda mais capazmente, e ela tinha visto como ele tinha precisado do apoio 
do seu bordo de carvalho, Um dia, talvez cedo, ele ter-se-ia ido. Tinha havido alturas 
em que ela o tinha odiado, mas nos ltimos anos tinham chegado a um entendimento 
mtuo, sem palavras. E no se sabia quem iria ser o seu sucessor.

Mas esse era um medo que ela podia enfrentar depois de esta noite se ter passado. A 
procisso estava a comear a mover-se. Eilan deixou que Caillean a ajudasse a pr-se de 
p e comeou a subir a colina.

A CASA DA FLORESTA

389

os druidas estavam a cantar; a sua cano vibrava atravs do quente ar.

Olhai, a sagrada sacerdotisa que chega, Ervas sagradas esto na sua coroa;

o crescente dourado na sua mo...

Mesmo depois de cinco anos, havia sempre um momento de surpresa quando Eilan 
sentia a vaga de expectativa da multido ali reunida. E tinha certamente esquecido a 
nusea, e o doentio abandono da conscincia quando as drogas comearam a tomar 
posse dela. Lutou contra a vacilao de pnico quando o mundo comeou a girar  sua 
volta. Tinha procurado isto; quer por falta de f ou por cobardia, no estava certa, mas 
desta vez ela queria que o mundo se fosse.

Senhora da vida, a vs confio o meu esprito. Me, sede misericordiosa para com todos 
os teus filhos!

Anos de prtica tinham-lhe dado o controlo total das tcnicas de focagem e de 
respirao que libertavam o esprito do corpo. As ervas na poo ajudavam o processo, 
como se a sua cabea tivesse sido despedaada como uma bacia partida para que outro 
pudesse fluir para dentro de si, pondo a sua conscincia para o lado como uma folha 
num ribeiro.

Eilan sentiu as sacerdotisas a coloc-la na cadeira e a instvel sensao de queda, se 
bem que soubesse que elas a estavam a levantar. O seu esprito oscilava entre o cu e a 
terra; houve um ligeiro solavanco quando colocaram a cadeira no cimo do monte, e ela 
viu-se livre.

Estava a flutuar numa bruma dourada, e durante algum tempo bastou-lhe simplesmente 
apreciar a sensao de estar a salvo, protegida e em casa. Suspensos nesta certeza, os 
medos que tinha deixado para trs de si pareciam transitrios, mesmo absurdos. Mas o 
cordo de prata que ainda a ligava ao seu corpo no a libertaria por completo, e, nesta 
altura, muito relutantemente, a bruma tornou-se mais fina o suficiente para ela poder ver 
e ouvir-

Olhou para baixo, para o amontoado de roupas azuis na cadeira alta e viu o seu corpo, 
fracamente iluminado pelos ties das fogueiras, uma de cada lado. os sacerdotes e 
sacerdotisas formaram um crculo, com as pessoas atrs deles, plidos vestidos

390

MARION ZIMMER BRADLEY

num dos lados e escuros do outro, formando duas grandes curvas de luz e sombra. A 
grande massa do povo que tinha vindo ao festival escurecia a encosta da colina; pontos 
de fogo piscavam das barracas e tendas do acampamento que tinha brotado  sua volta. 
Para l deles estendia-se a miscelnea de campo e floresta, com o plido brilho de 
estradas cortando atravs de rvores. Sem curiosidade reparou num turbilho de 
movimento numa das zonas da multido, e, mais ao longe, num movimento mais 
regular ao longo da estrada de Deva, e no brilho quando metal reflectiu a luz da Lua que 
se punha.

Os druidas estavam a invocar a Deusa, entretecendo todos os incoerentes imaginrios do 
povo numa nica, poderosa imagem, a qual era, simultaneamente, to variada como as 
pessoas que ali ecoavam a sua chamada. Eilan viu o poder que eles estavam a levantar 
como um remoinho de luz multicolorida e apiedou-se da frgil forma humana sobre a 
qual estava a descer. Nesta altura, o seu corpo estava quase escondido; a energia estava 
a tomar forma; viu uma figura feminina, herica na estatura e esplndida na forma, se 
bem que as feies ainda no pudessem ser entrevistas.

Eilan aproximou-se, pensando que face a Senhora iria usar neste ajuntamento.

E neste momento o distrbio na multido atingiu o centro; viu o brilho vermelho de 
espadas e ouviu vozes masculinas, roucas com a angstia, a gritar:

- Grande Rainha, ouvi-nos! Cathubodva, chamamos-vos... Senhora dos Ravens, vingai 
os vossos filhos!

Ardanos virou-se, a sua face contorcendo-se, mas a intensidade emocional daquela 
chamada tinha feito o seu trabalho. Um turbilho de escuras sombras aladas esvoaaram 
pelo crculo quando um sbito vento gelado avivou as fogueiras; e a figura na cadeira 
pareceu expandir-se subitan
mente e sentou-se completamente direita, arremessando o vu para o lado.

- Ouo a tua chamada e venho - disse na linguagem das tribos. - Quem  aquele que se 
atreve a chamar-me?

O murmrio de medo que tinha percorrido o crculo caiu at um absoluto silncio 
quando um homem coxeou para dentro do crculo de luz das fogueiras. Eilan 
reconheceu Cynric, uma ligadura ensanguentada  volta da cabea e uma espada nua na 
mo.

A CASA DA FLORESTA

391

- Me, sou eu que vos chamo; eu que sempre vos servi! Senhora dos Ravens, levantai-
vos agora em fria!

A cadeira estalou quando a figura que a estava sentada se inclinou para a frente.  luz 
das fogueiras a Sua face e o Seu cabelo estavam to vermelhos como a espada de 
Cynric. Ardanos olhou de um para o outro tentando decidir-se a acabar com isto; mas a 
fora que os ligava era muito forte e ele no se atreveu.

- Bem, de facto tens~me servido... - A sua voz rasgou o silncio. - Cabeas decepadas e 
corpos desmembrados so as tuas oferendas, sangue a libao que tu vertes no solo. Os 
choros das mulheres e os gemidos dos moribundos so a tua msica sagrada; os teus 
fogos rituais so alimentados pelos corpos de homens... Chamaste-me, corvo vermelho. 
O que queres tu, agora que eu vim?

Ela sorriu terrivelmente, e se bem que fosse o solestcio de Vero o vento ficou 
subitamente gelado, como se a escurido de Cathubodva tivesse matado o Sol. O povo 
comeou a recuar. Apenas Cynric, Ardanos e as duas sacerdotisas se mantiveram no seu 
lugar.

- Destri os invasores; fulmina os espoliadores da nossa terra! Vitria, Senhora,  o que 
eu peo!

- Vitria? - Medonhamente, a deusa da guerra comeou a rir, - Eu no dou a vitria... eu 
sou a noiva da batalha; eu sou a mo devoradora; a morte  a nica vitria que 
encontrars nos meus braos! - Ela levantou as mos e as pregas do seu manto 
esvoaaram como escuras asas. Desta vez at Cynric recuou.

- Mas a nossa causa  justa... - gaguejou.

- Justia! Alguma vez h justia nas guerras dos homens? Tudo o que os Romanos vos 
fazem, homens do vosso sangue fizeram uns aos outros e aos povos que estavam antes 
deles nesta terra! O vosso sangue alimenta a terra quer morram na palha ou no campo de 
batalha... no faz qualquer diferena para Mim! Cynric estava a abanar a cabea 
desnorteadamente.

- Mas eu lutei pelo meu povo. Pelo menos dizei-me que os nossos inimigos tambm 
sofrero um dia...

A Deusa inclinou-se para a frente, olhando-o fixamente, e ele no conseguiu desviar o 
olhar.

- Eu vejo... - murmurou ela. - Dos ombros brilhantes dos deuses os corvos esto a 
levantar voo; no mais eles os aconse-

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MARION ZIMMER BRADLEY

lharo. Em vez disso  uma guia a quem ele d as boas-vindas. Ele tornar-se- numa 
guia, atraioada e traioeira, sofrendo nos ramos do carvalho at se tornar num deus de 
novo...

- Eu vejo a guia obrigada a levantar voo por um cavalo branco que galopa vindo do 
outro lado do mar. Agora a guia junta-se com o drago vermelho e, juntos, combatem 
o alazo, e o alazo luta com drages vindos do Norte e lees do Sul... Eu vejo um 
animal a matar o outro e a erguer-se por sua vez para defender a terra. O sangue de 
todos eles alimentar a terra, e o sangue de todos eles misturar-se-, at nenhum homem 
poder dizer quem  o inimigo...

Houve silncio no crculo quando ela acabou, como se as pessoas no soubessem se 
deviam ter esperana ou medo. Dum local mais distante chegou o mugir do gado, e um 
som como o de bater de tambores, se bem que os msicos estivessem imveis.

- Dizei-nos, Senhora... - Cynric rouquejou como se tivesse dificuldade em fazer as 
palavras sair. - Dizei-nos o que devemos fazer...

A Senhora sentou-se para trs e, desta vez, o seu riso foi longo e divertido.

- Fugi - disse Ela suavemente. - Fugi agora, pois os vossos inimigos esto sobre vs. - 
Ela levantou a cabea e olhou  volta do crculo. - Todos vs, parti rpida e 
calmamente, e vivereis... por algum tempo.

Algumas das pessoas comearam a afastar-se das fogueiras, mas os restantes 
continuavam a olhar como que encantados.
- Ide! - Ela levantou a mo, e uma asa de escurido passou

sobre o crculo. Postas em movimento, as pessoas comearam a empurrar os seus 
vizinhos como os primeiros calhaus rolantes numa avalanche de pedras. - Cynric, filho 
de Julius, corre gritou ela de repente. - Corre, pois as guias esto a chegar!

E,  medida que o povo fugia, o distante rufar dos tambores tornou-se num presente 
ribombar e a cavalaria romana carregou.

Gaius deixou que o mpeto da carga o transportasse para a frente, desejando que a sua 
conscincia se confinasse ao movimento do cavalo por baixo de si e aos cavaleiros um 
de cada lado,  elevao do solo, s fugidias formas dos homens e mulheres e

A CASA DA FLORESTA

393

ao brilho das chamas. Tentou banir as memrias que coloriam as Suas percepes, mas 
continuava a ver uma lua cheia e danarinos, Cynric a andar de mo dada com Dieda e a 
rosada face de Eilan iluminada pelas fogueiras de Beltane.

As armaes anteriores da sua sela espetaram-se nas suas ndegas quando a inclinao 
se acentuou; agarrou-se com os joelhos e preparou a lana e o escudo, perscrutando as 
figuras em fuga  procura de homens armados. As suas ordens tinham sido bem claras - 
evitar massacrar uma populao pacfica, mas impedir que os rebeldes fugitivos no 
meio deles escapassem. O Legado no tinha explicado como, na confuso e na 
escurido, isso podia ser feito.

Ainda amaldioando o destino que o tinha enviado atrs de Cynric e dos Ravens para, 
de todos, este lugar, Gaius viu um lampejo de metal, uma branca face contorcendo-se de 
medo ou de fria. Respostas nele incutidas por dez anos de soldado fizeram com que o 
seu brao se movesse sem necessidade de deciso. Sentiu a contraco muscular e o 
puxo quando a lana atravessou carne e se libertou de novo, e o rosto desapareceu.

A carga estava a abrandar; atingiram o achatado topo da colina e viram-no quase 
deserto, se bem que pessoas estivessem a fugir em todas as direces. Uma concisa 
ordem ao seu optio enviou-o para o exterior em perseguio. A sua montada quase se 
empinou quando uma branca figura agitou os braos loucamente, gritando qualquer 
coisa sobre terreno sagrado. Gaius guiou o animal com os joelhos num balouante meio 
galope  volta do permetro,  procura de Cynric, ouviu o bater de metal do outro lado 
do monte, no centro, e dirigiu-se nessa direco.

E, subitamente, a sua montada mergulhou a relinchar de terror, quando uma asa de 
sombra rodopiou  sua volta e algum gritou. No foi medo que ele ouviu mas ira, 
angstia; um grito que continha todo o horror, medo e fria de todos os campos de 
batalha do mundo; um guincho que tornou os intestinos em gua e fez tremer os ossos. 
Todos os animais que o ouviram ficaram enlouquecidos por instantes, e todos os 
humanos sentiram o esprito dentro de si tremer com o medo. Gaius perdeu as rdeas e a 
lana, e agarrou-se  crina do cavalo enquanto o mundo girava  sua volta. O rosto 
duma Fria estava suspenso  sua frente, aureolado por agitadas gavinhas de brilhante 
cabelo.

394

MARION ZIMMER BRADLEY

A sua montada mergulhou em frente e ele entrou na tremente luz das fogueiras; a toda a 
sua volta homens estavam imobilizados como se por algum feitio. Depois, o seu cavalo 
imobilizou-se, a tremer, e as pessoas comearam a mover-se novamente. Mas ele ainda 
podia ver o terror nos seus olhos. Inspirou fundo, percebendo que a surpresa se tinha 
perdido, e olhou  sua volta.

Alguns dos druidas estavam a amparar um homem de branco que, percebeu chocado, 
devia ser Ardanos; parecia muito velho agora. As sacerdotisas vestidas de azul-escuro 
estavam a erguer o que parecia ser um amontoado de roupa da cadeira que se 
encontrava no topo do monte. Quando a fria da batalha se esvaiu, Gaius sentiu-se 
subitamente muito cansado.

Outro cavaleiro, o seu optio, apareceu ao seu lado.
- Eles espalharam-se, senhor.

Gaius acenou com a cabea.

- Mas no podem ter ido longe. Pe os homens a          bater a rea. Podem vir reportar-
me aqui.

Inflexivelmente, fez passar a perna por cima do pescoo do cavalo, deslizou para o 
cho, e avanou, o cavalo a caminhar lentamente atrs dele. Quando se aproximou, 
Ardanos mexeu-se, olhando para ele de modo suplicante.

- No foi obra minha - murmurou. - Chamei a Deusa... de repente Cynric estava aqui!

Gaius assentiu. Conhecia suficientemente bem as polticas do Arquidruida para 
acreditar nele. Foi a mulher cujo guincho os tinha paralisado que tinha dado aos 
rebeldes o tempo suplementar que precisavam para se misturarem na multido. Ele 
continuou a avanar na direco do grupo de mulheres. Por qualquer razo no ficou 
surpreendido quando Caillean se voltou, olhando para ele desafiadoramente, mas era a 
mulher que jazia no cho que ele queria ver.

Deu outro passo e viu-se a olhar para baixo, para o rosto duma mulher; branca, 
inconsciente, identificvel apenas pelos seus contornos principais com a Fria que lhe 
tinha aparecido. E contudo, com uma doentia certeza, soube que era Ela, e, ao mesmo 
tempo, que era Eilan.

VINTE E TRS

Enquanto os romanos perseguiam os Ravens nos dias que se seguiram  luta na Colina 
das Donzelas, Gaius sentiu-se como se se tivesse tornado em duas pessoas, uma 
desapaixonadamente reportando os resultados da operao ao comandante em Deva, e 
depois voltando a Londinium para repetir a histria ao Governador, enquanto a outra 
tentava reconciliar a mscara de fria que a tinha visto com a imagem da mulher que 
amava. Julia andava  sua volta com a solicitude duma esposa, mas depois do primeiro 
pesadelo ambos concordaram que seria melhor se ele dormisse sozinho.

Julia no pareceu importar-se. Era to afectuosa como sempre, mas durante os dois anos 
em que tinha estado fora a sua ateno tinha-se voltado para as crianas. As raparigas 
estavam a crescer depressa, miniaturas da me, se bem que houvesse alturas em que 
Gaius pensava ter visto um lampejo da determinao de Macellius nos olhos da filha 
mais velha. Mas, se bem que elas fossem cumpridoras, ele tinha-se tornado num 
estranho. Magoava um pouco ouvir os seus risos a pararem quando ele entrava no 
quarto, e ocorreu-lhe que talvez se ele pudesse encontrar o tempo para as conhecer 
melhor, a distncia entre eles viesse a desaparecer.

Mas no conseguia decidir-se a tentar ultrapass-la, no agora, quando o seu corao lhe 
dizia que qualquer amor que tivesse restado entre ele e Eilan tinha sido varrido pelo 
Poder que a possua. Por vezes, o esforo de esconder a sua angstia fazia com que 
tivesse vontade de uivar. Gaius sentiu-se aliviado quando o comandante, em Deva, 
requisitou que voltasse para consultas, um ps-escrito indicando que o pai tinha 
esperana que, em vez de ficar na fortaleza, Gaius pudesse visit-lo na nova casa que

396

MARION ZIMMER BRADLEY

tinha construdo na cidade. Talvez a fosse mais fcil reconciliar o conflito que o estava 
a despedaar.

- Eles j capturaram mais alguns fugitivos da conspirao dos Ravens? - Macellius 
serviu vinho para Gaius e entregou-lhe a taa, bom mas no espalhafatoso, tal como a 
prpria sala de jantar e a manso que a rodeava. A casa do seu pai era uma das melhores 
casas que tinham sido construdas  volta da fortaleza, evidncia duma crescente 
presena civil  medida que o pas se ia acalmando. Gaius abanou a cabea.

- Esse rapaz, Cynric, ele era o chefe deles, no era? - disse ento Macellius. - No o 
capturaste em Mons Grapius?

Gaius assentiu com um gesto da cabea e bebeu um longo gole do vinho amargo, 
estremecendo quando o movimento fez esticar o corte no seu flanco, que ainda estava a 
cicatrizar. No tinha reparado nele seno quando a batalha na Colina tinha acabado, mas 
era mais aborrecido que srio; tinha tido muito piores nas fronteiras da Germania. O 
choque de perceber que a Fria que o tinha amaldioado a todos era Eilan era a sua pior 
ferida. Depois de uns instantes percebeu que o pai estava  espera de uma resposta.

- Capturei... mas mais tarde ele fugiu.

- Parece bom nisso - observou o pai -, como esse bastardo do Caractacus. Mas 
finalmente ns apanh-mo-lo, e eventualmente tambm algum trair o teu Cynric, 
algum do prprio lado dele...

Gaius mexeu-se desconfortavelmente ao ouvir o pronome, esperando que o pai no se 
lembrasse que Cynric era o filho adoptivo de Bendeigid. Teria poupado uma data de 
sarilhos a toda a gente, pensou sombriamente, se tivesse matado Cynric quando tinha 
tido a oportunidade.

- Ah, bem - continuou o velho -, ningum te culpa por no o teres apanhado, e para onde 
quer que os sobreviventes tenham fugido, no  provvel que os vejamos mais aqui...
- Olhou  sua volta com o que Gaius podia apenas caracterizar como um suspiro de 
algum satisfeito consigo prprio.

- No  provvel - concordou o filho. - Estais mesmo confortvel aqui? - Depois de se 
ter reformado do exrcito,

A CASA DA FLORESTA

397

Macellius tinha construdo esta manso, tinha quase imediatamente sido eleito decurio 
e estava rapidamente a tornar-se num pilar da comunidade.

- Oh sim,  um lugar agradvel. Sossegou imenso nos ltimos anos e a cidade est a 
crescer. O anfiteatro  um plo de atraco, claro. Todos os dias h mais lojas, parece-
me, e acabei agora mesmo de largar uma rica soma para pagar o novo templo.

- Uma miniatura de Roma, de facto - disse Gaius, sorrindo.
- Tudo o que lhes falta  um coliseu para os jogos.

- Deus me livre - Macellius levantou uma mo, rindo.
- Sem dvida que tambm teria de pagar para esses. Este negcio de ser o pai duma 
cidade  altamente sobrestimado. Mal me atrevo a abrir a porta com medo que me seja 
dada a honra de contribuir para qualquer coisa nova!
 Mas estava a rir-se, reparou Gaius, e pensou que nunca tinha
visto o seu pai to feliz.

- H, no entanto, uma coisa para a qual eu no resmungaria se tivesse de dar dinheiro - 
disse Macellius -, e isso era enviar-te at Roma.  altura, sabes. Obters uma boa 
recomendao do Governador, depois desta ltima misso, e no conseguirs subir 
muito mais com o tipo de apadrinhamentos que o teu sogro e eu te podemos arranjar. 
Licinius disse alguma coisa?

- Falou sobre isso - disse Gaius cautelosamente. - Mas no posso ir antes que toda a 
gente esteja convencida de que as coisas aqui se mantero calmas.

- No consigo deixar de desejar que Vespasiano tivesse vivido mais tempo - Macellius 
franziu o sobrolho. - Para ti no passava duma mesquinha velha raposa, mas sabia como 
escolher bons homens. Este filhote dele, Domiciano, parece determinado a governar 
como um dspota ocidental. ouvi que expulsou os filsofos. Agora pergunto-te, que mal 
podiam fazer um grupo de fastidiosos velhos chatos?

Gaius, lembrando-se do seu prprio desespero quando o seu velho tutor tinha 
monotonamente dissertado sobre Plato, sentiu uma vil simpatia pelo Imperador.

- Em qualquer caso,  ele o homem que tens de impressionar se queres uma boa 
colocao e, se bem que v sentir a tua falta, uma procuradoria algures numa das 
provncias mais antigas  o passo lgico que se segue na tua carreira.

398

MARION ZIMMER BRADLEY

- Tambm sentirei a vossa falta - disse Gaius calmamente. E isso era verdade, mas 
chegou  concluso de que no sentiria especialmente a falta de Licinius, ou at de Julia 
e das raparigas. De facto, pensou que ficaria contente por fugir da Bretanha durante um 
certo tempo, para algum lugar onde nada o fizesse lembrar de Cynric ou de Eilan.

Gaius finalmente partiu para Roma nos idos de Agosto, acompanhado por um escravo 
grego chamado Philo, um presente de Licinius, que jurou que se podia confiar nele para 
drapejar decentemente uma toga e enviar o seu senhor para a rua, todas as manhs, a 
parecer um cavalheiro. Na bolsa da sela levava o relatrio anual do Procurador sobre a 
economia da Provncia, o que deu a Gaius o estatuto de correio oficial que implicava o 
direito ao uso das casas dos postos militares.

O tempo manteve-se bom, mas mesmo assim pareceu uma viagem cansativa. Quanto 
mais viajavam para sul mais seco o campo se tornava, para os olhos nortenhos de Gaius, 
um deserto, se bem que os oficiais nas casas de despacho do correio se rissem ao ouvi-
lo dizer isso e contassem histrias do Egipto e da Palestina, onde os desertos de areia 
poliam monumentos mais antigos que Roma. Viu-se a desejar que, tal como Csar, 
pudesse passar o tempo a escrever as suas memrias, mas mesmo que esperasse 
quarenta anos para o fazer, duvidava de que algum estivesse interessado em l-las.

At a tagarelice de Julia teria sido bem vinda, se bem que nos dias que corriam tudo o 
que ela parecia capaz de falar era sobre as crianas. Mas, lembrou-se, crianas eram 
aquilo para o que se tinha casado com ela; crianas e Posio social. E at agora as 
coisas tinham corrido mais ou menos de acordo com os planos. S que, quando passava 
pelas interminveis milhas de propriedades tratadas por escravos na Glia, se via a 
pensar se esta busca de classe e posio valeria realmente a pena. E, depois, teriam 
chegado  prxima estalagem, ou  prxima villa pertencente a um dos amigos de 
Licinius. Nos braos de qualquer bonita rapariga escrava, que eles enviassem para lhe 
aquecer a cama, podia esquecer tanto Julia como Eilan, e, de manh, diria para si 
prprio que era apenas a fadiga que tinha estado a

A CASA DA FLORESTA

399

falar, ou talvez uma natural ansiedade sobre como se comportaria em Roma.                         
Uma vez chegado a Roma, comeou a chover, pesada e ininterruptamente, como se 
tentando recuperar o tempo perdido.
O parente de Licinius com o qual estava a habitar era suficientemente hospitaleiro, mas 
Gaius rapidamente ficou farto de piadas sobre o ter trazido o seu clima breto com ele. 
E nem mesmo era verdade, verdadeiramente, pois na Bretanha havia um honesto frio 
associado  chuva, enquanto Roma era tanto menos fria como flagelada por uma 
penetrante e Pestilenta humidade. Depois disto, as memrias de Gaius desse tempo 
ficaram para sempre ligadas ao cheiro alcalino de estuque hmido e ao cheiro 
desagradvel de madeira molhada.

Roma era lama e cus fumarentos; o malcheiroso odor do Tibre e os exoticamente 
condimentados cozinhados duma centena de nacionalidades diferentes, Roma era 
mrmore branco e penetrantes e inebriantes perfumes; o troar de trombetas, e o chiar 
das mulheres do mercado e o eterno, subauricular zunido de mais gente, falando mais 
lnguas que as que Gaius alguma vez tinha imaginado existissem, metidos  fora em 
sete colinas cujos contornos h muito tinham desaparecido por baixo desta incrustao 
de humanidade. Roma era o corao pulsante do mundo.

- E esta  a tua primeira visita a Roma? - A senhora com quem Gaius estava a falar 
honrou-o com uma gargalhada que tilintou como as pulseiras de prata que usava. 
Mulheres primorosamente penteadas e homens elegantemente vestidos apinhavam-se no 
atrum do primo de Licinius, que dava a festa, e as conversas zumbiam como abelhas 
num pomar.

- E o que pensais da Soberana das Naes, diadema do Imprio? - As suas pintadas 
pestanas caram coquetemente. Esta era outra pergunta que Gaius tinha ouvido tantas 
vezes que tinha sido forado a decorar uma resposta.

- Penso que o esplendor da cidade  eclipsado pela beleza que a adorna - disse 
galantemente. Teria dito fora  e poder  se estivesse a falar com um homem.

isto f-lo ganhar mais uma exploso de tilintares; nessa altura o seu hospedeiro salvou-o 
e levou-o para o peristilo, onde homens

400

MARION ZIMMER BRADLEY

vestidos com toga estavam agrupados, como figuras numa pea de estaturia. Juntou-se-
lhes com algum alvio. As mulheres romanas produziam nele uma espcie de paralisia 
como a que tinha sentido quando tinha conhecido Jula pela primeira vez.

Mas ela era honesta em comparao com as senhoras que estava a conhecer agora. Uma 
ou duas delas tinham-no convidado para ir para a cama, mas um vivido senso de 
autopreservao fez mant-lo livre de tais enredos. Roma atraa do melhor que havia e 
se precisasse duma mulher havia cortess que no lhe exigiam nada a no ser o seu 
dinheiro, e cujas habilidades podiam banir a ansiedade, por um certo perodo.

Movimentar-se na sociedade romana era como comandar uma carga de cavalaria atravs 
de terreno gelado - entusiasmante enquanto durava, mas nunca se sabia quando algum 
traioeiro fragmento nos deitaria abaixo. Gaius pensou se Julia se teria podido aguentar 
em tal companhia. E quanto a Eilan... tentar imagin-la aqui era como tentar imaginar 
um antlope selvagem, ou talvez um gato selvagem, no meio dum rebanho de bem 
educadas guas de corrida: ambas eram belas, mas duma ordem de coisas 
completamente diferente.

- Disseram-me que serviste sob as ordens de Agricola, na Calednia... - Gaius 
pestanejou, percebendo que um dos homens mais velhos estava a falar com ele. 
Apercebeu-se do lampejo duma larga faixa prpura na tnica e endireitou-se, como se 
estivesse em frente dum oficial superior, dando voltas  cabea para se lembrar do nome 
do homem. Muitos dos amigos do seu hospedeiro eram da classe dos equestres; tinha 
trabalhado bem para conseguir que um senador aqui viesse.

- Sim, senhor, tive essa honra, Tinha esperado poder visit-lo aqui em Roma.

- Penso que nesta altura ele est a residir com a famlia nas suas propriedades na Glia - 
disse o senador, num tom de voz neutro. Marcellus Clodius Malleus, era esse o seu 
nome.

-  difcil imagin-lo a descansar - Gaius fez uma careta,
- Teria pensado que estaria a pr o medo dos deuses nos inimigos de Roma algures nas 
fronteiras, ou a levar a Pax Romana a uma das provncias.

- Realmente, poder-se-ia pensar assim - Os modos do senador animaram-se 
perceptivelmente. - Mas talvez fosse mais

A CASA DA FLORESTA

401

sensato da tua parte no o dizer at estares seguro da tua companhia...

Gaius imobilizou-se, pensando uma vez mais em terreno gelado, mas Malleus continuou 
a sorrir.

- H muitos aqui em Roma que apreciam as qualidades de Agricola, qualidades que 
parecem cada vez mais admirveis cada vez que temos conhecimento de alguma mal 
conduzida campanha de outro dos nossos generais.

- Ento por que no o utiliza o Imperador? - perguntou Gaius.

- Porque a vitria para as armas romanas  secundria em relao  manuteno do 
Imperador no poder. Quanto mais gente clama que Agricola seja enviado para fora 
como general, mais o nosso senhor e deus  suspeita dele. Mais um ano e ter direito a 
uma nomeao para um consulado principal mas, tal como as coisas esto agora, os seus 
amigos tm que aconselh-lo a no o aceitar.

- Posso ver o problema - disse Gaius pensativamente.
- Agricola  consciencioso de mais para falhar deliberadamente, mas se tudo lhe correr 
bem o Imperador sentir-se- ameaado pelo seu sucesso. Bem, acontea o que acontecer 
em Roma, ele ser recordado com honra na Bretanha.

- Tacitus ficaria contente por te ouvir dizer isso - disse Malleus.

- Oh, conhecei-lo? Servi com ele na Calednia. - A conversa virou-se para uma 
discusso geral sobre a campanha do Norte, a qual o senador provou ter seguido de 
perto. Foi apenas quando os convidados estavam a ser levados para os jardins, para 
verem a exibio de algumas danarinas Bithynian, que a conversa se tornou de novo 
pessoal.

- Vou dar um pequeno jantar daqui a trs semanas...
- Malleus pousou uma amigvel mo no brao de Gaius. - Nada muito complicado, 
apenas uns poucos de homens que penso achars interessantes. Dar-me-s a honra de 
comparecer? Cornelius Tacitus prometeu que iria.

Desse dia em diante pareceu a Gaius que a superficial ronda de festas e entretenimentos, 
que o tinham comeado a exasperar,

402

MARION ZIMMER BRADLEY

tomou uma nova dimenso. Parecia como se ele estivesse finalmente a penetrar no vu 
com o qual a sociedade romana se protegia dos intrusos, e nem que fosse apenas um 
segmento dessa sociedade, e talvez um perigoso, mesmo isso era prefervel a morrer de 
aborrecimento,

Uns dias mais tarde, o primo de Licintis, cujo agnome era Corax, levou-o com ele aos 
jogos no novo Coliseu que Domiciano estava a construir no local onde o elaborado 
palcio de Nero se tinha erguido anteriormente,

- H uma certa apropriabilidade na localizao - observou Corax quando tomaram os 
seus lugares na seco reservada aos equestres _, uma vez que o prprio Nero montou 
jogos como Roma nunca tinha visto, especialmente quando estava a tentar convencer 
toda a gente que essa esquisita seita judaica, sabes, os cristos, tinham causado o grande 
incndio.

- E foram eles? - Gaius estava a olhar  sua roda. Tinham chegado entre duas lutas, e 
escravos estavam a substituir a areia manchada de sangue.

- Quase nem  preciso sabotagem para comear um fogo nesta cidade, meu rapaz - disse 
o seu hospedeiro dum modo esquisito. - Por que  que pensas que todos os distritos tm 
um guarda de incndios para o qual contribumos de to boa vontade? Mas esse foi 
particularmente mau, e o Imperador precisava dum bode expiatrio para contrariar os 
rumores de que tinha sido ele prprio a comear o fogo!

Gaius virou-se para o fitar,

- Novos edifcios, rapaz, novos edifcios! - explicou Corax.
- Nero achava-se um arquitecto, e as pessoas que eram os donos das propriedades onde 
o fogo comeou no queriam vender.
O fogo tornou-se incontrolvel, e o Imperador precisava de algum a quem culpar. Os 
jogos eram, na realidade, bastante horrendos, nenhuma habilidade envolvida, de todo, 
apenas um grupo de pobres almas que morriam mais como ovelhas que como homens,

Gaius ficou subitamente contente por, afinal de contas, no ter capturado Cynric. Um 
lutador como ele teria certamente sido enviado para aqui e ele no o merecia, se bem 
que decerto no se comportasse como uma ovelha, mas mais como um lobo ou um urso.

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403

Trombetas soaram e um arrepio de expectativa correu pela vasta multido. Gaius sentiu 
as suas prprias pulsaes acelerarem-se e recordou-se esquisitamente dos instantes 
antes de uma batalha; tinha sido a nica altura em que tinha estado na presena de tantos 
milhares de pessoas, todos a ganharem coragem para fazer correr o sangue. Mas na 
guerra, pelo menos, ambos os lados corriam os mesmos riscos. Era o sangue de outros 
homens que estes romanos ofereciam, no o seu prprio.

Tinha visto lutas de ursos em casa, claro, para divertimento das legies. Havia, 
certamente, um certo fascnio nalguns dos emparelhamentos de animais selvagens 
importados para os jogos. Um leo e uma girafa, por exemplo, ou um javali selvagem e 
uma pantera. Corax disse-lhe que numa ocasio tinha lutado uma porca prenhe e 
verdadeiramente dado  luz um leito nos seus ltimos estertores. Mas o verdadeiro 
foco da tarde estava no mais perigoso de todos os animais - o homem.

- Agora veremos verdadeira habilidade - disse Corax, quando acabaram os combates a 
fingir e o primeiro dos gladiadores, a pele e a armadura igualmente oleadas e brilhantes, 
marchou pela areia. - Este tipo de coisas  que faz com que valha a pena ver os jogos. 
Aquelas lutas em que atiram l para dentro mal treinados prisioneiros de guerra ou 
criminosos, at mesmo mulheres e crianas, no passam dum estpido massacre. Aqui, 
por exemplo, temos um Samnita e um Retarius... - indicou o primeiro gladiador, que 
usava grevas e um capacete com uma viseira coroado com um tufo de penas, e estava 
armado com uma espada curta e um grande escudo rectangular, e o seu mais gil 
oponente, brandindo a sua rede e tridente.

Gaius, treinado para julgar combatentes, viu o seu interesse profissional despertado. A 
toda a sua volta apostas estavam a ser feitas, com uma intensidade que quase se 
comparava com a dos lutadores. Corax continuou a fazer um comentrio cursivo e no 
foi seno quando o lutador Samnita caiu, com o tridente do homem da rede na sua 
garganta, que percebeu que o homem, no camarote prpura, que estava a fazer o sinal 
com o polegar para baixo era o Imperador.

o tridente mergulhou e o Samnita teve uma convulso, depois imobilizou-se, o seu 
sangue brilhante manchando a areia. Gaius encostou-se para trs, lambendo secos 
lbios, a sua garganta

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MARION ZIMMER BRADLEY

rouca dos gritos. Devia ter estado na verdade muito concentrado para no ter ouvido as 
trombetas anunciando a entrada do Imperador. A esta distncia apenas conseguia ver 
uma figura numa tnica prpura, envolta num manto que brilhava com ouro.

Mais tarde durante a noite, enquanto o massagista de Corax o esmurrava depois de ter 
estado de molho no banho, Gaius apercebeu-se de que todo o seu corpo era uma massa 
de msculos doloridos, que tinham estado esticados uns de encontro aos outros 
enquanto via os Jogos. Nessa altura no tinha dado por isso.

Mas sentia tambm uma grande sensao de libertao. Ir ao Coliseu era, de facto, 
como estar numa batalha, como esse momento em que toda a existncia  simplificada 
numa nica luta, e nos vemos transportados para l de ns prprios para nos tornarmos 
um s, numa totalidade maior que ns. Por um momento pareceu-lhe que percebeu 
porque  que os Romanos amavam os seus Jogos com uma tal paixo. Por muito 
perversos e inteis que parecessem, eram movidos pela mesma fora que tinha 
permitido s legies conquistar metade do mundo.

A noite da festa de Malleus estava fria e ventosa, mas as ruas estavam obstrudas, como 
habitualmente, com vendedores de comida e barbeiros, homens apregoando potes e 
todos os outros tipos de mercadores de rua, na esperana doutra venda antes de a 
escurido os forar a entrar em casa. Enquanto os portadores da liteira de Gaius 
foravam o seu caminho em direco  Aventina, ocorreu-lhe que j quase se tinha 
habituado ao barulho, tal como se tinha habituado ao estrpito das ferradas rodas de 
carroa nas pedras do pavimento, que tornavam a noite quase to barulhenta como o dia.

Mas, quando viraram para a avenida principal, ouviu um novo som. A liteira parou, e 
ele enfiou a cabea pelas cortinas, para ver. Uma procisso religiosa estava a percorrer a 
rua; entreviu padres com a cabea rapada e mulheres com vus. As mulheres estavam a 
gemer, as suas lamentaes entremeadas pelo sibilar de sistros e pelo profundo estrondo 
dum tambor.

Apesar de a sua toga ser quente, Gaius viu-se a tremer, pois as lamentaes tocaram em 
qualquer coisa que perturbou profun-

A CASA DA FLORESTA

405

damente a sua pessoa citadina e, at, a fcil competncia do homem que era em casa.

Mesmo sem lhe perceber as causas, sentiu aquela angstia como a sua prpria. Era 
como as lamentaes de Mithraeum, quando o touro era morto. outro grupo de padres 
passou, a seguir mais mulheres, o seu passo deslizante fazendo-lhe lembrar as 
sacerdotisas em casa, e depois uma liteira na qual podia ver a esttua velada a preto 
duma vaca dourada. Durante mais alguns momentos o bater dos tambores martelou-lhe 
nos ouvidos; depois a procisso passou.

Quando Gaius finalmente chegou, a festa provou ser uma reunio do gnero que ele 
tinha acabado por sentir representava o melhor na sociedade romana. A comida era 
simples, a companhia educada e bem informada. Gaius sentiu-se excedido, mas estes 
eram homens com os quais ele podia aprender.

O tpico que tinha sido proposto era pietas  e o vinho tinha sido misturado com gua, 
metade com metade, para que toda a gente pudesse continuar suficientemente 
concentrada para o discutir com seriedade.

- Admito que constitua uma dvida se h mais que uma religio verdadeira - disse Gaius 
quando chegou a sua vez de falar. - Claro que cada povo tem a sua f e devia ser 
autorizado a mant-la, mas aqui em Roma parece que vs adorais mais deuses que os 
que eu jamais pensei que existissem. Mesmo hoje  noite, por exemplo. Vi uma espcie 
de procisso que parecia oriental, mas a maioria dos que a seguiam parecia serem 
romanos.

- Deve ter sido a sis - observou Herermius Senecio, um dos convidados mais 
importantes. - Nesta altura do ano os seguidores de sis celebram a sua procura do corpo 
desmembrado de Osris. Quando ela tiver reunido os bocados, reanima o seu corpo e 
concebe o filho-sol Hrus de novo.

-  As tribos britnicas no tm um festival nesta altura, tambm? - perguntou Tacitus. - 
Parece que me lembro de procisses nos campos, com mscaras e ossos.

-  verdade - replicou Gaius. - Em Samaine, a gua branca acompanha os seus 
seguidores, e o povo convida os seus antepassados a reencarnarem no ventre das 
mulheres da tribo.

- Talvez seja essa a resposta, ento - disse Malleus. - Se bem que todos ns tenhamos 
diferentes nomes para os deuses,

406

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so todos em essncia os mesmos, pelo que adorar qualquer deles  devoo.

- Por exemplo o deus a que ns chamamos Jpiter  conhecido pelo seu carvalho e pelo 
seu relmpago - disse Tacitus.
- Os Germanos adoram-no como Donar e o Britnicos como Tanarus, ou Taranis.

Gaius no estava to certo. Era dificil imaginar qualquer divindade cltca a ser adorada 
num grande templo tal como o dedicado a Jpiter no Forum. Tinha encontrado, numa 
festa, uma mulher que disseram ser uma Vestal e tinha-a observado com curiosidade, 
mas, se bem que a mulher estivesse marcada por uma certa dignidade, e certamente 
mais decoro que a maioria das mulheres romanas que tinha visto, no havia nela 
nenhuma da nobreza que ele associava s mulheres na Casa da Floresta. Curiosamente, 
era mais fcil identificar a egpcia Isis, cuja procisso tinha acabado de ver, com a 
Grande Deusa que Eilan servia.

- Penso que o nosso amigo britnico ps o dedo num verdadeiro problema - disse 
Malleus. - Decerto foi por isso que os nossos pais lutaram to duramente para evitar que 
cultos estranhos, como por exemplo os de Cibele ou de Dioniso, se enraizassem em 
Roma. At o templo de sis foi queimado.

- Se incluirmos todos os povos do mundo no nosso imprio - contraps Tacitus -, ento 
tambm temos de incluir os seus deuses. Nunca o negaria, pois penso que h mais 
honra, mais pureza de moral e mais daquilo a que se poderia chamar devoo na sala de 
qualquer chefe germano que na maioria das manses em Roma. No vejo nenhum mal 
nisso desde que seja dada a primeira prioridade aos rituais que preservam o Estado.

- Isso parece ser o que o deificado Augusto tinha na ideia quando deixou que o seu culto 
se espalhasse por todo o Imprio  replicou Malleus. Fez-se um curto silncio.

Dominus et Deus ...  - disse algum suavemente, e Gaius lembrou-se de ouvir dizer 
que, hoje em dia, era assim que o Imperador gostava que se lhe dirigissem. - Ele est a 
ir longe de mais! Vamos voltar aos dias em que Calgula passeou o seu cavalo favorito 
para que todos o adorassem?

Gaius olhou  volta e percebeu, com alguma surpresa, que quem tinha falado tinha sido 
Flavius  Clemens, uma espcie de primo do Imperador.

A CASA DA FLORESTA

407

- Pietas  a essncia da reverncia e obrigao entre o homem e os deuses, no a 
adulao dum mortal! - exclamou Senecio. - At Augusto insistiu que Roma  fosse 
ligada ao seu nome. Ns no adoramos o homem, mas o seu carcter, o deus dentro 
dele. Acreditar que um mero humano tem a sabedoria e o poder para governar um 
Imprio como este seria na verdade uma impiedade,

- Bem, nas provncias o culto funciona como uma fora de unio - observou Gaius 
animadamente, no ainda mais desconfortvel silncio que se seguiu. - Quando ningum 
sabe o que o imperador  pessoalmente, tudo o que podem fazer  adorar a ideia de um 
Governante Divino. Qualquer que seja a sua religio pessoal, toda a gente se pode unir 
para queimar incenso ao Imperador.

- Todos excepto os cristos - observou algum, e, excepto Flavius Clemens, todos se 
riram.

- Bem, no h qualquer necessidade de os perseguir e fazer mrtires - notou Tacitus. - O 
seu apelo  maioritariamente dirigido a escravos e a mulheres. E tm tantas faces que 
se pode confiar neles para se destrurem uns aos outros se os deixarmos sozinhos!

Doces e queijo foram ento servidos, e a conversao passou para outros assuntos. Eram 
todos homens civilizados, no sujeitos a mudar de opinio devido a um entusiasmo 
religioso. Mas Gaius no conseguia deixar de pensar se devoo, dever e obrigao 
mtua seriam suficientes para alimentar a alma humana. Talvez as pessoas fossem 
levadas para cultos como o de sis ou o do Cristo pela aridez da religio do Estado, ou 
talvez os sangrentos rituais do Coliseu se tivessem tornado na verdadeira religio de 
Roma.

Pouco tempo depois da chegada de Gaius a Roma, o pessoal do Procurador Imperial 
meteu-se ao trabalho de digerir o contedo do relatrio de Licinius que ele tinha trazido 
e analisar as suas implicaes para o Imperador. No entanto, os pais da cidade ainda 
retinham autoridade suficiente para que esta informao lhes fosse eventualmente dada, 
e Gaius descobriu que a influncia dos seus novos amigos era suficiente para o fazerem 
ganhar um

408

MARION ZIMMER BRADLEY

convite para se dirigir ao Senado e se encontrar, depois, com o Imperador.

Na manh em que se devia apresentar, Gaius fez com que o barbeassem com uma 
ateno especial - se bem que, por vezes, pensasse que os barbados Ardanos e 
Bendeigid eram menos brbaros que ele prprio, no pensava que fosse capaz de o 
explicar aos ali reunidos pais conscritos.

Era muito cedo quando chegou ao Senado e lhe foi dado um lugar por baixo duma 
esttua do deificado Augusto, que estava no seu pedestal parecendo to fria e aflita 
como Gaius se sentia. Os senadores entraram, isolados ou em grupos de dois, falando 
suavemente, seguidos por secretrios      com as suas pilhas de placas de cera, 
preparados para registar os debates e as decises do dia. Isto, reflectiu Gaius, era onde 
os senhores do mundo decidiam o destino de naes. Neste cho de mrmore tinham 
debatido a defesa contra Anibal e a invaso da Bretanha.
O rio do tempo flua fortemente nesta cmara; em comparao, at o orgulho dos 
Csares no passava de uma ondulao na corrente.

O Imperador chegou na altura em que as invocaes de abertura estavam a comear, 
resplandecente numa toga prpura, toda bordada com estrelas douradas, que fizeram 
Gaius piscar. j tinha ouvido falar da toga picta, mas tinha Pensado que era usada 
apenas por um general quando presidia ao seu triunfo. Era bastante perturbador v-la a 
ser usada aqui, e pensou se Domiciano queria ser olhado como um conquistador, ou se 
era simplesmente um aficcionado de vesturio berrante. Esta era a primeira vez que 
Gaius via o seu Imperador to prximo. O filho mais novo do grande Vespasiano tinha 
o pescoo de touro e os bem musculados ombros dum soldado, mas Gaius leu 
petulncia no esgar da sua boca e suspeio nos seus olhos.

Era quase altura do intervalo do meio-dia quando foi feito sinal a Gaius para se chegar  
frente a fim de ler o relatrio de Licinius sobre as finanas da Bretanha. Fizeram-lhe 
algumas perguntas, a maioria sobre questes relacionadas com recursos, e uma de 
Clodius Malleus que deu a oportunidade a Gaius de referir o papel que tinha 
desempenhado no controlo da ltima rebelio. Apesar de alguma instruo recente em 
oratria, sentiu que os devia ter maado, embora no fim do seu discurso lhe tivessem

A CASA DA FLORESTA

409

votado uma indiferente ronda de aplausos e - como Licinius tinha previsto - confirmado 
que, para o prximo ano, uma razovel percentagem do dinheiro dos impostos que 
tinham cobrado podia ser retida na Bretanha. Visto ser esta a razo pela qual Licinius o 
tinha enviado, em primeiro lugar, Gaius dificilmente podia ficar surpreendido.

O encontro com Domiciano que se seguiu foi breve. A caminho doutro compromisso, o 
Imperador j estava a remover a deslumbrante toga, mas deteve-se o tempo suficiente 
para dar a Gaius uma descuidada palavra de agradecimento.

- Tens estado no exrcito? - perguntou.

- Como tribuno com a II Legio. Tive o privilgio de servir sob  as vossas ordens na 
Dcia - disse Gaius cuidadosamente.
- Hmm... Bem, ento suponho que temos que te encontrar

alguma coisa para fazer nas Provncias - disse o Imperador sem muito interesse, 
virando-se.

- Dominus et Deus - disse Gaius, saudando, e odiando-se a si prprio por dizer as 
palavras.

A caminho de casa Gaius partilhou uma liteira com Clodius Malleus. Era a primeira vez 
em que tinham tido a oportunidade de falar em privado durante todo o dia.

- E o que pensaste do Senado? - perguntou o homem mais velho.

- Fez-me sentir orgulhoso de ser romano - respondeu Gaius honestamente.

- E o Imperador?

Gaius ficou silencioso. Depois de um momento ouviu o senador suspirar.

- Viste como as coisas esto - disse Malleus suavemente.
- Uma proteco como a que tenho para oferecer deve ser dada cuidadosamente, pelo 
menos por agora. Mas se estiveres disposto a enfrentar os riscos que este vnculo te 
possa trazer, juntamente com as suas potenciais recompensas, ficaria feliz por te aceitar 
entre os meus clientes. Posso fazer com que o teu servio seja o de Procurador para os 
fornecimentos do exrcito na Bretanha. Normalmente seria noutro local qualquer no 
Imprio, mas penso que sers mais til para ns na terra que conheces melhor.

Aquele ns  colegial fez qualquer coisa nele, que a falta de interesse do Imperador 
tinha gelado, acordar para a vida de novo.

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A Roma que o seu pai e Licinius o tinham ensinado a honrar podia estar morta, mas 
pareceu a Gaius que, sob a chefia de homens como Malleus e Agricola, o esprito de 
Roma podia renascer.

- Ficaria honrado - disse para o silncio, e soube que, tal como a deciso que tinha 
tomado depois de Mons Grapius, esta escolha determinaria o curso da sua vida a partir 
de agora.

VINTE E QUATRO

As sacerdotisas adoravam a lua nova no Bosque Sagrado atrs da Casa da Floresta, 
seguindo um ritual que no tinha sido inventado pelos homens, e ao qual estes no eram 
autorizados a assistir. Caillean olhava enquanto as novias se punham em fila para 
completar o crculo, sentindo-se mais como uma me galinha contando as suas 
franguinhas, ou, talvez, vendo o plido brilho dos seus vestidos  meia luz, jovens 
cisnes prestes a tornar-se adultos.

Por um momento houve silncio enquanto o crculo se completava. Ps-se em posio, 
em frente do marco de pedras do altar, Dieda  sua esquerda e Miellyn  sua direita, 
lugar que era habitualmente o seu. Mas, nesta noite, Eilan estava doente com clicas e o 
lugar da Gr Sacerdotisa tinha recado em Caillean. Era estranho estar aqui, e estranho 
no sentir a familiar energia da mulher mais nova a equilibrar a sua.

Dieda levantou a mo, e o silncio foi quebrado por um tilintar de sinos de prata.

Salve, tu Lua Nova, jia guia da bondade , cantaram as donzelas, quase uma boa 
dzia, todas vindas para a Casa da Floresta desde que Eilan se tinha tornado na Gr 
Sacerdotisa. As ltimas a chegar tinham sido atradas pela msica de Dieda. Quando o 
velho Ardanos tinha planeado introduzir as suas duas parentas em Vernemeton, tinha 
trabalhado melhor que o que tinha pensado. Caillean ouviu aquelas vozes puras a 
oferecer a sua orao aos cus e suspirou   em pura delcia.

Para vs me ajoelho,

A vs ofereo o meu amor; Para vs me ajoelho,

A vs ofereo a minha mo Para vs levanto o olhar Oh, Lua Nova das estaes!

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Elas inclinavam-se quando diziam cada frase, depois levantavam-se em splica, olhos 
fixos na foice prateada em cima, de tal modo que o seu canto se transformava numa 
dana, Agora, comearam a mover-se lentamente, na direco do movimento do Sol  
volta do crculo, os braos levantados para o cu.

Salve, tu Lua Nova,

Jubilosa virgem minha amada! Salve, tu Lua Nova

Jubilosa virgem das graas! Estais viajando na vossa rota,

Estais a mostrar-nos a tua brilhante face, Oh Lua Nova das estaes!

Caillean deixou o seu olhar desfocar-se e permitiu que o ritmo do cntico a 
transportasse ainda mais profundamente para o transe. Tornava-se cada vez mais fcil. 
Tinha havido um perodo estril na sua vida, quando nada mais parecia ter sentido. Mas, 
graas   deusa, isso parecia ter sido ultrapassado. Com o fim das suas  regras, os 
portes do seu esprito tinham-se aberto e em cada   estao que passava sentia cada vez 
com mais fora as vagas  do poder.

E  por causa de ti, Eilan , pensou, enviando a sua conscincia a voar em direco  
escura massa da Casa da Floresta, atrs das rvores. Consegues ouvir como as tuas 
irms esto a cantar  docemente agora?

Espontaneamente, os seus prprios braos tambm se estavam a abrir; as raparigas que 
cercavam o altar pareciam mover-se num ofuscamento de luz.

Vs Rainha-Virgem da orientao, Vs Rainha-Virgem da boa sorte,

Vs Rainha-Virgem, minha amada        Lua Nova das estaes!

Uma vez mais as campainhas tilintaram docemente e o canto desvaneceu-se em 
silncio, mas este, agora, era um silncio carregado, prenhe de poder. Caillean estendeu 
os braos e sentiu o choque da perfeio quando as outras duas lhe agarra-

A CASA DA FLORESTA

413

ram nas mos; uma segunda mudana disse-lhe que as donzelas tinham juntado   as 
mos em crculo ao seu redor.

- Saibam,    minhas irms, que o poder da Lua  o Poder das mulheres, a  luz que brilha 
na escurido, as mars que dominam os planos    interiores. A virgem Lua governa todo 
o crescimento e todos os comeos, e  assim que ns retiramos o seu poder para   
aqueles propsitos para os quais a nossa ajuda tem sido requisitada. Irms, estais 
dispostas a emprestar a vossa energia ao trabalho que estamos agora a fazer?

Houve um murmrio de assentimento do crculo e Caillean assentou os ps mais 
firmemente na fria relva.

- Chamamos a Deusa, a Senhora da Vida, cujo traje  o cu estrelado; ela  a noiva 
Virgem, a me de tudo o que vive, a sabedoria para l dos crculos do mundo. Ela  
todas as deusas, e todas as deusas so uma Deusa; em todas as Suas fases, em todas as 
nossas faces, pois Ela resplandece nos cus, Ela resplandece dentro de todas ns! - Era 
como se ela tentasse respirar contra o vento. - Deusa, ouvi-nos... - chamou.

- Deusa, vinde para junto de ns... - ecoaram as outras.
- Deusa, ouvi-nos agora! - A tenso era quase insuportvel; agora podia senti-la a vibrar 
pelas mos ligadas s suas.

- Pela sade de Bethoc, me de Ambigatos, levantamos este poder!

Ouviu Dieda entoar a primeira nota do acorde de cura e um quarto do crculo juntar-se a 
ela, o som baixo e vibrante como uma corda duma harpa, mas mais profundo, mais 
doce, mais alto, a repetir-se ininterruptamente. Ento veio a segunda nota; agora, 
metade do crculo estava a cantar; e a terceira, quando o acorde se encorpou e se 
completou numa nota alta, acima da qual se elevou a voz de Dieda, numa lmpida 
melodia, como uma cotovia a voar para o cu. Era um princpio usado pelos harpistas de 
Eriu na sua magia, mas tinha sido ideia de Eilan aplic-lo aos cnticos, e tinha sido 
Dieda que tinha trabalhado a sua tcnica e ensinado as raparigas. Estar no meio daquele 
canto era como estar dentro duma harpa. E, gradualmente,  medida que as suas vozes 
se combinavam, Caillean comeou, tambm, a tocar os espritos das outras.

Estou a voar muito alto com asas de luz. Caillean no podia dizer de quem tinha sido 
este pensamento, nem isso

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importava, pois nesta altura, quando estavam unidas, ela sentia

o mesmo.

Vejo arco-ris  volta da Lua... na luz do Sol ... na queda de gua... todo o mundo emite 
uma trmula luz       ...

gua gelada... o calor duma fogueira... A suavidade da penugem dum patinho... os 
braos da minha me ... 

Nesta dissoluo de sons todos os sentidos se confundiam, Apenas a mente de Dieda se 
conservava distinta das outras... crtica, e ainda insatisfeita.

Respirai agora e aguentai... Tanais est a vacilar. Espera, espera , Rhian devia entrar 
agora com a quinta nota assim  melhor. Agora, faamos subi-las, ao longo da escala - 
permaneam comigo, todas vs - mantenham a harmonia!

As ltimas irregularidades desapareceram. As vozes unidas das mulheres subiram em 
conjunto para se tornarem a voz da Deusa. Durante um certo tempo at o monlogo 
interior de Dieda cessou. Caillean sentiu alguma tenso no relaxar da outra mulher 
quando o acorde vibrou com uma intensidade inumana. E, se bem que a prpria Caillean 
fosse uma autodidacta, e no tivesse palavras para descrever a exactido do que tinha 
ouvido, era suficientemente boa cantora para perceber o xtase dum msico treinado 
experimentando uma harmonia perfeita.

Foi necessrio um esforo para que Caillean se recompusesse, para poder alcanar a 
energia que pulsava  sua volta e junt-la, mantendo na sua mente a imagem da mulher 
doente pela qual estavam a trabalhar. Podia v-lo agora, uma bruma de poder que ficava 
cada vez mais brilhante cada vez que respiravam.

Caillean puxou o Poder para o interior, projectando sobre ele a imagem at que todas a 
pudessem ver, tremulando por cima do monte de pedras. O som cresceu at que pareceu 
que ela no o conseguia aguentar mais. Os seus braos levantaram-se - todos os braos 
delas estavam a levantar-se espontaneamente, quando o Poder jorrou num pilar de luz, 
uma vaga de puro som a enviar fora  mulher doente. E, depois, desapareceu. 
Acalmaram-se, respirando como se tivessem estado a correr, sabendo que tinham sido 
bem sucedidas.

Invocaram o Poder mais duas vezes nessa noite para curar e, uma ltima vez para se 
reabastecerem de alguma da energia

A CASA DA FLORESTA

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que tinham perdido. Quando tudo tinha acabado, uma certa medida de paz tinha voltado, 
mesmo aos olhos de Dieda. Depois, com um murmrio final de agradecimento, 
formaram em fila para voltarem para a Casa da Floresta, para comerem e se deitarem. 
Mas Caillean, apesar do cansada que estava, dirigiu-se ao edifcio separado onde a Gr 
Sacerdotisa tinha os seus alojamentos, para dizer a Eilan como tudo se tinha passado.

- No tens que me contar... - disse Eilan quando Caillean entrou no seu quarto. - Mesmo 
daqui consegui ouvir-vos, pude sentir o Poder. - A mulher mais velha parecia iluminada 
a partir do seu interior.

-  verdade, Eilan.  este o trabalho para que fomos destinadas! Quando era uma 
criana que servia Lhiannon era com este gnero de coisas que eu sonhava, mas depois 
os druidas fecharam-nos aqui e a viso perdeu-se. Apesar de todo o meu conhecimento 
no sabia como voltar a encontr-la de novo at tu me ensinares a maneira.

- T-la-ias encontrado... - Eilan sentou-se na cama e forou um sorriso. Ainda se sentia 
mal e dolorida, como era frequente nesta altura da Lua. Cada vez mais, sentia-se 
convencida que em tempos passados Caillean tinha sido uma das maiores sacerdotisas. 
Muito do que estavam a fazer agora na Casa da Floresta vinha em esguichos de certeza, 
como se no o estivessem a inventar, mas lembrando-se. Admitia que tambm ela tinha 
sido uma sacerdotisa, mas enquanto ela tinha a viso, havia alturas em que Caillean era 
capaz de invocar um poder espantoso.

- Tenho pensado muitas vezes que tu  que devias ter sido escolhida para ser Gr 
Sacerdotisa em vez de mim, Caillean lanou-lhe um rpido olhar.

- Outrora t-lo-ia pensado tambm - disse. - Agora no o quero.

- Mulher sensata! Mas mesmo assim, se tivesses que o fazer, podias faz-lo. - Havia, 
agora, mais prateado no escuro cabelo de Caillean, pensou Eilan, mas excepto por isso 
estava pouco diferente da mulher que, h dez anos, tinha dado  luz o filho de Mairi.

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- Ainda bem que agora no tenho que o fazer - disse Caillean rapidamente. - Apenas 
para obter algumas decises tuas. Tivemos um pedido bastante estranho. Um estranho 
personagem dessa seita romana a que chamam Cristos quer ir viver para a velha cabana 
na floresta. Chama-se a si prprio um eremita. Digo-lhe que pode ficar ali ou mando-o 
embora?

- Acho que pode - disse Eilan, pensativamente. - No fao tenes de mandar para l 
mais mulheres de castigo, nem, suponho, tu, e todos os Ravens j descobriram novos 
esconderijos. - Sentiu uma pancada de dor ao pensar num estranho a viver no lugar em 
que tinha dado  luz e dado de mamar ao filho, mas no havia razo para 
sentimentalismos.

- Muito bem - disse Caillean. - E se Ardanos objectar posso apontar o precedente 
estabelecido quando deixaram os Cristos construir a capela do espinheiro branco na 
Ilha das Mas, por baixo do Poo Sagrado.

- Estiveste l alguma vez?

- H muito tempo, quando era muito mais nova - replicou Caillean. - O Pas de Vero  
uma terra estranha, toda brejo, lagos e urze. Se h alguma chuva, o Tor transforma-se 
numa ilha. A bruma cai na terra, por vezes de tal modo, que pensas que a curva seguinte 
te transportar para o Outro Mundo; e, ento, um raio de luz do Sol atravessa as nuvens 
e tu vs o Tor sagrado com o seu anel de pedras.

Ao ouvir Caillean, Eilan sentiu como se quase o pudesse ver. Depois, estava a v-lo, um 
relmpago de viso to inesperado quanto tinha sido transitrio - mas Caillean tambm 
tinha feito parte da viso, deslizando pelas brumas em direco  colina num barco de 
fundo chato, zingado pelos pequenos homens escuros das montanhas, com algumas das 
sacerdotisas novias amontoadas na popa. Mas Caillean mantinha-se de p, com ouro 
no seu pescoo e na testa.

- Caillean - comeou, e pelo tamanho dos olhos da outra mulher, podia dizer que 
alguma    coisa do que tinha visto devia ter transparecido na sua expresso -, tu sers 
Gr Sacerdotisa na Ilha das Mas. Vi-o. Levars as mulheres para l.

- Quando... - comeou Caillean, e Eilan abanou a cabea.
- No sei! - Ela suspirou, pois a viso, como tantas vezes acontecia, tinha sido apenas 
um vislumbre. - Mas parece um

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local seguro, escondido dos olhos romanos. Talvez devamos pensar em instalar l 
algumas das sacerdotisas.

A nova posio de Gaius obrigava-o a passar muito tempo em viagens pelo pas. Uma 
vez que, nessa altura, o armazm de abastecimentos principal tinha sido estabelecido em 
Deva, agora ocupada pela XX Legio, fez sentido para ele mudar a famlia para uma 
agradvel propriedade, a que chamaram Villa Severina, a sul da cidade. Jula no ficou 
feliz por abandonar Londinium, mas habituou-se  vida do campo com uma resignao 
estica, e um ano depois da sua chegada ao Oeste deu  luz duas gmeas a quem 
chamou, prosaicamente, Tertia e Quarta. A ltima era to pequena que rapidamente 
passaram a chamar-lhe Quartilla.

- Mas porqu? - perguntou Licinius. O velho tinha vindo para fazer uma visita a fim de 
conhecer as suas duas novas netas.
- No conseguis adivinhar? - perguntou Julia, mas sem

humor. - Se ela fosse um jarro, teramos de lhe chamar meia dose, nem sequer um 
quarto. - O pai olhou para ela com estranheza, e ela percebeu que no tinha sido uma 
grande piada.
- Mas, tambm, Quartilla no era grande coisa como beb.

Ela achava difcil interessar-se pelos bebs. Quando a sua barriga cresceu tanto, tinha 
tido a certeza que estava finalmente quase a gerar um robusto filho a Gaius. Certamente 
que passar por um trabalho to duro sem outro resultado seno um par de filhas, uma 
das quais era adoentada, no era razo para uma depresso?

recuperou lentamente, pois tinha sido muito rasgada durante o parto, e quando se tornou 
claro que no podia amamentar as crianas ela prpria, entregou-as a amas de leite sem 
quase sentir nada. Quanto mais cedo outra vez estivesse frtil de novo mais depressa 
podia tentar outra vez, para ver se tinha um rapaz. O mdico grego tinha alvitrado que 
podia ser perigoso, mas ele era apenas um escravo, e as ameaas de Julia evitaram que 
dissesse o que quer que fosse, tanto a Gaius como ao seu pai.

Da prxima vez , jurou, construirei um templo a Juno, em Deva, se tiver que ser - 
mas da prxima vez ser um rapaz! Contudo,  medida que as crianas cresciam, Julia 
foi-se

habituando a viver a maior parte do tempo entre as suaves

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colinas a sul de Deva, e a ficar na casa do seu pai, em Londinium, apenas durante o 
Inverno. Licinius amava as crianas, e j estava  procura de famlias com quem as aliar 
pelo casamento.

Gaius era um pai de algum modo indiferente, mas ela no tinha esperado mais. Sabia 
que se encontrava adoentada, e que por vezes ele dormia com uma das raparigas 
escravas, mas enquanto ele tambm cumprisse o seu dever na cama dela dificilmente 
podia objectar a que ele o fizesse. Tinha-se casado para ganhar o estatuto de matrona e 
para dar ao seu pai um herdeiro. A sua relao com Gaius era de respeito mtuo e 
afecto; para uma rapariga romana de boas famlias qualquer coisa mais teria sido 
improvvel.

Ao ver os escndalos e os divrcios que aconteciam, mesmo na plida imitao da 
sociedade romana que Londinium era, parecia-lhe que ela e Gaius eram um dos poucos 
casais que tinham conseguido preservar os antigos valores romanos. O seu casamento 
era bom, e havia mesmo alturas, ao ver as suas filhas a brincar juntas no jardim da villa, 
com as suas tnicas brilhantes como flores contra o fundo de verdura, em que Julia 
sentia que talvez no se tivesse portado assim to mal como me.

E pouco depois de as gmeas terem celebrado o seu segundo aniversrio, ela ficou 
grvida outra vez,

Depois de um longo perodo de chuva, durante o qual as crianas protestaram e se 
lamentaram por terem de ser mantidas dentro de casa, o tempo tinha finalmente ficado 
mais quente. Julia estava sentada na varanda que tinham construdo ao longo da parte da 
frente da casa quando acrescentaram as alas laterais, Pretensamente, estava a examinar 
as contas da casa, mas, na realidade, estava amodorrada  luz do Sol. As suas mos 
repousavam levemente no arredondado da barriga, onde podia sentir os movimentos da 
criana no interior, um filho de certeza. No se tinha mexido muito ultimamente e 
admitia que o tempo quente tinha tornado o beb to aptico como ela se sentia. Julia 
jazia imvel,

com os olhos meio fechados para se proteger da luz do Sol, a ouvir o canto dos pssaros 
e as vozes dos escravos da propriedade enquanto estes se afadigavam com

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as tarefas da quinta. Gaius costumava dizer que a casa de Julia funcionava sempre com 
a eficincia dum acampamento da legio. Ela sabia, sem ter de procurar, onde cada um 
dos seus servidores estaria e o que ele ou ela se encontraria a fazer a cada hora do dia.

- ... a brincar no jardim. - Era a voz da robusta rapariga gaulesa cujo trabalho era vigiar 
as crianas.

- Isso  que elas no esto! - replicou a velha Lydia, que dirigia o infantrio. - As 
gmeas esto a comer a refeio do meio-dia e Cella est a ajudar o cozinheiro a fazer 
bolos. Mas Secunda est mesmo naquela idade em que quando as largam de vista saem 
em explorao...

- Ela estava no jardim... - disse a rapariga fracamente.
- E onde estavas tu? A namorar com o valete do senhor outra vez? - replicou Lydia. - 
Bem, ela no pode ter ido longe. Vai l para fora e procura-a enquanto eu chamo alguns 
dos homens para te ajudarem. Mas juro que providenciarei pessoalmente que sejas 
chicoteada se aconteceu algum mal  criana! No que  que estavas a pensar? Sabes que 
a senhora no se deve preocupar com a hora dela to perto!

Julia franziu o sobrolho, debatendo consigo prpria se se devia levantar e falar com elas. 
Mas esta gravidez tinha-lhe minado a energia e a vontade e, de certeza, Secunda havia 
de aparecer rapidamente.

 distncia, ela ouviu mais vozes e os tons mais profundos de Gaius fazendo perguntas. 
Bem , pensou ento, conseguiram que ele sasse  procura.  altura de ele se mexer 
mais no que diz respeito s crianas.

Inclinou-se para trs de novo, sabendo que tinha de descansar por causa do seu filho 
ainda no nascido, mas,  medida que os momentos passavam, sentiu a tenso obrig-la 
a levantar-se outra vez. Agora mal conseguia ouvir os chamamentos. At onde tinha 
Secunda ido?

A sombra no relgio de sol tinha-se deslocado quase at  hora seguinte quando ouviu 
vozes abafadas e passos a pisar a gravilha do caminho. Eles tinham-na encontrado - mas 
por que estavam to silenciosos? Secunda devia estar a chorar se o pai lhe tivesse batido 
como ela merecia. Um arrepio correu pelo corpo de Julia. puxou por si prpria at ficar 
em p,

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agarrando-se ao pilar, quando a pequena procisso emergiu do meio das rvores.

Viu a cabea escura de Gaius e tentou chamar por ele, mas as palavras no lhe saam. 
Ento, o jardineiro moveu-se para um lado e ela viu que ele estava a segurar Secunda 
nos braos. Mas, mesmo a dormir, ela nunca tinha visto a sua pequenina jazer to 
imvel.

Por que  que ela no se est a mexer? Os seus lbios torceram-se sem emitir 
qualquer som.

Gaius chegou-se  frente, o rosto   que se contraa j coberto de lgrimas. Mais gua 
pingava do vestido cor-de-rosa de Secunda, e os seus negros caracis estavam colados 
ao crnio. Julia ficou a olhar fixamente, o choque a gelar-lhe as veias.

- Ela estava no rio - disse ele roucamente -, na orla do campo. Tentei soprar a vida de 
novo para dentro dela. Tentei... - engoliu, olhando para a pequena face fechada, agora 
plida como mrmore.

No, pensou Julia entorpecidamente, Secunda nunca mais voltaria a respirar. 
Pestanejou, pensando porque seria que o mundo se teria tornado to sombrio  sua 
volta. Depois sentiu uma dilacerante dor no ventre.

As horas seguintes foram uma confuso de lamentos e dor. Lembrava-se de ouvir Gaius 
jurar que esfolaria a rapariga gaulesa, e Licinius a tentar acalm-lo. Algo estava errado 
com Secunda... Tentou levantar-se e ir at ela, mas as suas mulheres no paravam de a 
empurrar para baixo. E depois a dor no seu ventre comeava outra vez. Em momentos 
de maior lucidez, Julia percebia que isto estava errado. Estava familiarizada com as 
dores do parto, mas ainda mal estava de seis meses. Deuses, se tendes alguma piedade, 
fazei com que pare. Levsteis a minha filha... no deixeis que perca o meu filho!

Era quase o crepsculo quando teve uma convulso e sentiu um ltimo esguicho quente 
de sangue entre as coxas. Lydia inclinou-se sobre ela, praguejando em voz baixa. Julia 
sentiu a presso quando a mulher comprimiu mais roupas entre as suas pernas para parar 
a hemorragia. Mas, por um momento, tinha visto de relance outra coisa, uma coisa 
pequena e apurpurada que no se mexia.

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- O meu filho! - O seu murmrio foi um fio de som.
- Deixem-me pegar nele, por favor!

A chorar, Lydia trouxe algo embrulhado numa roupa sangrenta e pousou-o na curva do 
seu brao. A face tinha sido limpa, e ela podia ver as minsculas, perfeitas feies, 
como as ptalas de uma rosa seca.

Ainda estava a segurar nele quando finalmente deixaram Gaius entrar para a ver.

- Os deuses odeiam-me - murmurou ela, lgrimas a deslizarem-lhe pela cara.

Ele ajoelhou a seu lado, afastou-lhe o cabelo molhado da testa e beijou-a com mais 
ternura que ela esperava. Por um momento ele ficou a olhar para o filho natimorto, e 
depois, gentilmente, puxou uma dobra da roupa por cima da sua face e ergueu-o. Ela fez 
um convulsivo movimento para o deter, mas mal se podia mexer. Ficou com o filho nos 
braos durante uns instantes, como qualquer pai prestes a reconhecer o seu filho recm-
nascido, depois entregou a imvel forma a Lydia para que o levasse. Julia voltou a cara 
para a almofada, chorando.

- Deixem-me morrer! Falhei, deixem-me morrer!

-   Isso no  verdade, minha pobre querida. Ainda tens trs rapariguinhas que precisam 
de ti. No deves chorar assim.

- O meu beb, o meu rapazinho est morto!

- Chiu, meu amor - Gaius tentou acalm-la, olhando para o seu sogro, que tinha entrado 
no quarto atrs dele, num apelo.
- Ainda no somos velhos, minha querida. Se os deuses quiserem, podemos ainda ter 
muitas crianas...

Licinius tambm se inclinou para a beijar.

- E se no tiveres nenhum filho, minha querida filha, o que  que isso tem? Tens sido 
uma melhor filha para mim que muitos filhos, isso to juro.

- Agora deves pensar nas tuas filhas que esto vivas - disse Gaius.

Jula sentiu o desespero a brotar-lhe no interior.

- Nunca prestaste nenhuma ateno  Secunda. Por que te importarias agora com as 
outras? Apenas te importas que tenha perdido o teu filho.

- No - disse Gaius muito suavemente -, no preciso que me ds um filho. Deves dormir 
agora. - Ps-se de p, olhando

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para baixo, para ela. - O sono cura muitas tristezas, e amanh sentirs de outro modo.

Mas Julia, lembrando-se das delicadamente cinzeladas feies do seu rapazinho, no o 
ouviu verdadeiramente.

 medida que as lentas semanas da recuperao de Julia se passavam, Gaius descobriu 
que o entristecia mais a dor dela que quaisquer sentimentos prprios. Tinha estado 
longe de casa quando Secunda nasceu, e no tinha sentido uma grande afeio por ela. 
Nem conseguia levar-se a lamentar de mais por causa de uma de quatro raparigas.

Contudo, quando pensava no filho que tinham perdido, no conseguia deixar de pensar 
no seu filho de Eilan. Na sociedade romana, a adopo de um rapaz saudvel de outra 
famlia era uma soluo tradicional. Se Julia no tivesse filhos machos, e depois de uma 
consulta ao mdico isso comeou a parecer improvvel, era menos provvel que pusesse 
objeces ao facto de ele reivindicar o filho de Eilan. E ele gostava das suas filhas, se 
bem que no sentisse nenhum vnculo como tinha sentido com o seu filho primognito.

Mas havia tempo mais que suficiente para isso quando Julia estivesse de boa sade 
outra vez. Na esperana de que pelo menos a distrasse da sua tristeza, concordou em 
levarjulia numa peregrinao ao santurio da Deusa Me, perto de Venta, mas a viagem 
fez pouco para a ajudar a recuperar a sade e a moral, e quando se ofereceu para mudar 
a famlia de volta a Londinium ela no quis ir.

-  aqui que os nossos filhos esto enterrados - disse-lhe ela. - No os deixarei aqui.

Em privado Gaius considerou isto pouco razovel. Apesar das crenas nativas que a   
terra dos Silures possuam a entrada para o Outro Mundo, a ele parecia-lhe que nenhum 
lugar terreno podia estar mais perto ou mais longe do que qualquer outro da Terra dos 
Mortos, mas    cedeu  vontade de Julia e ficaram.

Pelo final desse ano    chegaram notcias de que Agricola tambm tinha morrido.

Como Tacitus gosta de   dizer, escreveu Licinius Corax,  um princpio da natureza 
humana odiar aqueles a quem fizemos

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mal. Mas at o nosso Divino Imperadorpoda encontrarpouco em Agricola que 
justificasse a sua ira, e assim o nosso amigo escapou ao desfavor oficial. De facto, o 
Imperador foi notavelmente solcito ao longo da doena de Agricola, se bem que haja 
alguns que murmuram que o general foi levado pelo veneno; para mim, penso que a 
causa foi um corao despedaado por testemunhar a desonra de Roma. Pode ser que 
ele esteja bem fora daqui, e que sejamos ns que estejamos bem cedo a desejar ter ido 
antes. Fica contente por estares a salvo, fora da vista, na Bretanha...

No ano que se seguiu, Licinius aposentou-se e veio montar casa com eles, pelo que 
acrescentaram mais uma ala  Villa Severina, e o ltimo ano do servio de Gaius como 
Procurador para os abastecimentos comeou. Tinha esperado que quando tivesse 
terminado o perodo do seu cargo, o Senador Malleus fosse capaz de conseguir que ele 
fosse nomeado para uma posio superior, mas esse ano trouxe notcias perturbadoras.
O Imperador estava a ficar cada vez mais autocrtico e desconfiado. Como lder militar 
tinha sido razoavelmente bem sucedido, mas parecia considerar os seus sucessos como 
prova do favor divino, e estava a fazer o seu melhor, escreveu o primo de Licinius, 
Corax, para destruir o poder que restava  classe dos patrcios.

Gaius pensou se isto seria a fasca que poria os ties da rebelio em chamas, mas a 
coisa seguinte que ouviram foi que Herennius Senecio e alguns outros tinham sido 
executados por traio.

Gaius percebeu que o mais provvel era a sua carreira ficar em banho-maria por algum 
tempo. O seu patrono, Senador Malleus, se bem que no tivesse sido acusado, tinha 
achado prudente retirar-se para as suas propriedades na Campnia. E assim, quando 
Gaius completou o seu prazo do seu servio como Procurador, ps de lado a visita a 
Roma que tinha planeado se lhe seguiria e, tal como o seu patrono, decidiu devotar-se 
ele prprio, durante um certo tempo, a melhorar a produtividade das suas terras.

Agora comeou finalmente a estabelecer uma amizade mais forte com as filhas que lhe 
restavam, mas Julia continuou deprimida e adoentada. Se bem que ainda partilhassem 
uma cama,

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estava-se a tornar cada vez mais evidente que era pouco provvel que ela lhe desse um 
filho.

Nesta altura o filho de Eilan devia estar com dez anos de idade. Mesmo um pai que no 
estava precisamente nas boas graas do Imperador podia garantir  criana um futuro 
melhor que uma sacerdotisa bret que tinha de esconder o prprio facto da sua 
existncia e, certamente, Julia preferiria criar um filho seu que o de um estranho - se 
bem que ele nunca pudesse estar muito certo sobre o que Julia sentia. E, afinal de 
contas, Gaius podia assegurar-lhe - e seria a verdade - que o rapaz tinha sido procriado 
antes de ele ter sequer posto os olhos nela.

A Casa da Floresta estava a pouco mais de um dia de viagem a cavalo. O seu filho podia 
estar a viver mesmo para l da prxima colina, reflectiu Gaius, olhando em direco ao 
Sul, atravs das rvores. Mas viu que estava estranhamente receoso de enfrentar Eilan 
novamente. Odiaria ela Roma? Odiava-o, a ele? A rapariga que tinha amado quando era 
um rapaz tinha-se ido, transformada na terrvel sacerdotisa de Vernemeton. Por vezes 
parecia-lhe que a mulher com quem se tinha casado tambm se tinha ido, toda a alegria 
que o tinha atrado morta com o seu filho.

Gaius tinha sido razoavelmente bem sucedido na sua carreira, se bem que dificilmente 
se pudesse dizer que tinha satisfeito os sonhos do seu pai. Ocorreu-lhe, no entanto, que 
tinha tido pouco que amar. Na sua vida tinha estado muitas vezes sozinho, mas a 
disciplina do seu pai, ou a do exrcito, tinha-o mantido ocupado de mais para se 
preocupar com isso. Mas,  medida que o ano se passava Gaius viu que, se bem que a 
administrao da propriedade exercitasse o corpo, deixava-lhe a mente livre         para 
vaguear e foi perseguido por sonhos da sua infncia.

Talvez fosse todo o tempo que estava a dedicar  terra que estava a estimular as suas 
memrias da poca em que todo o mundo era maravilhoso e uma novidade. No se 
tinha permitido a si prprio pensar na me enquanto era criana, mas agora sonhava 
com ela. Sentia-a a agarr-lo, ouvia as suas doces canes de embalar e acordava em 
lgrimas, pedindo-lhe que no o deixasse sozinho.

Mas ela tinha partido para a Terra dos Mortos, Eilan tinha-o deixado pela Deusa que 
servia, e agora Julia estava tambm a

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afastar-se dele. Haveria jamais algum, pensou, que pudesse simplesmente amar sem 
tentar modific-lo, algum cujo amor pudesse resistir?

Nessa altura Gaius lembrava-se de como se tinha sentido quando tinha tido o filho nos 
braos. Mas quando quer que comeasse a planear como encontrar o rapaz, via-se a 
vacilar  ideia da possibilidade que, quando se encontrassem, o seu filho, no fim de 
tudo, no se importasse. E assim no fez nada.

Um dia, quando Gaius andava atrs dos porcos selvagens que tinham andado a fossar 
nos seus jardins, reparou que tinha chegado  floresta, por cima da Casa da Floresta, 
onde Eilan tinha dado  luz o filho deles, e viu-se a encaminhar o cavalo pelo caminho 
abaixo. Sabia que Eilan no iria estar l, mas talvez estivesse algum que lhe pudesse 
dar notcias dela. Mesmo se ela o odiasse, dificilmente poderia recusar-se a dar-lhe 
notcias do filho deles.

Primeiro pensou que o local estava deserto. A promessa da Primavera enrubescia os 
ramos das rvores, com os seus slidos botes de folhagem, mas o tecto de vime da 
cabana estava estragado e descorado pelo tempo, e o cho uma confuso de paus 
derrubados na ltima tempestade e folhas mortas, j do ano passado. Depois viu uma 
fina neblina de fumo a filtrar-se pela colmagem. O cavalo resfolegou quando ele puxou 
pelo freio, e um homem espreitou para fora.

- Bem vindo, meu filho - disse ele -, quem s tu e por que vieste?

Gaius deu o seu nome, olhando para o sujeito com curiosidade.

- E quem podeis vs ser? - perguntou. O homem era alto, com uma face queimada pelo 
sol, cabelo escuro como a noite, vestido numa grosseira veste de pele de cabra por cima 
de uma esparsa barba suja.

Gaius pensou se no seria algum vagabundo sem casa que se tivesse refugiado no no 
utilizado edifcio; depois viu os paus cruzados que estavam pendurados no pescoo do 
homem por um fio e percebeu que devia ser alguma espcie de cristo, talvez um 
daqueles eremitas que se estavam, nestes ltimos anos,

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a espalhar dum lado ao outro do Imprio. Gaius tinha ouvido falar deles no Egipto e no 
Norte de frica mas era estranho ver um aqui.

- O que estais aqui a fazer? - perguntou outra vez.

- Vim para ministrar aos perdidos de Deus - respondeu o eremita. - No mundo era 
conhecido por Lycias; agora chamo-me Padre Petros. Decerto Deus enviou-te at mim 
porque ests necessitado. O que posso fazer por ti?

- Como sabes que foi Deus que me enviou at ti? - perguntou Gaius, divertido com a 
simplicidade do homem.

- Ests aqui, no ests? - perguntou o Padre Petros. Encolheu os ombros e Petros 
continuou,

- Acredita em mim, meu filho, nada acontece sem o conhecimento do Deus que colocou 
as estrelas nos seus lugares.

- Nada? - disse Gaius com uma amargura que o surpreendeu. Reparou que, nalgum 
ponto durante estes trs ltimos anos, talvez quando soube da morte de Agricola, ou 
talvez enquanto via o sofrimento de Julia, tinha deixado de acreditar nos deuses.
- Ento talvez me possas dizer que espcie de deidade tiraria um filho e uma filha a uma 
me que os amava?

-  esse o teu problema? - O Padre Petros abriu completamente a porta. - Entra, meu 
filho. Tais assuntos no so explicados num sopro, e o teu pobre animal parece cansado.

Sentindo-se um Pouco culpado, Gaius lembrou-se do longe que o cavalo o tinha levado. 
Depois de ter peado o animal com uma guia suficientemente comprida para o deixar 
alcanar erva seca, entrou.

O Padre Petros estava a colocar copos numa spera mesa.
- O que te posso oferecer? Tenho feijes e nabos e at algum vinho; o tempo aqui  tal 
que no posso banquetear-me tantas vezes quantas o faria num clima mais quente. Eu 
mesmo no bebo nada seno gua, mas -me permitido oferecer estas coisas mundanas 
a quaisquer convidados que venham at mim.

Gaius abanou a cabea, percebendo que tinha cado em cima dum filsofo.

- Experimentarei o teu vinho - disse -, mas digo-te francamente... nunca me convencers 
que o teu deus , quer todo-poderoso quer bom. Pois se fosse todo-poderoso, como no

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consegue evitar o sofrimento? E se pode e no o faz por que devero os homens ador-lo?

- Ah - disse o Padre Petros -, posso dizer por essa pergunta que foste treinado na filosofia 
estica; pois as palavras so deles. Mas os filsofos esto enganados sobre a natureza de Deus.

- E tu, claro, ests certo? - O tom de Gaius era beligerante.
O Padre Petros abanou a cabea.

- Sou apenas um pobre ministro para aquelas crianas que busquem o meu conselho. O nico 
Filho de Deus foi crucificado e voltou dos mortos para nos salvar; isso  tudo o que preciso de 
saber. Os que acreditarem Nele vivero eternamente em glria.

Era a habitual infantil lenda oriental, pensou Gaius, lembrando-se do que tinha ouvido sobre o 
culto em Roma. Admitia que via o que a histria tinha de atraente para escravos e at para 
algumas mulheres de boas famlias. Subitamente ocorreu-lhe que as divagaes deste sujeito 
podiam interessar a Julia ou, pelo menos, dar-lhe alguma coisa no que pensar. Pousou o copo.

- Agradeo-te pelo teu vinho, Padre Petros, e pela tua histria - disse. - A minha mulher pode vir 
visitar-te? Ela est devastada com tristeza pela nossa filha.

- Ser benvinda sempre que queira - replicou o Padre Petros graciosamente. - S tenho pena de 
no te ter convencido. No te convenci, pois no?

- Receio que no - Gaius sentia-se um pouco desarmado pelo desapontamento do homem.

- No sou grande coisa como pregador - disse o Padre Petros, parecendo, de algum modo, 
desanimado. - Quem me dera que o Padre Joseph estivesse aqui; tenho a certeza de que te 
convenceria.

Gaius achou que isso era altamente improvvel, mas sorriu polidamente. Quando se voltou para 
partir bateram  porta.
- Ah, Senara? Entra - disse o eremita.

- Vejo que tendes algum convosco - respondeu uma voz de rapariga. - Venho noutra altura, se 
puder.

- Est tudo bem, j ia a sair. - Gaius puxou para um lado a cortina de couro que cobria a porta. 
Perante ele estava uma das

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mais bonitas raparigas que ele tinha visto pelo menos desde o seu primeiro encontro 
com Eilan, h tanto tempo. Mas, claro, ele tambm tinha sido muito novo nessa altura. 
Ela tinha  volta de quinze anos, pensou, com cabelo da cor de enchimentos de cobre na 
fogueira dum ferreiro, e olhos muito azuis, vestida num vestido de l no tingida.

Depois olhou para ela outra vez e percebeu onde e que a tinha visto antes. Apesar da sua 
pigmentao celta, havia uma clara parecena com o velho secretrio do seu pai, 
Valerius, na linha do seu nariz e do queixo. Isso explicaria o seu conhecimento de latim.

No foi seno quando estava a soltar o cavalo que percebeu que podia ter pedido a - o 
que  o eremita lhe tinha chamado, Senara? - como arranjar um encontro com Eilan. 
Mas nessa altura j a cortina da porta se tinha fechado atrs dela, e uma das poucas 
coisas que ele sabia sobre as mulheres - no que soubesse assim tanto, e desde o 
casamento achava que ainda menos - era que no era sensato perguntar a uma mulher 
sobre outra.

J passava bem do pr do Sol quando Gaius chegou  villa, mas a saudao de Julia, se 
bem que reprimida, pelo menos foi amigvel. Licinius j estava  espera deles na sala de 
jantar.

Macellia e Tertia estavam a brincar com uma carruagem de brinquedo na varanda; 
tinham vestido o macaco de estimao de Julia com roupas de beb e estavam a tentar 
enfi-lo na carruagem. Salvou o pequeno animal e entregou-o a Julia. Por vezes pensava 
como  que trs rapariguinhas e uma mulher, com apenas sete servidores, podiam fazer 
um tal caos numa casa.

As rapariguinhas gritaram:

- Pap! Pap! - e Quartilla veio a correr juntar-se-lhes. Gaius abraou-as a todas  vez, 
chamou Lydia para se encarregar delas e depois foi com Julia para a sala de jantar.

Ela ainda tinha o macaco no ombro; era mais ou       menos do tamanho dum beb e, por 
qualquer razo, v-lo vestido com roupas de criana incomodou-o. No podia imaginar 
o que  que Julia queria da criatura; era um animal de clima quente e tinha de ser 
mimado exactamente como se fosse uma criana.

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De todos os lugares para ter um tal bicho de estimao, a Bretanha era certamente o 
pior; mesmo no Vero, supunha, fazia frio de mais para o pequeno animal.

- Gostaria que te visses livre desse maldito bicho - disse irritadamente quando se 
sentaram para a refeio.

Os olhos dela encheram-se de lgrimas.

- Secunda gostava tanto dele - murmurou.

o comentrio f-lo pensar, no pela primeira vez, se julia no   teria perdido o juzo. 
Secunda estava com seis anos de idade quando tinha morrido, e ele tinha a       
impresso que ela nunca tinha prestado a mnima ateno ao macaco. Contudo, se 
agradava a Julia pensar que sim--- Ao ver o olhar de aviso de Licinius, do outro lado da 
mesa, suspirou e abandonou o assunto.

- O que estiveste a fazer hoje? - perguntou ela, fazendo um esforo bvio para falar 
alegremente quando os criados trouxeram os ovos quentes, uma travessa de ostras 
fumadas e peixe salgado, e uma seleco de verduras temperadas com azeite.

Gaius engoliu um pedao de cebola depressa de mais e comeou a tossir, amaldioando 
mentalmente este dia. Estendeu uma mo por cima da mesa para agarrar um fragrante 
pedao de po fresco.

- Estive a tentar seguir o rasto daqueles porcos selvagens e acabei do outro lado das 
colinas - comeou - A velha cabana nos bosques tem um novo inquilino, uma espcie de 
eremita.

- Um cristo? - perguntou Licinius suspeitosamente. Ele nunca tinha nada de bom a 
dizer dos cultos orientais que comeavam a invadir Roma.

- Aparentemente sim - disse Gaius neutralmente, deixando a rapariga levar o seu prato 
enquanto outras traziam a travessa de pato com molho de ameixas embebidas em vinho 
doce. Molhou os dedos na bacia de gua perfumada e limpou-os.
- De qualquer forma, ele acredita que o seu deus se ergueu dos mortos.

Licinius bufou, mas os olhos de julia encheram-se de lgrimas.
- Acredita mesmo? - O desamparado olhar nos seus olhos fustigou o corao de Gaius, 
apesar de o exasperar. O que quer que seja que a conforte. Pousou a asa do pato, 
virando-se no seu div para olhar para ela.

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- Achas que ele me deixar ir at l e falar com ele? Permites-me que v? - perguntou 
ela suplicantemente,

- Minha querida Julia, quero que faas o que quer que te d consolo. - Dizia-o com toda 
a sinceridade. - O que quer que te torne feliz ser do meu agrado.

- s to bom para mim. - Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas outra vez. Ela engoliu 
em seco apologeticamente e fugiu da sala.

- No a percebo - admitiu Licinius. - Eduquei-a para viver uma vida virtuosa e honrar os 
seus antepassados. Eu tambm amava a criana, mas todos temos de morrer um dia, 
mais cedo ou mais tarde. Fiz uma boa escolha para a minha rapariga acrescentou. - Tu 
tens sido mais bondoso para ela que o que eu teria sido, embora ela no te tivesse dado 
um filho.

Gaius suspirou e pegou no vinho. Sentia-se como um impostor monstruoso, mas 
deixou-se estar calado. Tinha-se tornado responsvel pela felicidade desta mulher, e 
ferir os seus sentimentos era a primeira de muitas coisas que ele no queria fazer. Mas 
no conseguia deixar de pensar que Eilan nunca teria sido idiota o suficiente para se 
deixar seduzir pelas divagaes dum qualquer monge cristo.

Depois de os doces terem sido levados, Gaius foi at ao quarto onde Julia 
supervisionava enquanto as rapariguinhas eram deitadas. Gaius ficou contente por ver 
que o macaco tinha escapado; sentindo-se muito desprezvel, desejou que tivesse fugido 
e, se tivessem sorte, fosse apanhado por um co vadio.

A escrava atiou o pavio e ele e Julia detiveram-se por um momento, a olharem para a 
suave luz tremeluzindo em macias faces e em escuras pestanas. Julia disse umas 
palavras de bno e tocou no amuleto contra o fogo que estava pendurado na parede. 
Ultimamente tinha-se tornado muito supersticiosa. Claro que um fogo seria desastroso, 
mas a casa tinha sido construda h pouco tempo e no rascunhada de todo. Em resumo, 
ele tinha mais confiana nas capacidades de lutar contra o fogo dos escravos da sua casa 
que na maioria dos deuses ou feitios. Quando se dirigiam para a entrada, ela disse:

- Acho que vou j para a cama.

Gaius deu-lhe uma pancadinha no ombro e beijou a face que ela lhe estendia. Devia t-
lo esperado. A ideia era que, na

A CASA DA FLORESTA

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altura em que ele fosse para a cama ela j estivesse - ou fingisse estar - to 
profundamente adormecida que no a incomodasse. Ele bem que podia no ter uma 
mulher de todo. E como podia ela esperar que ele lhe desse outro filho se ela no dormia 
com ele?

Mas era intil censur-la. Desejou-lhe uma boa noite e virou-se em direco ao seu 
escritrio na outra ala da villa, onde um rolo de pergaminho, contendo o ltimo captulo 
da Vida de Agricola, de Tcito, o esperava.

E a ele descobriu onde se tinha refugiado o macaco de Julia; estava na sua secretria e 
tinha defecado, um malcheiroso excremento de macaco, por cima de todos os seus 
papis. Gritou enraivecido, agarrou no pequeno animal e atirou-o com toda a sua fora 
para o ptio. Ouviu um esquisito rudo de algo a ser modo, um gemido, e depois mais 
nada.

Bom. Se a criatura tivesse morrido ele no a lamentaria; e no teria o minmo pejo em 
dizer a Julia, no dia seguinte, que um co o devia ter apanhado. O padre cristo poderia 
confort-la; se bem que ele tivesse ouvido dizer que eles preferiam no ter nada a ver 
com mulheres. Nesta altura tambm ele prprio desejou no ter.

VINTE E CINCO

Gaius acordou de manh cedo. Hoje, o que quer que acontecesse, devia fazer qualquer 
coisa para encontrar o seu filho. Ardanos devia saber como entrar em contacto com a 
neta. No estava ansioso por falar com o velho, o qual suspeitava ser, a seu modo, to 
fantico como o Padre Petros, mas no conseguia achar outra alternativa. O nico 
problema que restava era como encontrar Ardanos, que j no vivia em Deva.

Mas, enquanto se deixava estar a pensar sobre o problema, ouviu um bater imperioso no 
porto da frente, e o seu camareiro queixando-se enquanto se dirigia para ir atender. 
Gaius vestiu um roupo e deslizou cuidadosamente para fora da cama, para no acordar 
Julia. Um legionrio estava  espera no ptio da frente com um pedido de Macellius 
para que o fosse visitar. Gaius levantou uma sobrancelha. O seu pai estava oficialmente 
aposentado, mas sabia que o velho se tinha tornado numa espcie de conselheiro de 
confiana do jovem comandante da XX Legio.

Se tivesse sado quando Julia descobrisse a morte do macaco no teria de enfrentar as 
suas lgrimas. Gaius atravessou a cidade directamente para os portes da fortaleza, 
trocando saudaes com o guarda que estava de sentinela, que o conhecia bem do seu 
trabalho como Procurador.

- O vosso pai disse que chegareis provavelmente antes do meio-dia - disse o soldado. - 
Encontr-lo-eis, com o Legado, no Practorium.

No banco fora do escritrio do comandante viu uma mulher com um aspecto cansado. 
Era uma bret do tipo de cabelo escuro e pele clara, como o do povo da sua me; 
algures entre os trinta e os trinta e cinco anos, calculou, vestida num vestido de l cor de 
aafro bastante pesadamente bordado com ouro.
434

MARION ZIMMER BRADLEY

Gaius pensou o que  que ela teria feito, e quando o legionrio de servio o conduziu  
presena do Comandante e do seu pai, colocou a questo,

- O nome dela  Brigitta - respondeu o pai com desagrado. - Auto-intitula-se Rainha dos 
Demetae. Quando o marido morreu, deixou a fortuna em partes iguais a ela e ao 
Imperador,
e parece que ela acha que isto lhe d o direito de governar
o seu reino. Soa familiar?

Gaius lambeu os lbios secos. Era uma prtica comum para um homem rico dividir as 
suas propriedades entre a sua prpria famlia e o Imperador, na esperana de que o co-
herdeiro imperial se assegurasse de que os outros herdeiros recebiam a sua parte. 
Agricola tinha feito o mesmo,

O Legado olhava de Gaius para o pai deste. Claramente, a ele no lhe soava familiar.

- Boudicca. - disse Gaius sucintamente. - O marido dela tentou a mesma coisa, mas os 
Iceni tinham dvidas com alguns senadores bastante proeminentes. Quando ele morreu 
eles mudaram-se para l e ela tentou resistir. Ela e as filhas foram bastante... maltratadas 
e ela levantou a tribo numa revolta que quase nos varreu para fora desta terra! - Era esse 
o espectro que Macellius estava a ver quando olhava para a infeliz mulher sentada no 
exterior, principalmente porque os Demetac eram uma das tribos de que descendia 
atravs da linha da me.

- Oli, essa Boudicca - disse o Legado. Chamava-se Lucius Domitius Brutus e parecia a 
Gaius novo de mais para um posto de tanta importncia, mas dizia-se que era um bom 
amigo do Imperador.

- Essa Boudicca - repetiu como num eco Macellius, enfastiadamente. - Por isso vedes, 
senhor, porque  que o tribuno em Moridurinum a despachou logo que o testamento foi 
lido e porque  que no podemos, pura e simplesmente, executar os termos do 
testamento tal como eles esto, por muito que beneficiem o Imperador.

- Por outro lado - disse Gaius - tambm devia ser claro que esta mulher deve ser tratada 
como vidro frgil. Posso-vos assegurar que todos os nativos deste pas vo ficar  espera 
para ver o que vamos fazer. - Ocorreu-lhe um pensamento.
- Suponho que ela tem filhos?

A CASA DA FLORESTA

435

- Um par de filhas algures, ouvi dizer - disse Macellius, com cansao na voz -, mas no 
sei o que  feito delas- tm apenas trs ou quatro anos, sorte maldita, seno faramos 
com que se casassem como deve ser, com algum cidado. No tenho muito estmago 
para esta coisa de guerra contra mulheres e crianas; mas se as mulheres se misturam na 
poltica, o que podemos fazer? Corre o rumor que ela, ou aqueles que gostariam de a 
usar, mandou mensagens a procurar aliana com os Hibernians.

Gaius estremeceu, lembrando-se da incurso contra a casa de Eilan.

- Levem-na para Londinium - sugeriu. - Se ela for mandada para Roma o povo dela vai 
pensar que est prisioneira, mas se ela for instalada numa boa casa na cidade podero 
pensar que ela os traiu. Dizei-lhe que a no ser que viva em Londinium no ver um 
sestrcio do ouro do marido.

- Pode ser que resulte - disse Macellius, pensativamente. Virou-se para o Legado. - 
Concordo com a sugesto do meu filho. j tenho um destacamento preparado para 
fortalecer a guarnio em Moridunnum; eles podem levar as notcias.

- Ento ela ser um refm - disse Domitius Brutus. Isto podia ele entender.

Quando deixou o escritrio, ocorreu a Gaius que as filhas, por muito novas que fossem, 
podiam ainda constituir um perigo. A mulher provocou-lhe uma leve piedade. Parecia 
to desamparada.

Onde esto as tuas filhas? - perguntou na lngua bret.
 Onde nunca as encontrars, romano, e dou graas aos deuses - disse. - Pensas que no 
sei como os teus legionrios tratam as raparigas novas?

- No as criancinhas! - exclamou Gaius. - V l; eu tambm sou pai, com trs filhas com 
idades semelhantes  das tuas. Quando muito encontrar-lhes-amos tutores adequados.

- Poupar-te-ei esse incmodo. - disse ela ferozmente. Onde esto esto muito bem 
tratadas!

Um legionrio chegou e tocou-lhe num brao. Quando ela se encolheu, ele ordenou-lhe:

- Acompanhai-me calmamente, senhora. No desejamos ter de vos atar.

436

MARION ZIMMER BRADLEY

Ela olhou loucamente  sua volta, e o seu olhar pousou-se em Gaius.

- Para onde me levais?

- Apenas para Londinium - disse ele acalmando-a. Viu o rosto dela contrair-se, no 
sabia se de alvio se de desapontamento, mas foi-se embora bastante calmamente.

O legionrio de servio viu-a a sair e disse a Gaius:

- Ao olhar para ela agora nunca se pensaria que se aliasse com reputados agitadores; 
mas quando a recolhemos foi reportado que tinha sido vista com um conhecido rebelde: 
Corimor, Cynric, ou um nome desses. Diz-se que ele ainda est na rea.

- Eu conheo-o - disse Gaius.
 O legionrio ficou a olhar.
- Vs, senhor?

Gaius acenou com a cabea, lembrando-se do bem disposto rapaz que o tinha tirado da 
armadilha para javalis. Estaria Cynric ainda em contacto com Eilan? Se o apanhassem, 
Gaius podia perguntar se ele podia arranjar um encontro privado.

- Pelos deuses - disse Macellius, fechando a porta do escritrio do Legado atrs de si e 
seguindo Gaius pelo corredor      tudo isto me faz sentir velho!

No sejais ridculo - respondeu-lhe Gaius.

O Legado quer que eu faa qualquer coisa          para acalmar as coisas entre o povo. 
Usar os meus velhos             contactos, diz ele.

Talvez Brutus no fosse to estpido como parecia, pensou Gaius. A habilidade de 
Macellius para obter a cooperao das tribos tinha sido lendria nos seus tempos.

- Mas estou cansado de tirar as castanhas do fogo para as outras pessoas. Talvez me 
mude para Roma. j se passou muito tempo desde que vi a cidade. Talvez devesse ir 
para o Egipto onde, por uma vez, teria calor.

- No sejais louco - zombou Gaius. - O que fariam as minhas pequeninas sem o seu 
av?

 Oh, v l, elas mal do por que estou vivo - disse Macellius. Mas pareceu ficar 
satisfeito. - Claro que se tivesses tido um filho seria diferente.

- Eu... bem, pode ser que tenha um filho um destes dias.
- Gaius interrompeu-se em apuros. Tinha sido o prprio

A CASA DA FLORESTA

437

Macellius a contar a Gaius sobre a gravidez de Eilan, mas quando ele a viu, e ao beb, 
na cabana da floresta, tornou-se claro que o nascimento tinha sido mantido em segredo. 
Se Macellius no sabia que Eilan lhe tinha dado um filho, Gaius pensava que no era 
agora que o devia dizer ao pai.

Eilan sonhava que estava a andar ao lado dum lago numa meia luz que tanto podia ser 
do crepsculo como do amanhecer. Uma leve bruma pairava sobre as guas, 
obscurecendo a margem mais distante; as brumas eram prateadas e via-se um reflexo de 
prata sobre as guas; pequenas ondas batiam suavemente de encontro  margem. Parecia 
que flutuavam cantos atravs da gua e, saindo das brumas, apareceram nadando nove 
cisnes brancos, to belos como as donzelas da Casa da Floresta quando saudavam a 
Lua.

Eilan nunca tinha ouvido nada to belo. Dirigiu-se para a borda do lago, estendendo as 
mos, e os cisnes nadaram vagarosamente em crculo.

- Deixai-me ir at vs, deixai-me nadar convosco! - gritou, mas a resposta que chegou 
dos cisnes foi:

- No podes vir connosco; as tuas roupas e os teus ornamentos levar-te-iam para o 
fundo... - comearam a nadar para longe e o corao de Eilan ficou dilacerado com a 
perca.

Despiu o seu pesado vestido, os seus vus e o manto, e ps de lado o colar dourado e as 
pulseiras de Gr Sacerdotisa. Quando a sua sombra se reflectiu na gua, era a sombra 
dum cisne. Mergulhou dentro do lago...

Quando as guas prateadas se fecharam sobre a sua cabea, ela acordou para os rudos 
familiares da Casa da Floresta,  sombria luz da alvorada. Durante uns momentos Eilan 
manteve-se imvel, a esfregar os olhos. Esta no era a primeira vez que sonhava com o 
lago e com os cisnes. De cada vez parecia mais difcil voltar. No tinha falado com 
ningum sobre o seu problema. Era a Gr Sacerdotisa de Vernemeton, no uma estpida 
rapariga qualquer que se assustasse com um sonho esquisito. Mas, de cada vez que 
acontecia, o sonho tornava-se mais vivido, e o papel que ela desempenhava na altura em 
que acordava, cada vez mais irreal.

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MARION ZIMMER BRADLEY

Algum estava a bater numa porta. Estranhamente, era no porto para o seu jardim. 
Podia ouvir tnuamente a voz de uma das jovens sacerdotisas que a guardavam 
levantar-se em protesto.

- Quem s o brincalho que pensas que s? No podes simplesmente aparecer vindo no 
se sabe donde e pedir para ver a Gr Sacerdotisa, certamente nunca a uma hora destas.

- Desculpai-me - respondeu uma voz profunda. - Penso nela ainda como na minha irm 
adoptiva, no como na Gr Sacerdotisa. Pedi-lhe, por favor, se pode falar comigo!

Eilan vestiu um xale e correu na direco do alpendre.
- Cynric! - exclamou. - Pensei que estavas algures no Norte! - Ela imobilizou-se. 
Pendurada no seu pescoo estava uma criancinha, de cabelo escuro, com dois ou trs 
anos; outra rapariga, talvez com cinco anos de idade, escondia-se atrs do seu  manto.

- So tuas?

Ele abanou a cabea.

- Pertencem a uma infortunada mulher, e vim implorar-te que  lhes ds abrigo em nome 
da Deusa.

- Dar-lhes abrigo? - repetiu Eilan estupidamente. - Mas por  qu?

- Porque elas precisam - retorquiu Cynric, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

- O que eu queria dizer era por qu aqui? Elas no tm nenhuma famlia que olhe por 
elas? Se no so tuas, porque se tornaram tua responsabilidade?

- A me delas  Brigitta, Rainha dos Demetae - disse Cynric constrangido. - Ela tentou 
reclamar o reino quando o marido morreu e agora est prisioneira de Roma. Temamos 
que as filhas fossem mantidas como refns, ou pior, se cassem em mos romanas.

Eilan olhou para as raparigas e pensou no seu prprio filho. Tinha pena da me delas, de 
todo o corao, mas o que teria Ardanos a dizer? Esta era uma daquelas alturas em que 
podia ter usado o conselho de Caillean, mas a mulher mais velha tinha ido ao Pas de 
Vero de visita ao Poo Sagrado.

- Sabes que elas so novas de mais para reclamarem a Deusa.

A CASA DA FLORESTA

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- Tudo o que peo  que as mantenhas a salvo e seguras! - comeou Cynric, mas antes 
que pudesse dizer algo mais ouviu-se mais barulho l fora.

- Minha senhora, no podeis ver a Sacerdotisa agora; ela est com um convidado.

- Mais uma razo para eu dever estar com ela - disse uma voz, e Dieda entrou no jardim. 
Quando viu Cynric gritou e ele voltou-se rapidamente para a ver. Tinham-lhe contado 
sobre as actividades dele quando tinha voltado de Eriu, mas esta era a primeira vez que 
o via.

- As crianas no so minhas! - exclamou ele quando a cor comeou a abandonar o 
rosto dela e, depois, voltou de novo. - A Rainha Brigitta enviou-as aqui para pedirem 
santurio.

- Ento, elas devem ser levadas para a Casa das Donzelas - disse Dieda recompondo-se, 
e estendeu a mo. Mas os seus olhos estavam ainda postos em Cynric.

- Espera - disse Eilan. - Preciso de pensar. A Casa da Floresta no se pode dar ao luxo 
de se enredar em qualquer assunto poltico.

- Sem o consentimento dos romanos? - disse Cynric desdenhosamente.

-  fcil para ti escarnecer - comeou Eilan -, mas deves lembrar-te que ns existimos 
devido  tolerncia desses mesmos romanos que s to rpido a pr de lado. Devamos, 
pelo menos, consultar o Arquidruida antes de nos comprometermos com algo que se 
possa parecer com o apoio a uma rebelio.

- Com Ardanos? - cuspiu Cynric. - Por que no com o prprio Legado, em Deva? 
Talvez devssemos ir ao Governador da Bretanha e pedir-lhe a sua autorizao.

- Cynric, arrisquei muito por ti e pela tua causa - lembrou-lhe Eilan sobriamente. - Mas 
no posso arriscar a Casa da Floresta dando abrigo a fugitivos polticos sem autorizao 
de Ardanos.
 - Uma rpida palavra enviou a sua assistente a correr pelo caminho que levava at uma 
casa ali perto, que tinha sido construda para o Arquidruida.

Cynric disse:

- Eilan, sabes o destino a que ests a abandonar estas raparigas?

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- E tu sabes? - disse ela rispidamente. - Por que ests to seguro que Ardanos vai 
recusar?

- Em relao a qu? - disse uma nova voz, e todos se viraram, Eilan franzindo as 
sobrancelhas, Cynric corado com a ira e Dieda plida devido a uma emoo que Eilan 
no conseguia descrever.
 - A tua mulher encontrou-me mesmo aqui ao p - explicou Ardanos.

Eilan apontou para as crianas.

- No h nada que eu possa fazer por Brigitta - disse Ardanos quando ela acabou a 
explicao. - Ela estava avisada sobre o que aconteceria se reclamasse o direito de 
reinar. Mas ela no ser maltratada; nem mesmo os prprios romanos repetiriam o 
mesmo erro duas vezes num sculo. Quanto s raparigas, no sei. Mais tarde podem 
representar sarilho.

- Mas no ainda - disse Eilan decididamente.            - E eu no responsabilizarei 
crianas pelos crimes dos pais.      Senara e Lia podem cuidar delas. Se lhes dermos 
outros nomes         e as tratarmos como outras crianas quaisquer podem ficar a salvo 
durante algum tempo. Ningum pensar nada sobre isso.
- Sorriu com amargura. - Afinal de contas, j tenho a reputao de dar abrigo a crianas 
sem me!

- Suponho que sim - disse Ardanos duvidosamente.
- Mas Cynric far melhor em pr-se a andar daqui para fora. Pois onde ele est, j 
reparei nisso, os sarilhos aparecem. - Olhou para o jovem e Dieda empalideceu. - Os 
romanos podem no se importar com as raparigas, mas certamente que estaro  tua 
procura!

- Se eles tentarem interferir comigo pode ser que encontrem mais sarilho que o que 
desejariam. - disse ferozmente Cynric.
 Eilan suspirou, pensando que, mais que um Raven, ele

devia ter-se chamado um tempestuoso petrel. Mas no era to estpida que fosse 
discutir com Cynric ou com Dieda. Tudo o que podia fazer era tentar manter a paz por 
um pouco mais de tempo. Por vezes parecia que todo o peso da Bretanha repousava nos 
seus ombros - e que os seus parentes conspiravam para que ele a se mantivesse.

Senara foi chamada para levar as crianas para os seus novos aposentos e Eilan partiu 
para os seus deveres, deixando Dieda e Cynric sozinhos para que se despedissem. 
Algum tempo

A CASA DA FLORESTA

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depois, durante essa tarde, ela ouviu um choro no telheiro onde secavam as ervas. Era 
Dieda.

A outra mulher comeou a levantar-se, os olhos a chamejar, depois pareceu desinchar 
quando viu quem era. Se bem que a sua relao j no fosse muito chegada, pelo menos 
no sentiu nenhuma necessidade de disfarar. Mas Eilan no era to idiota que   lhe 
fosse ou tocar tentar confort-la.

o que se passa? - disse.

Dieda esfregou os olhos com a ponta do vu, fazendo com que   estes ficassem ainda 
mais vermelhos.

- Ele pediu-me para ir com ele...

- E tu recusaste - Eilan manteve a voz deliberadamente neutral.

- Para viver a vida dum foragido, sempre a esconder-me na floresta, com medo de cada 
som, sempre pensando se no dia seguinte o veria ser levado acorrentado ou morto por 
espadas romanas? No podia faz-lo, Eilan! Aqui pelo menos tenho a minha msica e 
trabalho para fazer em que acredito. CoMo podia partir?

- Disseste-lhe isso?

Dieda assentiu com a cabea.

- Ele disse que se eu sentia desse modo, no podia am-lo verdadeiramente; que eu 
estava a trair a nossa causa... Ele disse que precisava de mim...

Tenho a certeza que disse, o idiota , pensou Eilan, e nunca pensou se ela precisava 
dele de todo!

- A culpa  tua! - exclamou Dieda. - Se no fosse por tua causa j me tinha casado com 
ele h muito tempo. Ento, talvez ele nunca se tivesse tornado num foragido!

Fazendo um esforo, Eilan impediu-se de notar que Dieda tinha jurado os votos de 
sacerdotisa de sua livre vontade. Mesmo quando Eilan voltou Para a Casa da Floresta, 
depois do nascimento de Gawen, ela podia ter ido para junto de Cynric em vez de   ir 
para Eriu. A pobre rapariga no queria lgica, queria algum a quem culpar.

-  E agora tudo em que posso pensar  no modo como ele me olhou! Podem-se passar 
meses, ou anos, antes que eu saiba como ele est, ou o que est a acontecer com ele! Se 
estivesse com ele, pelo menos, saberia! - lamuriou-se Dieda.

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- Admito que, dum modo ou de outro, te importas com a minha aprovao - disse Eilan 
suavemente. - O que quer que penses sobre as minhas opes, sabes que aprendi a viver 
com elas. Mas tambm eu chorei na escurido, pensando se tinha feito a coisa certa. 
Dieda, podes nunca vir a ter a certeza; tudo o que podes fazer  o trabalho que te  dado, 
e esperar que algum dia a Deusa venha a explicar a razo para isso.

O rosto de Dieda estava virado para o outro lado, mas pareceu a Eilan que os seus 
soluos estavam a diminuir.

- Direi s donzelas que ests doente e no as podes levar hoje  noite para cantarem - 
continuou. - No tenho dvidas de que ficaro contentes com um feriado.

Pareceu a Eilan que o problema das crianas de Brigitta tinha ficado resolvido, mas, 
passados apenas uns poucos de dias, mesmo antes da refeio da tarde, a sua assistente 
disse-lhe que um romano lhe solicitava uma audincia.

Gaius veio-lhe  mente, mas um segundo pensamento disse-lhe que ele nunca se 
atreveria a vir aqui.

- Descobre o nome dele e que assunto         o traz c - disse simplesmente.

Passados uns poucos instantes a rapariga voltou.

- Senhora,  Macellius Severus que pede o favor duma palavra convosco - acrescentou. - 
Era o Prefeito de Campo de Deva...

- Sei quem ele . - Lhiannon tinha-o recebido uma ou duas vezes, mas agora Macellius 
estava aposentado. O que  que, em nome de todos os deuses, poderia ele querer dela? 
A nica maneira de descobrir era perguntar.

- Diz-lhe para entrar - ordenou. Endireitou o vestido e, depois duns instantes de 
reflexo, puxou o seu vu sobre a cara.

Pouco depois Huw passou pela entrada com outro homem atrs dele. O pai de Gaius... o 
av do seu filho... Eilan olhou para ele com curiosidade por trs do vu. Nunca o tinha 
visto antes, e, no entanto, t-lo-ia conhecido onde quer que fosse. Vises em 
sobreposio mostraram-lhe as feies do velho gastas

A CASA DA FLORESTA

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pelo tempo e as fortes linhas do nariz e da testa que se tinham repetido no filho e que 
estavam apenas a comear a emergir nas infantis curvas do rosto do seu.

Huw tomou posio ao lado da porta e Macellius deteve-se  sua frente. Endireitou-se e 
fez uma vnia, e Eilan percebeu subitamente onde Gaius tinha ido buscar o seu orgulho.

Minha Senhora. - Ele usou o termo romano Domina, mas excepto isso o seu breto era 
bastante bom. - Sois muito amvel em receber-me...

- De todo - replicou. - O que posso fazer por vs?
- Ela supunha que teria alguma coisa a ver com um dos festivais que se aproximavam, 
como tinha sido quando ele se tinha apresentado perante Lhiannon.

Macellius clareou a garganta.

- Fui informado que oferecesteis santurio s filhas da Rainha Demetana...

Nesta altura Eilan sentiu-se extremamente contente por ter posto o vu.

- Se isso fosse verdade - disse vagarosamente, desejando desesperadamente que 
Ardanos ou Caillean estivessem aqui para a ajudarem - por que  que isso vos 
interessaria?

- Se assim fosse - ele ecoou -, quereramos saber porqu.

As palavras de Cynric vieram-lhe  cabea.

- Porque me foi dito que elas precisavam. Conseguis pensar numa razo melhor?

- No consigo - respondeu-lhe -, e, contudo, a me delas  uma rebelde que ameaou 
levantar todo o Oeste contra Roma. Mas Roma foi misericordiosa. Brigitta foi enviada 
sob custdia para Londinium e no lhe ser feito qualquer mal. Nem exigimos a morte 
para os seus parentes.

As pequeninas ficaro contentes por saber que a me delas est a salvo , pensou 
Eilan, lembrando-se do anormalmente silenciosas que elas tinham andado. Mas por 
qu? Seria possvel que Macellius desejasse a paz entre Roma e os Bretes tanto como 
ela?

- Se isso for verdade fico contente em ouvi-lo - disse ela -, mas o que quereis de mim?

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MARION ZIMMER BRADLEY

- Pensaria que era bvio, senhora. Essas raparigas no se devem tornar num fulcro de 
reagrupamento para algum futuro levantamento. A prpria Brigitta no  importante, 
mas em tempos de tenso qualquer pretexto servir.

Ela disse:

- Penso que podeis ficar descansado quanto a esse ponto; se estiverem entre as donzelas 
da Casa da Floresta nenhum uso poltico poder ser feito delas.

- Nem mesmo quando estiverem crescidas? - perguntou. - Como saberemos que elas 
no sero entregues a homens que tentaro governar os Demetac por direito de 
casamento com a Rainha?

Ele tinha razo em querer saber, pensou ela. Era exactamente o tipo de coisa que Cynric 
tentaria fazer.

- Como o evitarieis?

- A melhor maneira  fazer com que elas sejam adoptadas em lares romanos leais; e 
quando forem crescidas, encontrar-lhes bons e slidos maridos com simpatia pelos 
Romanos.

- E isso seria tudo o que lhes aconteceria em mos romanas?

-    tudo - replicou Macellius. - Minha senhora, no podeis acreditar que faamos 
guerra contra bebs e criancinhas?

Ela ficou silenciosa. Foi exactamente nisso que eu fui educada a acreditar.

-  vosso desejo que continuemos a pagar pelas atrocidades cometidas por outros para 
sempre? Como na ilha sagrada, por exemplo? - disse Macellius, como se pudesse ouvir 
no que ela estava a pensar.

 nisso que Cynric acredita, mas a deciso  minha. E  a mim que a Deusa deve dizer 
o que fazer. Eilan permaneceu em silncio ainda durante alguns instantes, procurando 
a quietude interior com a qual pudesse ouvir.

- No o  - disse -, mas eu perderia a confiana do meu prprio povo se parecesse 
desejosa de mais de acreditar em vs. Ouvi dizer que as filhas de Brigitta so ambas 
novas de mais para que algum possa pensar em casamento. Elas tm passado por 
muitas dificuldades. Decerto seria mais misericordioso para elas deix-las ficar onde 
esto mais uns meses, ou at mesmo um ano,

A CASA DA FLORESTA

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at que o furor tenha acalmado. Nessa altura toda a gente saber como tratastes a me 
delas. As paixes tero arrefecido, e haver menos clamor quando o povo souber que 
elas esto em vosso poder.

- E elas ser-nos-o entregues nessa altura? - perguntou Macellius, franzindo as 
sobrancelhas.

- Se tudo for como vs dizeis, juro pelos deuses da minha tribo que o sero. - Eilan 
colocou a mo sobre o colar que lhe rodeava o pescoo. - Preparai-vos para as receber 
em vossa casa, em Deva, durante a Festa das Donzelas no prximo ano.

O rosto dele suavizou-se e a respirao de Eilan prendeu-se quando viu no seu marcado 
rosto o vacilante sorriso de Gawen. Se ao menos lhe pudesse dizer quem ela era, e 
mostrar-lhe o seu neto, a salvo e forte!

- Acredito em vs - disse Macellius. - S me resta esperar que o Legado acredite em 
mim.

- Vernemeton  refm da minha honestidade - ela fez um   gesto  sua volta. - Seu eu a 
trair estamos ao fcil alcance da   mo dele.

Ele disse:

- Senhora, eu beijaria a vossa mo; mas o vosso guarda est a olhar para mim muito 
suspeitosamente.

- No podeis faz-lo - disse ela -, mas aceito a vossa boavontade, meu senhor.

- E eu a vossa - disse Macellius, e fez outra vnia. Depois de ele ter partido, Eilan 
deixou-se ficar sentada uns instantes em silncio, pensando se tinha trado o seu povo 
ou se o teria salvo. Teria sido para isto que os deuses tinham trabalhado ao coloc-la 
aqui? Teria sido para isto que ela tinha nascido?

Caillean voltou do Pas de Vero j tarde no dia seguinte, parecendo cansada mas 
jubilosa. Quando a mulher mais velha acabou de tomar banho, Eilan mandou Senara 
perguntar se ela tomaria a sua refeio da tarde diante da lareira de Eilan.

- Como cresceu aquela criana! - comentou Caillean quando Senara saiu para preparar a 
refeio. - Parece que foi ontem que

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MARION ZIMMER BRADLEY

ela veio para aqui e, agora, tem a mesma idade que tu tinhas quando te vi pela primeira 
vez, e  quase to bonita!

Com alguma surpresa, Eilan reparou que Senara estava, na verdade, uma jovem mulher, 
com idade suficiente para tomar votos; algum dia, cedo, deveria ser prometida como 
sacerdotisa. No tinha havido nenhuma palavra dos seus parentes romanos, em anos, e 
no tinha razo para pensar que pudesse haver qualquer objeco. Mas, pelo menos para 
isto, no havia nenhuma pressa.

- E o que  que tens feito neste brilhante dia de sol, minha querida filha? - Caillean 
perguntou a Senara quando esta pousou a comida.

Um estranho olhar perpassou pela cara da rapariga.

- Passei por   aquela pequena casa na floresta. Sabeis que um eremita foi viver para l?

- De facto, ns demos autorizao.  um velho estranho, de algum lugar do Sul. Um 
cristo, no ?

-  - respondeu Senara com esse mesmo estranho olhar.
- Tem sido bondoso comigo.

Caillean franziu o sobrolho. Eilan sabia que ela diria que no era prprio para uma 
sacerdotisa da Casa da Floresta estar sozinha com um homem, no interessava o quo 
srio ou idoso. Mas, afinal de contas, a rapariga no estava ajuramentada a elas; alm 
disso, tinha ouvido dizer nalgum lado que os padres cristos faziam voto de castidade. 
Em qualquer dos casos, pensou Eilan retorcidamente, ela no era ningum para pr em 
causa a modstia de qualquer rapariga.

- A minha me era crist - disse Senara. - Tenho a vossa autorizao para visitar este 
padre e levar-lhe alguma comida da nossa cozinha? Gostaria de aprender mais sobre 
aquilo em que a minha me acreditava.

- No vejo porque no - respondeu Eilan. - Que todos os deuses so um s Deus faz 
parte dos nossos ensinamentos mais antigos. Vai, e aprende qual  a face Dele que os 
cristos vem...

Comeram durante algum tempo em silncio.

- Aconteceu alguma coisa - disse finalmente Eilan, observando a face de Caillean 
enquanto esta olhava para as chamas.

A CASA DA FLORESTA

447

- Talvez... - respondeu-lhe Caillean. - Mas no estou completamente certa do que 
significa. O Tor  muito poderoso, e o lago... - abanou a cabea. - Prometo que quando 
perceber o que a senti o sabers. Entretanto... - Os seus olhos perderam a suavidade 
quando se viraram para Eilan. - Contaram-me que aqui tambm aconteceu qualquer 
coisa. Dieda diz que tiveste um visitante.

- Visitantes, diz antes; mas presumo que te estavas a referir a Cynric.

- Falava de Macellius Severus - disse Caillean. - O que pensaste dele?

Eilan pensou, podia ter desejado que ele tivesse sido o meu sogro . Mas no podia 
dizer isto a Caillean. Arranjou um compromisso, dizendo:

- Ele parece tanto amvel como paternal.

-  assim que os Romanos nos levam cada vez mais do nosso mundo - disse Caillean. - 
Preferia que eles fossem todos maldosos sem compromisso. Quando at tu consegues 
pensar bem de Macellius, quem  que se ir revoltar?

- Por que nos deveramos revoltar contra eles? Falas como Cynric.

- Podia fazer pior        disse Caillean.

- No vejo porqu          disse Eilan ressentida. - Mesmo que  tenhamos de ter uma paz 
romana, qual  o mal disso? A paz  certamente melhor       que a guerra, venha donde 
vier.

- Mesmo uma paz sem honra? Uma paz em que tudo que faz com que a vida valha a     
pena ser vivida foi levado?

- Os Romanos podem         ser honestos... - comeou Eilan, mas Caillean interrompeu-a.

- Pensaria que serias a ltima pessoa a dizer uma coisa dessas! - A sua voz passou     
lentamente para um silncio espantado, como se tivesse chegado  concluso de que o 
que quer que pudesse dizer s podia piorar as coisas.

Mas digo-o, pensou Eilan, sentindo o seu rubor de vergonha a desaparecer. A me 
de Gaius casou com Macellius para trazer a paz, e eu deixei Gaius casar com uma 
rapariga romana pela mesma razo. Pensou que gnero de pessoa seria a mulher 
romana dele, e se alguma vez o teria tornado feliz. Nem todas as mulheres procuravam a 
paz, sabia-o, lembrando-se de Boudicca,

448

MARION ZIMMER BRADLEY

que tinha comeado uma revolta, de Cartimandua, que traiu Caractus, e de Brigitta, 
cujas filhas estava a abrigar, mas tinha tomado a sua deciso e mant-la-ia.

- Cynric est enganado - disse por fim. - O que torna a vida merecedora de ser vivida 
no  a glria cantada pelos guerreiros, mas o gado cuidado, campos cultivados e 
crianas felizes  roda do fogo. Sei que a Deusa pode ser to terrvel como uma ursa 
quando os seus filhotes so ameaados, mas penso que Ela preferiria ver-nos a construir 
e a crescer que a matar-nos uns aos outros. No foi para isso que aqui tentmos 
recuperar os antigos mtodos de cura?

Olhou para cima por fim, encontrou os escuros olhos de Caillean e ficou espantada ao 
ver a splica que eles mostravam.

- Contei-te as razes que tenho para odiar os homens e temer o que eles podem fazer - 
disse suavemente a sacerdotisa mais velha. - -me, por vezes, muito difcil acreditar na 
vida; seria to mais fcil cair na luta. H alturas em que me envergonhas. No entanto, 
quando olhei para o Poo Sagrado pareceu-me que ele transbordou numa centena de 
pequenos ribeiros que entraram para dentro da terra e transportaram o seu poder de cura 
para todos os lados. Nessa altura, durante um pequeno instante, acreditei.

- Temos que fazer qualquer coisa sobre esse poo - disse Eilan suavemente pegando na 
mo de Caillean e, como um eco, pensou ouvir o canto dos cisnes.

Na vez seguinte que Gaius esteve em Deva fez uma visita ao pai.  volta dum copo de 
vinho, a conversa acabou por cair em Brigitta dos Demetae.

- Chegsteis a encontrar as filhas dela? - perguntou Gaius.
- De certa maneira - replicou o pai. - Sei onde esto, e nunca adivinhars aonde.

- Pensei que lhes ias arranjar pais adoptivos romanos.
- F-lo-ei quando chegar a altura, mas por agora penso que a Sacerdotisa dos Orculos  
o melhor guardio que elas podiam encontrar. - Quando Gaius se engasgou, o pai 
continuou. - Ela  uma mulher nova e eu receei que simpati-

A CASA DA FLORESTA

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zasse com os jovens de cabea quente como Cynric, o qual, digo-to abertamente, 
enforcaria se lhe pudesse pr as     <  mos em cima, mas ela foi surpreendentemente 
razovel. Como podes supor tenho l mantido um informador h anos, uma servidora 
das sacerdotisas, mas esta foi a primeira vez que eu prprio vi a Sacerdotisa.

- Com quem  que ela se parecia? - A voz de Gaius falhou, mas Macellius no pareceu 
not-lo.

- Ela estava velada - disse. - Mas, entre os dois, resolvemos que ela guardasse as 
raparigas at as tenses terem abrandado e depois no-las entregasse para serem 
adoptadas em lares romanos, e dadas por contrato a maridos romanos; penso que se lho 
expusermos, at mesmo Brigitta se inclinar a concordar com isto. E fao tenes de lho 
expor. Receei que alguns dos agitadores que se movem  sua roda transformassem as 
raparigas numa razo para outra guerra santa, a qual, escuso de to dizer, seria muito 
dura para ns depois das derrotas de Domiciano nas fronteiras.

Fez uma pausa, e olhou duramente para o filho.

- Penso, por vezes, se fiz as escolhas certas para ti, rapaz. Pensei que Vespasiano 
vivesse mais tempo; era um bom Imperador e teria olhado pela tua carreira. Depois de 
tudo o que planemos, afinal de contas ests a viver nas tuas terras, como um chefe 
breto. Mesmo o teu casamento com Julia... - ele interrompeu-se. - Poders perdoar-me?

Gaius olhou para ele.

- No sabia que havia algo para perdoar. Constru uma vida para mim aqui, e esta  a 
minha casa. No que respeita  minha carreira, bem, h mais que tempo.

Nenhum Imperador vive para sempre , pensou, lembrando-se do que Malleus tinha 
dito na sua ltima carta, mas nem mesmo ao seu pai o diria em voz alta. Quando 
pensava em Roma recordava as multides, a sujidade e a detestada toga. No se 
importaria de ter um pouco mais de sol aqui, na Bretanha; mas sentia pouca cobia 
pelos climas do Sul.

E quanto  sua falta de um herdeiro masculino, pensou se no seria esta a altura para 
contar a Macellius sobre o filho de Eilan. Teria sido realmente ela quem o seu pai tinha 
visto? Era um enorme alvio saber que podia ser to moderada. No

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era que ele no amasse as suas filhas, e Gaius sabia que Licinius amava todas as 
crianas. Mas a lei romana tomava em considerao apenas rapazes. Podia no ser justo, 
pois, de facto, ele estaria a privar de direitos a pequena Cella, mas a lei era a lei, quer se 
gostasse quer no.

Finalmente, pareceu mais seguro no dizer nada. O que no fosse dito - e ele tinha-o 
aprendido  sua custa              nunca precisaria de ser lamentado.

VINTE E SEIS

Caillean acordou, a tremer, para a luz cinzenta da precoce aurora. Era apenas um sonho. 
Mas as imagens estavam ainda vividas, mais reais, mesmo agora, com as cortinas da sua 
cama e a respirao das outras mulheres ali perto. Sentou-se e enfiou os ps numas 
chinelas, e depois, tiritando, tirou o xale do cabide e enrolou-o  sua volta.

Mas a quente l no a confortou. Quando fechava os olhos podia ainda ver a extenso 
de gua prateada, onde brancas brumas se retorciam e redemoinhavam. Eilan estava do 
outro lado, mas a cada momento que passava as guas entre elas ficavam cada vez 
maiores, como se uma forte corrente a estivesse a afastar para longe. Era a emoo que 
acompanhava as imagens que a aterrorizavam, a avassaladora vaga de angstia e perca.

So apenas os meus prprios medos a falar , disse para consigo, um sonho que 
desaparecer com a alvorada. Nem todos os sonhos eram prescientes. Levantou-se e 
bebeu um pouco de gua do frasco.

j no final, um cinzento vu de nuvem tinha redemoinhado entre ela e Eilan, afastando-a 
do mundo. A morte  assim ...  o pensamento no queria desaparecer. As fantasias 
normais do sono dissipavam-se, como a neblina da manh, com o acordar. Um grande 
sonho - um sonho poderoso - tornava-se ainda mais distinto quando se pensava sobre 
ele. No podia ser ignorado.

Quando as outras mulheres comearam a mexer-se Caillean percebeu que no podia 
ficar aqui e enfrentar os seus olhos curiosos. Talvez no jardim conseguisse encontrar a 
serenidade que precisava para lidar com isto. Mas uma coisa era certa, devia contar a 
Eilan.

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Nesse ano, as celebraes de Beltane tinham sido precedidas por um generoso Vero e 
os bosques  volta da Casa da Floresta estavam vvidos com flores. Eilan tinha-se 
deixado persuadir a sair para colher ervas com Miellyn e Lia, e as crianas tinham-nas 
acompanhado. Por baixo das rvores, ainda floresciam as cremosas primaveras e os 
jacintos, mas dourados botes-de-ouro j estavam a comear a estrelar os prados e 
brancos espinheiros pendiam nos ramos das rvores.

Gawen fez alegremente alarde do seu conhecimento da floresta s duas raparigas de 
Brigitta, que bebiam cada palavra, de olhos abertos e admiradores. Eilan sorriu, 
lembrando-se de como ela e Dieda tinham seguido Cynric quando eram pequenas. Ao 
ouvir os seus risos, compreendeu o que Gawen tinha perdido por no ter outras crianas 
para brincar     e soube que no eram apenas as raparigas que cedo teriam de a deixar. 
Gawen teria de ser dado em adopo rapidamente.

j era meio-dia quando voltaram, corados e tagarelando, coroados com flores.

- Caillean est     vossa espera no jardim - disse Eilidh quando Eilan entrou.    - Tem 
estado ali sentada durante toda a manh. Nem sequer       veio tomar o pequenoalmoo 
mas afirmou-nos que no h nada de errado.

Franzindo as sobrancelhas, Eilan passou para o jardim sem tirar o seu chapu de palha 
de abas largas, pois o dia estava quente. Caillean estava sentada num banco ao p do 
canteiro de alecrim, imvel, como se estivesse a meditar, mas ao ouvir os passos de 
Eilan abriu os olhos.

- Caillean, o que se passa?
A outra mulher olhou para cima e Eilan vacilou com a absoluta calma que viu naqueles 
olhos escuros.

- H quantos anos nos conhecemos? - perguntou Caillean. Eilan tentou traz-lo  
memria; tinham-se conhecido quando o filho mais novo de Mairi tinha nascido. Mas, 
na verdade, parecia que tinha sido h mais tempo, e havia vezes em que se recordava 
daqueles estranhos lampejos de conhecimento que a tinham atingido, e pensava que 
tinham sido irms em mais que uma vida.

A CASA DA FLORESTA

453

Dezasseis anos, penso - disse por fim, duvidosamente. Na altura era quase Inverno; mas 
no, no podia ser, pois os selvagens Hibernians estavam em incurso e de certeza que 
eles no velejariam se tivessem medo de ser apanhados pelas       tempestades de 
Inverno. No havia neve na altura mas sim chuva, lembrava-se. Tinha sido uma m 
Primavera. E ela tinha vindo para a Casa da Floresta como sacerdotisa novia no Vero 
seguinte.

- j foi h tanto tempo? Tens razo. A criana de Mairi tem quase idade para se casar e 
Gawen j tem onze Invernos. Eilan assentiu, lembrando-se com uma sbita clareza 
como

Caillean a tinha ido visitar quando do seu exlio na cabana da floresta, e como a mulher 
mais velha lhe tinha pegado nas mos e humedecido a testa enquanto a criana estava a 
nascer. Tinha pensado que essas memrias nunca desapareceriam ou se tornariam 
vagas; agora eram como um sonho h muito passado. Neste momento o trabalho que ela 
e Caillean estavam a fazer na Casa da Floresta parecia muito mais real.

- E agora temos duas das filhas de Brigitta dentro da Casa- disse Caillean 
pensativamente.
 - Mas dentro de um ano elas iro para os Romanos para serem adoptadas.

ilan disse, suspirando:
- Odeio pensar que Brigitta tenha de perder as suas filhas.
- Eu no gastaria nenhuma simpatia com ela - respondeu-lhe Caillean. - Duvido que 
tenha perdido qualquer sono a pensar no que aconteceria s crianas quando deixou que 
Cynric a persuadisse a planear uma rebelio.

Eilan sabia que isto era provavelmente verdade; mas, como me, lembrava-se da sua 
angstia quando 

		Ardanos tinha levado Gawen.
 - Por que falas dessas coisas agora? - perguntou- No posso acreditar que tenhas 
passado aqui toda a manh            apenas para contar velhas memrias, como um 
prestamista               romano conta o seu ouro!

Caillean suspirou.
 - H uma coisa que te devo dizer, e no sei como o fazer.  por isso que estou para aqui 
a tagarelar sobre coisas sem importncia. Eilan, tive um aviso daqueles que, dizem, 
chega a cada sacerdotisa antes da sua morte. No, no posso explicar...

454

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Eilan sentiu o frio congelar-se  volta do corao, apesar do calor do sol.

- O que queres dizer, um aviso? Ests doente? Talvez Miellyn conhea algumas ervas...

Caillean retorquiu calmamente.

  - Tive um sonho, e penso que esta vida cedo ter um fim.
Caillean a morrer? Abalada, tudo o que Eilan conseguiu dizer em voz alta foi:

- Mas como?

Caillean replicou suavemente:

- Na verdade, no sei como to dizer; talvez seja uma           coisa que uma pessoa possa 
perceber apenas quando chega.

Oh sim , pensou Eilan.  verdade: tambm eu sou uma sacerdotisa, mesmo que no 
uma muito boa.                  Na presena de Caillean lembrava-se disso, se bem que, 
noutras ocasies, o duvidasse. Desde o seu ltimo encontro com Cynric que tinha estado 
muito consciente dela prpria como sendo um peo no combate dele com os Romanos, 
tal como, com Ardanos, estava consciente, acima de tudo, do modo como ele a queria 
usar para manter a paz com Roma. Nas ltimas estaes as tribos tinham estado 
sossegadas, mas ela ouviu histrias de problemas entre os Romanos. Cynric seria rpido 
a tirar vantagem de qualquer fraqueza se os Romanos se revoltassem contra o seu 
Imperador. Juntar-se-ia Gaius a tal revolta? Teria ele jamais gostado dela?

Mas com   Caillean, desde o primeiro instante em que a tinha encontrado, Eilan era 
acima de tudo, e apenas, uma sacerdotisa. Quando estava com ela sentia que ainda podia 
ter alguma utilidade para a Deusa. Por muito profundamente que pudesse ter amado 
Gaius no podia deixar de se lembrar que ele no tinha permanecido junto a si, Mas 
Caillean tinha estado sempre ali.

Olhou para a sua irm-sacerdotisa desamparadamente e pensou, subitamente, j 
passmos por isto antes , e via-a morrer no meio de dores,

De repente Eilan zangou-se. Se no podia fazer nada quanto a isso, por que  que 
Caillean a quereria atormentar contando-lhe? Olhou para a outra mulher quase com 
hostilidade, e viu um brilho de emoo nos escuros olhos de Caillean, como uma 
corrente

A CASA DA FLORESTA

455

escondida num lago. o conhecimento chegou-lhe repentinamente. Tambm ela est com 
medo.

Respirou fundo, e o poder da Deusa, que Caillean conseguia fazer acordar nela, 
subitamente.

- Como Gr Sacerdotisa de Vernemeton, ordeno-te... conta-me o teu sonho.

Os olhos de Caillean arregalaram-se, mas, passados instantes, a histria estava a 
transbordar dela para fora. Eilan ouviu com os olhos fechados, vendo as imagens 
enquanto Caillean. as descrevia. E, rapidamente, lhe pareceu que as podia ver antes que 
a outra mulher falasse, como se fosse o seu prprio sonho que Caillean estava a 
descrever e, quando Caillean caiu em silncio, ela prpria continuou, com a histria do 
seu sonho dos cisnes.

- Separar-nos-emos - disse finalmente, abrindo os olhos.
- Quer seja pela morte, quer por qualquer outra fora, no o sei, mas, Caillean, pensar 
em perder-te  como morrer.

- Mas se no  pela morte, o que  ento? - perguntou a mulher mais velha.

Eilan franziu as sobrancelhas, lembrando-se do brilho de guas prateadas por baixo 
das nuvens.

O Pas de Vero - disse subitamente. - De certeza que  esse o lugar que ambas vimos 
nos nossos sonhos.           Tens de ir para l, Caillean, e levar uma dzia das donzelas 
contigo. No sei se isto  para satisfazer o desgnio da Deusa ou para o desafiar, mas de 
certeza que  melhor fazer alguma coisa do que ficar aqui sentadas  espera que a morte 
te leve, mesmo se o que fizermos estiver errado!                               
Caillean ainda parecia duvidosa, mas a vida tinha e voltado aos olhos.

Ardanos nunca o autorizar. Ele
 o Arquidruida e quer todas as sacerdotisas aqui em Vernemeton, debaixo da sua vista!
Eilan olhou para ela e sorriu.             
- Mas eu sou a Sacerdotisa do orculo. Deixa Ardanos comigo!

Na manh do solestcio de Vero, as donzelas da Casa da
Floresta saram de madrugada para apanhar o orvalho das flores de Vero. o orvalho 
tinha muitos poderes, tanto para aumentar

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a beleza como para conferir magia. Dizia-se que qualquer donzela que lavasse a cara, 
nesse dia, com o orvalho da manh e depois olhasse para uma corrente lmpida, 
conseguia ver a cara daquele que mais a amava.

Eilan viu-se a pensar por que seria que as sacerdotisas, que, afinal de contas, estavam 
todas sob votos de castidade ou a caminho disso, quereriam saber tais coisas. Seria que 
a maioria delas acarinhavam memrias de namorados nas vidas que tinham deixado? 
Ela tinha feito pior que sonhar com o seu amado. Mas esperava que as outras que 
serviam a Deusa pudessem      ser mais honestas que ela.

Eilan ouviu as raparigas a rir quando voltaram da     floresta, mas no saiu para as ir ver. 
 medida que o tempo        passava sentia-se cada vez mais consciente da necessidade 
da     recluso ritual antes de cada grande festival. Tinha pensado que se tornaria mais 
fcil com o decorrer do tempo, mas         tinha a impresso de que manter o equilbrio 
entre todas as foras que lutavam pelo Poder da Deusa se tornava mais difcil cada ano.

Cada vez que Ardanos lhe vinha murmurar as suas instrues ao ouvido lembrava-se 
que ao manter a paz, ela, no menos que o Arquidruida, estava a servir os Romanos; e 
pensava se o facto de ambos trabalharem para aquilo que consideravam ser o bem da 
Bretanha alguma vez justificaria tal aliana.

A porta abriu-se e Caillean entrou. At ela tinha uma coroa de papoilas vermelhas para 
festejar o dia. As suas faces estavam coradas do sol e parecia mais saudvel que o que 
tinha parecido desde h bastante tempo.

- Ests sozinha?

- Quem ficaria comigo hoje? Todas as raparigas na casa saram para colher as flores do 
solestcio de Vero e Lia foi levar Gawen a visitar Mairi. - respondeu Eilan.

- Isso  bom. - Caillean sentou-se      num banco com trs pernas. - Temos de falar sobre 
o Orculo desta noite.

- No tenho pensado noutra coisa desde que acordei! disse Eilan com amargura. - 
Gostaria que fosses tu que tivesses de te sentar aqui no escuro, preparando-te. Terias 
dado uma Gr Sacerdotisa to melhor que eu!

- Os Deuses o probam; no sou pessoa que pudesse obedecer  vontade de Ardanos.
A CASA DA FLORESTA

457

Subitamente furiosa, Eilan disse:

-   Se no sou mais que uma criatura dos sacerdotes, sabes bem quem me tornou nisso.

Caillean suspirou.

- No pensei criticar-te, mo chridle. - O tratamento carinhoso fez desaparecer a ira de 
Eilan. Caillean continuou: - Estamos todas nas Suas mos e fazemos a Sua vontade, eu 
no menos que tu. No te deves zangar comigo.

-   No estou zangada - disse Eilan, no honestamente de todo, mas sem vontade de 
discutir com a mulher a quem devia tanto. Por vezes sentia que o peso da sua dvida 
para com Caillean a esmagaria. - Tenho medo - continuou -, mas vou dizer-te uma coisa 
que mais ningum sabe. A bebida sagrada que  suposto drogar-me no  a mesma que 
era        na altura de Lhiannon. Alterei-a de modo ao transe no ser completo. Eu sei o 
que Ardanos me est a pedir para dizer...

- Mas ele parece sempre bastante satisfeito com as tuas palavras - disse Caillean 
franzindo o sobrolho. - Ests ainda to apaixonada pelo teu Gaius que serves Roma 
intencionalmente?

- Sirvo a paz! - exclamou Eilan. - Nunca ocorreu a Ardanos que eu lhe desobedecesse e 
quando as minhas respostas diferem um pouco das palavras que me foram ditas ele 
pensa simplesmente que eu sou um recipiente imperfeito. Mas as palavras de paz no 
so uma deciso minha. Quando me ofereci  Deusa no estava a mentir! Pensas que os 
rituais que fazemos aqui, na Casa da Floresta, so uma mentira?

Caillean abanou a cabea.

- Senti a Deusa com fora de mais... mas...

- Lembras-te do solestcio de Vero h sete anos, quando Cynric veio c?

- Como me podia esquecer? - disse pesarosamente Caillean.
- Fiquei aterrorizada! - ficou silenciosa durante uns instantes.
- Aquela no eras tu, sei-o, mas um rosto da Deusa que espero nunca mais voltar a ver. 
 sempre assim?

Eilan encolheu os ombros.

- Uma vezes Ela vem, outras no e tenho de usar o meu prprio discernimento. Mas 
todas as vezes que me sento no cadeiro fao a oferenda, e cada vez que fico  espera 
assim eu penso se ser esta a vez em que Ela me ir fulminar!

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MARION ZIMMER BRADLEY

- Estou a ver - disse Caillean, cuidadosamente. - Perdoa-me se no te compreendi 
quando disseste que forarias Ardanos a mandar-me para o Sul. Mas, o que fars quanto 
a mim?

-  este o teste... - Eilan inclinou-se para a frente.
- Para ns ambas. Se quisermos que tudo o que aqui construmos no se transforme 
numa mentira, tenho de me arriscar tanto como tu. Hoje  noite farei a poo de acordo 
com a receita antiga. Quando a Deusa me tomar, deves perguntar sobre o teu sonho. 
Toda a gente ouvir a resposta, e todos ns, tu, Ardanos, e eu, ficaremos vinculados por 
ela, qualquer que ela seja.

A qualidade da luz tinha-se alterado consideravelmente  medida que o pr do Sol se 
aproximava, quando a porta exterior se abriu e um dos aprendizes de Ardanos entrou; 
era to novo que ainda tinha apenas a mais rala das barbas.

O jovem druida disse, com deferncia:

- Estamos prontos para vs, minha senhora.          - Eilan, que estava j a escorregar para 
o desinteressado estado de meditao que precedia o transe, levantou-se da cadeira. 
Eilidh e Senara pousaram o pesado manto ritual sobre os seus ombros e apertaram-no 
no seu pescoo com uma corrente de ouro macia.

A noite estava fria apesar da estao do ano e, mesmo no seu pesado manto, Eilan 
tremeu quando subiu para a liteira. Do meio da escurido saram dois sacerdotes 
vestidos de branco, plidas figuras movendo-se com passos medidos a seu lado. Sabia 
que eles estavam ali para a proteger contra qualquer acidente ocasional ou empurres 
das multides, mas, de algum modo, nunca tinha sido capaz de pr de lado o 
pensamento que eles eram os seus guardas.

O pensamento atravessou-lhe o esprito como um coelho a correr pelos arbustos: 
qualquer sacerdotisa  uma prisioneira dos seus deuses...

Ela estava vagamente consciente de passar pela longa avenida de rvores que conduzia 
at  colina. Antes de se chegar ao morro estava a arder uma grande fogueira, uma das 
muitas fogueiras nesta noite. O seu brilho vermelho brincava nas folhas do velho

A CASA DA FLORESTA

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carvalho que crescia perto do morro. Um som de antecipao percorreu a multido 
como um suave suspiro. No pde deixar de se lembrar da primeira vez que o tinha 
ouvido a saudar Lhiannon. Agora estava no lugar de Lhiannon, e o povo que observava 
tinha to pouco conhecimento do que realmente se passava aqui como ela tinha tido 
ento.

Dois pequenos rapazes, de cerca de nove ou dez anos de idade, novios dos bardos, 
vestidos de branco, escolhidos pela sua inocncia e beleza, trouxeram a grande bacia 
dourada. Eles tinham colares dourados nas gargantas, e cintos bordados a ouro 
apertavam-lhes os seus hbitos brancos. Quando um raio de luar trespassou as folhas do 
carvalho, um ramo de visco - cortado por um sacerdote escondido nos ramos - esvoaou 
para baixo. Eilan apanhou-o e deitou-o na bacia.

Ela murmurou as palavras de bno e, fortalecendo-se contra a amargura, bebeu o 
lquido. As vozes dos druidas levantaram-se em invocao; a presso da expectativa 
entre o pblico chocou contra a sua conscincia. O lquido ardeu-lhe na barriga; pensou 
se no se teria enganado na dosagem, depois lembrou-se de que j antes se tinha sentido 
assim. Veio-lhe  ideia que de cada vez se envenenava um pouco e que morreria como 
Lhiannon tinha morrido, embora talvez no to cedo.

Mas o mundo j estava a tornar-se vago  sua volta; mal teve conscincia de cair para 
trs na cadeira da vidente ou dos solavancos quando eles a transportaram para o cume 
do morro.

Caillean olhou para a figura mergulhada no cadeiro por cima dela com uma 
preocupao maior que o habitual. Como sempre, a intensidade do cntico tambm a 
estava a empurrar para um transe. Mas havia uma tenso nas energias que pulsavam  
sua volta que ela no compreendia. Virou-se e viu o pai de Eilan entre os druidas 
vestidos de branco, no crculo. Ardanos no tinha dito nada. Teria ele sequer sabido que 
Bendeigid iria estar aqui?

Eilan retorceu-se no cadeiro e Caillean estendeu as mos para as suas costas, para o 
firmar. Era proibido tocar na Gr Sacerdotisa quando ela estava em transe, mas deviam 
estar preparadas para a apanhar se ela casse.

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MARION ZIMMER BRADLEY

Deusa!, rezou Tomai conta dela... no me interessa o que me possa acontecer a 
mim! Pareceu-lhe que nessa altura Eilan se imobilizou; pelo canto do olho podia ver 
uma branca mo a balouar por sobre a borda da cadeira, esguia como a de uma criana. 
Como podia ela deter tanto poder?

- Senhora do Caldeiro! - gritou o povo. - Roda de Prata! Grande Rainha! Vem at ns! 
Grande Deusa, falai connosco!
 Caillean sentiu a madeira da cadeira tremer por baixo da sua

mo. Os dedos de Eilan estavam-se a torcer e, para o fascinado olhar de Caillean, a 
plida carne pareceu resplandecer.  verdade , pensou ento, a Deusa est aqui. 
Vagarosamente, a figura no cadeiro endireitou-se, como que para acomodar uma massa 
maior que a da dbil figura da mulher ali sentada. Caillean sentiu um pequeno arrepio 
correr-lhe pela espinha abaixo.

- Olhai! Oh povo, a Senhora da Vida veio at ns. Deixai o Orculo falar! Deixai a 
Deusa manifestar a vontade dos imortais!    gritou Ardanos.

Deusa! Livrai-nos daqueles que nos escravizariam! - ouviu-se outra voz. Bendeigid deu 
um passo em frente. - Conduzi-nos  vitria!

Soavam como corvos, gritando por sangue e morte. Apenas Eilan se interpunha entre a 
Casa da Floresta e um povo uivando por guerra. Saberiam eles, ao menos, o que 
aconteceria a este pas, com os Romanos e os seus auxiliares, se se chegasse a uma luta 
aberta? Apesar do seu dio aos Romanos Caillean pensou como  que qualquer homem, 
ou mulher, so - ou mesmo uma Deusa - podia espalhar a guerra neste pas. Tinha 
Bendeigid esquecido, j, a sua casa em chamas, esquecido as mortes da sua mulher e da 
sua filha mais nova?

Deusa , pensou, Vs depositastes a paz deste pas nas mos de Eilan; deixai-a 
cumprir a Vossa vontade mesmo que possa parecer ser tambm a vontade dos Romanos 
... 

A figura na cadeira estremeceu e, subitamente, puxou o vu para trs, perscrutando a 
multido com o rosto to frio e desapaixonado como o de uma das esttuas que os 
Romanos faziam.

- Esta  a noite mais curta - disse suavemente, e o murmrio do povo silenciou-se para a 
ouvir. - Mas deste momento em diante as foras da luz vo comear a declinar. Oh vs, 
cujo

A CASA DA FLORESTA

461

orgulho  aprender todos os segredos da terra e do cu - ela apontou o crculo dos 
druidas com uma mo desdenhosa - no conseguis vs ler os sinais do mundo  vossa 
volta? As tribos j viram os seus dias e agora tornam-se cada vez mais fracas; o mesmo 
acontecer um dia com o Imprio dos Romanos. Todas as coisas atingem o seu cume e 
depois devem declinar.

- Mas ento no h esperana? - perguntou Bendeigid.
- Com o tempo at o Sol renasce.

- Isso  verdade - disse a tranquila, calma voz acima dele.
- Mas no antes de o dia mais negro ter passado. Ponham de lado as vossas espadas, 
pendurem os vossos escudos, filhos de Don. Deixai as guias romanas despedaar-se 
umas s outras enquanto vs cuidais dos vossos campos e sde pacientes, pois o Tempo 
seguramente vingar os vossos agravos! Eu li os msticos rolos de pergaminho dos 
Cus; e digo-vos, o nome de Roma no est l escrito.

Um suspiro, misto de alvio e desapontamento percorreu a multido.

Ardanos e um dos outros sacerdotes estavam a murmurar. Caillean percebeu que esta 
era a nica oportunidade que podia ter de fazer o que Eilan lhe tinha pedido.

- E ento sobre o conhecimento antigo? Como poder a Vossa adorao ser preservada 
num mundo em mudana? Ardanos e Bendeigid olharam um para o outro, mas a per-

gunta tinha sido feita e j a Deusa se estava a virar para responder; Caillean tremeu, 
completamente certa, nessa altura, que quem estava a olhar para ela, do alto, no era 
Eilan de todo.

- s tu, filha da raa mais antiga, que mo perguntas? - veio a suave resposta. Houve uma 
pausa, quando a ateno da Deusa pareceu virar-se para dentro; depois Ela riu-se. - Ah, 
esta tambm pergunta. Ela queria fazer-me outras perguntas mas tem medo. Que criana 
to pateta, no perceber que o Meu desejo  que todos vs sejais livres. - Encolheu os 
ombros suavemente. - Mas sois crianas, todos vs - o seu olhar levantou-se para se 
fixar em Ardanos, que corou e desviou o dele -, mas no destruirei as vossas iluses 
neste momento. No sois suficientemente fortes para suportar realidade de mais...

Estendeu um brao, voltando a mo e flectindo os dedos, como para gozar o 
movimento.

462

MARION ZIMMER BRADLEY

- A carne  doce. - riu com suavidade. - No me espanta que vs vos agarreis a ela. Mas 
quanto a Mim, o que pensam que os vossos ridculos esforos podem fazer para me 
ajudar ou prejudicar? Estou aqui desde o comeo e enquanto o Sol brilhar ou as guas 
correrem aqui continuarei. Eu sou... - Havia uma terrvel verdade nesta simples 
declarao de ser, e Cailean tremeu.

- Mas as nossas vidas fluem como as guas que correm...
- disse nessa altura Caillean. - Como transmitiremos o que Vs nos ensinsteis queles 
que viro depois de ns?

A Deusa olhou dela para Ardanos e de novo para ela.
- Tu j sabes a resposta. Em tempos que passaram a tua alma fez o juramento, como o 
fez a dela. Deixai que uma de vs parta para o Pas de Vero, l nas margens do lago, 
para fundar uma Casa das Donzelas. A eu serei servida, lado a lado com os padres do 
Nazareno. Desse modo a Minha sabedoria sobreviver aos dias que esto para vir!

Quase imediatamente o corpo da sacerdotisa, que tinha estado tenso como a corda dum 
arco, foi libertado; a flecha tinha sido lanada, a mensagem tinha sido entregue. Eilan 
afundou-se na cadeira e Caillean e Miellyn moveram-se rapidamente para a segurarem. 
Ela estava a sair do transe, a torcer-se e a balbuciar.

Ardanos manteve-se de cabea inclinada, ponderando no significado deste Orculo e em 
como o poderia utilizar. Revog-lo no o podia - nem ele quereria, um homem piedoso, 
contradizer a palavra directa da Deusa - mas era um privilgio seu interpret-la. Depois 
de um momento a sua cabea levantou-se. Olhou directamente para Caillean e pareceu a 
esta v-lo sorrir.

- A Deusa falou. Que assim seja. Essa casa ser fundada pela serva da Deusa; s tu, 
Caillean, que partirs para fundar a Casa das Donzelas no Tor.

Caillean olhou para ele. Havia triunfo nos seus olhos plidos. Para Ardanos esta deciso 
era uma oportunidade fortuita para conseguir uma coisa que h muito desejava: separ-
la de Eilan.

Ele agarrou no ramo de visco e aspergiu gua sobre o flcido corpo da sacerdotisa e 
todos os outros sons se perderam num trocista tilintar de sinos de prata.

A CASA DA FLORESTA

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Para algum que tem estado fora do ofcio h alguns anos, parece que vos tendes 
mantido ocupado! - Gaius sorriu maliciosamente para o pai por cima dos pergaminhos 
enrolados e placas de cera empilhados espalhados por cima da mesa. L fora, um frio 
vento de Fevereiro fazia abanar os ramos das rvores que estavam mesmo a comear a 
inchar com a seiva. No interior, o hipocausto aquecia o cho de ladrilhos e o carvo que 
ardia em braseiras de ferro lutava com as correntes de ar.

- Espero que o jovem Brutus aprecie tudo o que ests a fazer por ele.

- Ele aprecia a minha experincia - disse Macellius

e eu aprecio as suas notcias. Ele est muito bem relacionado, j o sabes, estando 
aparentado com metade das famlias antigas de Roma. A propsito, o pai dele  um 
velho amigo do nosso patrono, Malleus.

- Ah. - Gaius bebeu outro gole do quente vinho condimentado, comeando a perceber. - 
E o que pensa o nosso legado das actuais polticas do Imperador?

- Francamente, as cartas que tem recebido de Roma tm-no apavorado. A sua comisso 
como comandante acaba no final deste ano e est a pensar no que h-de fazer para no 
ter de voltar novamente para casa! Como membros da classe equestre, tu e eu temos 
uma vantagem: a lei no exige que vivamos em Roma. Neste ano a Cidade Eterna tem 
estado extremamente pouco saudvel para os senadores, dizem-me-

- Como Flavius Clemens? - perguntou sombriamente Gaius. No admirava que os 
senadores se sentissem inquietos. Se o prprio primo de Domiciano tinha sido 
executado, o que  que os restantes iriam fazer? - Ouviste mais qualquer coisa sobre as 
acusaes que lhe fizeram?

- A acusao oficial foi a de atesmo, Mas, de acordo com os rumores, o homem era um 
cristo que se recusou a queimar incenso ao Imperador.

Tenho a certeza que o nosso Dominus et Deus se sentiu extremamente insultado!

Macellius sorriu com amargura.

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- Os deuses sabem que esses cristos so um grupo exasperante, e quando o Governo 
no os est a perseguir, perseguem-se eles uns aos outros. Se Nero tivesse tentado 
colocar as suas diferentes faces umas contra as outras na arena teria poupado uma 
fortuna em lees - mas o gnero de adorao que Domiciano est a exigir ultrapassa em 
muito toda e qualquer decncia!

Gaius acenou com a cabea. Tinha ouvido o suficiente sobre as pregaes do Padre 
Petros por Julia para estar consciente do fascnio cristo pelo martrio e da sua sanha 
sectria, se bem que Jula se lhe referisse como purgar a Igreja dos ateus. Mas, no 
esquema maior das coisas, os cristos eram um problema menor. Muito mais sria era a 
megalomania do Imperador.

- Ele est a seguir as pisadas de Nero, ou de Calgula? perguntou.

- Ainda no tentou deificar o seu cavalo, se  isso que queres dizer - replicou o pai. - 
Tem sido um Imperador muito competente em muitas maneiras; e  por isso que  to 
perigoso.
O que  que Roma ter de regredir quando aparecer o prximo Imperador louco, se se 
permitir que Domiciano destrua o que resta da classe senatorial?

Gaius olhou cuidadosamente para o pai.

- Estais mesmo preocupado com isto, no estais?

- No que me diz respeito no interessa muito          - disse Macellius, dando voltas ao 
seu anel de equestre na mo. - Mas a maior parte da tua carreira ainda est  tua frente. 
Com este Imperador que hipteses tens?

- Pai... passa-se alguma coisa, no passa? O que  que eles te pediram que fizesses?

Macellius suspirou e olhou  volta do quarto, com as suas paredes pintadas e prateleiras 
de pergaminhos como se tivesse medo que estivesse prestes a desaparecer.

- H um... plano... - disse cuidadosamente - para acabar com a dinastia Flaviana. 
Quando se tiver tratado de Domiciano os senadores elegero um novo Imperador. Par           
a que o plano d resultado, as Provncias tm de o apoiar. O novo Governador  um 
homem de Domiciano, mas a maioria dos legados legionrios pertencem ao mesmo tipo 
de famlias que Brutus...

A CASA DA FLORESTA

465

- E, sendo assim, querem que ns os apoiemos - disse concisamente Gaius. - O que  
que eles pensam que as tribos ficaro a fazer enquanto ns estivermos empenhados 
nesta limpeza imperial?

- Se lhes prometermos certas concesses, apoiar-nos-o... Cedo as filhas da rainha 
Brigitta viro at ns e Valerius est a ajudar-me a encontrar pais adoptivos apropriados 
para as educar. No final, Romanos e Bretes esto destinados a tornar-se aliados. Desta 
maneira pode ser que isso acontea um pouco mais cedo,  tudo.

Gaius assobiou em silncio. Isto era sedio em grande escala! Engoliu o resto do 
vinho. Quando olhou outra vez para cima o pai estava a observ-lo.

- Estranhas coisas se passaram - disse Macellius suavemente. - Dependendo de como as 
coisas correrem, pode ser que haja um interessante futuro para um romano da linha real 
Silure!

Gaius voltou para casa com a cabea a andar  roda devido a algo mais que ao 
condimentado vinho. Tinha cedido a Julia tempo de mais. Tornava-se-lhe agora 
perfeitamente claro que tinha de adoptar formalmente o filho que tinha de Eilan. Mas 
quando chegou a casa viu que Julia no conseguia falar de mais nada seno da sua 
ltima visita ao eremita, o Padre Petros.

- E ele diz que  certo, segundo a Sagrada Escritura, e segundo todas as outras profecias, 
que o mundo cabar com o desaparecimento desta gerao - disse-lhe ela com os olhos 
a brilhar. - Com o advento de cada alvorada devamos pensar que pode no ser o Sol, 
mas sim o mundo a comear a arder. E ento reunir-nos-emos aos nossos amados. 
Sabias isso?

Ele abanou a cabea, espantado que ela, que tinha recebido uma boa educao romana, 
pudesse acreditar em tal coisa. Mas tambm, as mulheres eram crdulas, o que era, 
provavelmente, a razo pela qual elas no podiam ocupar lugares pblicos. Pensou se os 
cristos estariam a traficar com as actuais ansiedades provocadas pelo Imperador.

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- Vais-te tornar numa discpula do Nazareno... esse profeta de escravos e de judeus 
renegados? - perguntou asperamente.

- No vejo como qualquer ser pensante pode possivelmente fazer outra coisa - replicou 
Julia friamente.

Bem , pensou Gaius, no sou, obviamente, um ser pensante... pelo menos no do 
gnero dela. Disse apenas:

- E o que  que ir dizer Licinius?

- No ir gostar - disse tristemente Julia.    - Mas esta  a nica coisa de que eu estou 
certa desde... desde a morte da criana. - Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas.

Isso no faz sentido, pensou, mas no o disse alto; o fazer sentido no parecia t-la 
confortado muito. E, de facto, desde a morte de Secunda que ela no lhe parecia to 
feliz. A imagem da filha afogada estava ainda no seu pensamento dia e noite. Lgico ou 
no, quase a invejava.

- Bem, faz como quiseres - disse resignadamente. - No tentarei deter-te.

Ela olhou para ele com qualquer coisa quase parecida com desapontamento, depois 
alegrou-se.

- Se fizesses alguma ideia sobre o que est certo, tornar-te-ias tambm num nazareno.

- Minha cara Julia, j me disseste muitas vezes que eu no tenho nenhuma noo sobre 
o      que est certo - disse de modo cortante. Ela olhou para o cho e ele percebeu que 
havia mais qualquer coisa.

- O que se passa?

- No quero falar disto em frente das nossas filhas - gaguejou. Gaius riu-se, pegou-lhe 
no brao, e levou-a para outra sala.
- Bem, o que  que  que no podes falar em frente das crianas, Julia?

Mais uma vez ela baixou os olhos para o cho.

- O Padre Petros diz que... como o fim do mundo est to prximo... - gaguejou -  
melhor que todas as mulheres casadas, e homens, faam um voto de castidade.

Ao ouvir isto, Gaius atirou a cabea para trs e riu-se.

- Percebes que, tal como a lei est, o recusar-se a dormir com o marido  motivo para 
um divrcio?

Julia, se bem que obviamente perturbada, estava preparada para a pergunta.

A CASA DA FLORESTA

467

- No Reino dos Cus - citou -, no h nem casamento nem entrega em casamento.

- Isso resolve tudo - disse Gaius, rindo de novo. - Faz todos os votos que quiseres, 
minha cara. Se considerarmos que no ltimo ano, ou isso, tiveste tanta utilidade na cama 
como um bocado de pau no consigo imaginar como possas pensar que isso me  faa 
qualquer diferena.

Os olhos dela estavam abertos com a surpresa.
- Ento no pors qualquer obstculo?

- Nenhum, Jula; mas  apenas justo que te diga que se j no ests vinculada pelos 
nossos votos de casamento, tambm eu no me considerarei vinculado por eles.

Percebeu que estava a estragar a cena que ela tinha resolvido representar; devia, 
supunha, ter barafustado ou implorado.
- Nunca consideraria pedir-te para fazer um voto desses - disse ela, e depois, 
maldosamente, acrescentou -, duvido que fosses capaz de o manter mesmo que o 
fizesses. Pensas que no sei porque compraste aquela escrava to bonita no ano 
passado? Os Deuses sabem a pouca utilidade que ela tem na cozinha! Com tantos 
pecados j na tua alma...

Mas Gaius j tinha suportado o suficiente. No discutiria o estado da sua alma - o que 
quer que ela entendesse por isso
- com ela.

- Pela minha prpria alma serei eu o responsvel - disse-lhe, e foi para o seu escritrio 
onde encontrou uma cama j feita para ele. Ento, ela tinha contado com a sua 
boavontade para dormir sozinho, o que quer que ele tivesse para dizer.

Gaius pensou brevemente em celebrar a sua liberdade mandando chamar a escrava, mas 
descobriu que no tinha nenhum desejo de o fazer. Queria algo mais que a 
complacncia duma mulher que no tinha qualquer escolha no assunto. O seu 
pensamento voou para Eilan. Agora, pelo menos, Julia no podia pr objeces se ele 
quisesse adoptar Gawen. Como lhe daria ele a notcia?

Estava finalmente livre para procurar Eilan uma vez mais. Mas o rosto da Fria que 
tinha visto no festival do solestcio de Vero interps-se entre ele e as suas memrias, e 
foi o rosto da rapariga que tinha encontrado em casa do eremita no ano anterior que, por 
fim, adormeceu com ele.

VINTE E SETE

A meados de Fevereiro as tempestades deram lugar a um perodo de belo, lmpido 
tempo, fresco mas ensolarado. Em locais abrigados, rvores de fruto precoces 
comeavam a lanar rebentos e os ramos avermelhavam-se com a seiva que voltava. As 
colinas ecoavam com o balir dos carneiros recm-nascidos e os brejos ressoavam com 
os chamamentos dos cisnes que tinham regressado.

Eilan olhou para o cu azul e percebeu que tinha chegado a altura de cumprir a palavra 
que tinha dado a Macellius. Estava  espera no jardim quando Senara respondeu  sua 
chamada.

- Est belo um dia - disse Senara, claramente a pensar por que  que Eilan a teria 
afastado dos seus deveres.

- Est mesmo - concordou Eilan -, um belo e lmpido dia para cumprir um dever 
indesejado. Mas tu s a nica a quem posso pedir.

- E qual  ele?

- As filhas de Brigitta j aqui esto h um ano e  tempo de as mandar para os romanos, 
tal como prometi. Eles cumpriram a sua palavra quanto a Brigitta e confio em que 
trataro bem as raparigas. Mas isto tem de ser feito s escondidas, para que a velha 
inimizade no seja de novo despertada. Tens idade suficiente para as levar para Deva, e 
sabes o suficiente da lngua latina para perguntar o caminho at casa de Macellius 
Severus. Leva-las l?

- Severus? - Senara franziu as sobrancelhas. - Penso que me lembro desse nome. A 
minha me disse-me, uma vez,

470

MARION ZIMMER BRADLEY

que o seu irmo o servia e que ele era um homem duro, mas justo.

-  esse o meu entendimento - assentiu Eilan. - Quanto mais cedo as raparigas estiverem 
ao seu cuidado, mais cedo ele as poder instalar na sua nova casa.

- Mas elas crescero romanas - protestou Senara.

- Isso seria uma coisa assim to m? - Eilan sorriu        para ela. - Afinal de contas a tua 
prpria me era romana.

- Isso  verdade... - disse a rapariga pensativamente. - Por vezes penso na famlia dela e 
o que seria crescer naquele mundo. Muito bem - disse finalmente-- Irei.

Levou algum tempo a preparar as crianas, pois Eilan queria ter a certeza de que 
ningum na cidade romana tivesse motivo para dizer que as raparigas tinham sido 
negligenciadas enquanto tinham estado entre os druidas; mas, finalmente, at Eilan 
ficou satisfeita e Senara, segurando numa rapariga em cada mo, ficou pronta para partir 
para Deva.

O dia estava para o frio mas lmpido, e mesmo com uma criana nos braos e a outra a 
trotar a seu lado, Senara fez um bom tempo. As crianas tagarelavam alegremente, 
excitadas pela sada. Quando se cansaram, atou a mais pequena ao seu xale, onde cedo 
adormeceu, e pegou a outra nos braos. Nesta altura j conseguia ver a confuso de 
casas nos arrabaldes da cidade e as slidas paredes de vigas da fortaleza para l dela. 
Quando chegou ao Forum central sentou-se num banco, ao lado duma fonte, para 
rearranjar os seus fardos antes de perguntar o caminho para casa de Macellius.

Subitamente o cu foi encoberto. Senara olhou para cima e ficou a olhar para o romano 
que tinha encontrado em casa do eremita no ano anterior. Mais tarde pareceu-lhe 
perfeitamente simblico que ele se mantivesse entre ela e o Sol; mas no pensou nisso 
agora.

- j te vi antes, no vi? - perguntou ele.

- Na cabana do Padre Petros - disse ela, corando. Uma das crianas acordou e ficou a 
olhar para ele com os olhos abertos como os de um mocho. Ela no o tinha visto em 
nenhuma reunio do pequeno grupo de nazarenos locais; mas tambm, vivendo

A CASA DA FLORESTA

471

como actualmente vivia no interior da Casa da Floresta, no lhe era possvel ir l muitas 
vezes. Tinha ido a primeira vez por curiosidade, e mais tarde porque a lngua romana 
parecia de algum modo um elo com a sua falecida me e, finalmente, porque ali 
encontrava conforto,

O bonito romano estava ainda a olhar para ela. Era mais novo do que ela tinha pensado 
primeiro, e gostava do seu sorriso.

-   Para onde te diriges, donzela?

-   Para a casa de Macellius Severus, senhor; estas raparigas devem   ser entregues ao 
seu cuidado...

-   Ah, ento so estas as crianas. - Por um momento ele franziu o sobrolho, depois o 
rpido sorriso iluminou-lhe os olhos outra vez. - Estamos todos apresentados, ento. Eu 
prprio tambm vou para l; posso ser o teu guia?

Ela olhou para ele um pouco duvidosamente, mas ele atirou com a rapariga para cima 
dos ombros, e ao ouvir as gargalhadinhas da pequena Senara decidiu que, afinal de 
contas, ele devia ser de natureza bondosa.

- Agarrais nela como algum muito habituado a crianas, senhor - disse ela, e se bem 
que no tenha perguntado mais nada, ele respondeu:

- Tenho trs filhas; estou muito acostumado aos pequeninos. Ento , pensou ela, ele 
 casado. Ser ele um dos nossos? Passados uns instantes disse:

- Dizei-me, senhor, sois ento um membro do rebanho do Padre Petros?

- Eu no sou - replicou -, mas a minha mulher .

- Ento, senhor, a vossa mulher  minha irm em Jesus e desse modo minha parenta.

Os lbios dele torceram-se bastante sardonicamente e ela pensou, Ele  novo de mais 
para sorrir to amargamente. Quem o ter ferido assim?

- Sois muito amvel em escoltar-me - disse ela em voz alta.

- No  maada nenhuma. Macellius  meu pai, vs... Estavam-se a aproximar duma 
casa com bom aspecto perto das muralhas da fortaleza, caiada e com azulejos, ao estilo 
romano.
O romano bateu ao porto e, passados uns momentos, um escravo

472

MARION ZIMMER BRADLEY

abriu-o e eles passaram por uma comprida entrada at um jardim interior.

O romano perguntou:
- O meu pai est?

- Est com o legado - replicou o homem. - Entrai e esperai por ele se desejardes; ele 
deve estar quase a chegar. Na realidade no se passaram mais de quatro ou cinco

minutos at Macellius chegar. Senara no teve pena de o ver, pois a mais nova das 
crianas tinha acordado e estava a comear a choramingar. Macellius entregou-as a uma 
corpulenta e amvel escrava que olharia por elas at os pais adoptivos que tinha 
escolhido para elas as viessem buscar. Agradeceu a Senara e perguntou-lhe polidamente 
se precisava duma escolta para o regresso.

Senara abanou a cabea rapidamente. Na Casa da Floresta pensavam que ela tinha 
trazido as crianas para parentes da me na cidade. Regressar com uma escolta de 
soldados romanos teria, sem dvida, sido como deitar achas para a fogueira. Seria 
agradvel, no entanto, se o Severus mais novo a pudesse escoltar at casa... expulsou o 
pensamento.

- Ver-te-ei outra vez? - perguntou ele, e um pequeno tremor de excitao percorreu-a.

- Talvez numa das cerimnias - Depois, antes que fizesse uma completa figura de idiota, 
escapuliu-se pela porta fora.

Julia Licinia nunca fazia nada pela metade. Uma noite em Abril pediu a Gaius que a 
acompanhasse a uma cerimnia religiosa da tarde, no templo do Nazareno, em Deva, Se 
bem que o seu casamento se tivesse transformado numa polida fico, ela era ainda a 
senhora da sua casa e Gaius sentia-se obrigado a suport-la. Tinha considerado o 
divrcio, mas no via qualquer utilidade em ferir Licinius e as suas filhas para casar 
com outra rapariga romana qualquer.

No se encontrava suficientemente nas boas graas do Imperador para fazer uma aliana 
com uma famlia do seu partido, e aliar-se com a oposio podia ser perigoso. Se bem 
que o Macellius mais velho falasse pouco, Gaius sabia que a conspirao

A CASA DA FLORESTA

473

estava a avanar. Se o Imperador casse, tudo seria modificado. Parecia melhor a Gaius 
pr de lado as preocupaes com o seu futuro pessoal at se saber se tinha sequer 
algum.

Visto o templo do Nazareno ter sido, em parte, comprado com os lucros das jias que 
Julia parecia j no usar, Gaius estava curioso para saber que tipo de valor ela tinha 
obtido em troca do seu dinheiro. Na altura em que estavam preparados para partir j 
formavam um grupo bastante grande; no apenas Gaius e Julia, mas tambm as 
rapariguinhas e as suas amas, e o que parecia metade do pessoal da casa.

- Por que temos de levar toda esta gente connosco? - perguntou Gaius, no de todo bem 
disposto. Ele e a sua famlia dormiriam nessa noite em casa de Macellius, mas o seu pai 
no tinha espao para todo o seu pessoal.

- Porque so todos membros da congregao - disse Julia mais agradavelmente. Gaius 
pestanejou. Nunca lhe teria ocorrido perguntar-lhe como ela dirigia a sua casa, mas no 
tinha reparado que o seu zelo a tivesse levado to longe. Ela acrescentou: - Voltaro  
villa quando isto tiver acabado. No lhes posso recusar a oportunidade de prestarem 
culto.

Gaius pensou se no seria, antes, ela que no os deixaria, mas achou mais sensato calar-
se. A nova igreja crist era um edifcio antigo bastante grande, perto do rio, que tinha 
originariamente pertencido a um importador de vinho. O desagradvel cheiro a vinho 
velho era encoberto pela fragrncia de velas de cera, e flores novas estavam amontoadas 
no altar. Quadros pintados bastante grosseiramente - um pastor carregando uma ovelha, 
um peixe, alguns homens num barco, adornavam as paredes caiadas.

Quando entraram Julia fez um sinal misterioso; ele ficou descontente ao ver que Cella, 
Tertia e Quartilla a tentaram imitar. Tinha Julia convertido, no apenas os criados, mas 
as filhas tambm? Pensou se estes cristos no estariam a tratar de minar a autoridade 
do lar.

Julia encontrou um lugar num duro assento no muito longe -da porta, e sentou-se, 
rodeada pela sua camareira e pelas filhas. Gaius, de p atrs dela, olhou  volta para ver 
se mais algum na congregao era seu conhecido. A maioria dos adoradores reunidos 
pareciam ser gente trabalhadora do mais pobre dos gneros, e ele pensou como  que a 
afectada Julia gostava de se ver no

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MARION ZIMMER BRADLEY

meio de tal gente. Depois reconheceu um rosto: a rapariga que tinha trazido as filhas de 
Brigitta para a cidade. Ela tinha-lhe dito que vinha s reunies quando se podia escapar, 
e ele percebeu agora que uma das razes por que tinha cedido ao pedido de Julia para a 
acompanhar tinha sido uma vaga esperana de

a ver.

Um padre, muito barbeado e usando uma longa dalmtica, entrou com dois rapazes, um 
dos quais carregava uma grande cruz de madeira e o outro uma vela, e um par de 
homens mais velhos que julia lhe tinha dito serem diconos, um dos quais transportava 
na mo um pesado livro, encadernado a couro. Este ltimo era um homem de meia 
idade, com um aspecto bastante solene. Quando pousou o livro na imensa estante 
tropeou numa criana duns quatro anos de idade que estava na coxia; mas, em vez de 
fugir aterrorizada, a criana riu-se para ele e o dicono inclinou-se e abraou-a, com um 
sorriso que lhe transformou a face, entregando-a depois ao pai, um encardido homem 
com musculosos braos de ferreiro.

Houve oraes e invocaes; a congregao foi purificada com incenso e gua, tudo 
suficientemente parecido com uma cerimnia romana para que Gaius no se sentisse 
desconfortvel de mais, se bem que o latim fosse menos puro. Ento, os padres e os 
diconos sentaram-se e houve um ligeiro movimento de excitao quando outro homem 
se chegou  frente.

- O Nosso Senhor disse uma vez, Deixem as crianas vir at mim e no as probam; 
pois delas  o Reino dos Cus . Muitos de vs aqui esta noite perderam um filho e 
lamentam-se; mas os vossos filhos, digo-vos, esto a salvo com Jesus no Cu e vs, pais 
que vos lamentais, sois mais felizes que aqueles pais que entregaram os seus filhos, em 
vida, ao servio dos dolos. Digo-vos que seria melhor para essas crianas estar mortas 
fora de perigo, no tendo ainda pecado, que vivas para servir falsos deuses! - fez uma 
pausa para respirar e o povo suspirou.

Vieram aqui para serem assustados!, pensou Gaius cinicamente. Esto a gostar do 
pensamento da sua prpria virtuosa superioridade!

- Pois o primeiro dos grandes mandamentos  este: amars o Senhor teu Deus com todo 
o teu corao e toda a tua alma; e o segundo dos grandes mandamentos  este: honrars 
o teu pai

A CASA DA FLORESTA

475

e a tua me. - O Padre Petros estrondeava. - Sendo assim, levanta-se a questo: at onde 
pode um jovem ser responsabilizado se os seus guardies o colocam ao servio dum 
dolo pago? H padres na nossa Igreja que dizem que todos, mesmo crianas de colo, 
so culpados se estiverem presentes durante a adorao dum dolo; mas h outros que 
mantm que se os guardies duma criana o entregam para servir um dolo antes de ter 
chegado  idade da razo, ento ele no deve ser culpabilizado. O meu prprio 
sentimento ...

Mas Gaius no se importava verdadeiramente com o que era o prprio sentimento do 
padre. Nesta altura o seu olhar estava fixo no muito mais agradvel espectculo da 
rapariga, Senara, que estava inclinada para a frente, absorta nas palavras do eremita. 
Tinha definitivamente perdido o fio ao discurso do padre, mas j tinha decidido que 
estas cerimnias crists eram aborrecidas de mais para o seu gosto; nenhuns sacrifcios, 
nenhumas exortaes gritadas, nem mesmo o drama que os ritos de Isis ou de Mithras 
podiam por vezes proporcionar. De facto, estas cerimnias crists, em suma, eram mais 
aborrecidas que tudo o que alguma vez tinha ouvido, com a excepo de algumas das 
filosofias drudicas.

Mesmo tendo a luminosa face da rapariga para olhar pareceu que se passou muito tempo 
antes que o discurso do Padre Petros finalmente perambulasse at ao seu final. Gaius 
estava desejoso de se ir embora e foi com consternao que ouviu que se esperava que 
ele e outros membros da congregao no baptizados fossem esperar l fora, enquanto 
os iniciados participavam numa espcie qualquer de banquete de amor. As suas queixas 
foram to audveis que Julia finalmente concordou em partir, se bem que prometesse s 
amas e serviais que podiam ficar.

Ele agarrou na adormecida Quartilla e partiram para casa de Macellius. Mal tinham 
comeado a andar quando Tertia comeou a protestar que tambm queria ser levada ao 
colo. Gaius disse-lhe bruscamente para se portar como uma rapariga crescida e que 
andasse; a sade da sua me tinha melhorado mas no estava ainda suficientemente 
forte para carregar a criana e Cella era ainda pequena de mais. Quando Tertia comeou 
a chorar, algum se mexeu atrs deles e ele ouviu uma voz a dizer:

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MARION ZIMMER BRADLEY

- Eu levarei a tua rapariguinha.

Gaius podia ter recusado, mas a rapariga bret j tinha agarrado na ensonada criana, que, quase instantaneamente, 
caiu a dormir nos seus braos.

- Na realidade ela no pesa nada - disse a rapariga -, e estou habituada a trabalhos mais duros que este!

- s uma verdadeira irm em Cristo - exclamou Julia. Gaius no conseguiu encontrar nada para acrescentar a isto e, 
assim, caminharam juntos. As mulheres trocaram alguns lugares-comuns em voz baixa, e Gaius viu-se obscuramente 
aliviado por elas, claramente, no se conhecerem assim to bem uma  outra. A Lua, apenas umas poucas de noites 
depois de ter estado cheia, limitava-se a dar-lhes a luz indispensvel para iluminar o caminho. Podiam ver com 
nitidez a estrada por baixo dos ps e muitas das rvores brilhavam com nuvens duma enevoada florao branca.

Quando empurraram o porto, o camareiro de Macellius saiu para vir ao encontro deles com uma lanterna. Na altura 
em que Tertia se comeou a mexer, a rapariga bret pousou-a e ficaram a olhar uns para os outros  sbita claridade.

- Tens que ficar e fazer-nos companhia  refeio j que tambm perdeste o gape - declarou Julia.

- Oh, no, no posso - disse envergonhadamente a rapariga. -  muito amvel da vossa parte, senhora, mas no tive 
licena para vir; devo voltar para casa j, ou daro pela minha falta, e ento, mesmo que no seja castigada, posso 
poder no voltar outra vez.

- Sendo assim no te reterei; seria uma pobre paga pela tua amabilidade - disse Julia rapidamente. - Gaius ir contigo. 
Esta parte da cidade  calma, mas antes de sares os portes pode haver algumas pessoas que no seria seguro uma 
honesta e decente, rapariga encontrar.

- Isso no ser necessrio, Domina... - comeou, mas Gaius interrompeu-a.

- Vou de boavontade; queria andar um bocado antes de ir para a cama, e posso levar-te a salvo at tua casa.

Pelo menos podia perguntar-lhe o que estava a fazer uma rapariga da Casa da Floresta no meio de cristos. A 
resposta, decidiu, podia ser reveladora. Quando ela enrolou o capote - escuro e simples, tal como uma servial numa 
casa respeitvel usaria -

A CASA DA FLORESTA

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apertadamente  sua volta, ele pensou se seria porque, por baixo, usava o vestido de uma sacerdotisa. Gaius pegou 
num archote; mesmo com a Lua, sabia mais que ir afrontar as ruas sem um, e sentiu que uma boa luz podia 
tranquilizar a rapariga. Ela beijou todas as pequeninas, incluindo a adormecida criana nos braos de Julia, e 
comeou a descer os degraus ao lado dele. Passaram pelas ruas silenciosas sem atrarem qualquer ateno mas, 
mesmo depois de as ltimas casas terem ficado para trs deles, e apesar de a noite estar quente, a sua companheira 
no fez qualquer tentativa para puxar para trs o seu capuz.

O silncio parecia opressivo.

- H quanto tempo tens vindo aos servios no novo templo? - perguntou Gaius finalmente.

- Desde que foi construdo.
- E antes disso?

- Quando era uma rapariguinha, a minha me costumava levar-me a encontros nos alojamentos dos criados da casa 
dum dos pais da cidade cujo camareiro era cristo.

Mas tu vives na Casa da Floresta - disse ele, franzindo o sobrolho.

-  verdade - replicou ela calmamente. - As suas sacerdotisas deram-me abrigo a... sou rf. Mas nenhuns 
juramentos me prendem. O meu pai  breto, exilado agora, mas a minha me era romana. Ela baptizou-me e quando 
descobri que o Padre Petros estava a viver por perto quis aprender mais sobre a f dela.
 Gaius sorriu.

- E o teu nome  Valeria!

Ela pestanejou. j se tinha passado muito tempo desde que tinha ouvido esse nome.

- Esse  o nome que a minha me me chamava, mas j sou Senara h tanto tempo que quase o tinha esquecido. O 
Padre Petros diz que  o meu dever obedecer aos meus guardies, mesmo que eles sejam pagos. Ao menos na Casa 
da Floresta nada de mal me poder acontecer. Ele diz que os druidas esto entre os bons pagos, aos quais um dia 
ser oferecida a salvao; mas no devo tomar votos com eles. E o Apstolo Paulo ordenou aos escravos que 
obedecessem aos seus amos. A liberdade  da alma, mas o estatuto legal do corpo no pode ser negado, bem como 
no o podem ser os juramentos legais.

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- Pelo menos tm esse juzo - resmungou. - Uma pena que no possam ampliar esse 
raciocnio para cobrir o seu dever para com o Imperador!

Senara continuou a conversar como se no tivesse ouvido e ele pensou se o seu tagarelar 
no esconderia medo, mas estava encantado de mais com a msica da voz dela para se 
importar muito com as palavras. Tinha uma tal inocncia... como Eilan quando era 
nova.

- Claro que, na Casa da Floresta, no me pedem para pecar e so boa gente, mas eu 
quero ser uma verdadeira crente e ir para o Cu. Teria medo de ser uma mrtir, contudo, 
e costumava ter medo que eles 
pensassem que era o meu dever morrer pela minha f como um dos santos sobre os 
quais a minha Me me falou; era apenas um beb mas consigo lembrar-me... por pouco.

- Mas o Governo agora no persegue os cristos... - Ela hesitou. Enquanto Gaius 
procurava algo para dizer, ela continuou. - Claro, hoje  noite o padre estava 
verdadeiramente a falar de mim. Algumas pessoas na congregao sabem que eu estou 
num dos templos pagos e desprezam-me porque continuo ali... mas o Padre Petros diz 
que no preciso de os deixar at ser maior.

- E depois o qu? - perguntou ele. - Valerius arranjar-te- um casamento com algum 
adequado?

- Oh no.  mais provvel que entre para uma congregao sagrada. Os padres dizem 
que no cu no h nem casamento nem entrega em casamento.

- Que desperdcio - declarou Gaius. j antes tinha ouvido aquela. - Penso, 
verdadeiramente, que os padres devem estar enganados.

- Oh    no; pois quando o mundo acabar no querereis ser encontrado   com nenhum 
pecado na vossa alma.

Gaius disse, com absoluta honestidade:

- Nunca me ocorreu preocupar-me com a minha alma, nem mesmo perguntar-me se 
tinha ou no uma.

Ela imobilizou-se repentinamente e virou-se para ele na escurido.

- Mas que terrvel - disse fervorosamente. - No quereis ser lanado nas profundas do 
inferno, pois no

A CASA DA FLORESTA

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- Acho-a uma estranha religio, a que condena as pessoas por procriarem crianas, ou 
pelo acto que as concebe! E quanto s tuas profundas do inferno decerto que  tanto 
uma fbula como as de Tartarus ou de Hades. Nada que assuste um homem racional. 
Queres dizer-me que acreditas realmente que  para a que vo aqueles que ofendem as 
regras do Padre Petros?

Ela deteve-se novamente e levantou a face para ele, branca como um lrio ao luar.

- Mas claro que quero - disse. - Deveis pensar j sobre a vossa alma, antes que seja tarde 
de mais.

Se algum, a no ser uma rapariga to bonita, tivesse levantado tal tpico de conversa 
com Gaius, provavelmente ele teria rido na sua cara. As conversas de Julia sobre estas 
coisas maavam-no quase at s lgrimas. Em vez disso, respondeu mais suavemente:

- Se te preocupas com a minha alma ters, simplesmente, de me ajudar a salv-la.

Ela disse duvidosamente:

- Acho que o Padre Petros vos podia ajudar muito melhor do que eu. - Tinham chegado 
 entrada da avenida de carvalhos que conduzia  Casa da Floresta e ela parou. - Posso 
achar o meu caminho a partir daqui; e decerto que vs no deveis aproximar-vos mais. 
Podeis ser visto e ento eu tambm seria apanhada e castigada.

Ele agarrou-lhe nos ombros e disse, meio jocosamente, meio suplicante.

- Deixar-me-s ir com a minha alma por salvar, ento? Temos de nos encontrar outra 
vez.

Ela pareceu ficar perturbada.

-  Eu no devia dizer isto - disse ela abruptamente -, mas levo comida ao Padre Petros 
ao meio-dia de todos os dias. Se calhasse estares por ali... admito... ento podamos 
falar.

-  Ento certamente salvars a minha alma, se  que ela pode ser salva - replicou Gaius. 
No se importava a mnima com a sua suposta alma; mas queria ver Senara outra vez.

- Nunca mais te verei... - Eilan afastou-se de Caillean e ficou a olhar para o jardim.

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- Isso  uma parvoce! - exclamou Caillean, a punhalada de medo que aquelas palavras a 
fizeram sentir transformando-se em ira. - Agora s tu que ests a ter as precognies 
idiotas. Foste tu prpria que quiseste que eu partisse!

Os estreitos ombros de Eilan estremeceram.

- No eu, no eu. Foi a Deusa a falar por meu intermdio, e eu devo cumprir a Sua 
vontade. Mas, oh Caillean, agora que a altura chegou  to duro!

- De facto  duro! - respondeu-lhe Caillean, - Mas eu  que te devo abandonar e a tudo o 
que tenho amado. Tens a certeza de que era a Deusa a falar e no Ardanos a murmurar-
te ao ouvido? Ele tem querido separar-nos desde que o obriguei a deixar que ficasses 
com o teu filho!

- Admito que isto lhe agrade - murmurou Eilan -, mas acreditas verdadeiramente que 
isto tenha sido obra dele? Tudo o que tentei fazer aqui  uma mentira?

Caillean ouviu a sua dor e no conseguiu manter mais tempo a sua ira.

- Minha querida... minha pequenina - pousou uma mo no ombro de Eilan e a outra 
mulher caiu-lhe nos braos. No fez qualquer som, mas as suas faces estavam riscadas 
com lgrimas - No devemos lutar como crianas quando temos to pouco  tempo! H 
alturas em que o poder dos deuses queima como o sol e depois escurece e a luz parece 
apenas um sonho.  Sempre assim tem sido. Mas eu acredito em ti, meu amor.

-   A tua f tem-me aguentado - murmurou Eilan.

-   Ouve - disse Caillean. - Isto no  para sempre. Um dia, quando formos velhas as 
duas, riremos dos nossos medos.

-   Sei que ficaremos juntas - disse Eilan vagarosamente mas se  nesta vida ou noutra 
no o posso dizer.

-   Minha Senhora - Huw dirigiu-se-lhe do porto -, os carregadores esto  espera.

- Agora tens de ir. - Eilan endireitou-se, tornando-se de novo na Gr Sacerdotisa. - 
Temos ambas de servir a Senhora nos locais para os quais Ela nos tenha chamado, no 
interessa como nos sentimos.

- Est tudo bem, eu voltarei, vers - disse asperamente Caillean, dando-lhe um ltimo, 
rpido abrao e largando-a.

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Saiu depois, sabendo que se olhasse para trs, para Eilan, se desfaria em lgrimas e no 
devia faz-lo, no em frente das jovens sacerdotisas e dos homens. No foi seno 
quando as cortinas da liteira se fecharam  sua volta que as deixou correr.

Passou a maior parte da chuvosa, lgubre viagem at ao Pas de Vero a bordar. A sua 
disposio no melhorou pelo facto de terem tido de viajar de liteira, uma forma de 
transporte que ela detestava.

Era acompanhada pelas sacerdotisas escolhidas para a nova casa. Eram na sua maioria 
jovens, e todas virtuais recm-chegadas  Casa da Floresta e que se sentiam intimidadas 
de mais at mesmo para se lhe dirigir em nada mais que o mais inofensivo dos lugares-
comuns. Caillean tinha pouco para fazer excepto alimentar a sua raiva.

Aproximava-se o crepsculo quando a pequena procisso passou atravs do pequeno 
desfiladeiro entre as colinas e se transferiu para barcaas a fim de atravessar os estreitos 
pntanos que rodeavam o Tor. Este mantinha-se rgido de encontro ao cu que se ia 
desvanecendo, coroado por um crculo de pedras e, mesmo daqui, ela podia sentir o seu 
poder. As casas redondas dos druidas aglomeravam-se nas suas ladeiras mais baixas. No 
vale para l delas, apenas podia entrever uma confuso de cabanas mais pequenas, como 
uma colmeia, que deviam pertencer aos cristos que Ardanos tinha autorizado se 
estabelecessem aqui. A fragrncia de alguma rvore perfumada, talvez macieiras, estava 
suspensa no ar.

Foram recebidas no sop da colina pelos jovens padres ali deixados de sentinela, que as 
saudaram com muitas expresses de deferncia e de boavontade, se bem que 
parecessem um tanto incertos quanto ao porqu da sua vinda. Apesar da sua ira 
comeou a ficar divertida com a confuso deles, comeando tambm, relutantemente, a 
fazer as pazes com o inevitvel. Para o melhor ou para o pior, o clero drudico tinha-a 
enviado para aqui, e at eles no passavam de instrumentos da Deusa, a qual tinha 
ordenado a sua presena aqui em termos inquestionveis.

Quando atingiram o santurio estava completamente escuro. Os padres saudaram-nas 
polidamente, se no cordialmente -

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mas tambm, Caillean no tinha esperado ser benvinda. Se isto era o exlio, ao menos 
era um exlio honroso e visto no poder alter-lo, podia, pelo menos, tirar o melhor 
partido dele.

Depois das cerimoniosas saudaes, viu as suas mulheres amontoadas perto da lareira, 
de olhos arregalados em confuso. Um dos sacerdotes mais jovens conduziu-as para 
uma habitao baixa, com um tecto de colmo, que como eles tinham apologeticamente 
dito no era de modo nenhum conveniente para alojar uma sacerdotisa, muito menos 
uma da sua posio. No entanto, ter onde pr mulheres no era um problema com que 
tivessem tido que lidar at agora. Uma vez que o Arquidruida o tinha ordenado, 
contudo, foram rpidos a garantir-lhe que uma casa conveniente seria construda para 
uso delas, logo que tornasse conhecidas as suas necessidades, e que a assistncia que ela 
e as suas mulheres desejassem ser-lhes-ia garantida.

Na altura em que Caillean se tinha assegurado de que todas as jovens mulheres estavam 
alojadas no dormitrio evacuado  pressa que tinha albergado os novios mais jovens e 
foi capaz de finalmente procurar a sua prpria cama, estava quase a cair de fadiga. Se 
bem que a cama e o lugar lhe fossem estranhos, dormiu pacificamente, para sua 
surpresa, durante toda a noite e acordou quando a madrugada ainda avermelhava o cu. 
Vestiu-se sem acordar as suas mulheres e saiu sozinha para a precoce manh. Raios de 
luz rosada estavam a comear a corar o cu. O caminho  sua frente subia pela colina 
acima.

Quando a luz aumentou Caillean estudou os arredores cuidadosamente. Para o qu, 
neste remoto pas, a teria o seu destino conduzido?

Quando o Sol se levantou ela pde ver que o Tor aparecia por cima duma vasta extenso 
de terras selvagens, completamente rodeadas por pesadas brumas que flutuavam no 
grande lenol de gua; tinham chegado to tarde na noite anterior que mal tinha 
reparado, na sua fadiga e exausto, que a parte final da sua viagem tinha sido feito por 
barcaa. As colinas cobertas por rvores, de outras ilhas, mostravam os seus florestados 
cumes verde escuros por cima da neblina. Estava tudo em silncio, mas enquanto o Sol 
se levantava, e Caillean estudava esta estranha paisagem, comeou a ouvir o tnue 
murmrio de cnticos vindos de algures no muito longe dali.

A CASA DA FLORESTA

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Virou-se; o som vinha duma pequena estrutura mesmo no topo da ilha. Deslocou-se 
mais para cima, para poder ouvir melhor. A msica era suave e lenta, a profunda 
ressonncia de vozes de homens estranha para os seus ouvidos depois de tantos anos 
entre mulheres. Depois de algum tempo percebeu palavras na torrente de som; parecia-
lhe que estavam a cantar em grego.

Kyre eleison, Criste eleison. Tinha ouvido dizer que era assim que os cristos se 
dirigiam ao seu senhor; esta devia ser a comunidade de refugiados que o Arquidruida 
tinha autorizado a estabelecer-se aqui. Nos dias de hoje as mais estranhas religies 
estavam a espalhar-se por todo o Imprio.

Pouco depois o som desapareceu, e ela viu um pequeno velho, curvado como se devido 
a uma avanada idade, a olhar para ela. Pestanejou, pois no o tinha visto aproximar-se, 
e isso era pouco habitual numa sacerdotisa com o seu treino. Quando ela o fitou, ele 
baixou os olhos. Deve ser um dos padres cristos, de facto; tinha ouvido dizer que 
muitos dos seus padres no olhavam para uma mulher estranha.

Mas, aparentemente, estava autorizado a falar com ela. Ele disse, no latim de mercado 
que servia de dialecto por toda a Europa:

- Um bom dia para ti, minha irm. Posso perguntar o teu nome? Sei que decerto no s 
uma das nossas catecmenas, pois h muitos anos que no temos tido quaisquer 
mulheres entre ns, excepto as venerveis senhoras que nos acompanharam, e tu s 
nova.

Caillean sorriu um pouco  ideia de que algum a pudesse considerar jovem, mas o 
padre tinha barbas brancas e era frgil como uma folha cada. Pelo menos quanto  
idade podia ter sido seu av.

- No sou - disse ela. - Sou uma daquelas que adoram o deus da floresta. o meu nome  
Caillean.

-  verdade? - perguntou ele polidamente. - Sei alguma coisa dos irmos entre os 
druidas e no sabia que tinham mulheres entre eles.

- Os que aqui vivem no tm - replicou -, ou pelo menos no tinham at agora. Fui 
enviada para aqui da Casa da Floresta, no Norte, para fundar uma Casa das Donzelas. 
Subi a colina para ver para que lugar os deuses me tinham enviado.

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- Falas como algum que tem alguma familiaridade com a verdade, minha irm. Sendo assim decerto sabes que todos 
os deuses so um Deus... - fez uma pausa, e Caillean completou:
- ... e todas as deusas uma Deusa.

A sua idosa face era a gentileza em pessoa,

-  assim. Aqueles aos quais o nosso Senhor apareceu como o Divino Filho do Senhor no veriam a face do Senhor 
em nada feminino, Pelo que, para eles, no falamos da Deusa mas de Sofia, a Sagrada Sabedoria. Mas sabemos que a 
Verdade  Uma. Assim, minha irm, a mim parece-me muito adequado que estabeleam aqui um santurio  Sagrada 
Sabedoria segundo os costumes do teu povo.

Caillean fez uma vnia. A face dele estava profundamente enrugada mas j no lhe parecia feia, pois brilhava, 
positivamente, com benevolncia.

- Que esplndido trabalho ao qual devotar o que resta desta incarnao, minha irm - Ele sorriu, depois o seu olhar 
voltou-se para o interior. - Parece certo que estejas aqui, pois tenho a sensao que j antes servimos nos mesmos 
altares...

No pela primeira vez neste estranho encontro Caillean ficou assombrada.

- Tinha ouvido dizer que os irmos da tua f negavam a verdade das encarnaes - disse espontaneamente. Mas o que 
ele tinha dito era verdade. Ela tinha-o reconhecido, com aquela espcie de certeza que tinha sentido quando tinha 
conhecido Eilan.

- Est escrito que o prprio Mestre acreditava - disse o idoso padre -, pois Ele disse do Profeta, a quem os homens 
chamavam Jochanan, que ele era Elijah renascido. Tambm est escrito que ele disse que havia leite para os bebs e 
carne para os homens fortes. A muitos dos bebs entre ns, novos na f, -lhes dada comida tal como  devido a 
bebs no esprito, no vo eles no emendar as suas vidas na crena que, na verdade, a Terra esperaria por eles. No 
entanto o Mestre disse que esta gerao no passar antes que o Filho do Homem se nos junte; sendo assim eu estou 
aqui para que at as pessoas no fim do mundo ouam e conheam a Verdade.

Caillean disse suavemente:

- Possa a verdade prevalecer.

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- Sucesso para a tua misso, irm - replicou o velho.
- H muitos aqui que dariam as boas-vndas a uma congregao feminina piedosa. - Voltou-se como que para partir.

-  permitido perguntar o teu nome, meu irmo?

- Chamo-me Joseph e era um mercador de Arimathea. H velhas senhoras, ainda a viverem no meio de ns, que 
viram a face do Mestre ainda em vida. Elas daro as boas-vindas  companhia de mulheres iluminadas, no nosso seio.

Caillean fez outra vnia. Achava-o um estranho mas bom pressgio o encontrar entre estes cristos, que no 
aceitavam facilmente mulheres, uma recepo melhor que aquela que os seus irmos druidas tinham oferecido. 
Servidora da Luz.. o ttulo retiniu-lhe na conscincia, proveniente de algum lugar antes da memria. Enquanto os 
velhos padres desciam a colina as suas mos moveram-se num gesto de reverncia mais antigo que os prprios 
druidas. Se uma alma daquelas se podia aliar aos cristos, era porque afinal devia haver alguma esperana para eles.

Quando ele desapareceu no interior da pequena igreja, Caillean viu que estava a sorrir. Sabia agora que a Deusa 
protegeria o seu trabalho e que tinha, na realidade, sido enviada para aqui por uma boa razo. Comearia neste 
mesmo dia.

Quando Caillean tomava o pequenoalmoo com as outras mulheres ocorreu-lhe que nesta nova casa, onde estavam 
todas longe de qualquer coisa familiar, no podia manter a reserva que Lhiannon, e depois Eilan, tinham mantido 
dentro da Casa da Floresta. Tomou a sua primeira deciso: no deviam ser servidas por estranhos. Era o primeiro 
passo na determinao da medida do contacto que teriam com o clero masculino. Uma deciso mais fcil foi a de 
escolher uma das mais altas e fortes das jovens novias para localizar um local adequado para uma horta e seme-lo o 
mais depressa que pudesse, e com tantos vegetais quantos fossem praticveis. Alguma comida seria, claro, fornecida 
pela populao local, mas queria tornar bem claro, desde o incio, que no ficariam, qualquer que fosse o modo, 
dependentes dos padres druidas. Neste local os padres no teriam nem a sombra duma desculpa para reivindicarem o 
controlo sobre a vida das mulheres.

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Escolheu outra jovem mulher         provavelmente a menos inteligente das suas 
subordinadas       para ficar encarregada da cozinha e de servir a comida, prometendo-
lhe tanta ajuda quanta a que ela desejasse. Mais tarde durante o dia falou com um dos 
padres e combinou que devia ser construdo um edifcio antes que a neve do Inverno se 
tornasse profunda, o qual albergaria cinco ou seis vezes o seu nmero original. Polida 
mas inflexivelmente, descartou a sugesto do velho padre que as suas actuais 
acomodaes podiam ser suficientes pelo menos durante este Inverno.

Quando finalmente o despediu ele parecia bastante atordoado. Ela tinha a impresso de 
que ele se estava a sentir como algum que tivesse sido atropelado por uma parelha de 
enormes cavalos, e sentiu que, pela primeira vez, podia ver a sua prpria vontade 
obedecida. No era uma sensao malvinda de todo. A Deusa estava na verdade a 
trabalhar aqui, pois a Senhora podia agora fazer uso dos seus talentos ao mximo e isso 
nunca antes tinha sido verdade.

Sentia a falta de Dieda; podia ter usado a ajuda da mulher mais nova com as donzelas e 
a ensin-las a cantar. Mas, pensou, estava melhor sem hostilidade por parte dos seus 
associados, especialmente por terem sido forados a um contacto to prximo. Aqui no 
havia ningum para protestar com quaisquer regras que pudesse criar, Resolveu escolher 
a mulher mais experiente a cantar ou em cnticos para aprender a tocar na sua prpria 
harpa e, talvez, at ensinar-lhe a arte de modelar esses instrumentos.

Quando finalmente se deitou para dormir, depois de uma tarde gasta a agrupar as 
mulheres para a sua primeira lio na no escrita histria da Deusa, pde ouvir o doce 
som de cnticos vindos uma vez mais da distante igreja. Foi ao som do renovado 
cntico do Kyrie eleison  que ela adormeceu, mais contente com o local para o qual a 
Deusa a tinha enviado que o que jamais tinha imaginado pudesse vir a estar. Nessa noite 
sonhou com um santurio de ptios e sales sobre o sagrado Tor, servido por donzelas, 
que poderia, um dia, vir a erguer-se aqui; podia no ser durante a sua vida; mas esse dia 
chegaria.

VINTE E OITO

Os dias tornaram-se mais compridos depois de Beltane; o gado foi conduzido para as 
pastagens das colinas, e nos campos homens tratavam o gro. o solestcio de Vero 
chegou e, pela primeira vez, Ardanos no tentou dar instrues a Eilan antes do ritual, a 
respeito do Orculo. Quando o viu no ritual ele pareceu-lhe muito frgil. Disseram-lhe 
depois que a Deusa lhe tinha previsto um tempo de desastres e mudanas, mas 
prometido que a seguir viria a paz. De facto, toda a terra estava cheia de rumores, mas 
ningum sabia dizer de que direco poderia o perigo vir.

Eilan tinha feito tenes de visitar o Arquidruida depois de recuperar do seu prprio 
papel no ritual, mas nesta altura do ano havia muito que fazer na Casa da Floresta. Os 
dias passavam-se mas mesmo assim ela no conseguia arranjar tempo. No pino do 
Vero, at as donzelas da Casa da Floresta foram para os campos para ajudar no corte 
do feno. Eilan supervisionava as que teciam linho para os padres, e trabalhava nos potes 
de tintura, preparando tecido para novos hbitos, mas era de Caillean que se sentia 
mais amargamente a falta, pois ela tinha sido sempre a mais habilidosa de todas as 
mulheres a tingir tecidos. Nenhuma lei exigia que Eilan fizesse turnos neste trabalho 
servil mas a ela parecia-lhe que, enquanto tivesse a responsabilidade pela sua pequena 
comunidade tambm lhe competia participar da sua vida.

Estava nos telheiros de tingimento, as mangas enroladas por cima dos cotovelos e os 
antebraos manchados com tintura azul, quando uma sombra caiu sobre a soleira da 
porta. Um murmrio de escandalizada excitao correu pelas mulheres quando viram 
que era um dos jovens druidas, corado e a transpirar no seu

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hbito branco. Pois, se bem que o telheiro no estivesse dentro do recinto sagrado no 
interior dos muros, onde apenas os padres de mais elevado grau podiam entrar, no 
estavam habituadas a ver homens.

- A Gr Sacerdotisa - disse ele, respirando com dificuldade. - A Senhora Eilan est 
aqui? - Todas as mulheres se viraram para olhar para Eilan e, quando o rubor do rapaz 
se acentuou, ela percebeu que ele nunca a tinha visto sem o vu. Ele engoliu em seco. - 
Por favor, Senhora... o Arquidruida adoeceu. Tendes de vir!

Eilan parou na soleira da porta do quarto de Ardanos, chocada apesar de ter sido 
avisada. Ouviu Miellyn, que a acompanhava, dar um pequeno ofego e fez-lhe sinal que 
se deixasse ficar  porta com Huw. Depois sentou-se ao lado da cama do moribundo. E,    
de facto, no podia haver qualquer dvida de que ele estava   a morrer. A cada 
inspirao o ar estertorava e fazia um rudo     de suco no peito de Ardanos, e ela 
podia ver o crnio por   baixo da plida pele. Com uma pancada de dor lembrou-se de 
como ele se tinha sentado junto a Lhiannon durante a doena desta. Se bem que por 
vezes o tivesse odiado esperava que esta passagem fosse fcil.

- Teve um colapso ao jantar e esteve inconsciente at h pouco - disse Garic, um dos 
sacerdotes mais velhos. - Mandmos chamar Bendeigid.

Ela afastou o vu e estendeu a mo para agarrar a dele.
- Ardanos - disse suavemente. - Ardanos, podeis ouvir-me?

As frgeis plpebras esvoaaram e, depois de um momento de confuso, ele fixou-se na 
cara dela.

- Dieda - murmurou.

- Av, nem mesmo agora me reconheceis? Dieda est no Sul, a testar donzelas que se 
querem juntar a ns como sacerdotisas. Eu sou Eilan. - Ficou amargamente divertida 
por ele ainda as confundir ao fim de todos estes anos.

O olhar dele fixou-se nos ornamentos que ela tinha tido tempo de colocar e suspirou.

- Eras a indicada... afinal de contas.

A CASA DA FLORESTA

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- Ardanos - disse ela firmemente -, como Gr Sacerdotisa  meu dever dizer-te que 
estais a morrer. No podeis partir sem nomear o teu sucessor. Diz-nos, Arquidruida, 
quem dever ser o portador da foicinha dourada depois de teres partido?

os olhos dele fixaram-se na sua face.

- Deusa, fiz o melhor... que podia - murmurou ele. - O Merlin sabe...

- Mas ns temos de saber! - disse o druida que o assistia.
- Quem escolhereis?

- Paz! - disse Ardanos com sbita energia, como se lhes estivesse a ordenar que se 
calassem. - Paz... - a palavra foi murmurada num ltimo suspiro; a respirao estertorou 
na garganta do velho e depois ele imobilizou-se.

Durante uns instantes ningum se moveu. Depois, Garic estendeu uma mo para tomar 
o pulso a Ardanos, esperou, a contar, e deixou a flcida mo cair.

- Ele foi-se! - disse acusadoramente.

- Lamento - disse Eilan. - O que ireis vs fazer?

- Temos de convocar os outros membros da nossa ordem disse um dos outros, 
encarregando-se j de tudo. - Parti agora, Senhora. A vossa parte est terminada. 
Informar-vos-emos quando os deuses nos tiverem conduzido a uma deciso, visto no 
terem achado adequado inspirar Ardanos com a sua palavra.

 medida que o dcimo quinto Vero do reinado do Imperador Domiciano se passava, o 
tempo manteve-se abafado e parado, como se uma tempestade se estivesse a formar 
algures, mesmo para l do horizonte. Gaius, a cavalo pelas ruas de Deva, via-se 
constantemente de ouvido  escuta,  espera da trovoada. E no era o nico. As vozes 
dos vendedores, na cidade, tornavam-se agudas e iradas; havia mais lutas nas casernas e 
nas tabernas, e os rumores de levantamentos e motins abundavam. At mesmo o seu 
cavalo parecia ter apanhado alguma da tenso, empinando-se e andando de lado 
nervosamente.

Os idos de Setembro... os idos de Setembro... as palavras martelavam-lhe na conscincia 
cada vez que os cascos da montada batiam no duro solo. Desde que Macellius lhe tinha 
dito

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a data marcada para o levantamento que o sono o tinha abandonado. O seu pai 
acreditava que as tribos os apoiariam, mas Gaius no tinha a certeza. Se as guias de 
Roma lutassem umas com as outras os nicos vencedores poderiam ser os Ravens. 
Valeria a pena o risco de uma insurreio geral, mesmo para apear Domiciano?

Quando isto tiver acabado ficarei feliz por passar o resto da minha vida a dirigir a 
minha quinta , pensou enquanto esfregava os olhos. No fui talhado para ser um 
conspirador.

E foi este o momento que o Arquidruida, que a seu modo tinha sido uma fora a favor 
da estabilidade, tinha escolhido para morrer. Se Gaius acreditasse no inferno dos 
cristos de que Julia falava, teria rogado uma praga ao velho que o lanasse para as suas 
chamas pela sua escolha do momento. S Mithras sabia quem os druidas escolheriam 
para lhe suceder mas, e mesmo que o seu sucessor fosse amigvel, levaria tempo at 
estabelecer o tipo de entendimento que Ardanos tinha tido com Macellius. Mas, pelo 
menos, as notcias tinham forado Gaius a tomar uma deciso. A questo da adopo j 
no interessava. Se o pas estava prestes a explodir numa revoluo tinha de se 
assegurar de que o seu filho estava seguro. Os informadores do seu pai tinham 
confirmado que a Gr Sacerdotisa actual ainda era Eilan. Ia v-la, munido com uma 
mensagem oficial de condolncias do Legado.

Tinha-se vestido cuidadosamente para a ocasio, no estilo romano mas com um sentido 
de ostentao celta, uma tnica de linho aafro bordada com folhas de acanto na 
bainha, sobre calas de pele de antlope vermelhas escuras e um capote de leve l 
acastanhada preso com um broche dourado. Pelo menos ningum lhe pedia que usasse 
uma toga quando andava a cavalo. Mas, apesar das elegantes roupas, quando virou a sua 
montada para a avenida de rvores que levava at  Casa da Floresta, compreendeu que 
estava nervoso. Os primeiros fios cinzentos tinham acabado de lhe aparecer nas 
tmporas. Eilan ainda o acharia bonito?

Levaram-no at um jardim onde algum, envolto num vu azul, esperava por baixo 
duma latada coberta com madressilvas-dos-bosques. Sabia que devia ser a Gr 
Sacerdotisa, porque o mesmo pateta de guarda-costas que tinha desmaiado quando

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o gado tinha estourado em Beltane, h tantos anos, estava de p a seu lado, a olhar para 
ele. Mas achava difcil acreditar que esta erecta, velada figura, fosse Eilan.

- Minha Senhora... - fez uma pausa, e compelido por algo que no sabia explicar, fez 
uma vnia. - Vim para vos oferecer as condolncias do Legado em Deva pela morte do 
Arquidruida, vosso av. A sua falta ser enormemente sentida. Ele era... - pensou por 
uns instantes - um homem notvel.

- A nossa perca  de facto grande - respondeu ela e, se bem que o seu tom fosse incolor, 
ele sentiu a sua pulsao acelerar-se. - Quereis tomar algum refresco?

Passados alguns instantes, uma donzela vestida com o pardo traje duma novia estava a 
pousar uma bandeja com bolos de mel  e um frasco duma bebida qualquer, feita de 
ervas e gua da Nascente Sagrada. Ele bebeu, a tentar pensar noutra coisa qualquer para 
dizer e, ao olhar para baixo, viu que o tecido do vu estava a tremer.

- Eilan - disse em voz baixa -, deixa-me ver a tua cara. j se passou tempo de mais.

Ela deu uma pequena gargalhada.

- Fui uma louca. Pensei que seria seguro ver-te outra vez.
- Encolheu os ombros e puxou o vu para trs, e ele viu que os olhos dela estavam 
molhados com lgrimas.

Gaius pestanejou, pois Eilan no parecia mais velha, apenas mais ensimesmada, como 
se a rapariga que tinha conhecido tivesse sido apenas um obscuro esboo da mulher em 
que se ia tornar. Apesar das lgrimas e do pescoo, que parecia esguio de mais para o 
peso do colar dourado, ela parecia forte. E por que no?, pensou ele ento. Durante 
estes ltimos anos, na sua prpria esfera de aco, ela tinha detido tanto poder como 
qualquer comandante das legies. Esta mulher no podia ser a Fria que o tinha 
assustado tanto. A sua viso enevoou-se com memrias antigas. Queria deitar-se aos 
seus ps e declarar-lhe o amor que sentia por ela, mas aquele palhao com uma lana 
estaria em cima dele num instante.

- Ouve, pois no sei quanto tempo c posso ficar - disse ele rapidamente. - A guerra est 
a chegar... no por causa da morte do teu av, mas por causa de acontecimentos em 
Roma. No te posso dizer mais nada, excepto que vai haver um levan-

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tamento contra o Imperador. Macellius espera que os Bretes nos apoiem, mas ningum 
pode dizer como as coisas se iro passar. Tenho de te levar para um local seguro, Eilan, 
tu e o rapaz.

Eilan olhou para ele, e os seus mutveis olhos tornaram-se categricos e duros.

- Deixa-me ter a certeza que te percebo. Agora, que o Imperium est quase a 
despedaar-se a si mesmo, queres oferecer-me proteco romana. Depois de todos estes 
anos! No  mais provvel que se houver problemas durante as prximas semanas eu 
esteja mais segura aqui - apontou para as paredes e para a tosca figura de Huw com um 
gracioso aceno da mo -, do que  crvel que tu e os teus venham a estar?

Gaius corou.

- Tens tanta certeza que os do teu      prprio povo no se viraro contra ti? Os teus 
Orculos tm sido uma fora a favor da paz com Roma; e agora que o teu av j no 
est c, quem  que pensas que gente como o Cynric culpar se as coisas correrem mal? 
No vs que tens de vir comigo?

- Tenho de ... ? - os olhos dela chamejaram. - E o que diz a tua mulher romana a este 
belo plano? j se cansou de ti depois de doze anos?

- Julia tornou-se numa crist e jurou um voto de castidade. De acordo com a lei romana 
isto  motivo suficiente para um divrcio. Podia-me casar contigo, Eilan, e podamos 
ficar juntos. Se no o fizeres, posso adoptar oficialmente o nosso filho,

- To bondoso da tua parte! - A face de Eilan estava agora to vermelha como tinha 
estado branca. Ps-se subitamente de p e comeou a descer o caminho, as suas saias a 
varrerem a gravilha atrs de si. Gaius e Huw deram um salto, ambos, pareceu-lhe, 
igualmente perplexos, e seguiram-na.

Na extremidade do jardim encontrava-se uma sebe, suficientemente baixa para Gaius 
poder olhar por cima dela para um espao plano entre os edifcios e as paredes 
exteriores, onde diversas crianas estavam a brincar com uma bola de couro cosida. 
Depois duns instantes tornou-se evidente para Gaius que o lder era um rapaz, um rapaz 
to pernalta como um jovem potro que estivesse agora a comear a fortalecer-se. Os 
seus caracis estavam fulvos de um Vero ao sol, mas por baixo eram escuros e,

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quando se voltou para gritar para um dos seus colegas de equipe, Gaius viu algo to 
parecido com Macellius na sua expresso que lhe fez parar a respirao,

Eilan tinha comeado a falar novamente, mas o olhar de Gaius estava pousado no rapaz. 
O seu corao batia com tanta fora que pensou que o podiam ouvir em Deva, mas a 
criana, concentrada no seu jogo, nunca olhou  volta.

- Quando o dei  luz naquela cabana na floresta onde estavas tu? - A voz dela, baixa e 
furiosa, estava dirigida para os seus ouvidos. - E quando lutei para o manter comigo, 
durante todos estes anos enquanto cuidei dele em segredo, nunca me atrevendo a admitir 
que ele era meu? Ele no sabe que sou a sua me, mas tenho-o mantido seguro. Agora, 
quando quase chegou  idade adulta, vinhas tu e levava-lo? Penso que no, Gaius 
Macellius Severus Siluricus! - ela sibilou. - Gawen no conhece nada sobre Roma!

- Eilan! - murmurou ele. Gaius tinha pensado que o que tinha sentido pelo filho na nica 
vez que lhe tinha pegado tinha sido alguma fantasia passageira; mas podia-o sentir outra 
vez, uma nsia que lhe abalava os ossos. - Por favor!

Ela virou-lhe as costas e comeou a descer o caminho.

- Os meus agradecimentos, romano, pela tuas condolncias - disse ela, em voz alta e 
clara. - Foi amvel da vossa parte terdes vindo. Como dizeis, a morte de Ardanos foi 
uma grande perca. Leva os nossos respeitosos cumprimentos ao Legado e ao vosso pai.

Gaius viu Huw agigantar-se na sua direco e, ainda a olhar por cima do ombro, 
comeou a segui-lo. Durante um momento Gawen olhou na sua direco, a cabea 
inclinada para trs, a olhar para a bola. Depois sumiu-se. Gaius deixou o grande homem 
conduzi-lo ao longo do caminho, sentindo como se a luz tivesse desaparecido do 
mundo.

Eilan tinha colocado novamente o vu, A sua ltima viso dela foi a de uma sombra a 
desaparecer na escura soleira de uma porta. Deixando o cavalo escolher o seu prprio 
caminho de volta  estrada, pensou como era possvel que tudo tivesse corrido to mal. 
Tinha ficado to aliviado por ver que Eilan no se tinha modificado, e tinha feito 
tenes de lhe dizer que ainda a amava; mas, percebia agora, ela era algo pior que uma 
Fria: era uma

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mulher como as antigas Imperatrizes, ou Boudicca, uma mulher deformada pelo orgulho 
e pelo poder.

Abruptamente, uma viso de Senara, tal como a tinha visto pela ltima vez a olhar para 
ele, encobriu a sua lembrana da raiva de Eilan. Ela era to boa e to inocente - como 
Eilan tinha sido quando a conheceu. Eilan nunca o tinha compreendido 
verdadeiramente, mas Senara era meio romana, como ele, e dilacerada pelos mesmos 
conflitos e incertezas. Se pudesse ganh-la parecia a Gaius que ficaria completo 
novamente.

Ainda no estava batido. De uma maneira ou de outra, teria Senara e teria o rapaz, nem 
que todas as legies de Roma e guerreiros das tribos se metessem no meio.

Eilan passou os dias que se seguiram       visita de Gaius em isolamento. As 
sacerdotisas pensaram que ela estava de luto pelo av mas, ainda que a sua morte a 
tivesse        deixado chocada e espantada, neste caso o que tinha predominado era o 
alvio. A sua reaco a Gaius, contudo, era um assunto completamente diferente. Ela 
prpria tinha ficado to surpreendida com a sua fria como ele. No se tinha apercebido 
de como tinha ficado ressentida com o seu abandono durante todos estes anos. Era 
verdade que tinha concordado com isto, mas decerto que ele j podia ter tentado 
contact-la antes! Como  que ele se atrevia a pensar que podia entrar por aqui dentro 
sem uma palavra de amor e levar embora o filho dela...

Quando os seus pensamentos chegavam a este ponto ela tinha de se obrigar a parar, 
andar um pouco ou passar algum tempo na disciplinada meditao que Caillean lhe 
tinha ensinado, para tentar recobrar a serenidade. Passaram-se alguns dias antes que ela 
comeasse a considerar seriamente o que ele lhe tinha dito. Quem, de facto, se sentiria 
agora privilegiado para a instruir no que ela devia dizer em nome da Deusa? A ltima 
coisa que tinha ouvido dizer era que os druidas ainda estavam a discutir uns com os 
outros. Nesta altura j se tinha tornado claro que o prximo Arquidruida no seria 
escolhido seno depois de Lughnasad, pelo que no tinha de se preocupar com a 
preparao para o festival. Mas em Samaine o novo lder j estaria firmemente instalado 
no poder. E se fosse algum

A CASA DA FLORESTA

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como o seu pai, exigiria que a Deusa chamasse as tribos para a guerra.

Quando Dieda voltou  Casa da Floresta e veio v-la, Eilan viu as suas manifestaes de 
simpatia rapidamente repudiadas.

- Ardanos no  nenhuma perca - disse a sua parenta insensivelmente. - O meu pai 
esteve sempre nas mos dos Romanos. Pergunto-me quem dar as ordens ao Orculo 
agora.

Desde o nascimento de Gawen que Eilan se sentia constrangida na presena de Dieda. 
Mesmo assim, parecia-lhe impossvel que  ela no tivesse qualquer sentimento que 
fosse pelo seu prprio pai. Cada dia que se passava sentia mais a falta de Caillean, a 
qual poderia ter tirado algum sentido de tudo isto.

Dieda ainda estava com ela quando uma das raparigas entrou para lhes dizer que Cynric 
tinha vindo. Assim, os Ravens esto a juntar-se, pensou sombriamente Eilan, mas 
saudou Cynric amavelmente, como uma parenta, quando Huw o fez entrar. Parecia mais 
velho que a sua idade, pensou com pena, hirsuto como um pnei das montanhas, a sua 
fina pele desfigurada por velhas cicatrizes.

- O que ests a fazer nesta parte do pas? Pensei que estavas a salvo no Norte depois das 
coisas terem corrido mal com Brigitta e com os Dematae.

- Oh, posso ir e vir como me apetece - disse ele -, mesmo debaixo do nariz do 
comandante. Sou esperto de mais para eles. - Falou com uma espcie de irritadia 
alegria que ela achou perturbadora.

- Quanto mais orgulhoso  o animal mais depressa se v no lao do caador - murmurou 
Dieda sardonicamente. Fingia no se importar com Cynric, mas Eilan pensou que no 
era to indiferente como queria dar a entender.

Cynric encolheu os ombros.

- Podia pensar que algum deus me protege mais que o normal;  verdade que a minha 
vida parece estar enfeitiada. Penso que me seria possvel ir a Londinium e puxar a 
barba ao Governador.

- Se fosses tu eu no o tentaria - disse Dieda, e ele devolveu-lhe a gargalhada.

- Neste momento no penso tent-lo; pode ser que dentro de um ms ou dois as coisas 
sejam completamente diferentes.

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No lamento a morte de Ardanos; nem tu o devias, Eilan. Ele era excessivamente vido por ter as coisas feitas  sua 
maneira.

-  verdade - disse ela com honestidade, se bem que o seu sangue se gelasse quando ligou o que Gaius lhe tinha dito 
com as palavras de Cynric.

- Bom; s honesta at esse ponto - disse ele. - Estou ansioso por saber, irm adoptiva, at onde  que a tua 
honestidade vai.

Ela disse prudentemente.

- Eu, pelo menos, sei o que quero.
- Sim? E o que  isso, Eilan?

- Paz! - Para que o meu filho possa crescer at se tornar num homem , pensou ela sombriamente. Mas no havia 
nenhuma maneira de dizer isto a Cynric. Ardanos tinha arruinado a sua prpria felicidade, bem como a de Cynric e de 
Dieda, mas, pelo menos no Ocidente, as tribos tinham estado em paz h uma dzia de anos.

Cynric fez uma careta.

- Paz... as mulheres do-lhe demasiada importncia - disse num ronco. - Pareces o porta-voz de Macellius; como, por 
vezes, pensei que o velho Ardanos era. Mas ele foi-se. Pode ser que agora tenhamos a hiptese de correr com esses 
romanos. Brigitta est  espera e sabe o que queremos dela.

- Seria levada a pensar que Brigitta j tinha visto guerra que chegasse - disse Eilan.

- Diz antes que ela j viu que chegue da justia romana disse amargamente Cynric. - Mas h estranhos rumores a 
correr nestes dias. Se de facto os Romanos lutarem uns contra os outros, ento talvez nos possamos ver livres daquilo 
a que chamam justia. Ento todas as casas romanas sero devastadas como o foi a casa de Bendeigid!

Eilan interrompeu-o.

- j te esqueceste de que no foram os Romanos que arrasaram a casa do meu pai e mataram a minha me, mas os 
Hibernians e os homens selvagens das tribos do Norte? Os Romanos  que os puniram.

- Pelas nossas prprias casas quem seno ns devemos ser responsveis? - perguntou Cynric. -  a ns que compete 
punir ou poupar como acharmos adequado. Devemos aceitar tudo como

A CASA DA FLORESTA

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ces domesticados e deixar os Romanos decidir quando e onde devemos lutar? - Um rubor de fria estava a crescer 
por baixo da pele gasta pelo tempo.

Eilan disse teimosamente.

- O que quer que acontea, a paz  uma boa coisa.

- Sendo assim continuars a falar as traioeiras palavras de Ardanos? Ou sero as palavras de Macellius, ou talvez as 
do seu elegante filho? - perguntou, sorrindo desdenhosamente.

Atrs dele o gigantesco guarda-costas mexia-se inquietamente. Eilan mal reparou nisso, to angustiada estava.

- Pelo menos Macellius tem o bem dos nossos dois povos

no corao.

- E eu no tenho? - perguntou Cynric, os olhos a chamejar.
- No digo isso, nem nada que se parea.

- Mas foi isso que quiseste dizer - atirou-lhe ele. - Sei que o filhote de Macellius esteve aqui. O que  que te disse? 
Contigo no trono d a impresso que no precisamos dos Romanos para nada. Mas no ouviremos traioeiros 
conselhos desses nunca mais. Bendeigid foi escolhido como Arquidruida, foi isso que te vim dizer, e ele dar-te- 
instrues muito diferentes no prximo festival!

Dieda estava a olhar de um para o outro, a sua face a chamejar. Eilan lutou por se acalmar, sabendo que Cynric estava 
apenas a tentar feri-la.

-  verdade que Ardanos me dizia o que queria e que interpretava as respostas do Orculo. Mas o que a Deusa diz 
enquanto estou em transe no  da minha responsabilidade. Eu no declaro a minha prpria vontade, Cynric - disse 
ela calmamente.

- Ests a tentar dizer-me que a Deusa quer esta traio?
- Por que no o quereria Ela? - gritou Eilan. - Ela  Me.
- Como eu o sou. Eilan engoliu as palavras, e acrescentou iradamente: - No tens o direito de me falar assim!

- Eu sou a vingana da Deusa - retorquiu Cynric - e falo como quero... e castigo...

Antes que Eilan pudesse reagir, a mo erguida dele tinha entrado em contacto com a sua face. Ela gritou, e Dieda 
exclamou, em choque:

- Como te atreves?

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- Cathubodva sabe que eu me atrevo a tratar desta maneira todos os traidores 
romanizados!

Uma sombra assomou por trs dele. Ainda a olhar fixamente, Cynric comeou a virar-
se, o cacete de Huw apanhou-o em movimento e a sua cabea explodiu num       banho 
de sangue e miolos. Dieda gritou e Eilan levantou a mo, mas era tarde de mais.

Durante um momento o corpo de Cynric manteve-se a balanar, uma expresso de 
surpresa no que restava da sua face. Depois, o corpo percebeu por fim a sua morte e 
abateu-se no cho.

A tremer, Eilan tocou-lhe no pulso, sabendo j, quando o esguicho de sangue da sua 
cabea abrandou, que no encontraria qualquer pulsao. Olhou para cima, para o seu 
guarda, que estava a comear a ficar verde a olhar para o sangue.

- Huw... por que o fizeste? Por qu?
- Senhora... ele bateu-vos!

Eilan baixou a cabea. Mesmo que o transgressor tivesse sido o prprio Ardanos, Huw 
t-lo-ia atingido. Tinha-lhe sido dito que a Sacerdotisa era inviolvel. Mas a morte de 
Cynric teria de ser mantida em segredo. Os seus seguidores no eram muitos, mas 
estavam desesperados. Se decidissem ving-lo, a precria unidade que ela tinha 
construdo entre o seu povo perder-se-ia. A morte de Cynric podia ser mais perigosa do 
que o que ele tinha sido em toda a sua vida.

Dieda voltou-se, a chorar. Eilan sentiu que ela prpria estava para l das lgrimas.

- Vai-te embora, Huw - disse cansadamente. - Vai dizer a Miellyn o que aconteceu e 
pede~lhe que mande uma mensagem ao Arquidruida - O meu pai ...  pensou 
entorpecida, mas agora no tinha tempo para pensar nas implicaes. - No fales com 
mais ningum - instruiu-o - e depois de teres dado este recado esquece o que aqui 
aconteceu hoje.

Ps-se de p, sentindo-se subitamente cem anos mais velha.
- Dieda, anda para o jardim. No h nada que possas fazer por ele agora. - E dirigiu-se  
chorosa mulher para tentar confort-la, mas ela afastou-se com um salto.

-  deste modo que recompensas a fidelidade ao teu povo? Ento faz com que o teu urso 
amestrado me mate tambm. Eilan estremeceu.

A CASA DA FLORESTA

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- Eu tentei salv-lo. Teria dado a minha vida de boa vontade...
- Oh de facto isso  muito fcil de dizer... - Dieda virou-

-se para ela. - Mas tu tiras vidas, no as ds. Alimentaste-te da sabedoria de Caillean e 
mandaste-a para o exlio quando a tinhas secado. Roubaste a minha reputao e 
afastastes-te to intocada como um beb recm-nascido. E agora tiraste a vida do nico 
homem que jamais amei! O teu romano teve sorte de se ver livre de ti! Eilan a 
inviolada! Senhora Sublime e Poderosa! Se ao menos as pessoas soubessem!

Eilan disse cansadamente:

- Ningum te apontou uma espada  garganta para te obrigar a tomar votos aqui, Dieda. 
Quando se tornou claro que me tinham escolhido a mim, podias ter sido libertada, e 
quando foste para Eriu nenhuma fora foi usada para te obrigar a regressar. j o disse 
antes, mas admito que no o conseguisses ouvir. Tentou falar calmamente, mas as 
palavras da outra mulher atingiram-na com mais fora que o golpe de Cynric,

- Disse-te uma vez para teres cuidado se alguma vez trasses o nosso povo. Cynric 
estava certo, Eilan? Tens estado sempre a trabalhar para Roma?

Eilan levantou a cabea e, a tremer, olhou fixamente para aquela outra face, to parecida 
com a sua prpria.

- juro... que servi a Deusa to bem como fui capaz - disse com voz rouca -, e possa o cu 
cair e cobrir-me, a terra levantar-se para me engolir se estou a mentir - inspirou 
profundamente. - Ainda sou a Gr Sacerdotisa de Vernemeton. Mas podes ir para junto 
de Caillean, ou para onde quer que queiras, se sentes que j no consegues servir a 
Deusa na minha companhia.

Lentamente Dieda comeou a abanar a cabea, com uma expresso dissimulada de que 
Eilan gostou ainda menos que da raiva que rastejava nos seus olhos.

- No te deixarei - murmurou ela. - No partiria agora por nada deste mundo. Quero 
estar aqui quando a Deusa te fulminar.

Senara j estava  espera fora da cabana na floresta quando Gaius chegou, o seu 
brilhante cabelo uma chama contra as escuras rvores.

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- Vejo que vieste - disse ele suavemente.

Senara voltou-se e, se bem que estivesse  espera dele, soltou um pequeno grito de 
surpresa.

- Sois vs?

- Ningum mais - disse        ele quase alegremente -, apesar do mau tempo. Atrevo-me a 
dizer que vamos ter chuva e muito rapidamente. Olhou para o cu. - O que  que tu 
pensas que o padre Petros diria de emprestar a proteco do seu telhado a um casal de 
caminhantes?

- Aos convertidos penso que ficaria encantado. Penso que no seria o mesmo com 
pagos - disse ela reprovadoramente.

Entraram juntos. A moblia do eremita consistia nalguns bancos delapidados e, 
encostado  parede, um informe caixote como cama. Mas onde estava o padre Petros 
nesta tarde? L fora, a tempestade rebentou com um estrpito de vento e um estrondear 
de chuva. Gaius estremeceu ao ouvir a tempestade.

- Vs, chegmos aqui mesmo a tempo - disse ele.
- Bellissima!

- No deveis chamar-me isso - disse ela timidamente.
- No? - perguntou, olhando-a cuidadosamente. - Pensei que a verdade era uma das 
vossas virtudes crists. Os esticos afirmam-no e, at mesmo entre os druidas, ouvi 
dizer que falar a verdade  apreciado. Preferias que te mentisse, ento?

- Sabeis como levar a melhor comigo com as palavras disse ela rabugentamente. - 
Viemos aqui para falar do estado da vossa alma.

-   Ah, sim; uma coisa de que ainda no estou convencido possuir.

Ela disse:

-   No sou nenhum filsofo. Mas no  verdade que at mesmo    os esticos que 
mencionastes falam daquela parte do homem que lida com a evidncia daquilo que no 
se pode nem ver nem sentir?

-  verdade; e  isso que me convence que de todas as mulheres tu s a mais desejvel.

Sabia que estava a forar a rapariga, mas a tempestade, em vez de aliviar a tenso, 
parecia t-lo enchido com a sua prpria intensidade. Tinha passado os seus dias desde o 
encontro com

A CASA DA FLORESTA

501

Eilan num tumulto, alternadamente enraivecendo-se e entrando em desespero. T-la-ia 
levado embora e cumprido o seu dever para com ela, mas ela tinha-o recusado. Tambm 
Julia tinha desistido do seu direito sobre ele. Decerto agora estava livre para procurar 
conforto em qualquer outro lado! E quando disse a Senara que ela era linda no tinha 
mentido.

Ela corou e disse timidamente:

- No  bem feito da vossa parte falar-me assim.

- Pelo contrrio, penso que  muito bem feito e que tu quererias que eu falasse a 
verdade. E para que outra coisa foste criada, mulher?

Agora ela estava em terreno familiar, tendo ouvido tantas catequizaes.

- A Escritura diz-nos - replicou - que fomos criados com o propsito de adorarmos o 
Criador.

- Que aborrecido para ele - respondeu Gaius. - Se eu fosse um deus pediria mais aos 
homens do que passarem os seus tempos livres a adorar-me.

- Mas no compete aos Criados discutir os propsitos do Criador.

- Por que no? - prosseguiu Gaius.

- H alguma coisa melhor para fazer do que adorar Deus? - perguntou ela, levantando os 
olhos para ele. Assim corada ela parecia ainda mais bonita.

Decerto que h , pensou Gaius, e preferiria estar a faz-lo contigo. Se havia um 
deus ele tinha criado a beleza da mulher e Gaius no podia acreditar que condenasse 
nenhum homem por apreci-la. Mas ainda no era altura de o dizer.

- Fala-me ento desse Criador.

- Quase todas as fs, excepto talvez a de Roma que adora apenas o seu Imperador que  
todo maldade, falam dum Criador. Foi Ele que fez todas as coisas que foram feitas e Ele 
colocou-nos aqui para o adorarmos.

- Para dizer a verdade  o genius do Imperador que honramos, a centelha divina que o 
guia, e atravs dele, o Imprio, no o homem.  por isso que aqueles que no queimam 
incenso so processados como traidores.

- Pode ser que tenha havido bons Imperadores, se bem que alguns padres no acreditem 
nisso - concedeu Senara. - Mas at

502

MARION ZIMMER BRADLEY

vs deveis confessar que Nero, que queimou tantos cristos na sua

arena, era mau.

- Concedo-te Nero - disse Gaius - e Calgula. E h, em Roma, os que pensam que Domiciano foi longe de mais 
no seu hubris. Quando isso acontece, aqueles que fizeram dum homem Imperador tm o direito de o substituir 
- E cedo , pensou, estremecendo. Setembro estava-se a passar rapidamente.

- Tendes muito orgulho em ser romano - disse ela depois.
- No sei grande coisa da famlia da minha me e sempre pensei no que teria sido ser educada desse modo. 
Nascestes em Roma? Ele sorriu para ela.

- Na realidade no; sou meio breto, tal como tu s. A minha me era uma mulher real dos Silures. Morreu 
quando eu era muito novo ao dar  luz a minha irm mais nova.

- Ah, que triste para vs. - Os olhos dela subitamente inundaram-se de lgrimas; ele no tinha reparado que 
eram to azuis. - O que fizsteis depois?

- Fiquei com o meu pai - disse-lhe Gaius. - Era o seu nico filho, de modo que me educou com tutores e ensinou-
me a ler latim e grego; depois fui para as legies. No h verdadeiramente mais nada a dizer.

- E no houve mulheres na vossa vida?

Ele viu-a a lutar com esta curiosidade puramente terrena; mas achou que era um bom sinal que ela quisesse 
saber.

- O meu pai arranjou-me casamento com Julia quando eu era ainda muito novo - disse cuidadosamente. Um 
dia ela teria de saber de Eilan e do filho dos dois, mas no ainda. - E como pode ser que saibas, a minha mulher 
tomou um voto de castidade, o que quer dizer que estou s - disse ele tristemente. L fora, ribombou um trovo.

Ela disse:

- Eu no devia dizer isto, e tenho a certeza de que o padre Petros no o aprovaria, mas isso no me parece um 
tratamento justo. Sei que um voto de castidade  suposto ser a melhor maneira de se viver, mas quando ela estava 
comprometida convosco...

- Se estivesses casada comigo farias um voto desses? Ela corou outra vez, mas disse seriamente:

A CASA DA FLORESTA

503

- No o faria. O erudito Paulus escreveu que aqueles que estavam casados deviam continuar nesse estado, e 
que os que no estavam casados no se deviam casar.

- Se me tivesse casado contigo terias levado os teus votos mais seriamente que Julia - disse suavemente.

- Nunca poderia ser infiel a um voto convosco.

- E no tomaste votos na Casa da Floresta? - Ela ainda estava a olhar para o cho, mas Gaius chegou-se um pouco 
mais para perto, sentindo o sangue a correr mais depressa por baixo da pele.

- No tomei - disse ela. - Tm todas sido muito amveis comigo e feito muito poucas perguntas, mas eu no 
posso servir a Deusa delas sem desistir da minha herana romana. Terei de decidir cedo.

- H outra alternativa - A sua voz enrouqueceu quando inspirou o suave aroma do cabelo dela, mas manteve-a 
voz baixa.
- Julia desistiu dos seus direitos como minha mulher com o seu voto de castidade, e casmos segundo os ritos 
romanos, no pelos cristos. Eu casaria contigo, Senara, ou Valeria, como a tua me te chamou. O teu tio 
Valerius  um bom homem; ficaria feliz se eu te tirasse daqui.

Ele ouviu a respirao dela prender-se. Ela parecia um luminoso pssaro a pairar quase ao alcance da sua mo, 
como Eilan quando veio at ele em Beltane, h tantos anos. Mas Eilan e Julia tinham-no rejeitado; elas eram 
sombras, banidas pela vivificante realidade desta rapariga que agora estava to prxima dele.

- Se ao menos isso pudesse ser - murmurou ela. - Para onde iramos?

- Para Londinium, ou at mesmo para Roma. Grandes mudanas esto para acontecer. No te posso dizer mais, 
mas no h nada que no possamos fazer juntos se vieres comigo!

No tocar nela naquela altura pareceu-lhe a coisa mais difcil que jamais tinha feito, pois, agora, estava louco 
com a incerteza e o  desejo. Mas sabia que se o fizesse a perderia. Senara olhou para cima e ele enfrentou o seu 
olhar, deixando que o ardor que o enchia lhe brilhasse nos olhos.

Ela no fugiu. A tremer, disse suavemente:
- Quem me dera saber o que fazer.

504

MARION ZIMMER BRADLEY

S minha , disse ele silenciosamente. Ajuda-me a educar o meu filho! De certeza 
que ela aceitaria Gawen. Era por isso que ele precisava dela, e no de nenhuma rica 
donzela romana, que desprezaria o sangue breto de Gawen. Era por causa do rapaz...

Nesta altura, por fim, Gaius atreveu-se a acarici-la. Ela no se afastou, mas ele sentiu-a 
tremer ao seu toque. Com medo de a assustar, levantou as mos.

- Oh, o que farei! Deus ajudai-me - murmurou ela, virando a cabea, de modo a que a 
sua face ficou a repousar de encontro  mo dele.

- Penso - murmurou ele no seu ouvido -, que deve ter sido o teu Deus que nos juntou.

- Deus queira que tenhais razo.

- Falarei com o teu tio e obterei a autorizao dele para te tirar da Casa da Floresta. Est 
preparada para partir quando eu te vier buscar - disse ele. - Na altura em que a prxima 
Lua tiver deixado de brilhar estars a caminho de Londinium comigo.

Mais uma vez com grande esforo no lhe tocou. Teve a sua recompensa quando ela, 
timidamente, se ps em bicos dos ps e murmurou:

- Meu irmo, troquemos o beijo da paz.

- Ah, Valeria, no  o beijo da paz que quero de ti - murmurou-lhe para o cabelo 
finamente entranado. - E algum dia sab-lo-s.

Ela afastou-se dele; com uma nova sabedoria - ou astcia - deixou-a partir. Mesmo a 
tempo, pois no instante seguinte ouviram-se passos e o eremita, o padre Petros, entrou. 
Senara, ficou surpreendido ao not~lo, saudou o eremita sem um rubor. Teriam todas as 
mulheres aquela habilidade de esconder os seus sentimentos instantaneamente? 
Lembrou-se da rapidez com que Eilan, ela tambm, tinha sido capaz de dissimular as 
suas emoes.

Ela disse:

- Alegrai-vos, Padre. Gaius Macellius prometeu que me tiraria do templo druida e que 
me encontraria uma nova casa, talvez at em Roma.

O padre Petros olhou penetrantemente para Gaius; ele no era to ingnuo como a 
rapariga. Gaius disse:

A CASA DA FLORESTA

505

- Senara tem estado a tentar mostrar-me, bom padre, por que  que eu me devia tornar 
num dos membros da vossa congregao.

- E flo-s? - o padre olhou para ele suspeitosamente.
 Gaius disse calmamente:

- Ela tem sido, certamente, bem persuasiva.
O padre Petros, positivamente, resplandeceu.

- Dar-te-ei as boas-vindas ao meu rebanho como um filho
- disse enjoativamente. - Sers um bom exemplo para os outros da tua classe.

De facto , Pensou Gaius, um nobre romano com os meus conhecimentos seria uma 
boa presa para este pescador de homens.
O mesmo se podia dizer quanto  ideia que os cristos no respeitavam as pessoas. Mas 
devia haver alguma coisa de bom naquilo para ter atrado uma rapariga como Senara.

VINTE E NOVE

Eilan! Eilan! o Imperador morreu! - Senara entrou pela porta dentro e depois 
imobilizou-se, tentando assumir a dignidade com a qual se devia aproximar da Gr 
Sacerdotisa de Vernemeton.

Sorrindo, Eilan pousou o seu fuso na pequena mesa a seu lado e convidou a rapariga a 
sentar-se. Com Caillean fora, Myellin a sofrer um dos seus peridicos ataques de 
depresso e Eilidh ocupada a dirigir as donzelas, via-se cada vez mais na dependncia 
de Senara para ter companhia. Dieda no lhe tinha falado mais desde a morte de Cynric. 
Pelo menos tinham conseguido enterr-lo sem levantar comentrios. Dois dos druidas 
tinham vindo durante a noite e levado o corpo para o antigo morro na Colina das 
Donzelas. Talvez a morte de Cynric tenha sido sem honra mas tinha tido o enterro dum 
heri.

- O homem que nos traz ovos frescos ouviu as notcias em Deva - disse Senara, os olhos 
arregalados com a excitao. - Foi assassinado h uma semana, mesmo antes do 
Equincio, e todo o mundo, desde a Calednia at  Parthia, est a zumbir como uma 
colmeia de pernas para o ar! Alguns dizem que o prximo Imperador vai ser um senador 
e outros pensam que uma das legies elevar o seu comandante  prpura. Alguns 
afirmam que o mais provvel, no entanto,  que haver uma guerra civil!

-  O que se est a passar em Deva? - perguntou Eilan quando conseguiu enfiar uma 
palavra.

- Os homens da Vigsima esto inquietos, mas at agora mantiveram-se calmos. O 
comandante deu ordem que se fizesse um grande banquete para eles, com vinho e 
cerveja  descrio. Senhora Eilan, o que pensais que se ir passar agora?

508

MARION ZIMMER BRADLEY

Eilan suspirou.

- Sem dvida que o comandante romano est  espera que todos se embebedem e que 
acordem to doentes que no causem problemas a ningum. Se tiverem sorte  assim 
que tudo se passar. Se em vez disso a bebida fizer com que os legionrios lutem como 
loucos no se pode dizer o que podero fazer.

Senara deu uma risadinha e abanou a cabea.

- Queria dizer a respeito do imperador. Achais que os senadores tomaro o poder e 
Roma voltar a ser outra vez uma Repblica?

Eilan olhou fixamente para ela, pensando por que  que a criana se estaria a preocupar 
com os acontecimentos em Roma. Claro que ela era meio romana, como Gaius, mas 
nunca tinha parecido muito interessada naquele lado da sua herana.

- Estou bastante mais preocupada com o que vai acontecer na Bretanha - disse 
sombriamente. - Cynric no era o nico que veria isto como uma oportunidade de ouro 
para levantar as tribos, e nessa altura poderamos ter uma guerra civil tambm aqui!

O meu pai, por exemplo , pensou com um arrepio interior.
O que  que, em nome da Deusa, devia ela fazer quando ele comeasse a fazer-lhe 
exigncias tanto com o poder do Arquidruida como com a autoridade de pai? Mais uma 
vez desejou desesperadamente poder discutir isto com Caillean.

Os olhos de Senara abriram-se.
- O que devemos fazer?

- H uma coisa que tu podes        fazer - disse Eilan pensativamente. - Leva as novas 
peas de      linho at  casa dos druidas; no ests ainda sob votos e eles no o acharo 
estranho. Pergunta, com toda a inocncia, se ouviram as novidades e conta-me o que 
eles disserem.

Senara fez um trejeito conspiratrio e levantou-se. Um instante depois tinha 
desaparecido, deixando Eilan a invejar-lhe a energia.

O que  que, na realidade, devo fazer?, pensou ento. Talvez devesse ter aceitado a 
oferta de Gaius, mas pelo que parecia, agora ele devia ter os seus prprios problemas. A 
existncia de Gawen tinha sido a arma de Ardanos contra ela. Tinha pensado que com o 
av morto seria libertada mas,

A CASA DA FLORESTA

509

se bem que o seu pai no conhecesse o segredo, Dieda sabia. Quanto tempo se passaria, 
pensou, antes que o dio de Dieda desse ao novo Arquidruida um poder sobre ela que 
ele no hesitaria em usar? A no ser que, claro, ele a matasse imediatamente?

Deixou a cabea descansar nas mos, sentindo o princpio das dores de cabea que a 
tinham afligido cada vez mais nos ltimos dias. Como posso lidar com isto? Deusa 
ajudai-me!

Um dia, quando todos soubessem porque tinha feito o que tinha - quando toda esta terra 
estivesse em paz e no houvesse nem romanos nem bretes - ah, ento poderia ser 
perdoada! Abanou a cabea angustiadamente, no vendo para onde se virar.

E, nesse momento, uma dor como um raio do cu trespassou-lhe a tmpora. Do que 
parecia uma grande distncia veio o pensamento, Mas nessa altura j eu estarei morta 
h muito ...  Depois a conscincia desapareceu.

Quando Eilan recuperou os sentidos estava tombada por cima da mesa. Sentia-se 
curiosamente vazia e em paz, mas com a certeza interior de que alguma coisa tinha 
mudado. Tinha estado sempre consciente de que algumas das ervas na bebida sagrada 
que usava antes do Orculo podiam enfraquecer perigosamente o sangue, e causar, por 
vezes, uma fraqueza no crebro. Talvez fosse isso o que estava a acontecer agora.

Quando te acontecer, tinha-lhe Caillean dito uma vez, sabers. Uma morte demorada 
como a de Lhiannon era pouco habitual. A velha Latis tinha dito uma vez que a maioria 
das Gr Sacerdotisas morriam de repente. Mas no, suspeitava-o Eilan agora, sem  
aviso.

Ser isto o meu aviso?, pensou. Mas o meu trabalho no ter sido acabado.

Est acabado. O conhecimento chegou-lhe de novo, como num transe quando a 
Deusa falava com ela.

Mas quem lhe devia suceder no seu trabalho, dizer os Orculos em vez dela? No devia 
deixar os assuntos numa confuso como Ardanos tinha feito.

No interessa. Com estas palavras veio a calma. A Deusa tinha falado. O que estava 
para acontecer estava nas Suas mos, e j no dizia mais respeito a Eilan. Se ela 
morresse, seria um

510

MARION ZIMMER BRADLEY

raio de clemncia, no de vingana, que a atingiria. Os druidas no tinham o direito de 
impor como as sacerdotisas deviam viver.
O que interessava era que ela tentasse o seu melhor para cumprir a vontade da Senhora.

No Outono as neblinas levantavam-se espessas sobre os pntanos do Pas do Vero e 
rodopiavam  volta do Tor. Em manhs dessas, quando Caillean trepava at s pedras 
que o coroavam, para a sua meditao da manh, parecia como se o Tor fosse na 
realidade uma ilha e ela estivesse a olhar para um cinzento mar ondulante. Contudo,  
medida que o ano corria em direco a Samaine, viu-se a pensar obsessivamente em 
Eilan.

Primeiro, ps de lado estes pensamentos, sabendo que no era bom para Eilan ficar 
agarrada a ela; nem para si prpria distrair-se. Mas,  medida que os dias escureciam, a 
face da outra mulher aparecia nas suas vises com uma frequncia que no podia ser 
ignorada. Eilan tinha uma grave necessidade dela, e era perigoso ignorar tais 
mensagens.

Por fim chegou uma manh em que acordou com palavras a tinirem-lhe nos ouvidos:

Aqui onde estamos      na escurido, e sob a sombra da morte chamamos-vos, , Me,        
Irms e mais que Irms ... 

E soube que, por juramentos que ela e Eilan tinham feito juntas, no apenas     como 
sacerdotisas do Bosque Sagrado, mas em vida a seguir a       vida antes disso, estava 
destinada a ir at ela.

Mas no foi seno       duas semanas antes de Samaine que conseguiu arranjar as coisas 
de modo a poder voltar  Casa da Floresta. Uma vantagem da sua posio no novo 
templo, pensou, era que era tomado como certo que o que quer que ela decidisse fazer 
era bem feito; admitia-se que todos os seus actos eram directamente inspirados pela 
vontade da Deusa, como os de Eilan eram em Vernemeton.  reverso claro, era que ela 
era responsvel por se assegurar que todos os seus deveres seriam executados enquanto 
estivesse fora.

Uns meros trs dias lev-la-iam at Vernemeton. Teria preferido muito mais viajar com 
a simplicidade das roupas dos

A CASA DA FLORESTA

511

homens e a p, mas o templo ainda no estava preparado para isso; pelo menos no este 
ano. Assim, resignou-se a viajar na sua liteira formal e com todas as prerrogativas duma 
sacerdotisa. Uma escolta de dois jovens padres seguiu com ela. Tratavam-na com tanta 
deferncia como se ela fosse a sua av; o que no era particularmente surpreendente, 
pensou Caillean, pois eram ambos verdadeiramente muito novos.

Quando passava atravs dos pntanos por baixo do Tor, comeou a chover; Caillean 
sabia que isto iria atrasar a sua progresso, o que a aborreceu, mas no havia nada a 
fazer. Tinha estado a chover a intervalos desde o Equincio, como se os cus estivessem 
a chorar pelo Imperador morto, e ningum, por muito dotado de magia que fosse, tinha 
jamais sido capaz de controlar o clima da Bretanha.

Dois dias de viagem levaram-nos at Aquae Sulis, e da uma estrada romana conduzia 
em direco ao Norte, at Glevum. Para sua surpresa, estava num mau estado 
considervel; as chuvas recentes tinham-na deixado esburacada e as pedras todas fora 
do lugar. Havia grandes sulcos no cascalho, o que a fez ficar contente por no terem de 
guiar uma carroa, ou at um carro de bois, numa estrada destas.

Tinha quase adormecido, quando das profundezas da floresta que ladeava a estrada 
apareceram a correr uns poucos de homens; sujos e com um aspecto duro, vestidos com 
roupas esfarrapadas e nojentas. Bacaudae , pensou Caillean, uma turba de escravos 
fugidos e criminosos que infestavam muitas partes do Imprio. Tinha ouvido falar deles 
mas nunca tinha encontrado nenhuns antes. A agitao que se seguiu  morte do 
Imperador deve t-los encorajado.

- Afastem-se, companheiros - pediu um dos da sua escolta. - Levamos uma Gr 
Sacerdotisa connosco.

- Isso no nos diz nada - disse um dos bandidos, escarnecendo. - O que  que ela pode 
fazer? Atirar-nos fogo para cima, talvez? H uma barraca em todas as feiras com um 
ilusionista que pode fazer truques desses.

Caillean tinha de facto lamentado que no houvesse nenhum fogo dentro da liteira, mas 
estes sujeitos eram claramente mais sofisticados que os assaltantes irlandeses que ela 
tinha assustado desse modo. Saiu para fora da liteira e perguntou a um dos jovens 
padres:

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MARION ZIMMER BRADLEY

- Por que  o atraso?

Ele ainda estava a espumar de indignao.

- Estes... estes sujeitos... - comeou.
 Caillean olhou para eles calmamente; depois agarrou na pequena bolsa que levava  
cintura. Ainda, s o compreendeu mais tarde, no tinha absorvido completamente o que 
se estava a passar. H tanto tempo que os Romanos mantinham as estradas seguras que 
o perigo no parecia real.

Puxou a pequena bolsa atada  cintura e disse, com uma cortesia distante:

- A caridade  um dever para os deuses. Aqui, homem
- e estendeu-lhe um denrio. Ele olhou fixamente para ele durante um momento, depois 
deu uma gargalhada.

- No queremos a vossa caridade, senhora - observou, com uma estranha, exagerada 
cortesia. - Mas podeis comear por nos dar essa pequena bolsa...

Ento, finalmente, Caillean percebeu o que eles se atreviam a querer dela. O espanto 
deu lugar ao ultraje. Com os sentidos subitamente intensificados, sentiu a energia nas 
nuvens acima dela e a sua ressonncia no seu interior. Nesse momento soube que, afinal 
de contas, tinha algum poder sobre o tempo. Levantou as mos e sentiu a viso a 
escurecer quando o bandido, que tinha sentido o perigo, a atingiu com o seu cacete. 
Raios chamejaram, escurecendo a viso, e quando o trovo ressoou, o cu caiu-lhe na 
cabea e o mundo desapareceu.

Passaram-se muitas horas antes que ela recuperasse a conscincia de novo.

Nos dias que se seguiram  primeira dor, Eilan tentou aceitar a vontade dos deuses. 
Mas, se bem que pudesse acreditar que a Deusa olharia por Vernemeton e pela sua 
gente, ainda temia pelo seu filho. Podia ter confiado Gawen a Caillean. Mas Caillean - a 
trabalhar num extremo do pas - no estava ali. Dieda era parenta do rapaz, mas desde a 
morte de Cynric ela era a ltima pessoa a quem Eilan o podia confiar. Lia, sabia-o, 
morreria pelo seu filho de leite, mas no passava de uma mulher pobre, sem lugar para 
onde ir. Talvez Mairi pudesse estar disposta a ficar com a criana, mas Gawen no 
estaria seguro, nem mesmo com ela, se o pai descobrisse a sua identidade.

A CASA DA FLORESTA

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Se ao menos soubesse quanto tempo tinha... Mas, qualquer que fosse a maneira como 
Eilan colocava a questo, as foras que a tinham avisado da sua prpria morte 
continuavam to obstinadamente silenciosas que, se no fosse por um ocasional latejar 
de dor no seu crebro, todo o assunto poderia no ter passado dum mrbido produto da 
sua prpria imaginao. Tudo o que podia fazer era passar tanto tempo com o rapaz 
quanto se atrevia.

Gawen tinha acabado de sair para o seu jantar quando Senara entrou a fim de acender as 
lanternas. Como de costume, Huw era uma presena silenciosa junto  porta. Durante 
tantos anos tinha pensado nele como oferecendo tanta proteco quanto a dada por uma 
galinha  solta, contudo ele tinha sido bem letal. Olhar para ele fazia-a lembrar-se da 
no sarada dor pela morte de Cynric.

- Vai tambm e trata do teu jantar - ordenou. - Senara ficar comigo at voltares.

Senara moveu-se vagarosamente  volta do quarto com uma pederneira, e as lanternas 
de barro - de feitura romana, claro
- iluminaram-se para a vida uma a uma. S depois da rapariga ter ficado a olhar 
fixamente para a ltima durante alguns minutos  que Eilan perguntou:

- O que se passa, criana. No ests bem?

- Oh, Eilan - a respirao prendeu-se-lhe com um soluo.
 Eilan sentou-se num dos bancos.

- Vem aqui, criana - disse gentilmente.
 Quando Senara se aproximou viu que a face da rapariga estava molhada.
 - O que , meu amor, o que se passa? Conheces-me suficientemente bem para saber que 
o que quer que seja no deves ter medo de me contar.
 Luzentes lgrimas brilhavam nas faces de Senara.

- Sois to boa para mim, sempre fostes to boa... e eu no o mereo - disse ela, 
sufocando, e caiu aos ps de Eilan, a chorar desesperadamente.

- Oh, minha querida - acalmou-a Eilan -, no deves chorar; no sou suficientemente 
forte para isto. O que quer que seja, no pode ser assim to mau - estendeu os braos e 
gentilmente puxou a rapariga at esta ficar de p. - Vem, senta-te aqui ao meu lado.

O choro de Senara diminuiu um pouco mas, em vez de se sentar ao lado de Eilan, 
comeou a andar pelo quarto, Finalmente, disse, a voz meio estrangulada pelo choro:

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MARION ZIMMER BRADLEY

- Nem sei como vos dizer.

E, de repente, Eilan soube qual era o mal que afligia a rapariga. Disse:

- Vens dizer-me que no queres ser ajuramentada como sacerdotisa na Casa da Floresta.

Senara olhou para cima, as brilhantes lgrimas ainda a traarem reluzentes sulcos na sua 
cara  luz da lanterna.

- isso  parte do problema - murmurou -, a parte menor.
- Ela lutou por encontrar as palavras. - No sou merecedora de estar aqui de todo; no 
sou adequada; se soubsseis, correreis comigo daqui para fora...

No s merecedora!, pensou Eilan. Oh, se apenas soubesses!, e depois, em voz alta, 
repetiu o que Caillean lhe tinha dito

uma vez.

- Talvez aos olhos da Deusa nenhuma de ns seja verdadeiramente merecedora. Tenta 
parar de chorar, minha querida, e conta-me o que te aflige,

Senara acalmou-se um pouco, se bem que ainda no conseguisse enfrentar os olhos     
de Eilan. Esta lembrava-se de estar assim parada  frente de Lhiannon, h tantos anos. 
Mas, decerto que estava a ser injusta com a rapariga; Senara tinha andado a passar o 
tempo com os cristos e eles ainda se preocupavam mais com a castidade que as 
mulheres de Vernemeton.

- Eu... eu encontrei um homem... e ele quer que eu parta com ele - disse ela 
laconicamente, por fim.

Eilan agarrou Senara nos seus braos.

- Ah, minha pobre criana - murmurou. - Mas tu ainda s livre para nos deixar, e at 
para te casares, se quiseres. Foste trazida para aqui to nova. Nunca foi verdadeiramente 
planeado que tomasses votos entre ns; mas isso foi h tanto tempo que a maior parte de 
ns o esqueceu. Conta-me sobre isso. Onde encontraste esse homem? Quem  ele? No 
tenho nenhuma objeco se queres casar, mas gosto de ti como qualquer me e gostaria 
de me assegurar que ests a escolher bem.

Senara olhou fixamente para ela, mal compreendendo que, no s Eilan no estava 
zangada, mas tambm que a mulher mais velha a libertaria.

- Conheci-o no eremitrio do padre Petros. Ele  romano, um amigo do meu tio 
Valerius...

A CASA DA FLORESTA

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Parou ao som da voz dum homem.

- Senara? - respondeu uma das raparigas mais novas do outro lado da porta. - Acho que 
a encontrars ali dentro, Tenho que falar com aquela criana , pensou Eilan. Isto

no  maneira de anunciar visitantes, especialmente um homem. Senara, lembrando-se 
que com Huw fora era seu dever proteger a Gr Sacerdotisa, tomou posio entre ela e a 
porta. Um homem entrou pela porta e, quando a fechou atrs de si, Eilan viu toda a cor a 
desaparecer da face de Senara e, depois, inund-la de novo.

- Este homem.--- - balbuciou. - Ele veio por mim... Chegou-se para o lado, e  
tremeluzente, enganadora luz da lanterna, Eilan viu-lhe a cara.

- Gaius... - murmurou. Decerto isto era algum pesadelo nascido duma imaginao febril. 
Ela fechou os olhos, mas quando os abriu outra vez ele ainda ali estava, a olhar 
estupefacto dela para Senara.

Senara deu um passo na sua direco.

- Gaius! - gritou. - No vos esperava to cedo! O meu tio deu autorizao para que vos 
cassseis comigo?

Gaius olhou loucamente  sua volta.

- Rapariga tonta, o que ests aqui a fazer?

Eilan sentiu como se as chamas das lanternas lhe tivessem incendiado o peito. 
Vagarosamente ps-se de p.

- O que ests tu a fazer aqui? - Virou-se para Senara.
- Ests a tentar dizer-me que Gaius Macellius Severus  o homem que tu amas?

- . Por qu, o que  que est errado? - Senara olhou para Eilan em confuso.

Eilan virou-se para Gaius.

- Diz-lhe tu o que est errado - ordenou. - Diz-lhe toda a verdade... se ainda fores capaz.

- Que verdade? - perguntou Senara, a voz a falhar-lhe. Sei que ele tem uma mulher 
romana que se recusou a honrar os votos do casamento. Claro que se divorciar dela 
antes de casar comigo...

Claro que o far - disse Eilan com uma voz terrvel.
- Sendo assim, Gaius, ela sabe das filhas pequenas que estars a abandonar. Ela tambm 
sabe sobre o nosso filho?

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- O vosso filho? - abalada, Senara olhava de c para l, de Eilan para Gaius. - Dizei-me 
que isto no  verdade - disse a Gaius, suplicante. A voz prendeu-se-lhe na garganta.

- Tu no percebes - murmurou Gaius.

- Perceber - repetiu Senara aos solavancos. - Eu queria salvar-te, e tu quase me 
arruinaste! Percebo que tenho sido uma idiota!

Quando ela se afastou dele a porta abriu-se de repente e o gigante Huw entrou pelo 
quarto dentro, cacete levantado. Mas depois da morte de Cynric ele tinha sido 
severamente castigado e no queria cometer o mesmo erro de novo.

- Senhora - resmungou - disseram que estava aqui um homem. Ouvi gritos. O que devo 
fazer?

Eilan olhou para Gaius, pensando que se o perigo no fosse to real ele teria parecido 
ridculo, ali de p. Mas talvez ser apanhado nesta situao fosse o pior castigo que um 
orgulhoso romano tivesse podido tolerar. Passado um longo momento, Eilan levantou a 
mo indicando a Huw que se mantivesse quieto.

- Vai - disse ferozmente para Gaius. - Vai ou ele rebenta-te os miolos - acrescentou, na 
direco de Senara. - Vai com ele, se quiseres... enquanto ainda te posso proteger.

Senara olhou para Gaius durante um bocado e depois fechou os braos  volta de Eilan.

- Oh, no o faria - gritou -, nem pelo mundo e tudo o que contm eu iria com ele agora!

Eilan, surpreendida, apertou os seus braos  volta da rapariga e depois virou-se para 
Gaius.

- Sai daqui para fora - disse, em voz baixa. - Sai ou deixo Huw fazer o seu pior. - 
Depois, perdendo o controlo, gritou
- Sai daqui para fora, ou mato-te eu prpria!

Gaius no parou para discutir. Empurrou a cortina da porta e esta fechou-se atrs dele.

Gaius estava sentado na taberna guia Azul e pediu ao proprietrio que lhe trouxesse 
outro frasco de cido vinho gauls. Tinha passado a maior parte dos ltimos trs dias a 
beber, indo duma taberna para outra quando abusava da hospitalidade.

A CASA DA FLORESTA

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Os taberneiros sabiam quem ele era, e quem era o seu pai. Eventualmente seriam pagos.

Por vezes Gaius pensava se teriam dado pela sua falta, mas admitia que Macellius devia 
pensar que ele tinha voltado para a villa, e que Julia pensasse que ele ainda estava com 
o pai, na cidade. A maioria das vezes pensava era em quanto vinho teria de beber antes 
que a dor desaparecesse.

Tinha ficado em Deva, primeiro por causa da situao poltica, e depois porque no 
tinha querido enfrentar Licinius e inform-lo que estava prestes a abandonar Julia e as 
inteis filhas que ela lhe tinha gerado. Com uma tardia imparcialidade admitia que 
Licinius, se bem que fosse um pai excessivamente apaixonado, pudesse estar inclinado 
a protestar com Julia. Ele prprio sem filhos, no quereria Julia divorciada por essa 
razo. Mas se Licinius persuadisse a filha a honrar as suas obrigaes conjugais Gaius 
no poderia casar-se com Senara, e o pensamento dela tinha sido um ardor que 
conseguiu manter os seus temores sobre o futuro bem contidos.

No que isso ainda importasse, pensou, sentindo o gelado fogo do vinho a descer por 
ele. Senara no o amava. Julia no o amava. E Eilan - especialmente Eilan - no o 
amava de todo. Estremeceu, lembrando-se uma vez mais da face da Fria quando ela lhe 
ordenou que se fosse embora.

A porta da taberna abriu-se e outro grupo de legionrios entrou com um grande 
estardalhao. Nesta altura j o comandante devia estar a pensar se no teria calculado 
mal, pensou Gaius acidamente. O banquete que tinha oferecido no tinha seno 
enfraquecido a disciplina militar. Se isto fosse Roma, o Imperador estaria a esvaziar os 
cofres para oferecer espectculos de circo aos homens, mas umas poucas de lutas de 
ursos era tudo o que esta provncia esquecida de deus podia fornecer. Quase no

chegava para os distrair, e os soldados Pareciam ficar mais selva

gens cada dia que passava.

Mas ningum prestou qualquer ateno ao homem solitrio que se embebedava 
calmamente no canto, e isso era tudo o que neste momento interessava a Gaius. 
Suspirou, e estendeu a mo para o frasco de novo.

Uma mo fechou-se  volta do seu pulso. Olhou para cima, e pestanejou quando ali viu 
Valerius de p.

518

MARION ZIMMER BRADLEY

- Por Mercrio, homem, o que me -obrigaste a procurar!
- Valerius chegou-se para trs, para olhar para ele e fez uma careta. - Agradece aos 
deuses que o teu pai no te veja agora!

- Ele sabe ... ? - comeou Gaius.

- Ests doido? Importo-me com os sentimentos dele, mesmo que tu no. Um dos 
homens disse-me que te tinha visto. O que  que se passou contigo para te embebedares 
agora? No interessa - disse quando Gaius comeou a protestar. - Primeiro, meu rapaz, 
temos de te tirar daqui para fora!

Gaius ainda estava a protestar quando Valerius o arrastou para a rua, e atravs da cidade 
at aos banhos. Mas no foi seno quando foi atirado para dentro da piscina fria que 
Gaius comeou a ficar suficientemente sbrio para perceber o que lhe estava a ser dito.

- Diz-me - disse~lhe Valerius quando ele veio ao de cima, a cuspir - a minha sobrinha 
Valeria ainda est na Casa da Floresta?

Gaius acenou com a cabea.

- Fui l, mas ela... mudou de ideias, no quis vir comigo
- os acontecimentos estavam a voltar-lhe. Tinha dado a Valerius uma verso expurgada 
da situao e obtido a sua autorizao para casar com Senara; isso dava ao homem 
alguns direitos; mas por que estava ele to preocupado agora?

- Ouve - disse rapidamente Valerius. - No s o nico que tens estado a beber. Na noite 
passada estive com alguns legionrios, destacados no gabinete do Quaestor, os seus 
nomes no interessam, que estavam a especular sobre as sacerdotisas em Vernemeton. E 
um deles disse, No  como se as mulheres ali fossem verdadeiras Vestais; so apenas 
mulheres brbaras como quaisquer outras . Eu protestei, mas finalmente apostaram que 
podiam tirar de l uma das suas virgens sagradas e que isso no seria sacrilgio.

Gaius agarrou numa toalha e comeou a esfregar-se furiosamente, tentando perceber.

- Anda para o quarto quente - disse Valerius, oferecendo o brao. - Suars os venenos 
para fora de ti mais depressa
- Quando estavam instalados, ofegando quando o vapor quente o atingiu, o secretrio 
continuou. - Pensei que fosse a esp-

A CASA DA FLORESTA

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cie de aposta idiota que os bbedos fazem, at que na revista se viu que trs dos homens 
tinham desaparecido. Um dos meus companheiros de bebida da noite anterior disse-me 
que eles tinham deixado Deva para tentar ganhar a aposta.

- O centurio... - A cabea de Gaius ressoava, mas estava a ficar capaz de raciocinar 
uma vez mais.

- ... tem mais que suficiente em mos que isto, assim como o tm os tribunos. A 
disciplina foi para o inferno desde o assassnio. Tu e o teu pai conhecem os Bretes 
melhor que ningum.
O que pensas que acontecer se alguns dos nossos homens forem descobertos a violar 
uma sacerdotisa nativa? A rebelio de Boudicca no ser nada comparada com isso, e 
ns no estamos em condies de ripostar!

- Sim... claro! - disse Gaius. - Eu irei. Sabes exactamente quando eles partiram? Fazes 
alguma ideia que caminho tomaram?
- Nenhuma de todo, lamento diz-lo - replicou Valerius.
- Suponho que podia perguntar por a.

- No, no h tempo suficiente. Tenho de ir at casa buscar roupas - esfregou os olhos.

- Eu trouxe-as - disse Valerius. - Pensei que poderias precisar duma muda.

- O meu pai tinha razo - resmungou Gaius -, pensas mesmo em tudo.

Deixou que os escravos o secassem e o barbeassem, e forou-se a comer alguma coisa. 
Tinha sido um idiota, pensou amargamente, tentando afogar os seus desgostos em vinho 
quando o mundo estava a desfazer-se em pedaos  sua volta. Algures durante o 
processo de retorno  sanidade tinha realizado que amanh devia ser Samaine. Metade 
dos homens das tribos no Oeste deveriam estar a convergir em direco a Vernemeton 
para o festival. No interessava o que Eilan e Senara pensavam dele. O sangue gelou-se-
lhe ao pensamento do perigo que corriam se ali comeasse uma guerra.

- Porei a tua sobrinha em segurana - disse a Valerius quando se preparava para sair de 
Deva. E Eilan, e o rapaz... e se ainda me odiarem podem falar-me sobre isso a caminho 
de casa. Enrolou o capote para libertar os braos, e deu uma pancadinha na ltima coisa 
que tinha pedido emprestada a Valerius - uma espada.

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Nem todos os anos desde a vinda dos Romanos - nem todos os anos desde a construo 
do grande Templo do Sol na plancie, podiam ter sido to compridos para Eilan como os 
dois dias que se seguiram. A noite antes do festival de Samaine pareceu durar mil anos. 
Tinha mandado Senara embora h horas. Quando as luzes se extinguiram, pareceu-lhe 
que as crescentes sombras tambm estavam a engolir o seu esprito.

Deve ter sido isto o que estava destinado quando o aviso lhe tinha chegado; a morte 
tinha aguardado dentro do seu corao e do seu esprito como uma semente; parecia 
agora espalhar-se por todo o seu corpo como uma flor a desabrochar. O seu corao 
batia como se quisesse partir atravs de paredes de osso. Nem quando o seu filho tinha 
nascido ela tinha sentido tal dor. Mas se a dor era do corpo, ou da mente e do esprito 
no o podia dizer.

Quando dormitava os seus sonhos foram caticos; viu Caillean rodeada por homens 
diablicos. Depois a sacerdotisa levantou os braos ao cu, um raio fulgurou, e quando 
Eilan conseguiu ver outra vez, os seus atacantes estavam estendidos sem vida no cho. 
Mas Caillean tambm jazia imvel, e Eilan no conseguia dizer se vivia.

Veio a si, tremendo, a sua face molhada com lgrimas. Tinha esta sido uma viso 
verdadeira? Caillean devia estar a salvo no sagrado Tor com as suas sacerdotisas. Mas 
se no estava, ento que esperana havia no mundo?

Pela manh, Eilan arrastou-se at ao quarto em que Lia tinha deitado Gawen. Huw, 
descalo, marchava suavemente nos seus calcanhares. Quase pela primeira vez desde 
que tinha assumido os seus deveres como Gr Sacerdotisa, viu-se a ressentir-se com o 
grande homem, como se Huw estivesse a roubar o ar que ela precisava para respirar.

Lembrou-se de uma histria de terror que tinha ouvido quando estava na Casa das 
Donzelas; como uma Sacerdotisa do passado tinha sido atacada pelo seu prprio guarda 
e o tinha entregue aos padres para que fosse morto. Pela primeira vez, podia perceber 
como essa mulher, desesperada por um pouco de calor humano, se podia ter dirigido  
nica coisa humana ao seu alcance e como

A CASA DA FLORESTA

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o seu apelo pode ter sido mal compreendido. Estremecendo, virou-se para Huw e disse-
lhe para esperar  porta,

Ah, deuses , pensou, se ao menos Caillean estivesse aqui... ou Lhiannon... ou at a 
minha me... ou algum, para que eu no estivesse to desesperadamente s. Mas no 
havia ningum. Na sua mente, at Senara, apesar de todo o seu choro e negaes, era 
um inimigo. E o seu pai? Esse era o maior dos seus inimigos.

Olhou longamente para a adormecida face de Gawen. Parecia impossvel que o bater do 
seu corao no fosse suficientemente audvel para o acordar. Tinha este grande rapaz 
sido verdadeiramente to pequeno que pde caber nas duas mos do pai? Tinha 
crescido, de algo mais pequeno que a semente duma flor, engendrado naquele momento 
na floresta em que as suas ltimas defesas tinham cedido diante da necessidade de 
Gaius. E no entanto, na altura, ela tinha-se sentido triunfante, certa que era uma coisa 
sagrada.

E Gawen era lindo. Como, sada de tal dor, podia nascer tanta beleza? Perscrutou de 
novo as feies infantis e o comprido corpo, com as mos e os ps um pouco grandes de 
mais, vendo-se neles a promessa do homem em que se tornaria. No podia ver que se 
parecesse assim tanto com Gaius. Numa altura isso tinha-a desapontado, mas pelo 
menos agora no teria de suprimir um lampejo de dio sempre que visse o pai nos seus 
olhos.

Mas ele era o filho de Gaius; e por causa dele tinha estado disposta a deixar Gaius 
casar-se com a filha dum oficial romano. S agora, parecia, ele se ia divorciar de Julia e 
renunciar a todas as suas promessas por causa de Senara, que podia bem ter sido a sua 
irm mais nova. Senara, que era mais nova, e aparentemente, para Gaius, mais bonita.

 cintura de Eilan pendia a adaga curva que lhe tinha sido dada quando se tornou numa 
sacerdotisa. Apalpou-a com os dedos durante uns instantes. Tantas vezes, nos rituais, a 
tinha usado para deitar a gota de sangue ritual para o caldeiro da profecia. Ali, no 
pulso, onde podia ver o batimento do sangue, um golpe, firme e profundo, acabaria com 
todos os seus problemas, pelo menos neste tempo de vida. Por que teria de esperar pelo 
destino que a Deusa lhe prometeu? Mas se ela tirasse a sua vida, o que seria feito de 
Gawen?

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MARION ZIMMER BRADLEY

Deliberadamente, Eilan agarrou na foicinha e voltou a coloc-la na pequena bainha  
cintura.  vacilante luz da lanterna a sua face deve ter mostrado alguma coisa que no 
era suposto, pois Huw arremessou-se para a frente.

- Senhora?

- Agora vamos voltar para      os meus aposentos e depois deves ir-me buscar Senara.

No se passou muito tempo at ele trazer a rapariga a reboque. O vestido de Senara 
estava amarrotado; os seus olhos estavam vermelhos e as faces manchadas como se 
tivesse estado a chorar. Viu Eilan e gritou:

- Senhora, perdoai-me; nem por tudo...

- Est sossegada - disse Eilan. - No tenho foras para mais nada disto. Tive um aviso 
de morte;  um dom da Deusa que a Gr Sacerdotisa saiba quando chegou a sua altura. - 
Inspirou algum ar e Senara, vendo a pequena adaga solta na sua bainha  cintura, ficou 
branca por baixo das lgrimas.

- Isso no pode ser verdade - disse ela desesperadamente.
- Est escrito nos livros sagrados que nenhum homem sabe o que um dia pode gerar...

- Silncio - disse Eilan cansadamente. - H uma coisa muito importante que tenho de te 
dizer. Se eu estiver enganada no importa se acreditas em mim ou no, mas se estiver 
certa h uma coisa que tenho de te pedir.

- A mim? Tudo - disse Senara submissamente. Eilan inspirou profundamente.

- Ouviste-me dizer que eu e Gaius tivemos um filho. Gawen  essa criana. Quero que 
te cases com Gaius e leves o seu filho contigo. Promete-me - a sua voz, que tinha sido 
firme quando tinha falado da sua prpria morte, quebrou-se -, promete-me apenas que 
sers boa para ele.

- Oh no - gritou Senara. - No casaria com Gaius Severus nem que ele fosse o ltimo 
homem  face da terra.

- Prometeste fazer o que eu te pedisse - disse Eilan calmamente. -  assim que cumpres 
a tua palavra?

Senara olhou para cima, e mais uma vez os seus olhos transbordaram. Disse:

- Apenas quero fazer o que estiver certo. Se pensais... parou, respirando fundo. - Se 
Deus escolheu levar-vos, suponho

A CASA DA FLORESTA

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que seja um assunto Seu, mas vs no deveis levantar uma mo contra a vossa prpria 
vida, Eilan!

Eilan colocou toda a dignidade sobre si como um capote quando disse:

- No me interessa verdadeiramente se acreditas em mim ou no. Mas se no me 
ajudares, Senara, ento podes ir.

Senara tremeu.

- No vos deixarei sozinha neste estado.

- Ento, por causa de Gaius toma conta do seu rapaz.
-  por causa do rapaz que vos digo que deveis viver implorou Senara. - Tendes um 
filho, como quer que isso tenha acontecido, e a vossa vida no vos pertence. Gawen  
um belo rapaz. Tendes que viver para o ver crescer. E Gaius...

- Ah, no me fales dele, peo-te...

- Minha Senhora - disse Senara a tremer -, digo-vos que Gaius ainda se interessa por vs 
e pelo seu filho.

- Ele esqueceu-me.

- Tenho a certeza que no - insistiu Senara. - Deixai-me  lembr-lo do que  devido  
me do seu filho. Deixai que fale com ele do seu dever como pai, e como romano. 
Tenho a certeza de que isso atingir a sua melhor natureza mesmo que mais nada o faa.

Seria possvel? Poderia na verdade Senara consegui-lo? E f-lo-ia?

- Acredito no aviso que a Deusa me enviou - disse por fim -, mas se sobreviver a 
Samaine podes tentar. Mas antes que o faas, tens de pr Gawen em segurana. Tenho 
medo do que possa acontecer no festival. Amanh... no, hoje  noite corrigiu-se a si 
prpria, pois j era quase alvorada - deixa a Casa da Floresta. Leva Gawen para o teu 
padre Petros na floresta. Ningum se lembrar de te procurar a!

TRINTA

Quando Caillean recuperou os sentidos percebeu que devia ter estado inconsciente 
durante algum tempo, pois tinha o vestido completamente encharcado. O que a acordou 
foi o rudo duma carroa de quinta aos solavancos nos sulcos e buracos da estrada. Na 
carroa estavam quatro ou cinco homens bem armados com cacetes, e um par de 
robustos guardas marchavam alguns passos  frente, com archotes. Teria assustado os 
assaltantes? Alguma coisa devia t-lo feito, pois no tinha sido violada depois de o seu 
assaltante a ter atingido.

Caillean conseguiu pr-se de p se bem que o esforo a tivesse feito sentir como se a 
parte de cima da cabea fosse cair. Espalhados  sua volta podia ver corpos, e um fedor 
a carne queimada atingiu-a mesmo atravs da chuva.

Um dos homens com os archotes viu-a e estremeceu.
- Sois um fantasma, senhora? No nos faais mal...

- Dou-te a minha palavra que no sou um fantasma - disse Caillean to firmemente 
quanto podia - mas sim uma sacerdotisa do templo no Pas do Vero, deixada aqui 
depois de um ataque de bandidos.

Agora podia ver a sua liteira, virada de lado, com os dois jovens sacerdotes jazendo a 
seu lado, as gargantas cortadas, os seus colares dourados saqueados, a olhar vaziamente 
para o cu. Caillean observou-os com desalento.

Depois olhou para os negros cadveres  sua volta e percebeu que onde ela tinha sido 
impotente os deuses pelo menos no o tinham sido. Teria preferido ter salvo os dois 
jovens, mas pelo menos eles tinham sido vingados.

- Para onde eis, senhora? - perguntou o lavrador, sentado no seu poleiro no banco de 
condutor da carroa.

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MARION ZIMMER BRADLEY

Ela controlou a voz com um esforo, virando as costas aos mortos,

- Para a Casa da Floresta, perto de Deva.

- Ah, isso explica tudo, ento; parece-me que ainda a resta uma das legies e as 
estradas so patrulhadas. Nos dias de hoje, por aqui, ningum pe o nariz fora da sua 
prpria porta sem um par de guarda-costas. Ser bom quando tivermos um novo 
imperador e as estradas patrulhadas outra vez.

Caillean pestanejou, pois o homem falava a lngua bret como um nativo. Era uma 
medida de quanto a Bretanha se tinha tornado romana o facto de os nativos lamentarem 
a falta dum Imperador.

- Vejo que mataram o vosso guarda-costas, senhora - disse o homem que conduzia a 
carroa. - Tinheis escravos para carregar a vossa liteira? j no os tendes... sem dvida 
deram aos calcanhares. - Ele parou a seu lado, a olhar para os corpos dos bacaudae. 
Voltou a olhar para ela e fez um antigo sinal de reverncia.

- Minha Senhora... vejo que os Deuses olham por vs. Temos de ir para o lado oposto, 
mas deixar-vos-emos na prxima aldeia, onde podereis arranjar portadores e guardas.

Ajudou-a a subir para a carroa e embrulhou-a num cobertor seco. Alguns dos seus 
homens colocaram os corpos dos jovens padres no vago. Cailean, embrulhada no seu 
capote e no spero cobertor do lavrador, reflectiu miseravelmente que, de agora em 
diante, teria o melhor que esta gente lhe pudesse oferecer, mas que nenhum poder na 
Terra a poderia fazer chegar  Casa da Floresta antes de Samaine.

Gaius ficou surpreendido por ver a estrada a sul de Deva apinhada com outros viajantes. 
Levou um certo tempo at perceber que eles deviam estar a ir para o festival. Mas os 
olhares que recebia no eram amigveis, e depois dum certo tempo achou mais prudente 
sair da estrada e tomar um atalho atravs das colinas que o levaria at  Casa da Floresta 
passando pelo eremitrio do padre Petros.

Um vento frio estava a abanar os ramos das rvores como se fossem ossos, se bem que 
de momento tivesse deixado de

A CASA DA FLORESTA

527

chover. Samaine era a festa dos mortos; os Romanos consideravam-na um dia de mau 
augrio. Bem, pensou, de certeza que para ele o era. Tinha cado numa disposio 
fatalista, que o fazia lembrar dos seus tempos nas legies; a sombria aceitao que os 
homens por vezes encontravam antes da batalha, quando a sobrevivncia  menos 
importante que a honra. No estava seguro de ainda ter alguma, depois dos ltimos dias, 
mas redimiria o que pudesse, no importa o que custasse.

Enquanto viajava, a beleza nas florestas de Outono tocou-o apesar, ou talvez por causa, 
da sua disposio sombria. Gaius compreendeu, ento, que no ano passado, ou isso, 
tinha aprendido a amar esta terra. Quem quer que triunfasse no actual conflito, ele no 
voltaria para Roma. Por muito que tentasse satisfazer as ambies de Macellius, nunca 
tinha pertencido completamente ao mundo do pai, contudo era romano de mais para no 
se sentir mais que um impostor no meio das tribos. Mas as rvores no o desprezavam 
como um brbaro, nem as pedras o odiavam como um conquistador. Na paz da floresta, 
Gaius sentia-se em casa.

Viu fumo a subir da cabana do padre Petros, e pensou por um momento em entrar. Mas 
o lugar lembrava-lhe Senara. Gaius no pensava poder suportar essa memria, e estava 
certo de que no poderia aguentar o seu gnio se o padre se sasse com qualquer um dos 
seus lugares-comuns.

Supunha que os seus errantes legionrios ficariam escondidos num stio qualquer at ao 
cair da noite. Prendeu a montada de modo suficientemente frouxo para que esta se 
pudesse libertar se no voltasse cedo e comeou a andar cuidadosamente  volta do 
edifcio, mantendo-se no interior do bosque que bordejava o espao desbravado.

O crepsculo comeou a cair antes que ele visse um movimento nos arbustos  sua 
frente. Cuidadosamente, como um gato, seguiu em frente. Dois soldados estavam 
agachados abrigados por algumas aveleiras. Tinham estado a jogar os dados para passar 
o tempo e, neste momento, estavam a discutir sobre se haviam ou no de acender uma 
fogueira.

- Flavius Macro! - disparou Gaius na sua melhor voz de comando. Os homens puseram-
se automaticamente em sentido, depois olharam como loucos  sua volta.

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- Quem ... - o segundo soldado tinha a mo na sua espada. Gaius pisou audivelmente 
num ramo cado para o avisar
e moveu-se para o extremo da luz.

- E, olha,  Gaius Macellius - disse Macro. - Senhor,
o que estais a fazer aqui?

- Pensaria que me competiria mais a mim perguntar-lhes isso a vocs - disse Gaius, 
soltando a respirao. - Em Deva sabem que vocs partiram. O que  que pensam que 
acontecer se souberem que vocs vieram at aqui?

A face do homem ficou cinzenta.

- No lhes direis, pois no senhor?

Gaius fingiu hesitar o tempo suficiente para os homens ficarem a tremer, depois 
encolheu os ombros.

- Bem, eu no sou o vosso oficial. Se voltarem j para trs no se metero em grandes 
sarilhos, no com tudo o que se tem passado na cidade.

- Senhor, no podemos fazer isso - disse o outro homem.
- Longus ainda est para ali.

Gaius sentiu o corao afundar-se.

- No o podem ajudar ficando          aqui - disse simplesmente. - Partam,  uma ordem. 
Farei       o que puder pelo vosso amigo.

O  estado de tenso em que estava aliviou-se um pouco quando os ouviu a andar 
ruidadosamente pelo meio das rvores, mas at apenas um legionrio era de mais se 
encontrado onde no tinha nada que estar.

Movendo-se como se estivesse a comandar uma patrulha na fronteira, Gaius deslizou 
pelo espao aberto, at ao muro. Devia haver um porto das traseiras num stio qualquer 
- o muro era mais um smbolo de separao que uma verdadeira proteco. As suas 
mos tocaram no ferrolho e, depois, j se estava a movimentar cuidadosamente no 
espao aberto onde tinha visto o seu filho jogar  bola. Senara tinha conversado muito 
sobre a sua vida aqui. O grande edifcio  sua frente devia ser a Casa das Donzelas. 
Havia um pedao de terreno na escurido, atrs da cozinha, que parecia um bom local 
para observar. Rastejou na sua direco.

Algum tinha pensado tambm o mesmo. Quando se ajoelhou, tocou em pele nua. 
Algum rosnou e houve uma pequena

A CASA DA FLORESTA

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luta antes de Gaius conseguir imobilizar o homem com uma mo sobre a sua boca.

- Longus?        murmurou. O seu cativo abanou a cabea vigorosamente.       A tua 
aposta foi cancelada. os teus companheiros foram para casa, e se souberes o que  
melhor para ti fars como eles. - Longus suspirou, depois abanou a cabea outra vez, e 
Gaius deixou-o partir. Mas quando o homem estava a atravessar o ptio, abriu-se uma 
porta e a luz de lanternas espalhou-se pelo terreno. Longus imobilizou-se, como uma 
lebre apanhada numa armadilha.

- Corre, louco! - sibilou-lhe Gaius das sombras. Longus trepou por cima do porto, mas, 
subitamente, o local ficou cheio com homens em hbitos brancos. Sacerdotes druidas! 
pensou Gaius. O que estavam eles a fazer aqui? O seu esconderijo seria descoberto num 
instante, pois estavam a trazer archotes. Comeou a andar  roda do edifcio. Algum 
praguejou em breto atrs de si e ele virou-se, desembainhando instintivamente a 
espada.

O homem gritou quando a espada o atingiu e os outros vieram a galope na sua direco. 
Gaius lutou tanto quanto foi capaz, e admitia que tinha provocado alguns estragos, 
tendo em vista a brutalidade com que eles o golpearam e pontapearam depois de a sua 
superioridade numrica o ter finalmente derrubado.

- Bem, Filha, ests pronta para o festival? - Bendeigid, vestido com o capote cerimonial 
e os ornamentos dourados do Arquidruida sobre o seu hbito branco de linho parecia 
magnificente, mas o corao de Eilan estremeceu quando lhe devolveu a saudao.

- Estou pronta - disse suavemente. As donzelas tinham vindo, tal como faziam antes de 
qualquer festival, para a preparar. Pela ltima vez, gritou-lhe o corao quando elas a 
lavaram e lhe colocaram a coroa sagrada de verbena na fronte. Pelo menos iria at  
Deusa lavada e santificada.

Durante uns instantes ele apoiou-se no seu bordo, a olhar para ela.

Depois fez um gesto aos padres e s mulheres para que os deixassem ss.

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- Ouve, criana, j no h nenhuma necessidade de dissimular. Disseram-me como 
Ardanos costumava vir at ti, e os truques que usava para vergar a tua vontade. Lamento 
ter-te acusado de nos teres trado.

Eilan manteve o olhar em baixo, com medo que ele visse a ira nos seus olhos. Tinha 
sido a Gr Sacerdotisa durante treze anos, senhora da Casa da Floresta, a mulher mais 
respeitada na terra. Por que estava ele a falar como se ela fosse ainda uma criana? Mas 
este era o pai amante que tinha dito uma vez que preferia v-la afogada que noiva dum 
romano.     No se podia dar ao luxo de o antagonizar; com a confuso, era j de tarde 
quando Senara e Lia tinham sido capazes de       deixar a Casa da Floresta com Gawen. 
Tinha de lhes comprar tempo para que se pusessem bem longe.

No mesmo tom neutral, perguntou:
- O que quereis de mim?

- Os Romanos esto a desfazer-se uns aos outros em bocados. - O seu sorriso foi como o 
de um lobo. - Nunca haver outra altura to boa para ns para nos erguermos contra 
eles. Esta  a estao do massacre, quando as portas entre os mundos se abrem. 
Chamemos por Cathubodva, levantemos os espritos dos nossos mortos contra eles. 
Levanta as tribos contra Roma, Filha, chama-os  guerra!

Eilan reprimiu um arrepio. Por muito que se tivesse ressentido com Ardanos pelo menos 
o seu av tinha sido um homem subtil, nunca to cego pelos seus prprios sonhos que 
no pudesse ser conversado se visse outra coisa que servisse. O seu pai era mais 
perigoso porque sacrificaria tudo aos seus inflexveis ideais. Contudo, tudo o que ela 
tinha a fazer para ficar a salvo era concordar com ele. Nessa altura sentiu o familiar 
latejar na tmpora e lembrou-se de que o que quer que fizesse no seria por muito 
tempo.

- Pai - comeou -, Ardanos interpretava as minhas respostas como lhe apetecia, e 
suponho que fareis o mesmo, mas no percebeis o transe sagrado e como a Deusa vem.

Ouviu um tumulto no exterior e percebeu que ele j no a estava a ouvir. A porta abriu-
se num repelo, e padres com o cabelo emaranhado e sangue nos hbitos abriram 
caminho atravs da multido, a arrastar alguma coisa que tinha sido um homem.

A CASA DA FLORESTA

531

- O que  isto? - Eilan colocou na voz toda a arrogncia que doze anos de treino lhe 
tinham ensinado e o murmrio calou-se.

- Um intruso, Senhora - disse um dos sacerdotes. - Encontr-mo-lo fora da Casa das 
Donzelas. Havia outro homem mas fugiu.

- Ele matou Dinan!

- Deve ter estado atrs de uma das sacerdotisas!
- Mas qual delas?

Desta vez foi o Arquidruida quem imps o silncio, batendo com bordo no cho.

- Quem s tu, homem, e o que estavas a fazer aqui? Eilan fechou os olhos, esperando 
que ningum reparasse que a rasgada tnica do homem era feita de bom tecido romano. 
Mesmo sujo com sangue e p reconheceu Gaius, mas talvez mais ningum o fizesse se 
ela no desse nenhuma indicao. Ele veio at aqui por causa de Senara , pensou, ou 
pelo filho?

- No o reconheceis, Senhor Druida? - Dieda forou a passagem at  frente. Eilan 
encolheu-se com o gume na gargalhada da outra. - Bem, talvez agora no esteja to 
elegante, Os teus homens capturaram um belo porco para o nosso banquete. Se olhares 
vers a cicatriz do fosso dos javalis no ombro dele.

Bendeigid devia ter sido teu pai , pensou Eilan histericamente, e Ardanos o meu! 
Puxaram a cabea do prisioneiro para cima e durante um momento o aterrorizado olhar 
dele encontrou o seu, depois a conscincia abandonou-lhi os olhos de novo.

- Tu! - a voz de Bendeigid tinha uma mistura de espanto e fria. - No provocaste j 
danos suficientes a mim e aos meus para nos vires agora perturbar? - Subitamente a sua 
expresso mudou. - Bem, no voltars a faz-lo. Dieda, mostra aos meus homens onde o 
podem lavar e tratar das suas feridas, mas que de modo algum o desatem. Garic e 
Vedras - apontou para os dois druidas mais antigos -, temos de falar. Os restantes, 
deixem-nos ss!

os sacerdotes arrastaram Gaius e o quarto esvaziou-se. Eilan sentou-se na cadeira, 
pensando se a dor na sua barriga seria um eco da cabea se medo.

532

MARION ZIMMER BRADLEY

- Vejo que conheceis o homem - disse Vedras, o mais velho dos dois druidas que tinham 
ficado. - Quem  ele?

- O seu nome  Gaius Macellius Severus, o mais novo rosnou Bendeigid.

- O filho do Prefeito! - exclamou Garic. - Pensais que ele veio atrs duma das 
sacerdotisas, como dizem?

- No interessa por que  que ele veio - disse Vedras.
- Temos de o levar daqui para fora. Os capotes-vermelhos negariam o nosso direito de 
castigar nem que fosse um simples legionrio. S os deuses sabem o que eles nos fariam 
se pusssemos as mos no filho dum chefe!

- De facto - Bendeigid sorriu ardilosamente. - Mas no acredito que o seu prprio povo 
saiba onde ele est. E ningum aqui sabe o nome dele ou mesmo que ele  romano, 
excepto Dieda e ns prprios.

- Ento quereis mat-lo secretamente?

- No secretamente - o olhar de Bendeigid ardia como uma chama. - No percebem?  
um sinal dos deuses que um homem como este se tenha entregue assim nas nossas 
mos. Ao menos que a sua morte sirva algum propsito. Nunca encontraremos uma 
oferenda to grandiosa!

Voltou-se para Garic.

- Vai e diz aos homens que esto a guardar o prisioneiro que lhe vistam o hbito mais 
requintado que possam encontrar.
 Eilan sentiu um arrepio eriar-lhe os pelos dos braos. Veio-

-lhe uma imagem do Rei do Ano a passear pela feira de Beltane, engrinaldado e vestido 
numa tnica bordada.

- E se os Romanos vierem a saber disto? - perguntou Vedras.

-  verdade, a sua fria ser terrvel - disse o Arquidruida triunfalmente. - To terrvel 
que at mesmo aqueles que agora clamam pela paz no tero outro remdio seno 
seguir-nos na guerra!

O outro druida ficou a olhar para ele durante um longo momento. Depois acenou com a 
cabea e seguiu Garic.

- Gaius veio com o teu conhecimento, Eilan? - perguntou Bendeigid quando ficaram 
sozinhos. - Tens andado a ver este monstro desde sempre?

- No tenho - murmurou ela -, juro-o pela Deusa!

A CASA DA FLORESTA

533

- Suponho que no interessa se te acredito ou no resmungou o Arquidruida. - Toda a 
verdade ser testada nas fogueiras de Samaine.

Olhai, a sagrada sacerdotisa chega, as sagradas ervas na sua coroa , os padres estavam 
a cantar, mas nesta noite havia mais versos no seu hino, com palavras diferentes,

Guerra! Guerra! Deixai os campos britnicos Um guerreiro gerar por cada rvore;

Como vorazes lobos a atacar o rebanho Assim tambm faremos os romanos fugir!

Gaius gemeu, mas a ponta duma espada f-lo continuar a andar. Se ao menos aquela 
cabra da Dieda no o tivesse identificado! Macellius lamentar-se-ia quando soubesse da 
morte do filho; mas sentir-se-ia envergonhado quando se soubesse como tinha 
acontecido. Como podia ele ter agido to mal, provocando exactamente o incidente que 
tinha esperado evitar? Nem sequer tinha conseguido salvar aqueles que amava. O nico 
raio de esperana em tudo isto  que ele ainda no tinha visto nem Senara nem o rapaz 
em parte alguma.

A estrada que subia a Colina das Donzelas nunca antes tinha parecido to ngreme. 
Preferia mil vezes a ltima vez que aqui tinha vindo, pensou sombriamente, com uma 
arma na mo e um destacamento de cavalaria atrs dele! A roupa bordada raspava-lhe 
nas escoriaes e a grinalda sagrada picava-lhe a testa. Tinham-no lavado e dado uma 
bebida que lhe clareou a cabea, mas Gaius no tinha qualquer iluso sobre o que o 
esperava.

No topo da colina podia ver o brilho duma grande fogueira. Memrias dum tempo antes 
de entrar no mundo do seu pai estavam-lhe a voltar com uma nitidez assustadora. Os 
Silures tinham sacrificado um dos seus prprios prncipes nesses ltimos dias antes de 
os Romanos os terem completamente esmagado.
O homem tinha sido um dos seus tios, com os drages reais tatuados nos braos. A me 
de Gaius tinha tentado esconder a sua criana meio-romana mas ele tinha-os visto a 
levarem o

534

MARION ZIMMER BRADLEY

Rei do Ano embora. Ele estava a sorrir, pensando que a sua morte ajudaria o seu povo.

E para que  que , pensou ento, estou eu a morrer? Nessa altura chegaram ao topo 
da colina. Um anel de padres rodeava-os; para l deles, Gaius viu um mar de rostos, 
sombrios ou alegres enquanto ouviam a cano dos druidas. Estaria Eilan contente ou 
triste por o ver aqui? Desejava ter podido ver a sua face atrs do vu.

Eilan mantinha-se atrs do pai, com Dieda e duas outras sacerdotisas atrs dela. Pela 
primeira vez pensou se ela no seria tambm uma prisioneira.

Ela tinha-o rejeitado. Parecia-lhe que devia ficar contente pela sua desgraa, mas 
mesmo o seu prprio perigo no o tinha enchido  com tanto medo quanto o medo que 
sentia a respeito do dela.

Destru-os a todos! Vingai a nossa vergonha! Deixai que o massacre comece!

As tropas romanas cairo em filas Tal como pela foice o trigo  segado!

O cntico terminou e os tambores silenciaram-se, mas um murmrio correu pelo povo e 
Gaius soube que era apenas uma pausa na tempestade.

- Filhos de Don!   - gritou o Arquidruida. -  Vspera de Samaine!  um tempo de 
mudanas! o novo ano est a comear e uma nova era para esta terra! Deixem que a 
mudana de estaes varra os Romanos que arruinam a Bretanha! Hoje  noite 
alegraremos os deuses da guerra com um sacrifcio. Mas devemos purgar as nossas 
fileiras de todos os transgressores. Traidor - virou-se para Gaius -, podemos tornar a tua 
morte fcil ou difcil. Diz-nos o que vieste fazer a Vernemeton!

- Matem-me se quiserem mas no faam perguntas disparatadas! - disse Gaius com voz 
rouca. - Apenas direi que no queria fazer nenhum mal a ningum aqui - talvez no 
tivesse vivido bem, mas pelo menos podia morrer com dignidade.

- Estavas no recinto sagrado, onde nenhum homem excepto os druidas pode entrar. 
Seduziste uma das nossas donzelas? Qual delas vieste para levar embora?

A CASA DA FLORESTA

535

Gaius abanou a cabea e ofegou quando a ponta duma espada fez presso no seu flanco. 
Houve uma sensao de calor e ele sentiu o sangue a pingar.

- Era Rhian, Tanais, Bethoc? - a litania continuou. Por cada nome eles cortavam-no 
outra vez. Uma vez tentou afastarse da ponta da espada, mas os seus         captores 
sabiam do seu ofcio e mantiveram-no imobilizado. A perca de sangue e os maus tratos 
que j tinha sofrido estavam a fazer com que ficasse tonto. Cedo desmaiarei , pensou, 
e no interessa o que faam comigo.

- Senara...

Ao ouvir o nome, Gaius mexeu-se involuntariamente. Tentou disfarar imediatamente, 
mas ningum o estava a ver. Eilan tinha avanado e atirado o vu para trs.

- Parem! - disse claramente. - Posso dizer-vos quem o romano buscava. Era eu!

O que est ela a dizer? Gaius olhou para ela horrorizado. Depois percebeu que devia 
estar a tentar proteger Senara e, talvez, a criana. Neste momento ela tinha uma beleza 
irreal. Em comparao, a ainda no formada beleza de Senara era como uma estrela 
empalidecida pela majestade de uma lua cheia. Tal como por vezes tinha acontecido nos 
instantes antes das batalhas, Gaius viu no seu prprio corao com uma terrvel clareza, 
Gostava de Senara, mas o seu desejo por ela no tinha sido amor. Na mulher mais nova 
tinha apenas tentado recuperar a Eilan tal como esta tinha sido quando ele a conheceu, a 
donzela que o tempo e os seus prprios erros tinham posto para sempre fora do seu 
alcance,

Num silncio de choque, o nico som era o crepitar do fogo. Durante um momento 
alguma emoo poderosa contorceu as feies do Arquidruida, depois dominou-a e 
virou-se de Eilan para Gaius.

- Por ti e por ela, pergunto-te pela tua honra que me digas se isto  verdade.

Verdade... Por um momento a palavra no teve qualquer significado. Dividido entre 
Roma e a Bretanha, ele nem sequer sabia quem ele prprio era. Como podia saber quem 
amava? Gaius endireitou-se vagarosamente, e enfrentou o lmpido olhar de Eilan. Os 
olhos dela pareciam estar a fazer-lhe uma per-

536

MARION ZIMMER BRADLEY

gunta. Ao v-lo, toda a tenso o abandonou num longo suspiro.

-    verdade - disse suavemente. - Sempre amei Eilan.

Eilan fechou os olhos uns instantes, entontecida por uma onda de alegria. Gaius tinha-a 
percebido, mas no tinha falado apenas para proteger Senara. Ela tinha visto uma 
expresso como aquela - uma tal expresso de maravilha - na sua face apenas uma vez, 
quando ele a teve nos braos naquele Beltane, h tanto tempo.

- Ento tens-nos estado sempre a trair? - sibilou Bendeigid, inclinando-se para o seu 
ouvido. - Mentiste-me quando me juraste que ele no te tinha tocado? Ou tudo comeou 
mais tarde, quando eras uma virgem do templo? Tem-te estado a ensinar mentiras 
romanas juntamente com a suas conversas de amor, e traio com as suas carcias? 
Dormiste com ele nos recintos sagrados ou no Bosque Sagrado?

Ela podia sentir a fria do pai, mas parecia que o estava a ver atravs duma parede de 
vidro romano. No fim tudo se tinha tornado to simples. Ela j estava a viver debaixo 
duma sentena de morte e tinha enfrentado os seus terrores. Agora que a altura tinha 
chegado no sentia medo nenhum.

- Dormi com o Rei Sagrado apenas uma vez - disse calmamente -, como era meu direito, 
nas fogueiras de Beltane...
- O que queres dizer? - exclamou Miellyn atrs dela. - Foi

Dieda quem teve de ser mandada embora... foi Dieda que teve uma criana!

- No foi! - O chocado eco de especulao cessou quando Dieda se chegou para o lado 
do Arquidruida. - Elas fizeram com que eu concordasse com o logro. Tomei o lugar dela 
enquanto ela partiu para ter o beb e, quando voltou, elas exilaram-me! Ela tem reinado 
na Casa da Floresta desde ento como se fosse casta como a Lua, mas foi tudo uma 
mentira!

- Mas eu servi sempre a Deusa, no os Romanos! - gritou Eilan, a sua compostura 
quebrando-se com a ameaa ao seu filho. Viu a fria a substituir as perguntas nos olhos 
de Bendeigid quando este se virou para ela. O povo chegou-se mais perto, tentando 
ouvir; vozes levantaram-se em interrogao ou em

A CASA DA FLORESTA

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condenao. Rumores de problemas entre os Romanos tinham-nos transformado em um 
material que qualquer fasca podia incendiar. Se ela lhes apelasse, iria pr em 
movimento exactamente a catstrofe pela qual tinha sofrido tanto para tentar evitar?

- Por que te deveria acreditar, cabra? - rosnou o pai dela. - Toda a tua vida tem sido uma 
mentira!

Ele levantou a mo para lhe bater. Uma volumosa forma explodiu atravs da linha dos 
druidas; Huw, com o seu cacete levantado para a defender uma ltima vez. Mas mais 
padres se estavam a interpor entre eles. Antes que Huw conseguisse atingir Bendeigid, 
lminas de bronze brilharam  luz das fogueiras, subiram um vermelho mais escuro e 
voltaram a descer. Mais uma vez os druidas golpearam, e outra vez, e Huw, ainda a 
tentar chegar ao p dela, caiu sem um grito.

Huw teria atacado mesmo o prprio Arquidruida se ele me tivesse ameaado ... , 
pensou estarrecida Eilan e, finalmente, tinha-o feito.

- Levem-no - Bendeigid estava a ofegar. - Ele era um louco. Virou-se abruptamente e 
agarrou Eilan por um brao. Se tivesses sido honesta, teria pedido que invocasses a 
Deusa para nos abenoar. Em vez disso, sers o Seu sacrifcio!

Por que  que isso me devia assustar? A minha vida tem sido uma longa oferenda, 
pensou Eilan quando o seu pai a arrastava atravs do crculo para ficar ao lado de Gaius. 
Houve um murmrio do povo quando o viram. Alguns dos que tinham ouvido as 
acusaes queriam o seu sangue imediatamente, outros pensavam ser sacrilgio por as 
mos na Gr Sacerdotisa, qualquer que fosse o crime.

- Eilan, podes perdoar-me? - disse Gaius em voz baixa.
- Nunca fui merecedor do teu amor. Querias que eu fosse o teu Rei Sagrado, mas sou 
apenas um homem comum...

Virou-se para olhar para ele e viu uma nobreza na sua machucada face  que nunca ali 
tinha estado. Queria poder agarr-lo nos braos mas os padres estavam a segur-la, e ela 
percebeu que ele no precisava; j no via a criana perdida que anteriormente tinha 
sempre espreitado nos seus olhos. Ele enfrentou o seu olhar sem vacilar, finalmente em 
paz consigo prprio.

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MARION ZIMMER BRADLEY

- Vejo um deus em ti - disse Eilan ferozmente. - Vejo um esprito que nunca morrer. 
Fizemos o que nos era exigido e, mesmo que no o tenhamos feito to bem como 
teramos gostado, o desgnio da Deusa foi cumprido na mesma. Seguramente que nos 
ser concedido passearmos juntos na Terra do Vero durante algum tempo, antes de 
voltarmos de novo.

- Chamaste-lhe um Rei Sagrado - disse Bendeigid com a voz rouca - e como tal ele 
morrer.

Vagarosamente ela viu a teimosa aceitao que tinha sustentado Gaius afundar para uma 
espcie de espanto. Ele continuou a olhar para ela quando eles colocaram o lao  volta 
do seu pescoo e comearam a apert-lo. Mas antes de a espada entrar entre as suas 
costelas, os seus olhos tinham perdido o foco, fixos para sempre em qualquer coisa para 
l do mundo.
O sangue ainda estava a sair do seu peito quando o levaram para a fogueira.

- Diz-me,    Sacerdotisa, que augrios ls neste sacrifcio?
- Eilan voltou o seu olhar das chamas para o pai, e algo na sua face f-lo dar um passo  
retaguarda, se bem que ela no se tivesse movido.

- Vejo sangue real que santifica o cho - disse numa voz tranquila. - Neste homem 
estava misturada a semente de Roma e da Bretanha, e tu vinculaste-o para sempre  
terra ao entreg-lo ao fogo sagrado.

Eilan inspirou fundo. O seu corao estava a bater de tal modo que ela mal conseguia 
ver, mas isso j no interessava. A ltima coisa que tinha desejado ver neste mundo foi 
a glria nos olhos de Gaius. Sentiu um rugido nos seus ouvidos. Sentiu a vaga do transe 
a tom-la se bem que no tivesse provado as ervas sagradas, e ouviu uma voz que no 
era a dela

a ressoar.

- Ouvi-me,  homens dos Cornovii e dos Ordovice,
e todos vs das tribos, pois esta  a ltima vez que uma sacerdotisa profetizar nesta 
colina sagrada. Escondam as vossas espadas,  guerreiros, e ponham de lado as vossas 
lanas, pois no ser seno depois de a nona gerao ter nascido e morrido que as guias 
romanas partiro. E depois de terem voado aqueles que levam o vosso sangue e o deles 
juntos sero deixados para defender esta terra!

A CASA DA FLORESTA

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- Ests a mentir! Tens de estar a mentir! - a voz de Bendeigid quebrou-se. - Traste os 
teus juramentos!

Eilan sentiu-se a cair de novo no seu corpo; a dor apunhalava-lhe a tmpora mas abanou 
a cabea.

- No o fiz, pois Gaius era o Rei do Ano. Tu prprio o fizeste, e assim o meu amor por 
ele no foi nenhum pecado! Bendeigid balanou, a sua face a contorcer-se com a agonia 
dum homem que v todas as suas certezas a desfazer-se.

- Se o que dizes  verdade - gritou - que a Deusa nos mostre um sinal antes de te 
entregarmos ao fogo!

Na altura mesmo em que ele falou pareceu a Eilan que um grande trovo ribombou 
atravs da sua cabea; espantada pelo seu peso, sentiu-se cair de joelhos. O pai estendeu 
as mos, mas ela estava a escorregar por um longo tnel para longe dele.
O bater do seu corao era um tambor a desvanecer-se; depois cessou subitamente, e ela 
estava livre.

Assim a Deusa acabou finalmente por me fulminar , pensou Eilan com uma estranha 
clareza. Mas foi a Sua clemncia, no a Sua fria!

Muito l em baixo podia ver gente inclinada sobre o seu corpo imvel. Este era o fim 
que a tinha esperado desde que tinha dormido nos braos de Gaius, mas tinha-o adiado 
o tempo suficiente para construir uma ponte entre o povo dele e o seu. Dois dos druidas 
estavam a manter o seu pai direito; ele ainda estava a gritar mas o povo estava a afastar-
se dele com faces assustadas, comeando a descer pela colina abaixo.

Viu os padres levantarem a carne que tinha abandonado e lev-la para a pira onde Gaius 
j estava a arder. Depois virou-se dessa luz menor para a radincia que se estava a abrir 
 sua frente, mais brilhante que o fogo, mais encantadora que a Lua.

EPLOGO

CAILLEAN FALA

Quando cheguei  Casa da Floresta na tarde seguinte, todas as fogueiras de Samaine 
tinham ardido e apenas restavam cinzas. Levou algum tempo at encontrar algum que 
me pudesse fazer um relato coerente do que se tinha passado. Miellyn no tinha sido 
vista; algumas pessoas pensavam que ela tinha morrido tentando proteger Eilan com o 
seu corpo. Eilidh tinha sido morta na luta que se seguiu ao sacrifcio. Dieda tambm 
estava morta; jazia no santurio e era evidente que tinha cado pela sua prpria mo.

De certeza que no se podia tirar qualquer sentido das palavras de Bendeigid e, excepto 
os druidas que tinham ficado para cuidar dele, o clero tinha-se espalhado. Assim, graas 
aos deuses, como o tinham feito os guerreiros que se tinham juntado para o festival. 
Mas percebi que o povo que tinha ficado estava desejoso de me obedecer, pois eu era a 
coisa mais prxima com uma Gr Sacerdotisa que agora tinham.

Movimentei-me pelo tumulto, dando ordens com uma calma que me espantava, pois 
no me atrevia a abrir caminho a uma dor que se podia mostrar incomensurvel. 
Contudo tinha de haver um sentido qualquer para tudo isto; uma vida - ou uma morte - 
no deve ser desperdiada.

No dia seguinte fui acordada pelas notcias de que um grupo de romanos tinha 
solicitado uma entrevista com a Gr Sacerdotisa. Sa e vi Macellius Severus com o 
secretrio atrs dele e outro homem, que eles disseram ser o pai da mulher

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MARION ZIMMER BRADLEY

romana de Gaius, com os seus cavalos parados sob um lacrimejante cu de Outono. 
Fiquei impressionada com o facto de ele ter vindo aqui sem um destacamento de 
soldados para o protegerem. Mas, tambm, no final o seu filho tinha sido corajoso.

Era duro enfrentar Macellius, sabendo a resposta  pergunta que ele no se atrevia a 
fazer-me, e compreendendo que nunca lhe podia dizer como o seu rapaz tinha morrido. 
Nesta altura j os mais espantosos rumores voavam pelo pas. Gaius tinha morrido 
como um Deus do Ano britnico, e se bem que alguns pensassem que ele era romano, as 
nicas pessoas que sabiam o seu nome tinham uma poderosa razo para guardarem 
silncio.

O desorganizados que os romanos pudessem estar, ainda tinham a fora para banhar o 
pas em sangue se encontrassem provas de que um oficial romano tinha sido sacrificado 
naquela colina. Mas, claro, no havia nenhum corpo, apenas uma pilha de cinzas 
misturadas com os ties das fogueiras de Samaine.

Quando se estavam a ir embora, Macellius virou-se para mim, e vi que a esperana 
ainda no estava totalmente morta nos seus olhos.

- Havia um rapaz a viver na Casa da Floresta - disse ele. - Chamavam-lhe Gawen. Creio 
que ele ... meu neto. Podeis dizer-me onde est ele agora?

Desta vez, pelo menos, podia responder honestamente que no sabia, pois Gawen no 
tinha sido visto desde a Vspera de Samaine, o dia em que a sua ama e Senara tambm 
tinham desaparecido.

No foi seno passados trs dias que Senara voltou a arrastar-se, a sua jovem face 
desfigurada pelas lgrimas, seguida por um esbelto rapaz que olhava  sua volta com 
olhos perturbados.

- Ela morreu por minha causa - Senara soluava quando lhe contou o que tinha 
acontecido a Eilan. - Ela condenou-se a si prpria para me salvar... e ao seu filho.

A minha garganta doa-me, mas forcei-me a falar calmamente.
- Ento o seu sacrifcio no deve ser perdido. Tomars os votos e servirs a Deusa em 
seu lugar, agora que ela se foi?

- Eu no posso, eu no posso - lamuriou-se Senara.
- Seria um pecado pois eu sou uma nazarena. O padre Petros est-se a mudar para Deva. 
Deixar-me- ficar no seu eremitrio e passarei o resto dos meus dias em orao!

A CASA DA FLORESTA

543

Pestanejei, pois subitamente pareceu-me que podia ver uma casa na floresta rodeada por 
muitas outras. Com o tempo, pensei, mais mulheres eremitas se juntaro  sua volta. E o 
que vi ento veio na realidade a passar-se, pois esta foi uma das primeiras das piedosas 
congregaes que agora servem o povo, tal como  a Casa da Floresta o fez na altura; 
mas isso seria muitos anos no futuro. Tinha-o Eilan previsto? De qualquer modo, a 
mulher mais jovem tinha representado o seu papel. Senara podia recusar tornar-se Gr 
Sacerdotisa de Vernemeton, mas, num certo sentido, ainda era a herdeira de Eilan.

- Levars Gawen para o seu av? - perguntou Senara.
- No posso mant-lo comigo depois de ter tomado os votos cristos.

Qual deles? Pensei retorcidamente, e nessa altura percebi que no tinha vontade de 
entregar o rapaz a qualquer um desses velhos, ambos ainda aprisionados pelo dio de 
um passado moribundo.

- Gawen... - Olhei para ele, e vi uma criatura, nem romana nem bret, nem rapaz nem 
homem, imobilizado na ombreira da possibilidade. No final Eilan tinha morrido para 
que este rapaz pudesse viver num novo mundo. - Vou voltar para o Pas do Vero, onde 
as brumas ondulam no vale a que chamam Avalon. Virs comigo?

- Isso  a Terra do Vero? - perguntou ele. - Dizem-me que a minha me foi para a.

- No verdadeiramente - os meus olhos encheram-se de lgrimas. - Mas perto disso, 
diriam alguns.

Ele olhou  sua volta e estremeceu, e eu pensei quo duro deve ser para ele, no 
sabendo ainda verdadeiramente o que tinha perdido. Quase to duro como era para mim, 
que percebia bem de mais.

Depois olhou para cima, para mim, e vi um esprito, que no  se assemelhava com 
nenhum dos avs, nem com os pais tambm, a transparecer-lhe nos olhos.

- Muito bem. Irei convosco para Avalon.

Aqui no corao do Pas de Vero penso por vezes por que   que, de todos os que 
tiveram um tal papel nesta histria,

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               MARION ZIMMER BRADLEY

apenas eu  que fui poupada. Sei que estou apenas a comear a ver o grande desgnio 
em tudo isto. Ser que o filho de Eilan, que representa duas grandes linhagens que 
entraram na criao do nosso povo, vir a ser o fundador duma linha da qual o nosso 
salvador nascer um dia?

No me foi dito. No tenho sequer o conselho do Merlin, se bem que Eilan tivesse dito 
uma vez que ele tinha falado com ela sobre o seu destino. Deve haver algum padro. 
Apenas sei que  do Drago e da guia, no do Corvo da vingana, que vir um salvador 
para a nossa terra, e talvez o Merlin encarne para ajudar o heri no seu dia...

Aqui no Pas de Vero, onde os anis de pedra protegem o poderoso Tor e a promessa 
de poder se mantm, eu espero o resultado da histria.

